Conviver, brincar, aprender, ensinar
A obra “Muitos dedos: enredos” traz, logo no início, o seguinte anúncio:
“Esta é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com propostas educativas será mera coincidência.
Entretanto, caso o leitor encontre tal semelhança... Viva o encontro! Afinal, a vida é repleta de coincidências ficcionais.”
Então pão mão de mofão será cotão, para começo de conversa, e para a conversa começar, lançamos uma pergunta espezinhenta: “O que é educar?” O texto, a seguir, vai abordar alguns aspectos essenciais desta questão.
Antes, uma advertência divertida! Quando usamos a palavra “educadores”, estamos nos referindo aos adultos que convivem com as crianças: mães, pais, tios, avós, professoras, professores, bibliotecárias, bibliotecários, vizinhas, vizinhos... Do ponto de vista da criança, todos os adultos são educadores, ou seja, são referências de condutas, posturas, valores, habilidades... Muitas vezes, nós, adultos, não temos consciência dessa nossa ação educativa compulsória – e realizamos sólidas ações deseducativas involuntárias. Portanto, precisamos semear intenções educativas no nosso cotidiano com as crianças. Por exemplo: estar ao lado, simplesmente disponível, ao alcance das mãos e do coração; puxar da memória um fato qualquer e fazer disso uma história; puxar da prateleira um objeto qualquer e fazer disso um brinquedo...
1. O OLHAR DESCONCERTANTE
Antigamente – e nem tão “antigamente” assim - , a pergunta que mobilizava o educador era... “Como ensinar?” Então, nós, educadores, do alto da nossa onipotência, ficávamos inventando formas de melhor ensinar.
Atualmente, a pergunta que mobiliza o educador é... “Como a criança aprende?” Então, nós, educadores, em primeiríssimo lugar, queremos compreender o olhar da criança sobre a vida: sobre o outro e os outros, sobre si mesma, a natureza, a sociedade...
Quando nos perguntamos “como a criança aprende?”, tropeçamos na linguagem da criança: o Brincar. Para nós, adultos, Brincar é sinônimo de “lazer”, “passatempo”, “coisa de fim de semana”, “falta do que fazer”. Para a criança, entretanto, Brincar é uma questão de... Sobrevivência. Isso mesmo: sobrevivência. Porque Brincar é o instrumento que a criança utiliza para interpretar a vida e interferir no mundo. Para a criança, Brincar é a sua maneira de Pensar. Para a criança, Brincadeira e Pensamento formam uma unidade indissolúvel, inquebrantável.
A partir da pergunta “como a criança aprende?”, a pergunta “como ensinar?” ganha um sentido profundo...
Quando a criança brinca, no fundo, no fundo, o que ela está realizando? A criança brinca com uma pedrinha, um graveto, com as próprias mãos, as palavras, as canções, a escada de maracá, o jabolô... Brincando, a criança está, o tempo inteiro, e inteira no tempo, investigando, experimentando, explorando. Estes três temperos – explorar, experimentar, investigar - formam a base da Construção do Conhecimento.
O Brincar, portanto, está no eixo da nossa proposta pedagógica, na raiz filosófica da nossa educação.
Partindo destas reflexões, podemos evitar as simplificações que apontam o Brincar na educação como sinônimo de “intervalo”, “ornamento”, “relaxamento”, “descontração”. Por causa deste reducionismo, nós, educadores, ficamos ansiosos atrás de novos brinquedos e novas brincadeiras – como se as técnicas e os materiais fossem os elementos mais importantes do Brincar.
Para a criança, qualquer situação, ambiente ou objeto, se transformam em objeto, ambiente e situação de brincadeira. Para a criança, Brincar é uma postura diante da vida, é um olhar para o cotidiano, um olhar desconcertante. Para nós, educadores, o importante é captar este olhar, esta postura. Incorporando este olhar desconcertante, a aventura de aprender novas brincadeiras e construir novos brinquedos ganha um sentido profundo.
Por falar em novidades... O repertório dos brinquedos milenares e planetários é uma fonte sempre contemporânea de aventuras mirabolantes e abracadabrantes. Quem já teceu um cordão no rabo-de-gato? Quem já ouviu a língua do ferrê? Quem já soprou a pena? Quem já lançou as argolas?
Aqui, então, surge a famosa pergunta: “Por que não encontramos estes brinquedos por aí?” E surgem as famosas respostas: “a gente esquece”, “falta de tempo”, “falta de espaço”, “o consumo”, “o atrativo da alta tecnologia”, “ a correria da vida”...
Estas respostas são meias verdades. Por falar nisso, vamos lembrar o poeta espanhol Antonio Machado:
“Disseste meia verdade?
Dirão que mentes duas vezes
quando disseres a outra metade.”
Na verdade verdadeira, estes brinquedos não estão mais “por aí”, porque nós, adultos – pais, tios, avós, professores -, não vemos valor nesta cultura. Muitos dos brinquedos que mobilizaram a infância dos nossos avós, eles não ensinaram para os nossos pais. Muitos dos brinquedos que mobilizaram a infância dos nossos pais, eles não ensinaram para nós. Muitos dos brinquedos que mobilizaram a nossa infância, nós não ensinamos para os nossos filhos. Não ensinaram e não ensinamos, porque não vemos valor nesta cultura. É como se pensássemos assim: “Na nossa época, não tínhamos recursos, e o jeito era brincar com essas bobagens. As crianças de hoje vão até zombar daquelas brincadeiras de antigamente. São brincadeira tão atrasadas que devem até fazer mal para as crianças de hoje.”
