{"id":11247,"date":"2016-08-16T14:21:12","date_gmt":"2016-08-16T17:21:12","guid":{"rendered":"https:\/\/www.editorapeiropolis.com.br\/?p=11247"},"modified":"2020-02-21T14:21:19","modified_gmt":"2020-02-21T17:21:19","slug":"impressoes-pintor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.editorapeiropolis.com.br\/antigo\/impressoes-pintor\/","title":{"rendered":"O pintor debaixo do lava-loi\u00e7as, por Prof. Dr. Joel Cardoso"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_10789\" style=\"width: 460px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/www.editorapeiropolis.com.br\/wp-content\/uploads\/2012\/04\/O_PINTOR_DEBAIXO_DO_LAVA-LOI\u00c7AS_banner.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-10789\" class=\"size-large wp-image-10789\" src=\"http:\/\/www.editorapeiropolis.com.br\/wp-content\/uploads\/2012\/04\/O_PINTOR_DEBAIXO_DO_LAVA-LOI\u00c7AS_banner-1024x302.jpg\" alt=\"O mais recente lan\u00e7amento do artista multimeios portugu\u00eas Afonso Cruz!\" width=\"450\" height=\"133\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-10789\" class=\"wp-caption-text\">O mais recente lan\u00e7amento do artista multimeios portugu\u00eas Afonso Cruz!<\/p><\/div>\n<p><em><strong>Joel Cardoso<\/strong> \u00e9 professor e pesquisador da Universidade Federal do Par\u00e1 na \u00e1rea de Letras, Comunica\u00e7\u00e3o e Artes. Acima de tudo, \u00e9 um excelente leitor, que sempre renova nosso olhar sobre as obras que publicamos.<\/em><\/p>\n<p>&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Literatura \u00e9 arte. Arte especial\u00edssima da palavra. Da palavra na sua dimens\u00e3o art\u00edstica. Fora, portanto, do convencionalismo com que a tomamos no cotidiano. A linguagem liter\u00e1ria s\u00f3 se reveste desse <em>status<\/em> de literalidade quando eivada de poeticidade. Poeticidade que, num misto de ousadia e generosidade, sem (a la Bilac) evidenciar os andaimes da constru\u00e7\u00e3o do edif\u00edcio, como quem modestamente n\u00e3o quer, acaba por nos surpreender a cada passo. Assim como a harmonia \u00e9 a alma da m\u00fasica, a poeticidade \u00e9 a alma do texto liter\u00e1rio. Sem poesia n\u00e3o h\u00e1 narrativa que se sustente. Precisamos dela no texto que se quer liter\u00e1rio. Assim \u00e9 o livro de <a href=\"http:\/\/www.editorapeiropolis.com.br\/biografia\/?autor=348&amp;nome=Afonso+Cruz\">Afonso Cruz<\/a>, <a href=\"http:\/\/www.editorapeiropolis.com.br\/livro\/?id=373&amp;tit=Pintor+debaixo+do+lava-loi\u00e7as%2C+O\"><em>O pintor debaixo do lava-loi\u00e7as<\/em><\/a>, autor portugu\u00eas contempor\u00e2neo que eu tive o privil\u00e9gio de \u2018descobrir\u2019 agora.<\/p>\n<p>Quando estava a ler o texto, ministrava uma disciplina para o curso de Letras de L\u00edngua Inglesa, no interior de nosso estado (em Bragan\u00e7a do Par\u00e1). A disciplina, Filosofia da Linguagem. O pr\u00f3prio t\u00edtulo da disciplina j\u00e1 nos remete a duas amplas dimens\u00f5es: a da Filosofia e a da Linguagem. Amalgamadas, uma nutre a outra. N\u00e3o h\u00e1 como conceituar Filosofia sem restringi-la, sem limit\u00e1-la, sem aprisiona-la. No \u00e2mbito da linguagem, somos senhores e concomitantemente escravos da l\u00edngua. Expressamo-nos atrav\u00e9s de diversas linguagens, entre elas, a liter\u00e1ria.