{"id":21782,"date":"2020-09-25T22:22:29","date_gmt":"2020-09-26T01:22:29","guid":{"rendered":"https:\/\/www.editorapeiropolis.com.br\/?p=21782"},"modified":"2020-12-07T19:13:10","modified_gmt":"2020-12-07T22:13:10","slug":"henriqueta-lisboa-sobre-a-infancia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.editorapeiropolis.com.br\/antigo\/henriqueta-lisboa-sobre-a-infancia\/","title":{"rendered":"Henriqueta Lisboa: sobre a inf\u00e2ncia"},"content":{"rendered":"<h6><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-13408 alignleft\" src=\"https:\/\/www.editorapeiropolis.com.br\/antigo\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/189.jpg\" alt=\"\" width=\"402\" height=\"549\" srcset=\"https:\/\/www.editorapeiropolis.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/189.jpg 402w, https:\/\/www.editorapeiropolis.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/189-220x300.jpg 220w, https:\/\/www.editorapeiropolis.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/189-203x277.jpg 203w\" sizes=\"(max-width: 402px) 100vw, 402px\" \/><\/h6>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3>HENRIQUETA LISBOA E A INF\u00c2NCIA<\/h3>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;Entre as motiva\u00e7\u00f5es mais persistentes ao meu esp\u00edrito, figura o tema da loucura, esse pa\u00eds estranho cujos habitantes se entregam de corpo e alma \u00e0 liberdade e ao sonho. Aproximei-me de seus redutos atrav\u00e9s dos seguintes poemas: \u201cFloripa\u201d, \u201cDo louco\u201d, \u201cAs Ilhas Aleutas\u201d, \u201cCan\u00e7\u00e3o do ber\u00e7o vazio\u201d, \u201cA caudal no escuro\u201d, \u201cOf\u00e9lia\u201d, \u201cDo idiota\u201d, \u201cO excepcional\u201d. Ensinou-me a observa\u00e7\u00e3o da realidade que o louco levita, que o louco tem l\u00e1bia e, acima de tudo, que o louco \u00e9 sagrado.<\/p>\n<p>Por sua vez a inf\u00e2ncia, representa\u00e7\u00e3o do evanescente, proporcionou-me h\u00e1 v\u00e1rios anos um livro de mem\u00f3ria e contempla\u00e7\u00e3o: <i>O menino poeta<\/i>, enternecido depoimento de rea\u00e7\u00f5es inerentes \u00e0 meninice, esp\u00e9cie de biografia da inf\u00e2ncia em termos de experi\u00eancia e empatia. Horas felizes foram aquelas em que voltei a respirar a atmosfera do primitivo e do ing\u00eanuo.&#8221;<\/p>\n<p>(Henriqueta Lisboa, <strong><em>Viv\u00eancia po\u00e9tica,<\/em><\/strong> p. 19; <strong><em>Henriqueta Lisboa &#8211; <\/em><em>O<\/em><em>bra completa<\/em>, <\/strong>v. 3, p. 283)<\/p>\n<p><i>&#8220;<a href=\"https:\/\/www.editorapeiropolis.com.br\/antigo\/produto\/o-menino-poeta\/\">O menino poeta <\/a><\/i>(1943), que o tema da inf\u00e2ncia anunciara em certos poemas de <i>Prisioneira da noite<\/i>, difere dos nossos livros de versos para crian\u00e7as. Estes, na sua maioria, querem ensinar. E do que em apar\u00eancia \u00e9 qualidade vem o seu grande defeito: sufocam a poesia com a preocupa\u00e7\u00e3o did\u00e1tica. Em <i>O menino poeta<\/i>, ao contr\u00e1rio, o que h\u00e1 \u00e9 s\u00f3 poesia. Nenhuma inten\u00e7\u00e3o moralizadora, nenhum rebaixamento do poema a ve\u00edculo de no\u00e7\u00f5es que a crian\u00e7a deva aprender. Mergulha-se simplesmente numa atmosfera infantil de encantamento, em que o mundo aparece virgem como nos primeiros dias da cria\u00e7\u00e3o. E isso j\u00e1 \u00e9 educativo. A poesia educa na medida em que revela o belo, na medida em que proporciona nova vis\u00e3o do mundo. Ou, ent\u00e3o, na medida em que enriquece a sensibilidade infantil, agindo sobre ela como age a m\u00fasica.