SALA DO PROFESSOR

Marie Ange Bordas: ponte entre culturas

A artista visual Marie Ange Bordas cria imagens densas e de grande beleza. Uma visita ao seu site deixa o navegante encantado com suas fotografias e instalações. No entanto essas imagens guardam uma espécie de incômodo, algo que torna impossível uma “navegação por águas rasas”. Para além da beleza, descobrimos que seu trabalho nasce de processos longos e complexos que envolvem comunidades onde ela vive por um tempo. É justamente da interação com as pessoas que ela concebe sua arte.

Marie Ange acredita na criação visual como ferramenta de construção e reconstrução de identidades individuais e coletivas. Ela propõe o exercício criativo a grupos em situação de fragilidade – como no projeto Deslocamentos, em que trabalhou no campo de refugiados de Kakuma, no Quênia – e outros que vivenciam situações provisórias, situações de espera que podem durar toda uma vida.

Por dez anos ela esteve em trânsito em países diversos, frequentando várias línguas e culturas, tornando-se ela mesma um ser em constante ir-e-vir. Palavras como “lar”, “pertencimento”, “fronteira”, “memória”, “identidade” estão sempre presentes nos processos criativos vivenciados junto aos coletivos que conheceu.

Ao voltar para o Brasil em 2007, novos encontros: Marie Ange inicia um trabalho com comunidades nativas. Se antes estava ao lado de imigrantes, agora conhece lugares onde vivem potenciais emigrantes, como sertanejos e indígenas. O livro Manual da criança caiçara, lançamento de fevereiro de 2012 da Editora Peirópolis, é fruto de um desses novos encontros. Leia entrevista com a autora a seguir.


ENTREVISTA


Conte-nos como foi que nasceu o projeto do livro Manual da criança caiçara.

A idéia para o projeto nasceu do meu envolvimento anterior com comunidades tradicionais, combinado com uma conversa com associados do Ponto de Cultura Caiçara da Barra do Ribeira (SP), que sentiam falta de material didático nas escolas sobre a cultura caiçara. Considerei a demanda deles como um ponto de partida para pensarmos um livro para crianças que integrasse arte, literatura e informação de forma divertida e que também servisse para inserir os saberes tradicionais caiçaras nas escolas. Tendo isso claro, escrevemos um projeto de realização de um “laboratório criativo” com as crianças da Barra do Ribeira, agraciado com o Prêmio Interações Estéticas da Funarte/Minc, que promove parcerias entre artistas e Pontos de Cultura e viabilizou o trabalho.


A comunidade sempre tem um papel de protagonismo no seu trabalho. No caso do Manual da criança caiçara, como isso se deu?

No caso da Barra do Ribeira, minha proposta foi criar um espaço na comunidade onde as crianças fossem as protagonistas do resgate e valorização da cultura caiçara de forma lúdica e participativa. O livro deveria surgir do que fosse vivenciado numa dinâmica de “laboratório” – ou seja, da criação a partir de um espaço de convívio onde promovemos encontros intergeneracionais para troca de experiências, contação de histórias e transmissão de saberes locais. A partir desses encontros fui montando uma estrutura com as informações e experiências trazidas e coletadas pelas crianças. Também criamos juntos imagens (desenhos e fotos) para ilustrá-las. Da realização do laboratório até a finalização do livro, foram dois anos de labuta!


Além da escrita do texto, você cuidou também, como já mencionou, da criação das imagens. Como foi isso? As crianças participaram dessa produção também?

Sim. Criei as foto-ilustrações a partir das informações coletadas em diferentes situações. Às vezes tínhamos uma ideia para um assunto ou história, eu pensava numa situação e saíamos juntos para fotografar. Paralelamente ao trabalho com a comunidade, eu fotografava constantemente as paisagens, pessoas, lugares, texturas e atividades das crianças, criando um acervo imagético que serviu de base para muitas ilustrações. Definidos nossos assuntos, fazíamos sessões de desenho (ou as crianças traziam desenhos espontâneos) para ilustrá-los. De volta a São Paulo, com todo esse material em mãos, fui criando cada uma das foto-ilustrações.

Nesse processo de desenhar, foi fundamental a participação de Henrique Ripari, um jovem local com enorme talento que fez muitos dos desenhos que utilizamos, sobretudo dos animais e pessoas. Este é um aspecto de que gosto muito no trabalho: o de não só instigar a criatividade, mas também de descobrir, fomentar e/ou dar visibilidade a talentos latentes. Outro exemplo disso é o Lucas Gabriel, um menino meio prodígio que se diz “pescador-pesquisador” e entende tudo sobre peixes, com o qual criei o capítulo “Caderno do Lucas”.


A pluralidade de atividades e histórias presentes no Manual faz dele um guia para quem deseja conhecer a vida dessas crianças. Diante de tanta diversidade e beleza, como foi a escolha de cada uma para a composição da obra?

Acho que a riqueza do resultado se deve à abordagem da cultura caiçara a partir do cotidiano e da experiência de cada um, através da valorização das práticas, costumes e relações do dia-a-dia das próprias crianças. Não pretendemos impingir uma “tradição” imposta pelos mais velhos, exaltando apenas fatos, costumes e lendas passados, mas sim valorizar os saberes construídos no seu próprio cotidiano, tais como nomes de animais, plantas e lugares, a relação com o meio-ambiente, a identificação de comidas e de brincadeiras, incluindo um repertório de interesses próprio de uma juventude em contato com a cultura urbana.