<\/p>\n<p>Preocupa\u00e7\u00e3o permanente, presente em todas as eras da hist\u00f3ria humana, as quest\u00f5es inerentes \u00e0 Filosofia da Linguagem remontam \u00e0 Antiguidade Cl\u00e1ssica. Imposs\u00edvel n\u00e3o pensar em Plat\u00e3o, Arist\u00f3teles e, num grande percurso, permeado por saltos inevit\u00e1veis, chegamos \u00e0 Modernidade (Pedro Abelardo, Schopenhauer, Nietzsche, Wittgenstein, Ferdinand Saussure, Umberto Eco, Peirce, Foucault e tantos outros) dos mesmos problemas. O tr\u00e2nsito (ou seria prioritariamente a correspond\u00eancia?) entre a palavra que se materializa ou se configura (sim\u00e9trica e ao mesmo tempo assim\u00e9trica) na linguagem, ao designar objetos e coisas, homens e a sua realidade, a interpreta\u00e7\u00e3o dos fatos e do mundo.<\/p>\n<p>O livro de Afonso Cruz foi, para mim, como j\u00e1 afirmei, uma grata surpresa. Muitos poderiam ser os aspectos para tratar desta obra. No entanto, preferi, dada a conjuntura das minhas atividades acad\u00eamicas no momento, tratar das possibilidades de reflex\u00e3o a partir de passagens na narrativa que possibilitassem desdobramentos conceituais. Assim, na sala de aula, mesmo correndo o risco de descontextualizar o todo, fiz recortes que me possibilitassem reflex\u00f5es. Ah! A linguagem&#8230; suas imprecis\u00f5es, suas nuances, seu ritmo, suas combina\u00e7\u00f5es, suas inflex\u00f5es, sua musicalidade&#8230; Por outro lado, a linguagem vista como encena\u00e7\u00e3o, como performance, como indu\u00e7\u00e3o e ponto de partida. A chegada? N\u00e3o importa!&#8230; Importa o trajeto, o percurso, os obst\u00e1culos, as intromiss\u00f5es, as paradas, as hesita\u00e7\u00f5es&#8230;<\/p>\n<p>DA PAISAGEM<\/p>\n<p><em>\u201cTemos uma paisagem muito grande que n\u00e3o se v\u00ea, a menos que nos debrucemos para dentro e mostremos aquilo de que nos lembramos. Nada \u00e9 t\u00e3o forte como as coisas que n\u00e3o se veem&#8230;\u201d (p. 12)<\/em><\/p>\n<p>Dizia Clarice Lispector, num dos seus <em>insights<\/em> felizes, dirigindo-se \u201cA POSS\u00cdVEIS LEITORES\u201d: &#8220;Este livro \u00e9 como um livro qualquer. Mas eu ficaria contente se fosse lido apenas por pessoas de alma j\u00e1 formada. Aquelas que sabem que a aproxima\u00e7\u00e3o, do que quer que seja, se faz gradualmente e penosamente &#8211; atravessando inclusive o oposto daquilo que se vai aproximar. Aquelas pessoas que, s\u00f3 elas, entender\u00e3o bem devagar que este livro nada tira de ningu\u00e9m&#8221; (LISPECTOR, 1998, p. 7).<\/p>\n<p>As nossas lembran\u00e7as nos definem, nos constituem, nos alicer\u00e7am. A exterioriza\u00e7\u00e3o dessas lembran\u00e7as passa por um processo de reconfigura\u00e7\u00e3o do contexto que rememoramos. Entre \u201caquilo de que nos lembramos\u201d e o que exteriorizamos vai uma grande dist\u00e2ncia. Entre o interior (repleto de imagens, de narrativas, de paisagens) e o exterior que, atrav\u00e9s do discurso, nos \u00e9 apresentado, h\u00e1 necessariamente o processo intuitivo de cria\u00e7\u00e3o e representa\u00e7\u00e3o do primeiro, isto \u00e9, do nosso mundo