&#8221;<\/p>\n<p>(\u00c2ngela Vaz Le\u00e3o, <strong><em>Henriqueta <\/em><em>Lisboa<\/em> &#8211; <em>O<\/em><em>bra completa &#8211;<\/em><\/strong>\u00a0v. 3, p. 508: Fortuna cr\u00edtica)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8220;Inf\u00e2ncia, morte, imagina\u00e7\u00e3o, realidade, Deus e as dores do mundo: em torno disso Henriqueta Lisboa tece a sua arte po\u00e9tica. Uma fus\u00e3o de mito e poesia. Uma busca insofrida do <i>splendore<\/i> para a celebra\u00e7\u00e3o do transcendente e eterno, mas tamb\u00e9m uma redu\u00e7\u00e3o do voo imag\u00e9tico pela conting\u00eancia existencial.&#8221;<\/p>\n<p>(F\u00e1bio Lucas, <strong><em>Henriqueta Lisboa &#8211; <\/em><em>O<\/em><em>bra completa &#8211;<\/em>\u00a0<\/strong>v. 3, p. 586: Fortuna cr\u00edtica)<\/p>\n<p>&#8220;Diga-se, de passagem, que Henriqueta Lisboa percorreu um caminho paralelo ao de Cec\u00edlia Meireles, ambas nascidas em 1901. Singulariza-as do mesmo modo o empenho na implanta\u00e7\u00e3o de uma literatura direcionada \u00e0s crian\u00e7as. Enquanto Cec\u00edlia Meireles se tornou a primeira brasileira a criar uma biblioteca para o p\u00fablico infantil, Henriqueta Lisboa se fez pioneira na escrita de poemas para crian\u00e7as fora da tradi\u00e7\u00e3o moralista ou de cunho meramente pedag\u00f3gico. Concebeu poemas de fei\u00e7\u00e3o l\u00fadica, como \u00e9 o caso de \u201cO menino poeta\u201d e outros da mesma cole\u00e7\u00e3o, nos quais predomina o jogo de palavras. Deste modo, a composi\u00e7\u00e3o se estrutura em torno da pr\u00f3pria mensagem. O processo de comunica\u00e7\u00e3o n\u00e3o se destina \u00e0 circula\u00e7\u00e3o da mensagem do emissor para o receptor, mas enfatiza a substancialidade da mensagem, come\u00e7a e se esgota nessa, como numa <i>fun\u00e7\u00e3o<\/i> <i>po\u00e9tica<\/i>, nos termos da proposta de Roman Jakobson. Assim, os poemas de <a href=\"https:\/\/www.editorapeiropolis.com.br\/antigo\/produto\/o-menino-poeta\/\"><i>O menino poeta<\/i><\/a> iniciam uma pr\u00e1tica de poetiza\u00e7\u00e3o em que se explora de prefer\u00eancia o <i>estrato f\u00f4nico<\/i>, relegando-se a segundo plano o <i>estrato das representa\u00e7\u00f5es<\/i> ou as camadas de express\u00e3o emotiva ou referencial. Os exemplos de\u00a0<i>O menino poeta <\/i>apontam precisamente para o prazer do texto, para a manifesta\u00e7\u00e3o sonora e l\u00fadica de cada poema.&#8221;<\/p>\n<p>(F\u00e1bio Lucas, <strong><em>Henriqueta Lisboa &#8211; <\/em><em>O<\/em><em>bra completa &#8211;<\/em>\u00a0<\/strong>v. 3, p. 589: Fortuna cr\u00edtica)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3>EM ENTREVISTA A ANGELO OSWALDO DE ARA\u00daJO SANTOS (1968)<\/h3>\n<h4>Por que tem prefer\u00eancias por temas infantis em sua po\u00e9tica? Haveria influ\u00eancia da meninice ou s\u00e3o elementos recolhidos da inf\u00e2ncia em geral? Em contraste com isso, que significa a tem\u00e1tica da morte e o aspecto m\u00edstico de sua poesia?