{"id":11894,"date":"2017-09-21T22:20:22","date_gmt":"2017-09-22T01:20:22","guid":{"rendered":"https:\/\/www.editorapeiropolis.com.br\/?p=11894"},"modified":"2020-03-23T18:33:40","modified_gmt":"2020-03-23T21:33:40","slug":"prefacio-ao-livro-refugiados-urbanos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.editorapeiropolis.com.br\/antigo\/prefacio-ao-livro-refugiados-urbanos\/","title":{"rendered":"Refugiados urbanos &#8211; pref\u00e1cio"},"content":{"rendered":"<p><strong>Pref\u00e1cio ao livro <a href=\"http:\/\/www.editorapeiropolis.com.br\/livro\/?id=385&amp;tit=Refugiados+urbanos+%3F+Rematriamento+de+crian%E7as+e+adolescentes+em++situa%E7%E3o+de+rua\"><em>Refugiados urbanos<\/em><\/a><\/strong><\/p>\n<p><strong>por Rubens Adorno, <\/strong>professor Associado III, Departamento de Sa\u00fade Ambiental da Faculdade de Sa\u00fade P\u00fablica da USP.<\/p>\n<p>A rua, como espa\u00e7o de sociabilidade, sobreviv\u00eancia e trabalho, faz parte das pr\u00e1ticas e do ide\u00e1rio das sociedades ocidentais h\u00e1 larga data, sendo antiga e tradicional em nossa sociedade e na hist\u00f3ria da Europa mediterr\u00e2nea a presen\u00e7a de crian\u00e7as, jovens, fam\u00edlias e grupos que tomam a rua com essas finalidades.<\/p>\n<p>A rua foi e vem sendo espa\u00e7o de sobreviv\u00eancia de grupos que acabam sendo exclu\u00eddos ou se excluem dos espa\u00e7os sociais da \u201cordem\u201d. \u00c9 tamb\u00e9m o lugar dos que saem das institui\u00e7\u00f5es, porque mant\u00e9m uma rela\u00e7\u00e3o amb\u00edgua com a visibilidade social. O circuito de crian\u00e7as e jovens na zona central de S\u00e3o Paulo \u00e9 o mais vis\u00edvel. Al\u00e9m de ficar na \u00e1rea mais complexa da circula\u00e7\u00e3o da cidade, esses atores ganharam visibilidade p\u00fablica.<\/p>\n<p>A express\u00e3o \u201cmeninos de rua\u201d passou a se consagrar e popularizar nas \u00faltimas d\u00e9cadas e mostra, por um lado, a participa\u00e7\u00e3o de um conjunto de atores da sociedade brasileira que passaram a denunciar a discrimina\u00e7\u00e3o e a lutar pela descriminaliza\u00e7\u00e3o de crian\u00e7as e jovens no plano pol\u00edtico-institucional, voltando-se para os poderes legislativos e judici\u00e1rios e inscrevendo conquistas no \u00e2mbito institucional da sociedade, que hoje tem leis \u2013 Estatuto da Crian\u00e7a e do Adolescente.<\/p>\n<p>Considerados at\u00e9 ent\u00e3o menores \u201cinfratores\u201d de rua, ou \u201csoltos\u201d na rua, ou \u201ccrian\u00e7as abandonadas\u201d, s\u00e3o ainda alvo e argumento para o apelo ao assistencialismo e \u00e0 repress\u00e3o, na medida em que estar na rua, ou ser considerado \u201cde rua\u201d, manifesta uma qualidade negativa.<\/p>\n<p>Na hist\u00f3ria recente, registrou-se o desenvolvimento de atividades e programas volunt\u00e1rios de organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o governamentais, ou mantidas por institui\u00e7\u00f5es oficiais, que, por meio de oficinas, espa\u00e7os, \u201ccircos-escola\u201d, jogos, v\u00eam buscando manter outras perspectivas de v\u00ednculo e de comunica\u00e7\u00e3o, partindo do uso do espa\u00e7o \u201crua\u201d. Tamb\u00e9m identificou-se a presen\u00e7a de uma s\u00e9rie de \u201cperformances\u201d urbanas que tinham como protagonistas ou participantes os \u201cmeninos de rua\u201d, que apareciam por meio de express\u00f5es culturais da e na rua: graffitis, conjuntos de rappers, pagode etc. ou outras experi\u00eancias que inclu\u00edam teatro, m\u00fasica, artes pl\u00e1sticas, e ainda por manifesta\u00e7\u00f5es que assumiam uma dimens\u00e3o notadamente contempor\u00e2nea, reunindo fragmentos da \u201ccidade\u201d (seus muros, suas f\u00edmbrias de espa\u00e7o, seus lugares e hor\u00e1rios inusitados).