Essa abordagem é muito interessante porque trata a cultura indígena, no caso a caiçara, como dinâmica. Uma cultura que inevitavelmente se encontra em diálogo – muitas vezes em atrito – com a cultura dominante no país. O que você observou sobre isso que poderia nos contar?

O conceito de “tradição” muitas vezes imposto no discurso dominante sobre as culturas tradicionais, populares ou indígenas remete a algo estanque, apegado ao passado. Toda cultura é dinâmica, está em movimento; preservar e dar continuidade a saberes e fazeres ancestrais nunca é um ato isolado, alienado do presente. Considero fundamental que protejamos e valorizemos as culturas tradicionais e seus movimentos de resistência, mas sem amordaçá-las a uma visão redutora e “purista”, que finalmente acaba é fortalecendo um mito de superioridade da tal “cultura dominante”.


Houve alguma dificuldade ou algum atrito a ser superado durante o tempo em que você esteve lá?

Os desafios que se apresentaram são aqueles inerentes a qualquer relação humana e trabalho colaborativo! Mas um ponto que deu “muito pano pra manga” foi tentar assimilar, no resultado final, as reivindicações da comunidade e seu ponto de vista sobre a questão da Estação Ecológica Jureia-Itatins (que expulsou os moradores da região). Vocês podem encontrar mais sobre o assunto neste link.


Antes de chegar aos caiçaras, você realizou diversos outros trabalhos em que a relação com determinado grupo social e o processo vivenciado junto a esse grupo são determinantes para o resultado final. Você poderia contar um pouco como lida com essas duas características do seu trabalho – relação e processo?

Na verdade, o que considero mais importante neste processo colaborativo é que o conteúdo, as informações de base (a “alma do assunto”) venham diretamente da comunidade. Ou seja, não sou eu, um agente de fora, que decide o que é “importante” naquela cultura e apresenta minha visão para o mundo. Como artista, funciono num primeiro momento mais como um “agente provocador”, que instiga as pessoas a enxergarem a riqueza de seu dia a dia, de maneira a irem costurando e dando novas formas aos elementos que o compõem. Num segundo momento, me beneficio da minha inserção social e profissional para servir de interlocutora entre mundos que, infelizmente, nem sempre dialogam.

Não considero ter exatamente “trabalhado” com essas pessoas, prefiro dizer que convivemos juntos com o objetivo comum de resgatar e dar visibilidade à sua cultura. Foram momentos normais de dia-a-dia, tomar café, almoçar, ir para a praia, passear com os meninos, um processo orgânico.


Por serem realizados sempre fora de casa e com grupos diversos que muitas vezes se encontram em situações difíceis, seus projetos demandam grande energia. Quais as suas expectativas em relação a eles?

Acredito na criação visual (fotografia/desenho) como uma ferramenta poderosa de construção/reconstrução de identidades individuais e comunitárias. No plano individual, ela provê uma janela para percepção de seu entorno e uma maneira de expressar-se criativamente. No plano coletivo, possibilita que comunidades tenham o controle de sua imagem e da representação de sua cultura. O ato de observar, treinar o olhar para realmente perceber seu entorno, para depois documentá-lo (literal ou abstratamente), abre um novo canal para a compreensão da sua realidade, um canal que pode promover novas interações sociais e conduzir ao fortalecimento de laços dentro da própria comunidade.


E no caso dos caiçaras em particular?

No caso dos caiçaras, ao abraçarem a “missão” de pesquisar e criar histórias e retratar em fotos e desenhos sua realidade, as crianças tornam-se catalisadoras de um processo de revitalização da cultura/identidade local de forma orgânica e natural, contribuindo também para a construção de uma memória coletiva contemporânea. Minha expectativa é dar visibilidade aos saberes e fazeres dessas crianças e jovens e inseri-los “pela porta da frente” no meio cultural (hegemônico) dominante, sem visões estereotipadas e/ou vitimistas. Também é fundamental para mim contribuir para empoderar essa comunidade em sua luta pelo reconhecimento de suas terras, mostrando para o restante da sociedade seu ponto de vista sobre questões que as afetam diretamente.

Enfim, com esse trabalho espero, sobretudo, contribuir para a valorização da cultura tradicional de forma respeitosa e através do ponto de vista de seus protagonistas. Através da fala das crianças caiçaras, outras crianças que desconhecem essa cultura podem interagir e mesmo se reconhecer de igual para igual, sem hierarquias ou estereótipos. Meu desejo maior é de que o livro seja adotado pelo maior número de escolas possível, sobretudo nas redes públicas do litoral do Sudeste, para que os alunos caiçaras de SP, RJ e PR se sintam representados dentro de suas escolas, onde muitas vezes são discriminados.


Para conhecer mais sobre o trabalho de Marie Ange Bordas, visite as seguintes entrevistas:

Entrevista realizada por Arrigo Barnabé para o programa Supertônica.
Entrevista concedida ao jornal do Sindicato dos Professores do Rio Grande do Sul.

E as seguintes páginas deste site:
Página do livro Manual da criança caiçara
Página da biografia de Marie Ange Bordas
Página sobre o lançamento em São Paulo
Página de divulgação na Sala de Imprensa


 

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