<\/h4>\n<p>HL \u2013 A inf\u00e2ncia \u00e9 uma \u00e1gua cristalina que todo ser humano procura beber, ou na pr\u00f3pria fonte, atrav\u00e9s do espelho evocativo, ou nas fontes que v\u00e3o nascendo dia a dia. Por analogia, n\u00e3o sei bem quando me refiro ao meu reino encantado, ao mundo infantil de entorno ou \u00e0quilo que desponta e \u00e9 tenro, sem as marcas da servid\u00e3o. N\u00e3o vejo contraste entre esse motivo e os outros a que voc\u00ea se reporta, sen\u00e3o sequ\u00eancia. Na ordem seguinte: ap\u00f3s a inf\u00e2ncia, a criatura se v\u00ea densamente tomada de mist\u00e9rio \u2013 a natureza individual e a natureza c\u00f3smica. Ent\u00e3o come\u00e7a a vida interior e, simultaneamente, a de integra\u00e7\u00e3o no real vis\u00edvel. O ser que reluta em aceitar as coisas como s\u00e3o procura super\u00e1-las na m\u00edstica esperan\u00e7a de uma solu\u00e7\u00e3o que seria o encontro de Deus. Depois, a ideia da morte, consequ\u00eancia fatal da vida, \u00e9 o fogo em que nos consumimos minuto a minuto. \u00c9 preciso dominar esta ideia, transfigurar este sentimento, colher ao menos uma flor \u00e0 beira da sombria experi\u00eancia. E, a meu ver, a arte \u00e9 um ato de respirar.<\/p>\n<p><strong><em>(Henriqueta Lisboa &#8211; Obra completa &#8211;<\/em><\/strong> v. 3, p. 471: Entrevistas)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3>EM ENTREVISTA A JOS\u00c9 AFR\u00c2NIO MOREIRA DUARTE (1970)<\/h3>\n<h4>Al\u00e9m de haver selecionado com \u00eaxito textos para a inf\u00e2ncia e a juventude, em <i>O menino poeta<\/i>, livro para adultos, consegue tamb\u00e9m encantar as crian\u00e7as. Sendo assim, pensa em escrever alguma obra de literatura infantil?<\/h4>\n<p>HL \u2013 Poesia com destinat\u00e1rio n\u00e3o \u00e9 de meu feitio. Talvez ainda escreva alguns versos com toque infantil, mas por simples coincid\u00eancia, digamos, de levita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong><em>(Henriqueta Lisboa &#8211; Obra completa &#8211;\u00a0<\/em><\/strong>v. 3, p. 474: Entrevistas)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3>EM ENTREVISTA A EDLA VAN STEEN (1984)<\/h3>\n<h4>Voc\u00ea se incomodaria de falar da sua inf\u00e2ncia em Lambari? Um de seus versos diz \u201ce volta sempre a inf\u00e2ncia com suas \u00edntimas, fundas amarguras\u201d.<\/h4>\n<p>HL &#8211; A leitura total do poema explicaria o motivo dessa queixa: a morte de uma irm\u00e3zinha e a tristeza que invadiu a casa geralmente alegre e barulhenta de uma fam\u00edlia numerosa e unida. Apesar de extremamente sens\u00edvel, tive inf\u00e2ncia normal. Minha m\u00e3e era muito imaginativa e cultivava as tr\u00eas virtudes teologais: f\u00e9, esperan\u00e7a e caridade; meu pai, muito inteligente, reunia as quatro virtudes cardeais: justi\u00e7a, prud\u00eancia, temperan\u00e7a e fortaleza. Da escola prim\u00e1ria conservo preciosas lembran\u00e7as, principalmente da minha professora Helvina Xavier Moreira, que me despertou o gosto pela poesia, lendo com entusiasmo e fazendo-me decorar Raimundo Correia e Fagundes Varela. A esse tempo, o desenho me fazia vibrar, e o desejo de tocar violino me acalentava. Mas a leitura dos poetas prevalecia. Ent\u00e3o comecei a contar s\u00edlabas, a buscar rimas, a valorizar o estudo da l\u00edngua p\u00e1tria, a rabiscar meus primeiros versos, a\u00ed pelos nove anos. Sem a menor pretens\u00e3o, \u00e9 claro. Simples exerc\u00edcio.<\/p>\n<p><strong><em>(Henriqueta Lisboa &#8211; Obra completa &#8211;\u00a0<\/em><\/strong>v. 3, p. 480: Entrevistas)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3>De <em><strong>Conv\u00edvio po\u00e9tico<\/strong><\/em> <strong>(1955)<\/strong><\/h3>\n<p>INF\u00c2NCIA E POESIA<\/p>\n<p>Fala-se em poesia infantil. Por\u00e9m n\u00e3o h\u00e1 poesia com destinat\u00e1rio. Assim como n\u00e3o h\u00e1 c\u00e9u especial para crian\u00e7as, tempestades especiais, mares, florestas para cada classe de seres humanos, fogo, terra, \u00e1gua e ar diferentes para cada criatura, ci\u00eancia diferente, Deus diferente.