interior. As coisas n\u00e3o vistas certamente n\u00e3o s\u00e3o menos reais que as que vemos&#8230;<\/p>\n<p>DA NUDEZ \u2013 ENTRE A ESS\u00caNCIA E A APAR\u00caNCIA&#8230;<\/p>\n<p><em>\u201cH\u00e1 um certo pudor quando se v\u00ea o que est\u00e1 debaixo das roupas, e, quando vemos ainda mais fundo, sentimos a vertigem do enjoo, do nojo. Desmaiamos quando vemos sangue. N\u00e3o h\u00e1 vis\u00e3o mais terr\u00edvel que a do interior do homem, seja anatomicamente, seja moralmente\u201d. (p. 19)<\/em><\/p>\n<p>O nosso Nelson Rodrigues, querido, irreverente, provocador, afirma que \u201cse n\u00f3s pud\u00e9ssemos ver o interior das pessoas, talvez n\u00f3s nem nos cumpriment\u00e1ssemos\u201d. Quase nunca se harmoniza o mundo da ess\u00eancia com o da apar\u00eancia. O que somos interiormente, por for\u00e7a da conjuntura social, se exterioriza sempre de forma distorcida. Desde Freud sabemos da for\u00e7a dos impulsos sexuais. A sexualidade se materializa para al\u00e9m do pr\u00f3prio sexo. Por sermos distintos, cada qual v\u00ea o mundo com particularmente os olhos da sua sexualidade. Alimentamos as nossas fraquezas, os nossos medos, as nossas fantasias. O que pensamos \u00e9, via de regra, mist\u00e9rio para o outro. Temos necessidade de aceita\u00e7\u00e3o e, assim, especularmente, os olhos dos outros sempre (e inevitavelmente) nos redimensionam.<\/p>\n<p>Lembrei-me tamb\u00e9m do poema MAL SECRETO, de Raimundo Correia, que trabalhamos em sala de aula:<\/p>\n<p><em>Se a c\u00f3lera que espuma, a dor que mora<\/em><\/p>\n<p><em>N\u2019alma e destr\u00f3i cada ilus\u00e3o que nasce,<\/em><\/p>\n<p><em>Tudo o que punge, tudo o que devora<\/em><\/p>\n<p><em>O cora\u00e7\u00e3o no rosto se estampasse,<\/em><\/p>\n<p><em>Se se pudesse o esp\u00edrito que chora<\/em><\/p>\n<p><em>Ver atrav\u00e9s da m\u00e1scara da face,<\/em><\/p>\n<p><em>Quanta gente, talvez, que inveja agora<\/em><\/p>\n<p><em>Nos causa, ent\u00e3o piedade nos causasse&#8230;<\/em><\/p>\n<p>\u2018Quem v\u00ea cara n\u00e3o v\u00ea cora\u00e7\u00e3o\u2019&#8230; ou, \u2018as apar\u00eancias enganam\u2019&#8230; s\u00e3o ditos da sabedoria popular&#8230; Na forma presa do soneto, cujos quartetos iniciais foram acima transcritos, evidencia-se o conflito entre o interior e o exterior.<\/p>\n<p>DOS RITOS DO AMOR&#8230;<\/p>\n<p><em>\u201cO amor aproxima as pessoas e ficamos todos do mesmo tamanho\u201d. (p. 23)<\/em><\/p>\n<p>\u00c9 de Camilo Castelo Branco a afirma\u00e7\u00e3o \u201co homem que ama \u00e9 um tolo sublime\u201d. Quando amamos, ficamos \u00e0 merc\u00ea dos sentimentos. A raz\u00e3o, ao se acomodar, fica confortavelmente (e, \u00e0s vezes, nem tanto) em segundo plano. Paradoxal, o amor, como sobejamente sabemos, nos faz \u201cdesejar o desejo do outro\u201d (Lacan). O ideal \u00e9 que consigamos o equil\u00edbrio entre emo\u00e7\u00e3o e raz\u00e3o, sem preju\u00edzo de nenhum dos lados&#8230;<\/p>\n<p>A VIDA DESENHADA&#8230;<\/p>\n<p><em>\u201c&#8230; os pensamentos dele eram desenhos. Era a sua maneira de estar na vida, a sua maneira de crescer\u201d. (p. 23)<\/em><\/p>\n<p>Pensamos, quase sempre, por imagens. Mesmo os substantivos abstratos, t\u00e3o mal definidos