sumário Chico dos Bonecos

Malabarismos verbais

Narrar é um ato inventivo – seja para contar o acontecido ou apalavrar o imaginado. Toda a sua invenção reside no detalhe: evidenciar uma palavra, iluminar uma pausa, desdobrar um gesto, incorporar a participação dos ouvintes, buscar um tom de voz, encaixar um comentário, introduzir uma personagem, arquear as sobrancelhas...

Desenrolar o enredo e enredar as palavras são as duas páginas da mesma folha. O ouvinte não se envolve apenas com o rumo dos acontecimentos, mas também com o rumor das palavras.

Muitas vezes, num ambiente familiar, relembramos um caso e pedimos para que uma “certa pessoa” conte a história. Esta “certa pessoa” é escolhida porque já demonstrou, em outras ocasiões, a sua capacidade inventiva no ato narrativo. E todos revisitam o velho caso e todos reencontram a sempre nova alegria, a sempre renovada surpresa...

Experimente, por exemplo, narrar para os amigos o conto...

Folhas Secas

Eu estava dando uma aula de matemática e todos os alunos acompanhavam atentamente. Todos? Quase. Carolina equilibrava o apontador na régua. Lucas recolhia as borrachas dos vizinhos e construía um prédio. Renata conferia as canetas e os lápis do seu estojo vermelhíssimo. E Hélder olhava para o pátio. O pátio? O que acontecia no pátio?

Depois do recreio, Dona Natália varria calmamente as folhas secas e amontoava e guardava tudo dentro de um enorme saco plástico azul. Terminado o varre-varre, Dona Natália amarrou a boca do saco gigante e estacionou aquele murundum de folhas secas perto do portão.

Hélder observava atentamente. E eu observando a observação de Hélder – e sem descuidar da minha aula de matemática. De repente, de rompante, nesse instante de puf-puf, Hélder foi arregalando os olhos e franzindo a testa. Qual o motivo do espanto?

Hélder percebeu, no meio das folhas, alguma coisa se movimentando desesperadamente, com aflição, sufoco, falta de ar. Hélder buscava interpretações para a cena, analisava diversas possibilidades, mas o contorno do passarinho já se delineava na transparência azul do plástico. Isso! Um filhote de pássaro caiu do ninho e foi confundido com as folhas secas e foi varrido e agora luta pela liberdade.

“Ele tá preso!” O grito de Hélder interrompeu o final da multiplicação de 15 por 127. Todos os alunos olharam para o pátio. E todos nós concordamos, sem palavras: o bico do passarinho tentava romper aquela estranha pele azul.

Hélder saiu da sala e nós fomos atrás. E, antes que eu pudesse pronunciar a primeira sílaba da palavra “calma”, o saco plástico simplesmente explodiu, as folhas secas voaram e as crianças pularam de alegria.

Alguns alunos dizem que havia dois passarinhos presos. Outros alunos viram três passarinhos voando felizes e agradecidos. Lucas afirma que era um beija-flor. Renata insiste que era uma cigarra. Eu, sinceramente, só vi folhas secas voando.

E, para concluir esta inesquecível aula de matemática, pegamos vassouras, pás e sacos plásticos, e fomos varrer o pátio.

(Este conto está no capítulo “Catiripapo (Peça radiofônica)”, da obra “Muitos dedos: enredos”.)

Para enfrentar este desafio, vamos aos preparativos...

Em primeiro lugar, reler o conto, criar familiaridades com as personagens, inventar intimidades com o encadeamento dos fatos, com a articulação dos acontecimentos. Memorizar o enredo ajuda a memorizar as frases, as palavras, o tecido literário. Você pode alterar o texto original de acordo com as familiaridades criadas e as intimidades inventadas: encurtar aqui e ali, inverter, encaixar um detalhe... Procure , ao máximo, memorizar o seu texto – mesmo se você quiser deixar espaços para os improvisos e imprevistos.

Em segundo lugar, escolher as palavras que receberão entonações especiais. Quais os critérios para a seleção destas palavras-chaves? Aquela palavra que evidencia uma idéia importante; aquela que ajuda a criar um suspense; aquela que traz um toque de humor; aquela que combina melhor com o momento da minha respiração; aquela que esconde um trocadilho; aquela que traz um toque poético...Usando estes mesmos critérios, você vai escolher os lugares para encaixar as pausas – para que os ouvintes tenham tempo, e calma, para fazer funcionar os seus apetrechos de ouvirimagens.

