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A vida é um game?

Seu texto foi premiado no Concurso João-de-Barro de Literatura para Crianças e Jovens da Prefeitura de Belo Horizonte. Como foi a experiência?

Foi uma sensação muito boa de que a história que eu contei encantou alguém. É como se uma criança estivesse lá, no seu mundinho, criando seus próprios jogos, e um adulto (um jurado) entrasse no quarto e o convidasse para uma viagem divertida em vez de levá-lo para a escola.  O Fernando Fontes, meu personagem, bem que ficou feliz. Ele é tímido, mas um menino que gosta muito de aventuras, sabe?

Além de escrever textos literários, você escreve para publicidade, cinema e teatro. Como lida com as especificidades de cada escrita?

Olha, hoje em dia escrever de várias formas é uma coisa bem mais orgânica para mim. Profissionalmente comecei cedo, aos 19 anos, e fui encarando os desafios de cada gênero. Podemos comparar com um chef que tem de se especializar em várias culinárias e precisa de muita labuta pra não fazer confusão com os ingredientes. Mas tem uma coisa: um belo dia, ele decide, por vontade própria, colocar um pedaço do pão italiano na sopa tailandesa, um toque de shoyo na abóbora brasileira, um curry no chucrute, e assim vai.  Os meus roteiros são meio literários, os meus livros são meio teatrais, as minhas peças de teatro são meio publicitárias.

Você ministra oficinas de escrita criativa. Pode nos explicar o que vem a ser a escrita criativa?

Quer ver uma boa definição do que é escrever criativamente? Não se acomodar. Ou seja, tratar a palavra como matéria-prima, como argila que deve ser misturada, testada, moldada para a construção de sentido. Se você vai na onda do que dizem que é certo, ou, pior ainda, do que dizem que é bacana, você se perde da essência. Ser criativo tem a ver, sim, com o chavão de “buscar o estilo próprio”, mas sempre mantendo uma noção de alteridade. Afinal, tem alguém ali – um leitor, um chefe, um namorado, um cliente, um seguidor –, que quer ser impactado pelo que você escreve. Se você realmente quer se expressar, não dá pra fugir da raia, né? Vamos nos esforçar e oferecer finos biscoitos em vez de salgadinho de isopor, minha gente!

Você acha que os jovens devem ser estimulados e escrever? Escrever antes de ler? Ler antes de escrever? Como esses estímulos podem render em bons leitores e bons escritores?

Dizem que essa é uma pergunta complexa. Até concordo. Mas acho que a resolução poderia ser simples. Bastaria que a leitura e a escrita não fossem apresentadas aos jovens como ferramentas, mas, sim, como habilidades. Habilidades que não são inatas, mas facilitam o caminho para o que é inato: criatividade, comunicação, vínculo, entendimento, necessidade de diversão, troca.

Sem a leitura e a escrita muitas das coisas que os jovens amam simplesmente não existiriam. As séries de tevê começam em roteiros; os games começam em projetos descritos e defendidos no papel ou em apresentações no telão; as marcas que eles curtem utilizam comerciais criados a partir de um texto. E mais: os personagens que eles tanto admiram se tornam conhecidos por meio de sites, blogs e posts. Tudo é escrito, tudo é lido e eles nem se dão conta. Claro que a literatura é outra história, na medida em que exige uma habilidade não tão explorada em nossa sociedade cartesiana ocidental: o contato com a subjetividade. (Pausa para ouvir pais e professores em pânico. “O quê? Eu tô tentando fazer ele ler a lição de casa e você vem com essa história de subjetividade? “) Bem, ninguém apresenta o novo namorado para a família sem uma preparação em etapas, ninguém programa uma mudança de casa sem conversar com o morador. Por melhor que o namorado e a nova casa sejam. Portanto, ao se apresentar a literatura, estratégias sutis são muito bem-vindas.

O personagem de seu livro é um menino, um menino narrador. Como foi a criação dessa voz narrativa?

Acho que foi um menino misterioso e descoladão que mora dentro de mim e queria reclamar, curtir a vida, crescer, não crescer, viajar, criar, amar. Acho que todo mundo tem dentro de si um menino que vem de um mundo diferente, bem mais divertido do que esse que temos.

A vida é um game. Qual o estágio em que você está nela? O que tem sido mais divertido e mais desafiador?

Isso sim é uma pergunta gamificada! Adorei! Ah, olha eu passei muitos desafios, viu? Tive de perder várias vidas, ganhar outras e encarar diversos monstros, tanto os que saíam pela minha boca e miolos como os que caíam em cima da minha cabeça. Minhas ferramentas foram várias: teclados, canetas, cadernos, lenços, panelas, velas, véus e … o colar da poderosa Ísis. Tive várias mãos amigas também, que quando os comandos não funcionavam, me ajudavam a passar de fase.  O que eu considero mais divertido hoje em dia é rir de mim mesma. Rir de verdade. O mais desafiador é nunca esquecer que um escudo de pessoas do bem existe e está sempre alerta no combate às sombras (e que eu preciso ser uma delas).

Acha que as crianças e jovens conseguem ter a mesma autonomia na vida real e no mundo digital? Como lidar com isso nas escolas e nas famílias?

Acho que o maior problema do mundo digital é a dissociação. E isso tem tudo a ver com a falta de autonomia. Se precisamos de um filtro para perceber o mundo e acreditamos nele como se fosse a verdade, temos um problema. Se nos viciamos em ações diárias mecanizadas, temos outro.  E não estamos falando só de crianças e jovens e, sim, de todos nós. Cansei de ver mães penduradas no celular reclamando que os filhos não largavam dos games. Ou professores que proíbem o uso de smartphones na aula, mas dão leituras sem qualquer orientação para ficar mandando mensagem no seu próprio celular. Isso é um contrassenso muito grande que só reforça a crise de valores que está nos rondando. O mundo digital tem de ser o carro e nós os motoristas. O mundo digital pode até ser um gigante, colorido, inteligente divertidíssimo e cheio de charme, mas quando ele começar a agir como um King Kong ensandecido, a gente vai lá e mostra quem é que manda.

Caricatura de Dong Ho


 

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