na contemporaneidade, criam, intuitivamente, imagens que atribu\u00edmos a eles. Palavras como Responsabilidade, Respeito, M\u00e1goa, Compet\u00eancia, s\u00f3 para citar alguns exemplos, como seriam definidas por dois sujeitos? Ambos aventariam possibilidades distintas. Qual \u00e9, na realidade, a dist\u00e2ncia entre a palavra e a imagem? O que vem primeiro, a palavra ou a imagem, como prop\u00f4s Roland Barthes? S\u00e3o processos simult\u00e2neos? Se alternam? Como definir atrav\u00e9s do discurso uma imagem? Como driblar a precariedade das palavras para nomear, definir, mostrar?<\/p>\n<p>DA PAIX\u00c3O&#8230;<\/p>\n<p><em>\u201cA paix\u00e3o \u00e9 o sentimento que cont\u00e9m tudo, por isso, quando um homem se apaixona, dentro dele, est\u00e1 tudo. Desde a coisa mais pequena \u00e0 coisa maior, que muitas vezes s\u00e3o a mesma coisa\u201d. (p. 34)<\/em><\/p>\n<p>Fal\u00e1vamos, ainda h\u00e1 pouco, de amor&#8230; Agora \u00e9 a paix\u00e3o que ganha a cena. Se o amor \u00e9 do \u00e2mbito da espiritualidade, a paix\u00e3o nos remete ao corpo, aos instintos, \u00e0 carnalidade, aos sentidos. A paix\u00e3o nos abarca e nos tira do s\u00e9rio. Abdicamos, quando apaixonados, da raz\u00e3o. A paix\u00e3o, se n\u00e3o cont\u00e9m tudo, nos anestesia de tudo o mais. Estar apaixonado significa converter o mundo e a realidade \u00e0s dimens\u00f5es do nosso querer. O apaixonado v\u00ea s\u00f3 o que quer.<\/p>\n<p><em>\u201cAdorar (Ad oris) significa, literalmente, levar \u00e0 boca\u201d. (p. 37)<\/em><\/p>\n<p><em>\u201c&#8230; em hebraico, a palavra beiujo (nashak) significa respeirar juntos&#8230;\u201d (p. 41)<\/em><\/p>\n<p><em>\u201cOs melhores beijos s\u00e3o invis\u00edveis, s\u00e3o como um pintor debaixo do lava-loi\u00e7as\u201d. (p. 66)<\/em><\/p>\n<p>DA MORTE&#8230;<\/p>\n<p><em>\u201cA morte, pensava Sors, n\u00e3o leva s\u00f3 a pessoa, leva tamb\u00e9m as imagens que os outros guardam dela nas suas mem\u00f3rias. A morte n\u00e3o deixa tra\u00e7os.\u201d (p. 59)<\/em><\/p>\n<p>Sors \u00e9 a personagem que protagoniza a narrativa. Uma personagem que se constr\u00f3i \u00e0 sua maneira&#8230; transita \u00e0 margem dos convencionalismos que caracterizam as personagens do romance tradicional. Centra-se em poucos aspectos delineadores e, de uma forma geral, n\u00e3o apresenta contornos n\u00edtidos e claros&#8230;<\/p>\n<p>\u201c\u00c9s p\u00f3 e ao p\u00f3 tornaras\u201d, sentencia o livro sagrado. Somos seres transit\u00f3rios. Caminhamos, desde o primeiro dia de nossas vidas, rumo ao inexor\u00e1vel. S\u00f3 \u00e9 certo, no final da jornada terrena o encontro (inevit\u00e1vel) com a \u201cindesejada das gentes\u201d (Bandeira). Triste constatar que a nossa perman\u00eancia, como imagem, como lembran\u00e7as, n\u00e3o resiste ao tempo. Em outros termos, morremos e vamos, para o mundo, para os demais, aos poucos, deixando de existir tamb\u00e9m como imagem, como recorda\u00e7\u00e3o, como refer\u00eancia.