Em terceiro lugar, mergulhar na experiência da narração. No diálogo com os ouvintes, a narrativa ganha o seu desenho mais expressivo, mais comunicativo.

(Aqui, no “Sáiti Gudáiti”, no espaço “Histórias Gudórias de Gurrunfórias de Maracutórias Xiringabutórias (Leituras silenciosas com barulhos de brinquedos)” você poderá ouvir os contos “O nome da Fruta”, “O Bicho Porongo” e “O Balaio”.)

As nossas relações cotidianas transbordam de oralidades: da notícia ao provérbio, da adivinha à canção, da piada ao verso, da metáfora à parábola.

“Água mole em pedra dura
tanto bate até que fura.”

Este famoso provérbio traz uma mensagem: persistência, coragem, obstinação. Entretanto, a sua fama não vem da simples decodificação desta mensagem – ela nasce do movimento das águas que se expressa no ritmo dos versos, nasce do rigor da pedra que se expressa na solidez da rima. A fama deste provérbio nasce, portanto, de um conjunto de recursos literários.

O trocadilho, por exemplo, desperta a atenção, desconcerta o ouvinte:

- Vamos relembrar o que ficou combinado da vez passada marimbondo cozido.

Como é que é? Vamos com calma... A expressão “vez passada” pode ser entendida como “vespa assada” – e daí para “marimbondo cozido” basta um vôo bem humorado.

Nas perguntas de adivinhação, costumamos encontrar imagens, comparações, metáforas. Por exemplo:

“Três bois numa carreta
cavando terra branca
pra plantar semente preta.”

O que é o que é? Vamos com calma... Os “três bois” são os dedos polegar, indicador e médio. A “carreta” é a mão. A “cavadeira” é o lápis. A “terra branca” é a página. A “semente preta” é a letra ou a palavra. Que maravilha!

(Aqui, no “Sáiti Gudáiti”, você encontrará as... “Adivinhas que brincam com as palavras”.)

E as línguas secretas? A mais conhecida é, sem sombra de dúvida, a Língua do Pê.

“Vopôcepê épé muipuitopô bopônipitapá.”

O que aconteceu? Dividimos a palavra em sílabas e casamos a consoante “p” com a vogal daquela sílaba. Tradução: “Você é muito bonita.” Complicado? Uma criança de cinco anos já aprende a falar nesta língua secretíssima...

Certa vez, uma professora contou a seguinte história:

- A minha mãe costumava conversar com a minha tia na língua do pê – para tratar de assuntos que não julgava conveniente aos ouvidos de uma criança. E qual não foi o desespero da minha mãe quando descobriu que eu já estava entendendo tudo! E sem ninguém explicar. Fui montando um verdadeiro quebra-cabeça sonoro. Fui descobrindo que no meio daquele “bopônipitapá” estava escondida a palavra “bonita”. Fui descobrindo o jeito de fazer buraquinhos nas palavras para semear aquele festival de “pês”.

( E por falar em língua secreta... Aqui, no “Sáiti Gudáiti”, você encontrará uma “Chuva de Travalínguas” e uma ventania de “Travalínguas Inventados”.)

Observe esta variação da secretíssima língua:

“Pevôpecê peé pemuipetô pebôpenipetá.”

Isso mesmo: encaixamos a sílaba “pe” antes de cada sílaba.

Na sua opinião, qual a Língua do Pê mais simples: aquela ou esta?

Nós, adultos, costumamos achar mais simples esta última forma – porque basta repetir a sílaba “pe” antes de cada sílaba da palavra original. No nosso pensamento analítico, em linha reta, tudo é mais simples quando conseguimos estabelecer uma regra mais simples.

As crianças, entretanto, costumam preferir aquela forma – apáquepélapá forpormapá. No pensamento da criança, pensamento integrador, tudo é mais simples quando ela consegue se relacionar de maneira corporal e rítmica. Do ponto de vista musical, aquela Língua do Pê é mais saborosa – ao provocar rimas internas, torna as palavras mais desafiantes e engraçadas.

Por estas e outras, precisamos, sempre, a cada momento, partir da criança, perseguir o olhar da criança – esta é a condição para a busca de novos conhecimentos, novos horizontes.