<\/p>\n<p>Como todas as grandes coisas verdadeiras, a poesia \u00e9 uma s\u00f3. Uma s\u00f3 coisa \u2013 vasta, profunda, total. Que subsiste atrav\u00e9s de r\u00f3tulos, desconhece divis\u00f5es, emerge de departamentos e escolhas. Que n\u00e3o se at\u00e9m \u00e0 capacidade ou incapacidade de apreens\u00e3o alheia, nem sequer a necessidades outras que n\u00e3o a sua pr\u00f3pria necessidade de existir. O que h\u00e1 e nos confunde, \u00e0s vezes, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s coisas \u00fanicas, como a poesia, s\u00e3o circunst\u00e2ncias fora de toda essencialidade, servi\u00e7os, distra\u00e7\u00f5es, perigos, obtusidades e progn\u00f3sticos.<\/p>\n<p>Para o artista, no ato criador, n\u00e3o h\u00e1 sen\u00e3o a correspond\u00eancia a uma verdade interior \u2013 imperiosa. Se a poesia da inf\u00e2ncia fosse o trigo e viesse o joio de mistura, seria ent\u00e3o o caso de dizer-se: \u201cDeixai crescer a ciz\u00e2nia at\u00e9 \u00e0 colheita!\u201d Nesse momento \u00e9 que interv\u00e9m o educador, com seus cabedais psicol\u00f3gicos, para tomar o material que o interessa; nesse momento, \u00e9 que surge o moralista (muitas vezes o pr\u00f3prio poeta) para lan\u00e7ar \u00e0s chamas o mau elemento; e chega o cr\u00edtico para catalogar, distinguir, tra\u00e7ar limites: poesia maior ou menor, social ou individualista, interessada ou pura.<\/p>\n<p>S\u00e3o composi\u00e7\u00f5es e decomposi\u00e7\u00f5es, atrav\u00e9s de jatos de luz, espelhos, balan\u00e7as, term\u00f4metros e bar\u00f4metros. Faina escrupulosa e indispens\u00e1vel da qual independe, por\u00e9m, a poesia. Seria erro fundamental decidir-se o artista por um g\u00eanero do qual n\u00e3o participam suas entranhas.<\/p>\n<p>Apesar da lucidez que o deve orientar, o artista n\u00e3o pode forjar o pr\u00f3prio temperamento; nem assumir compromissos pela sua poesia, a menos que o estado de ilumina\u00e7\u00e3o j\u00e1 tenha atingido o \u00e1pice, e o ato de escrever seja apenas a consuma\u00e7\u00e3o do j\u00e1 elaborado no c\u00e9rebro e na carne. A poesia \u00e9 como, na ordem do reino vegetal, a planta; n\u00e3o lhe \u00e9 dado cantar a flor, por\u00e9m, sim, florescer. E h\u00e1 coincid\u00eancias miraculosas. Acontece que o poeta, em certa hora de sua vida, diante de uma felicidade inesperada, de uma deliciosa recorda\u00e7\u00e3o, sente-se como crian\u00e7a; e tamb\u00e9m pode acontecer que, na rea\u00e7\u00e3o contra alguma tremenda realidade, ele queira recuperar, pela for\u00e7a do pensamento reflexivo, a ingenuidade de outrora. Entrega-nos, ent\u00e3o, o mais puro de sua alma, a poesia sem m\u00e1cula, tenra como a pr\u00f3pria inf\u00e2ncia, prop\u00edcia aos pequeninos seres.<\/p>\n<p>Pela educa\u00e7\u00e3o de hoje, o poeta de amanh\u00e3 poder\u00e1 vir a ser o poeta das crian\u00e7as: se o reino po\u00e9tico infantil for puro e livre, aumentam as probabilidades do aparecimento de uma poesia em que a dignidade e a gra\u00e7a se completem. A seiva que alimenta as ra\u00edzes circular\u00e1 nas frondes vindouras. Quase todos os teoristas da arte aproximam a poesia de um como estado de inf\u00e2ncia. De fato, que numerosos acordes na psicologia comparada do poeta e da crian\u00e7a! Reagem ambos contra o insol\u00favel por meio de met\u00e1foras. Em