sumário Chico dos Bonecos

Os quatro barbantes

A literatura é a arte da palavra. Na literatura, encontramos o romance, o poema, o conto, a crônica, o teatro...

O poema, entretanto, costuma fugir do roteiro. Para começo de conversa, e para a conversa começar, vamos saborear estas duas palavras: poema, poesia. Como separar? Como definir?

Na obra “Desvendério – Quem conta um conto omite um ponto e aumenta três”, no capítulo “Palavramiga”, o menino Hélder inventou estes versos:

“O poema é a fruta.
A poesia, o sabor.
O poema está no livro.
A poesia, no leitor.”

O ato de Escrever o poema está sempre associado ao ato de Reescrever o poema – e ainda desescrever, retornar ao primeiro escrito, misturar com outros escritos, tornar a desescrever.

Assim, tartarugamente, jajabutisticamente, podemos levar anos para desenhar um verso – podemos levar décadas para construir um poema. Curiosamente, o processo de Escrever-Reescrever sempre aponta numa direção: cortar, desbastar, limpar, enxugar.

O leitor, curiosíssimo, do lado de lá do papel, refaz, pelo avesso, o trabalho do poeta: molha; joga terra; deixa crescer ramagens; encharca; abre janelas; faz chover; encosta escadas; cria pontes; arrasta canoas...

Para provocar este jogo entre o Poeta e o Leitor, o poema tece quatro barbantes: Som, Imagem, Idéia e Silêncio. (Faz lembrar aquele brinquedo milenar e planetário: o Rabo-de-Gato – que está no álbum de fotografias do “Muitos dedos: enredos”.) A arte, entretanto, está no “ponto”, na “laçada”, de forma que os barbantes se desfaçam de suas “barbantidades” e se assumam como tecelagem.

Mesmo assim - em estado de tecelagem -, sentimos na pele quando o poema traz um barbante mais chamativo. Por exemplo...

Quando o “Som” é o barbante espevitado:

“Toda catira
do tipo catiripapo
quando tira
é cantoria
quando cata
é bate-papo.”
(“Catiripapo”, página 38)

“Maritaca xexelenta
prova um milho imaginário:
espaventa a xexelência
debulhando o dicionário.”
(“A biblioteca dos bichos”, página 52)

Quando a “Imagem” é o barbante espevitado:

“A nuvem vira-lata
               vira-casaca.

A nuvem viravolta
              vira-e-mexe.

A nuvem vira saúva
                    brejaúva.

De tanto vira-vira,
a nuvem vira chuva.”
(“Vira-vira”, página 30)

“Os cabelos são pedras
Os pés são fendas
A estrada está solta
A fuga tem formas
A lamparina tem chamas
A noite contorna.”
(“Fuga”, página 65)

Quando a “Idéia” é o barbante espevitado:

“Esses viveres: olhar.
Esses olhares: tecer.
Esses teceres: contar.
Esses contares: viver.”
(“Viver”, página 67)

“Nós, abaixo assanhados
sonhando acordados
não assinamos embaixo:
acenamos ao redor
mil-outra-vez-presentes.”
(“Mil”, página 68)

Quando o “Silêncio” é o barbante espevitado:

“- Zzzzzzzz
- Ssssssss”
(“O Dorminhoco e a Dorminhoca”, página 22)

“o novo tem nomes
de ponta a ponta

tanto quanto nomes
o novo
tem pontas

tanto quanto pontas
o novo
tem”
(“Pontas”, página 70)

Podemos bisbilhotar, aqui e ali, o espevitamento deste ou daquele barbante. Muitas vezes, temos enorme prazer nesta bisbilhotice... A tecelagem da poesia, entretanto, guarda um só segredo: misturar, tramar, enredar.

Já manuseada pelo Poeta – o seu primeiro Leitor -, a Poesia segue para o manuseio de outros de outros Leitores/Poetas e seus festivais de leituras: focalizar, vocalizar, memorizar, cantarolar.

“Minha queda
é um risco de luz
na noite tão noite.
Melhor do que isso:
minha queda é um risco.
Arrisco no escuro
                          um salto
                          um pulo
numa queda quente
tão quente
que pode ser um susto
escondido num presente.”
(“A Lua Quarto Crescente e a Estrela Cadente”, página 16)