<\/p>\n<p>DA PRECARIEDADE DAS PALAVRAS&#8230;<\/p>\n<p><em>\u201cTodas as frases s\u00e3o abismos e as mais desinteressantes s\u00e3o as que escondem as suas profundidades de um modo mais tenaz\u201d. (p. 63)<\/em><\/p>\n<p>DA ESPERA&#8230; DA CONTINUIDADE&#8230; DO LEITOR COMPULSIVO<\/p>\n<p><em>\u201cA \u00faltima p\u00e1gina de um livro \u00e9 a primeira do pr\u00f3ximo&#8230;\u201d (p. 38)<\/em><\/p>\n<p>DA GUERRA&#8230;<\/p>\n<p><em>\u201cPara ganhar uma guerra \u2013 disse Sors \u2013 h\u00e1 duas condi\u00e7\u00f5es: n\u00e3o morrer e n\u00e3o matar. \u00c9 s\u00f3 nesse caso que se pode sair vitorioso de uma guerra\u201d. (p. 74)<\/em><\/p>\n<p>POR UMA NOVA VIS\u00c3O DA ARTE&#8230;<\/p>\n<p><em>\u201c \u2013 O esp\u00edrito n\u00e3o existe, Sors. S\u00f3 existe terra \u2013 dizia Vavra mostrando o seu punho fechado. \u2013 Terra e sangue e suor e vi\u00favas e cerveja. A arte n\u00e3o s\u00e3o coisas penduradas na parede, \u00e9 raiva e unhas sujas. Essa intelectualidade que nossos colegas apregoam \u00e9 o oposto da arte. O ch\u00e3o e o lixo, quando acordam e olham para si, \u00e9 que s\u00e3o arte. As coisas lavadas e brancas s\u00e3o o oposto. A arte \u00e9 o maior crime da humanidade, pois vai contra todas as leis e contra tudo que \u00e9 estabelecido e seguro. \u00c9 o maior crime que a sociedade pode imaginar, pois \u00e9 atrav\u00e9s dela que tudo se destr\u00f3i. Esse que falam em criatividade n\u00e3o sabem o que \u00e9 criar. Destr\u00f3i, esmaga, e sob os teus p\u00e9s nascem ervas. N\u00e3o \u00e9 preciso construir, \u00e9 preciso destruir. Arrasamos todas as ideias feitas, todas as institui\u00e7\u00f5es, todos os monumentos, e dos escombros naturalmente nascer\u00e3o coisas. E o artista estar\u00e1 l\u00e1 para as destruir, para que nas\u00e7am outras. Somos Kali, amigo Sors, somo um deus terr\u00edvel. Ser formos menos do que isso, n\u00e3o somos nada. Ou somos o terror a pairar sobre o abismo, ou somos os homens de gravata a contar o dinheiro. Tens de escolher um lado, Sors, tens de escolher um lado\u201d. (pp. 84-5)<\/em><\/p>\n<p>DA CONEX\u00c3O ENTRE FUTURO E PRESENTE<\/p>\n<p><em>\u201cO futuro n\u00e3o existe, como todos sabemos. O futuro ser\u00e1 sempre uma coisa a provar. A \u00fanica coisa que todos n\u00f3s vemos \u00e9 o presente. O futuro, bem como o passado, n\u00e3o passam de mem\u00f3rias e previs\u00f5es. Coisas que n\u00e3o t\u00eam exist\u00eancia sen\u00e3o dentro de n\u00f3s. Por\u00e9m at\u00e9 os maiores c\u00e9ticos creem no futuro. Como se ele existisse realmente, como se existisse fora de n\u00f3s. \u00c9 uma cren\u00e7a coletiva, apesar de apenas vermos o presente. Mas intu\u00edmos, o que abre o espectro da nossa percep\u00e7\u00e3o. Se podemos crer em algo que nunca vimos, ser\u00e1 que n\u00e3o podemos acreditar em v\u00e1rias outras coisas que nunca vimos?\u201d (p. 110)<\/em><\/p>\n<p>PORTUGAL<\/p>\n<p><em>\u201c&#8230; a portugalidade define-se assim: o nosso sucesso \u00e9 uma ponte entre dois fracassos. Para ver a quantidade de pessimismo que existe em cada portugu\u00eas: uma ponte entre dois fracassos. N\u00f3s somos um povo fatalista, caro senhor, fatalista: para n\u00f3s, o destino est\u00e1 escrito. Ah, se ao menos soub\u00e9ssemos ler!