ambos, uma divinat\u00f3ria intui\u00e7\u00e3o compensa as defici\u00eancias do conhecimento. Chegam a perscrutar a ci\u00eancia pela imagina\u00e7\u00e3o. Vivem pela imagina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Surge, a este passo, um problema de ordem pedag\u00f3gica: deve-se, acaso, tolher a imagina\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a? Porventura ser\u00e1 a imagina\u00e7\u00e3o um obst\u00e1culo \u00e0 felicidade, uma fonte de desequil\u00edbrio? Encontro resposta autorizada em Chesterton, na sua autobiografia: \u201cCostuma-se dizer que as imagens s\u00e3o \u00eddolos e que os \u00eddolos s\u00e3o bonecos. Contento-me com afirmar que nem sequer os bonecos s\u00e3o \u00eddolos, sen\u00e3o imagens no verdadeiro sentido. A pr\u00f3pria palavra imagem significa algo necess\u00e1rio para imagina\u00e7\u00e3o. Por\u00e9m n\u00e3o por isso contr\u00e1ria \u00e0 raz\u00e3o, n\u00e3o, nem sequer numa crian\u00e7a; pois que imagina\u00e7\u00e3o \u00e9 quase o contr\u00e1rio de ilus\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Busquemos um exemplo para provar esta afirmativa: quando o \u00edndio da Polin\u00e9sia, proibido de nomear as coisas que pertencem ao chefe, v\u00ea fogo ou luz na casa real, exclama: \u201cO raio arde nas nuvens do c\u00e9u\u201d. O conhecimento da realidade \u00e9 a subst\u00e2ncia mesma de sua met\u00e1fora. N\u00e3o h\u00e1 ilus\u00e3o, h\u00e1 troca de valores. Assim a imagina\u00e7\u00e3o, que tem como chave de ouro a met\u00e1fora, n\u00e3o representa uma fuga, mas uma liberta\u00e7\u00e3o, com o seu poder de vencer tabus, ultrapassar horizontes, cristalizar o abstrato, circunscrever ao pequeno mundo dos sentidos a beleza universal, beber copos de liberdade.<\/p>\n<p>\u00c9 um jogo consciente e s\u00e9rio, em que o poeta se revela meio selvagem. Por seu turno, n\u00e3o s\u00e3o ing\u00eanuos os selvagens quando falam por s\u00edmbolos. Nem tampouco as crian\u00e7as, no cerimonial dos brinquedos. Contam que, em meio \u00e0s festas de Natal, certa vez, disse uma crian\u00e7a a outra que Papai Noel eram os pr\u00f3prios pais&#8230; A que ouviu, delicada, nunca mais p\u00f4de esquecer o golpe moral intenso que no instante sofrera, n\u00e3o porque desconhecesse o segredo, mas porque este n\u00e3o deveria ser dito. Assim como a inf\u00e2ncia preserva lindamente a poesia, tamb\u00e9m a poesia pode preservar a inf\u00e2ncia atrav\u00e9s de todas as idades.<\/p>\n<p><strong><em>(Henriqueta Lisboa &#8211; Obra completa &#8211;<\/em><\/strong><em>\u00a0<\/em>v. 3, p. 59)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h6>Conhe\u00e7a a obra <a href=\"https:\/\/www.editorapeiropolis.com.br\/antigo\/produto\/o-menino-poeta\/\"><em>O menino poeta<\/em><\/a><\/h6>\n<h6>Leia<a href=\"https:\/\/www.editorapeiropolis.com.br\/antigo\/o-menino-poeta-de-henriqueta-lisboa\"> a confer\u00eancia da poeta chilena Gabriela Mistral<\/a>, pr\u00eamio Nobel de literatura de 1945, sobre <em><a href=\"https:\/\/www.editorapeiropolis.com.br\/antigo\/produto\/o-menino-poeta\/\">O menino poeta<\/a>, <\/em>de Henriqueta Lisboa.<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; HENRIQUETA LISBOA E A INF\u00c2NCIA &nbsp; &#8220;Entre as motiva\u00e7\u00f5es mais persistentes ao meu esp\u00edrito, figura o tema da loucura, esse pa\u00eds estranho cujos habitantes se entregam de corpo e alma \u00e0 liberdade e ao sonho. 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