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Gabriela Romeu e sua etnografia poética da criança do sertão

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Sucessivas viagens pelos terreiros e quintais do Brasil, empreendidas sempre na companhia do fotógrafo Samuel Macedo pelo Projeto Infâncias, renderam a Gabriela Romeu farto material etnográfico sobre a infância brasileira, que vem sendo sistematizado em documentários, como Meninos e Reis, lançado recentemente, e em livros, como Terra de cabinhaum delicado relicário que oferece ao leitor a descoberta do rico território do brinquedo e da imaginação da criança que vive no sertão.

O livro é um inventário da vida dos cabinhas, como as crianças são chamadas no sertão verde do Cariri cearense, um verdadeiro oásis em meio ao semiárido do Nordeste brasileiro. Tem histórias e causos, receitas e adivinhas, tradições e costumes, brinquedos e brincadeiras. Como não poderia deixar de ser, o livro transborda do papel para outras mídias e formas de registro das vivências e experiências da jornalista.

Assim, além de ler as histórias em torno de encantados, como a Caboclinha, o leitor pode ouvir uma versão da história contada por um cabinha, bem como testemunhar a forma de brincar descrita no livro em minidocumentários ativados pelo QR Code impresso nas páginas, ou entrar no conteúdo complementar pelo site da Editora.

Você visitou quintais de todo o Brasil. Por que escolheu fazer um livro sobre a criança do Cariri?

Sim, como jornalista, eu sempre viajei o Brasil e retratei as realidades infantis e, nos últimos quatro anos, também como documentarista tenho circulado por muitos quintais do país pelo Infâncias (www.projetoinfancias.com.br), um projeto que registra o cotidiano, o imaginário e o brincar de meninos e meninas com o objetivo de trazer narrativas infantis. Por muitos lugares eu passei. Para muitos outros eu voltei. Mas o Cariri é uma região imantada e pra lá retornei quase uma dezena de vezes. Era preciso desvendar o universo particular dos cabinhas, que me encantou desde a primeira visita. Este livro tem um sabor especial, pois ele inaugura uma série livros sobre as infâncias, um inventário das infâncias brasileiras, a partir dessa terra de cabinhas e encantarias.

Em que medida o livro, que também traz áudios e vídeos, consegue passar adiante sua própria experiência com a criança do sertão?

Em Terra de cabinha, traço um retrato bem particular sobre a criança do Cariri cearense. Claro, tudo feito com o recorte do meu olhar. Assim como num conto de Histórias de Alexandre, de Graciliano Ramos, eu ando pelos quintais com um olho virado pra dentro e outro virado pra fora. (Bem rapidinho: tudo aconteceu quando Alexandre teve um entrevero com uma onça e perdeu um olho; procura que procura, ele encontrou o olho perdido, colocou-o de volta ao lugar, mas, para sua surpresa, acabou virado pra dentro e ali tudo espiava!). Então, o olho virado pra dentro espia minha própria infância, meu tempo de menina. O outro espia a infância outra, os meninos e meninas que encontro pelos quintais. E assim venho buscando criar um diálogo (ou uma troca olhares) entre infâncias, entre a minha criança interior e o interior de outra criança.

O que a criança do sertão tem a ensinar à criança brasileira, especialmente aquela que vive nas cidades?

Sempre que volto de viagens ao interior do Brasil, o Brasil profundo, fico pensando o que é perto e o que é longe, o que é centro e o que é margem. Às vezes, estamos tão perto de tudo – e tão distantes de nós mesmos. E também me sinto à margem de algo que perdemos no caminho do intenso processo de urbanização do país. Perdemos o senso comunitário das vilas e vilarejos, perdemos o tempo bem gasto para nada fazer, perdemos habilidades dos fazeres manuais, perdemos o contato mais próximo com o chão e o momento de ouvir o dia virar noite. Eu volto com saudades de algo que nunca vivi de fato – nunca além das expedições que eu, urbana, já empreendi.

Agora, pensando nas crianças do interior: elas têm muito o que trocar com as crianças urbanas. Certa vez, conheci um menino das beiradas do Amazonas que vive numa comunidade que fica submersa por alguns meses do ano e, ao me contar como era o período da cheia, ele me disse que tinha saudades de botar o pé na terra, saudades de tocar o chão durante seus meses de vida aquática. Essa sensação de viver tão intensamente os ciclos da natureza confere ao menino a sabedoria da espera. As crianças urbanas muitas vezes se desconectam dos ciclos naturais e processos do fazer, muitas vezes ligadas aos imediatismos que o consumo enganosamente sugere. As crianças do Brasil profundo – e mais especificamente do Cariri cearense – também nos ensinam que tudo vira brinquedo, que o ócio é matéria-prima do imaginar, que fruta boa é comida no pé, que as avós curam com saberes ancestrais e que a vida é, sim, cheia de mistérios e encantarias.

A quem se destina este livro? Qual é a sua função no contexto do seu trabalho de documentação etnográfica e literária da criança brasileira?

Este livro é um inventário, um relicário, um diário com as tradições, histórias, encantarias, brincadeiras e brinquedos das crianças de um sertão verde chamado Cariri. Gosto de dizer que o meu trabalho é inventariar a infância. Inventariar é reunir diversos aspectos de um universo; no caso, os universos infantis, as muitas infâncias. São questões sobre crescer e viver menino num dado território. Mas essa palavra “inventariar” traz nela também outra palavra “inventar”, pois, sem nem bem a gente querer, o olho contorna, reduz, recorta – e, sim, inventa. Ver é inventar, segundo a filósofa Viviane Mosé. Por isso chamo este trabalho de uma certa etnografia poética, que dá voz a um cabinha, meio inventado, meio real.

Há muito o que se conhecer e registrar as infâncias brasileiras, que são muitas e bem desconhecidas. Pouco conhecemos da vida das crianças além dos grandes centros urbanos. Isso é reflexo de uma condição histórica, pois, durante muito tempo, as crianças ficaram à margem e sem voz. Projetos que tragam seus saberes, fazeres e pensares são fundamentais para que a gente entenda a infância no plural.

Existem muitos trabalhos puramente de registro e etnográficos sobre a infância e há tantos outros trabalhos extremamente literários e poéticos sobre a criança, todos necessários para que a gente se aproxime do universo infantil. Terra de cabinha é híbrido: etnográfico e, pelo menos em sua intenção, poético. Percorre as linhas tênues da ficção e da não ficção ao trazer a voz de um cabinha fictício, os registros de uma pesquisadora e as narrativas dos contadores de histórias da região.

 


 

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