As crianças de hoje não estão brincando com estes brinquedos, porque, simplesmente, não conhecem. Na perspectiva da criança, não há contradição entre as modernas tecnologias e os brinquedos milenares – as crianças terão prazer em dividir o seu tempo entre os videogames e os corrupios. Precisamos, portanto, re-significar esta cultura lúdica.
E por falar em corrupio... Você se lembra daquele botão que gira num fio de linha, gira pra lá e pra cá, sem parar? Diante desta maravilha, costumamos tropeçar neste pensamento: “Para uma criança de 5 anos, até que dá para distrair um pouquinho.” E aqui tropeçamos em outra meia verdade. Costumamos associar estes brinquedos às crianças pequenas – e apenas às crianças pequenas. Experimente mostrar o corrupio para uma criança de 10 ou 15 anos. Você vai se admirar com a admiração destas crianças.
A reflexão sobre o Brincar, portanto, ultrapassa o espaço da escola: atinge o nosso convívio familiar, mergulha nas nossas memórias afetivas, se espalha nas nossas relações sociais.
Para alinhavar este capítulo, vem aí a...
Parábola da Sede
Sete educadores se perderam em uma região seca, de terreno arenoso, de vegetações rasteiras e retorcidas.
Perdidos, caminharam. Caminharam perdidamente.
Finalmente, felizmente, os sete educadores encontraram um fio d’água, um córrego, um riacho.
Entretanto, habituados à torneira, os sete educadores se contentaram em avaliar o enorme desperdício de água.
E os sete educadores morreram de sede para sempre.
Nós, educadores – pais, tio, avós, professores -, precisamos beber desta água que corre, água-infância, que está ao alcance do nosso coração, das nossas mãos e da nossa inteligência.
2. O CORAÇÃO DA BRINCADEIRA
Estava coordenando um Festival de Jabolôs e Argolas na escola. Ali, no meio do pátio, observei um menino pelejando com o jabolô – o diálogo jabolístico estava seriamente engasgado. Já ia oferecer a minha ajuda, quando surgiu uma menina girando o girabolante e anunciando aos quatro ventos:
- Segura as varetas empinadas e vai dando um tranquinho!
O menino que pelejava com o jabolô saiu jabolando e me deixou ali, sozinho, desamparado, perguntando para o senado dos meus botões – como diria Machado de Assis:
- Afinal, o que é a brincadeira?
A brincadeira não se resume ao brinquedo, ao objeto. Aliás, muitas brincadeiras exigem apenas o corpo. No caso do jabolô, trata-se de uma brincadeira que exige um brinquedo, um suporte material: duas tacinhas unidas pelos pés e duas varetas unidas por um cordão.
A brincadeira poderia ser, então, “tudo aquilo que a gente pode fazer com o corpo ou o brinquedo”. No caso do jabolô, a brincadeira se resumiria neste leque de possibilidades: lançar e acolher no cordão; lançar para o outro pegar... A brincadeira seria, portanto, a seqüência dos movimentos ou o conjunto de desafios.
Será?
Observando bem e pensando melhor, tudo isso ainda é muito pouco. Nem “brinquedo” e nem “tudo aquilo que podemos fazer com o corpo ou o brinquedo” parecem tocar no coração do brincar.
- Afinal, o que é a brincadeira?
Pensando bem e observando melhor, o coração da brincadeira está guardado no caso relatado no início deste capítulo...
A brincadeira é o relacionamento que ela desencadeia, é a investigação que ela provoca, é a interação que ela desenrola – relacionamento entre a pessoa e o próprio corpo, a pessoa e o ambiente, a pessoa e os outros. Este é o coração da brincadeira: relacionar, relacionar-se, interpretar, interpretar-se, ler, reler-se.
A brincadeira, portanto, não é o brinquedo, o objeto, e também não é a técnica, o conjunto de procedimentos e habilidades. E aqui vamos tropeçar numa conclusão incômoda e sedutora: a brincadeira possibilita, sempre!, uma experiência original, reveladora, única – mesmo que as crianças estejam repetindo a brincadeira pela milésima vez. A brincadeira é a plena realização da imprevisibilidade. Algo assim como, por exemplo, a própria vida.
Esta conclusão vem realçar, ainda mais, o papel do educador como um “adulto que brinca” e, brincando, promove interações, investigações, aproxima leituras, observa e ensina.
Atenção. Cuidado! Crianças brincando.
Localizar o coração da brincadeira é uma exigência da nossa pedagogia, da nossa filosofia. Uma pessoa, entretanto, não é feita só de coração. O coração é o espaço onde todos os fios se encontram e se encantam e se reúnem para festejar, mas o corpo traz muitos outros órgãos e membros e membranas e ossos e cartilagens...
Portanto, pesquisar, experimentar e recriar os brinquedos – os suportes materiais - devem ser tarefas cotidianas para os educadores. Pesquisar, experimentar e recriar as técnicas das brincadeiras – os conjuntos de procedimentos e habilidades – devem ser tarefas cotidianas para os educadores. Tarefas semelhantes a... Respirar.
Sugestão de leitura: “Oficinas de sonho e realidade na formação do educador da infância”. Organização: Marieta Lúcia Machado Nicolau e Marina Célia Moraes Dias. Campinas: Papirus Editora, 2003. O capítulo “Brinquedos e brincadeiras: o fio da infância na trama do conhecimento” é de autoria de Cyrce Andrade e Francisco Marques. |