<\/p>\n<p>Esse quadro permite olhar os \u201cmeninos de rua\u201d tamb\u00e9m como uma express\u00e3o social urbana contempor\u00e2nea que suscita ao mesmo tempo a discuss\u00e3o sobre a cidade e as formas de vida e de conduta, que tanto podem ser pensadas no plano local \u2013 S\u00e3o Paulo \u2013 como em suas vias de contato com outras cidades contempor\u00e2neas, onde a presen\u00e7a de jovens pobres fica contida em \u201cguetos\u201d espec\u00edficos, identificados como imigrantes, n\u00e3o pertencentes \u00e0s sociedades nacionais, como em cidades europeias, ou como comunidades \u00e9tnicas, como nos EUA.<\/p>\n<p>Se tem in\u00fameros referentes, inclusive o de espa\u00e7o de sociabilidade e lugar do ganho para sobreviv\u00eancia dos \u201cpobres\u201d da sociedade brasileira, a rua passou a se destacar como o espa\u00e7o do consumo de drogas por crian\u00e7as e adolescentes e a ser, portanto, alvo de a\u00e7\u00f5es reparadoras, reintegradoras e pol\u00edticas.<\/p>\n<p>Durante os anos de 1995 e 1996, f oi realizada uma investiga\u00e7\u00e3o na zona central da cidade de S\u00e3o Paulo, com a aplica\u00e7\u00e3o do m\u00e9todo etnogr\u00e1fico, visando detectar os circuitos e as falas dessas crian\u00e7as e jovens a respeito da vida nesse espa\u00e7o, da rela\u00e7\u00e3o com os \u201coutros\u201c (o transeunte, a pol\u00edcia, o educador, o traficante, as institui\u00e7\u00f5es) e da din\u00e2mica que decorreu da generaliza\u00e7\u00e3o que fez a m\u00eddia sobre o uso de crack, que passou a ser uma ins\u00edgnia a mais na identidade dessas crian\u00e7as e jovens (Adorno, 1996).<\/p>\n<p>A partir dessa pesquisa, adotou-se a express\u00e3o \u201ccrian\u00e7as e jovens em tr\u00e2nsito nas ruas\u201d para situar n\u00e3o s\u00f3 a exist\u00eancia de crian\u00e7as e jovens que usam a rua como espa\u00e7o de sobreviv\u00eancia, mas tamb\u00e9m sua forma de viver, de se aventurar. Essa a\u00e7\u00e3o encontra as ruas da cidade como cen\u00e1rio de express\u00e3o e passa a constituir um \u201ccircuito\u201d que congrega v\u00e1rios personagens: crian\u00e7as e jovens que vivem, transitam ou ocupam o espa\u00e7o da rua das mais v ariadas formas, educadores, artistas, intelectuais, volunt\u00e1rios, traficantes etc.<\/p>\n<p>Ao definir \u201ccrian\u00e7as e jovens em tr\u00e2nsito e em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 rua\u201d, procurou-se designar um conjunto de experi\u00eancias de vida, de \u201cestilos de vida\u201d marcados e constru\u00eddos por ades\u00e3o a um espa\u00e7o, que, por ser amplo, exposto, desprotegido e alvo de ass\u00e9dios, requer a constru\u00e7\u00e3o de estrat\u00e9gias, de mecanismos de manipula\u00e7\u00e3o e defesa\u00a0 que acabam por formar um tipo de sociabilidade que se produz e reproduz tendo como refer\u00eancia o grupo, \u201ca turma\u201d, o \u201cbando\u201d, os \u201cmanos\u201d, mas tamb\u00e9m os \u201ctios\u201d, as institui\u00e7\u00f5es, os espa\u00e7os de lazer e de recolhimento, o uso da droga, seja o crack, o esmalte ou a cola . Coisas que passam a fazer parte e que funcionam como atrativos e, ao mesmo tempo, como a marca, o estilo desse circuito \u201cde rua\u201d.<\/p>\n<p>Por oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 casa, a rua representa um conjunto de territ\u00f3rios que rompe a dimens\u00e3o do tempo, violentando limites entre o poss\u00edvel e o imposs\u00edvel.\u00a0 \u201cZoar\u201d, nesse espa\u00e7o, significa transitar, ir de um lugar a outro, obter as coisas que o mundo da casa n\u00e3o oferece. Essa experi\u00eancia tem tamb\u00e9m o significado da experi\u00eancia \u201cjovem\u201d, da passagem para uma suposta \u201cliberdade\u201d adulta.