\u201d (p. 119)<\/em><\/p>\n<p>DA IMPRECIS\u00c3O DA LINGUAGEM&#8230;<\/p>\n<p><em>\u201cO mundo que vemos \u00e9 um consenso \u2013 disse Sors \u2013 A maioria \u00e9 que diz como \u00e9 o mundo. Se a maioria olhar para uma mesa e disser que \u00e9 uma mesa, a minoria que acha que \u00e9 outra coisa \u00e9 internada. O processo \u00e9 simples, basta ver, no mundo \u00e0 nossa volta, coisas que outros n\u00e3o veem. Na verdade existe uma luz que nos entra pelos olhos e outra que nos sai dos olhos. Quando se encontram, criam o mundo que vemos. Antigamente acreditava-se que os olhos emitiam luz. O que est\u00e1 de acordo com o modo como vemos as coisas: por vezes o mundo ilumina-se.<\/em><\/p>\n<p><em>Quando se olha para uma mesa, podemos ver, por exemplo, que ela \u00e9 boa. Mas a parte \u201cboa\u201d n\u00e3o se v\u00ea realmente. S\u00e3o os nossos olhos que colocam essa parte na mesa, s\u00e3o os olhos acesos. O mobili\u00e1rio \u00e9 desprovido de adjetivos morais e de opini\u00f5es. Mas de dentro de n\u00f3s emanam todas essas coisas, que a mesma mesa pode ser boa para uma pessoa e m\u00e1 para outra. Mas a parte \u201cmesa\u201d \u00e9 igual, apesar de o resto poder se oposto. Ou seja, uma mesa pode conter as maiores contradi\u00e7\u00f5es sem deixar de ser a mesma mesa que ambas as pessoas veem. Por outro lado, se dissermos que a mesa \u00e9 alta, acrescentamos ainda mais alguma coisa. E ainda poder\u00edamos dizer que \u00e9 elegante. \u00c9 frouxa, e alegre. Sim, porque uma mesa pode ser alegre ou triste. Imagine-se que sabemos de que madeira ela \u00e9 feita e onde nascem essas \u00e1rvores. Assim, quando se olha para a mesa, evoca-se a amada, ou uma \u00e1rvore, ou uma floresta. Tudo cosas que n\u00e3o se veem quando se olha para uma mesa. Apesar de as vermos claramente. Toda a gente, quando olha para ela, sabe qual \u00e9 a sua fun\u00e7\u00e3o, mas essa fun\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 vis\u00edvel. Enfim, \u00e9 infind\u00e1vel o que cabe numa mesa. O que vemos \u00e9 uma pe\u00e7a de mobili\u00e1rio, \u00e9 certo, mas pode conter coisas muito maiores do que ela pr\u00f3pria. Isso \u00e9 dado pelos nossos olhos. Pelos outros sentidos tamb\u00e9m, mas como s\u00edmbolo os olhos ganham protagonismo. Ora, ficou provado que conseguimos p\u00f4r em cima desta mesa uma infinidade de atributos, mas tamb\u00e9m \u00e9 razo\u00e1vel pensar que o sujeito anterior, o tal que achou a mesa \u201cm\u00e1\u201d, poder\u00e1 fazer o mesmo. E se conseguimos associar tanta coisa a uma mesa, imagine-se o que conseguiremos se pusermos todos os habitantes da Figueira da Foz a olhar para ela. E mais do que isso, imaginemos Portugal inteiro a olhar para ela. Ou o mundo inteiro. Come\u00e7ou por ser uma simples mesa, e n\u00e3o deixa de ser mesa para quase todos. Mas \u00e9 muito mais do que isso. Fica demonstrado que as coisas que vemos e que s\u00e3o comuns a todos, as coisas que s\u00e3o iluminadas pela luz exterior, s\u00e3o muito menores do que as coisas que vemos com a luz dos nossos olhos. De resto \u00e9 da mistura das duas luzes que o mundo \u00e9 feito. Uma mesa n\u00e3o \u00e9, para ningu\u00e9m, somente uma mesa\u201d. (pp. 150 a 152)<\/em><\/p>\n<p>\u201cO que \u00e9 a vida real\u201d, se perguntava Clarice Lispector em \u201cUm sopro de vida\u201d. \u201cN\u00e3o, a vida real s\u00f3 \u00e9 atingida pelo que h\u00e1 de sonho na vida real\u201d.