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Poemas de brinquedo, os desafios de uma publicação transmídia

 

 

 

 

 

Poemas de brinquedo e software livre Managana: desafios de uma publicação Transmídia

por Álvaro Andrade Garcia

Minha conexão com a rede de pesquisadores e artistas digitais brasileiros veio da participação em seminários e workshops onde eu pude fazer e pensar junto a professores de departamentos de artes digitais de várias universidades e outros colegas artistas. Nós fizemos um pouco de tudo, trocamos bibliotecas de software, experiências estéticas, scripts, revisões, protótipos e textos sobre essas experiências.

Eu sou poeta e tenho trabalhado desde a década de 1980 escrevendo e publicando poesia em vários meios. Além de escrever livros, publiquei poemas em rádio, TV e jornal; Em instalações públicas e projeções, na internet e em aplicativos para dispositivos móveis. A busca de novos espaços para a circulação poética sempre esteve presente na minha trajetória.

Dirijo o atelier Ciclope de arte digital e publicação (http://www.ciclope.art.br). Existe desde 1992. Nós navegaram quase todas as ondas digitais: fizemos videopoesia com computação gráfica, sistemas multimídia, publicamos cd roms, dvds, sites, aplicativos e um software livre de publicação digital chamado Managana, que usamos para publicar nosso próprio trabalho.

Neste texto, pretendo apresentar o último trabalho escrito com o nosso software livre Maganaga (http://www.managana.org), o aplicativo – livro – performance Poemas de Brinquedo. Uma publicação que serve como exemplo para abordar as possibilidades e dificuldades da poiesis transmídia nos dias atuais.

Em http://www.sitio.art.br/poemas-de-brinquedo/ encontramos a versão web do livro e referências para todas as outras versões. Através do aplicativo Managana encontrado na Google Play e na Apple Store, qualquer pessoa pode acessar o trabalho em celulares e tablets.

Poemas de Brinquedo foi lançado em junho de 2016. Este livro audiovisual e interativo está disponível gratuitamente no formato do aplicativo e também em papel. Ele apresenta toda a potencialidade artística das obras poéticas que ultrapassam o impresso e transbordam para outros meios, incluindo a performance e a instalação.

Combinando a palavra escrita com a palavra entonada, as imagens poéticas com as imagens cinematográficas, Poemas de brinquedo é uma obra que o poeta e artista Ricardo Aleixo inclui no que ele chama de poesia expandida.

Os poemas de brinquedo trazem palavras inventadas, palavras medonhas, tráva línguas, poemas com sotaque e textos com ortografia errada para consertar. Histórias engraçadas e ruidosas, sons para cantar e também provocar. Palavras com bordas e desenhos loucos, ainda sem significado, para batizar.

A palavra brincante é um ritual; Acontece como nos poemas budistas, koans ou como em Alice no País das Maravilhas: desfaz caminhos conhecidos, reconfigura a mente. Brincar nos dá esse tempo infinito em que tudo é e nunca termina … Brincar não possui regras, não tem duração, é pura especulação. É poesia muito próxima ao seu big bang.

A criação de Poemas de brinquedo envolveu muita tradução intersemiótica. Trabalhamos com imagens poéticas em mais de um veículo. Desde o início, superamos a dimensão do texto poético na página impressa. O projeto editorial começou com a criação de um aplicativo móvel. Poemas para tocar na tela, com os dedos, nos telefones celulares. Nesse universo de jogos, tiroteios e dragões, abrimos uma janela para a poesia.

Nós imaginamos a criança indo e vindo, passando rapidamente através desses poemas brincantes. Na tela inicial, tocando no título elas acessam todos os poemas do aplicativo. Fizemos tudo muito simples na navegação. No celular, o livro se torna uma aventura linguística multimídia. Os cegos podem ouvir as declamações, eu vi crianças, ainda analfabetas, brincando com as palavras animadas e os sons que vieram do celular.

Na versão móvel, o design sonoro de Ricardo Aleixo é fundamental. Recuperamos as brincadeiras com sons e palavras que existiam nas memórias das famílias. Nós damos um tratamento contemporâneo à entonação, o áudio é feito de tal forma que uma criança não apenas lê o poema, mas é instigada a enunciar, abrir a boca e brincar com os sons, inventar os outros. Há interações, a criança às vezes adiciona textos e sons aos poemas exibidos, ou revela desdobramentos inesperados tocando na tela.

Em seguida, vem outra camada criativa, o design gráfico: todo o texto que aparece na tela flui. Criamos animações que dialogam com o sentido semântico, a visualidade e o ritmo sonoro dos poemas. Nós privilegamos as palavras e sua tipografia, deixando para elas o principal impacto visual.

Poemas de Brinquedo tem a particularidade de ser um dos poucos livros onde a versão eletrônica foi concebida antes da impresso, e aí surgiu um grande desafio: como pensar em uma versão impressa tão interativa quanto a digital?

O trabalho ficou a cargo de Márcio Koprowsky, o mesmo designer gráfico do aplicativo. Renata Borges, a editora do livro impresso, também entrou no processo criativo, veio a ideia. Um livro sem encadernação, na forma de cartões, para rearranjos e agrupamentos, para vários usos, até mesmo para brincar. Também pensamos no livro como um guia para a declamação, algo que você mantém na mão ao falar. Um livro aberto com muitos caminhos.

Se já foi um trabalho árduo fazer o livro, que tal expandir a ideia para o corpo? Ricardo Aleixo perguntou. O escopo trans estava ficando muito amplo. Nós fizemos duas apresentações para adultos e crianças, com a declamação dos poemas junto com os participantes. Ficamos surpresos com o grau de envolvimento. Mais tarde, recebi relatórios de experiências de interação entre crianças, pais e educadores. O uso do livro em leituras performativas estimulou em todos a vontade de criar com palavras, usando a própria voz. O livro se tornou importante na interação entre as pessoas, de alguma forma superando o desafio que o aplicativo colocou para ele.

Os resultados desta publicação vieram de camadas de conhecimento da sua equipe de trabalho. Não há necessidade de enfatizar a importância da experiência dos criadores e suas habilidades de negociação para um resultado bem sucedido. Nossa equipe incluiu autor, editor, animador, designer gráfico, designer de som e programador, em uma rica troca de experiências e opiniões. Nós superamos os desafios de passar de um sistema semiótico para outro. Exploramos os poemas em sua interanimaverbivocovisualidade: suas possibilidades interativas, sonoras, visuais e lógicas em múltiplos ambientes. Criamos um trabalho que evolui em revisões e versões e também se desdobra e transforma através de diferentes mídias.

[texto para a ELO, conferência que reúne pesquisadores e artistas envolvidos com a escrita, publicação e leitura de literatura em meios eletrônicos. Acesse a página oficial do evento: https://conference.eliterature.org//]


 

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