<\/p>\n<p>Nessa interpreta\u00e7\u00e3o do fen\u00f4meno social da crian\u00e7a\/jovem em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 rua, vemos aspectos como a constru\u00e7\u00e3o de um modo de vida : a sobreviv\u00eancia a partir da exposi\u00e7\u00e3o nas ruas, o contato com as redes que manipulam drogas ou armas e subsidiam formas de vida violentas, ao lado da viol\u00eancia e da deteriora\u00e7\u00e3o f\u00edsica da cidade, e no corpo dos que a\u00ed habitam a marca de uma intensa energia e resist\u00eancia a esse mundo muito r\u00e1pido, \u00e1gil, fugaz, que tem um outro tempo: o de zoar, o de \u201cdan\u00e7ar\u201d ou n\u00e3o dan\u00e7ar, de repente, o de viajar, ou o de ficar horas sentado\/deitado num banco com um cobertor e um saquinho de cola, de esmalte, conversando bobagens, dormindo, viajando de olhos fechados ou juntando-se para dar um giro, para apanhar alguma coisa, conseguir algum bagulho etc. Todos se conhecem, como numa grande \u201chorda\u201d, num \u201ccl\u00e3\u201d; os contatos podem ser mais pr\u00f3ximos com alguns da \u201cturma\u201d mais chegada, mas conhecem-se todos e, principalmente, participam de um mesmo c\u00f3digo de mensagens, em que se avisa da presen\u00e7a de outro tipo de pol\u00edcia, traficante, ou ent\u00e3o \u201csujou\u201d, ir para outro lugar, agir.<\/p>\n<p>Ainda na defini\u00e7\u00e3o desse tr\u00e2nsito, cita-se a rua como um territ\u00f3rio de aventura e de riscos, como um contraponto \u00e0 falta ou ao excesso de ordens ou tarefas propostas no \u00e2mbito da fam\u00edlia, e a ideia da onipot\u00eancia e do ilimitado que a rua traz \u2013 nela pode-se assumir outro papel, cheirar cola ou fumar crack \u2013 fazem parte do poder tudo nesse lugar, sentir-se forte, poderoso (Vogel, 1991), paradoxalmente, num espa\u00e7o em que os riscos s\u00e3o constantes.<\/p>\n<p>O que amea\u00e7a e torna estranha essa experi\u00eancia tem dependido do olhar que se lan\u00e7a e que real\u00e7a os perigos. Crian\u00e7as e jovens s\u00e3o entes de direito que invocam prote\u00e7\u00e3o e aten\u00e7\u00e3o, mas aparecem expostos e desclassificados desse direito. Mas, ainda que de forma invis\u00edvel, essa prote\u00e7\u00e3o \u00e9 oferecida por agentes e institui\u00e7\u00f5es diversas que procuram propor esses direitos.<\/p>\n<p>Entende-se por circuito um grupo que passa a frequentar, circular e adotar comportamentos e pr\u00e1ticas que o tornam reconhecido e reconhec\u00edvel por outros que tamb\u00e9m frequentem esse lugar e que reflexivamente passam a incorpor\u00e1-lo como parte da sua identidade. O circuito tamb\u00e9m pode estabelecer um cont\u00ednuo, como um trem fantasma que re\u00fane \u201ccenas\u201d de mesmo teor num caminho que vai sendo percorrido, ou de um jogo de videogame que estabelece o circuito dos personagens.<\/p>\n<p>Outro conceito que destacamos aqui \u00e9 o de \u201ctoler\u00e2ncia\u201d, que se refere \u00e0 atitude que os demais passam a ter diante daquele circuito. Assim, crian\u00e7as pobres presentes na rua podem inspirar compaix\u00e3o, indigna\u00e7\u00e3o, medo, revolta ou evita\u00e7\u00e3o. Essas rea\u00e7\u00f5es s\u00e3o constru\u00eddas de acordo com as conjunturas e a reflexividade social. O circuito passa a ser percebido como \u201ccrian\u00e7as abandonadas\u201d, \u201cmeninos infratores\u201d ou perigosos e amea\u00e7adores \u201ccrackeiros\u201d. Essa percep\u00e7\u00e3o vai orientar as a\u00e7\u00f5es e propostas gerais em rela\u00e7\u00e3o a eles.<\/p>\n<p>Este livro, que re\u00fane vinte anos de trajet\u00f3rias por esse circuito, busca entender a l\u00f3gica da rua a partir da rua. Ele mostra a metodologia desenvolvida pelo Projeto Quixote, tanto por meio de depoimentos dos educadores, personagens que convivem com meninos e meninas em tr\u00e2nsito pelas ruas e, por meio do encontro, d\u00e3o sentido a essa realidade bizarra, quanto por meio de seus di\u00e1rios de campo.<\/p>\n<p>Os di\u00e1rios representam a proje\u00e7\u00e3o dos educadores nesse espa\u00e7o; refletem parte da imagem que fazem de si e do outro \u2013 meninos e jovens, seus educandos quando inseridos nesse espa\u00e7o. Assim, os temas e registros dos di\u00e1rios de campo refletem o recorte dos educadores a respeito da parte mais encoberta do circuito de que fazem parte: a rua.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pref\u00e1cio ao livro Refugiados urbanos por Rubens Adorno, professor Associado III, Departamento de Sa\u00fade Ambiental da Faculdade de Sa\u00fade P\u00fablica da USP. 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