<\/p>\n<p>Lembrei-me, tamb\u00e9m, aqui, da cr\u00f4nica de Drummond. transcrita, a seguir.<\/p>\n<p><em>A Eterna Imprecis\u00e3o de Linguagem<\/em><\/p>\n<p><em>&#8211; Que p\u00e3o!<\/em><\/p>\n<p><em>&#8211; Doce? de mel? de a\u00e7\u00facar? de l\u00f3? de l\u00f3 de mico? de trigo? de milho? de mistura? de rapa? de saruga? de soborralho? do c\u00e9u? dos anjos? brasileiro? franc\u00eas? italiano? alem\u00e3o? do chile? de forma? de bugio? de porco? de galinha? de p\u00e1ssaros? de minuto? \u00e1zimo? bento? branco? dormindo? duro? sabido? saloio? seco? segundo? nosso de cada dia? ganho com o suor do rosto? que o diabo amassou?<\/em><\/p>\n<p><em>&#8211; Uma uva!<\/em><\/p>\n<p><em>&#8211; Branca? preta? tinta? moscatel? isabel? ma\u00e7\u00e3? japonesa? ursina? mijona gorda? brava? bastarda? rara? de galo? de c\u00e3o? de c\u00e3o menor? do monte? da serra? do mato? de mato grosso? de facho? de gentio? de jo\u00e3o pais? do nascimento? do inverno? do inferno? de praia? de rei? de ob\u00f3? da promiss\u00e3o roxa? verde da f\u00e1bula de La Fontaine? espim? do diabo?<\/em><\/p>\n<p><em>&#8211; \u00d4 diabo!<\/em><\/p>\n<p><em>&#8211; L\u00facifer? belzebu? Azazel? Exu? marinho? alma? azul? coxo? canhoto? bei\u00e7uco? rabudo? careca? tinhoso? p\u00e9-de-pato? p\u00e9-de-cabra? capa verde? rom\u00e3ozinho? bute? cafute? pedro botelho? temba? ti\u00e7\u00e3o? mafarrico? dub\u00e1? louro? a quatro?<\/em><\/p>\n<p><em>&#8211; \u00c9 uma flor.<\/em><\/p>\n<p><em>&#8211; Da noite? de um dia? do ar? da paix\u00e3o? do besouro? da quaresma? das almas? de abril? de maio? do imperador? da imperatriz? de cera? de coral? de enxofre? de l\u00e3? de lis? de pau? de natal? de s\u00e3o miguel? de s\u00e3o benedito? da santa cruz? de sapo? do cardeal? do general? de noiva? de vi\u00fava? da cachoeira? de baile? de vaca? de chagas? de sangue? de jesus? do esp\u00edrito santo? dos formigueiros? dos amores? dos macaquinhos? dos rapazinhos? de pelicano? de papagaio? de mel? de merenda? de onze horas? de trombeta? de mariposa? de veludo? do norte? do para\u00edso? de ret\u00f3rica? neutra? macha? estrelada? radiada? santa? que n\u00e3o se cheira?<\/em><\/p>\n<p><em>&#8211; \u00c9 uma bomba.<\/em><\/p>\n<p><em>&#8211; De suc\u00e7\u00e3o? de roda? de parede? premente? aspirante-premente? de inc\u00eandio? real? transvaliana? vulc\u00e2nica? at\u00f4mica? de hidrog\u00eanio? de chocolate? suja? de vestibular de medicina? de anarquista? de s\u00e3o jo\u00e3o e s\u00e3o pedro? de fabrica\u00e7\u00e3o caseira? de aumento do pre\u00e7o do d\u00f3lar? enfeitada? de zoncho? de efeito psicol\u00f3gico?<\/em><\/p>\n<p><em>&#8211; \u00c9 um amor.<\/em><\/p>\n<p><em>&#8211; Perfeito? perfeito da china? perfeito do mato? perfeito azul? perfeito bravo? pr\u00f3prio? materno? Filial? incestuoso? livre? plat\u00f4nico? socr\u00e1tico? de vaqueiro? de carnaval? de cigano? de perdi\u00e7\u00e3o? de hortel\u00e3o? de negro? de deus? do pr\u00f3ximo? sem olho? \u00e0 patria? bruxo? que n\u00e3o ousa dizer seu nome?<\/em><\/p>\n<p><em>&#8211; V\u00e1 em paz.<\/em><\/p>\n<p><em>&#8211; Armada? otaviana? romana? podre? dos p\u00e2ntanos? de vars\u00f3via? de requiescat? e terra?<\/em><\/p>\n<p><em>&#8211; V\u00e1 com Deus.<\/em><\/p>\n<p>(IN)CONCLUINDO<\/p>\n<p>Vivemos, atualmente, um momento de criatividade tacanha. Poucos livros nos tomam de vez. Tudo se torna, em literatura, bem como nas artes de uma forma geral, um \u2018d\u00e9j\u00e0 vu\u2019 tedioso. Se tudo pode se tornar arte, os resultados, contudo, s\u00e3o \u2013 quase sempre &#8211; precariamente art\u00edsticos. Da\u00ed, talvez, a import\u00e2ncia primeira desse livro. Criativo. Original. Forte.<\/p>\n<p>A linguagem, a maneira de narrar, os recursos de subvers\u00e3o ao convencional d\u00e3o ao livro um qu\u00ea especial. A leitor (mas tem que ser um leitor experiente) se v\u00ea, de imediato, preso pelo inusitado da narrativa, da linguagem, da riqueza metaf\u00f3rico-po\u00e9tica do texto. Funciona, para o autor, a recomenda\u00e7\u00e3o de Foucault: \u201cao inv\u00e9s de tomar a palavra, gostaria de ser envolvido por ela e levado bem al\u00e9m de todo come\u00e7o poss\u00edvel\u201d. \u00c9 bem assim&#8230; somos levados para al\u00e9m do proposto. Somos \u2013 primeiro, estranha e, depois, deliciosamente &#8211; surpreendidos.<\/p>\n<p>A obra de Afonso Cruz parece ter levado ao p\u00e9 da letra a cita\u00e7\u00e3o de Piglia, que preconiza que \u201ca arte de narrar \u00e9 a arte da percep\u00e7\u00e3o errada e da distor\u00e7\u00e3o. O relato avan\u00e7a segundo um plano f\u00e9rreo e incompreens\u00edvel, e perto do final surge no horizonte a vis\u00e3o de uma realidade desconhecida: o final faz ver um sentido secreto que estava cifrado e como que ausente na sucess\u00e3o dos fatos.\u201d (PIGLIA, 2004, p. 103). A narrativa de Afonso Cruz nos leva, de in\u00edcio, a um estado de estranhamento, como se, na perspectiva de leitores, estiv\u00e9ssemos inseridos em um n\u00e3o-tempo, para depois, aos poucos, nos cativar pelos arranjos e solu\u00e7\u00f5es encontrados para a elabora\u00e7\u00e3o cuidadosa da trama, uma trama n\u00e3o usual, com digress\u00f5es e (im)pertin\u00eancias que nos v\u00e3o sendo apresentadas como se fora um instigante quebra-cabe\u00e7a a ser decifrado. No final, temos o ep\u00edlogo, no qual as explica\u00e7\u00f5es nos conectam novamente \u00e0 vida real, com a sua plausibilidade l\u00f3gica, que decifram, ou melhor, elucidam poss\u00edveis meandros obscuros da narrativa.<\/p>\n<p>ual?<\/p>\n<p>(*) todas as cita\u00e7\u00f5es arroladas apenas com a men\u00e7\u00e3o das p\u00e1ginas, sem qualquer outra indica\u00e7\u00e3o, foram retiradas do livro \u201cO pintor debaixo do lava-loi\u00e7as&#8221;.<\/p>\n<p>REFER\u00caNCIAS:<\/p>\n<p>LISPECTOR, Clarice. &#8220;A paix\u00e3o segundo G.H.&#8221;. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.<\/p>\n<p>PIGLIA, Ricardo. \u201cTeses sobre o conto\u201d e \u201cNovas teses sobre o conto\u201d. In:___ Formas breves. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2000, pp. 85-114.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Joel Cardoso \u00e9 professor e pesquisador da Universidade Federal do Par\u00e1 na \u00e1rea de Letras, Comunica\u00e7\u00e3o e Artes. 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