{"id":22014,"date":"2020-09-30T07:57:22","date_gmt":"2020-09-30T10:57:22","guid":{"rendered":"https:\/\/www.editorapeiropolis.com.br\/?p=22014"},"modified":"2020-09-30T07:57:22","modified_gmt":"2020-09-30T10:57:22","slug":"presenca-de-henriqueta-maria-zilda-ferreira-cury","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.editorapeiropolis.com.br\/antigo\/presenca-de-henriqueta-maria-zilda-ferreira-cury\/","title":{"rendered":"Presen\u00e7a de Henriqueta: Maria Zilda Ferreira Cury"},"content":{"rendered":"<h6>A biblioteca como met\u00e1fora<\/h6>\n<h5><em>Maria Zilda Ferreira Cury<\/em><\/h5>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Sei de uma regi\u00e3o agreste cujos bibliotec\u00e1rios repudiam <\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>o costume supersticioso e v\u00e3o de procurar sentido nos<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>livros e o equiparam ao de procur\u00e1-lo nos sonhos ou nas linhas ca\u00f3ticas da m\u00e3o&#8230;<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">\n<p style=\"text-align: right;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Jorge Luis Borges<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Aproveitando a oportunidade da doa\u00e7\u00e3o do acervo de Henriqueta Lisboa feita pela fam\u00edlia \u00e0 UFMG e tamb\u00e9m da cria\u00e7\u00e3o do Centro de Estudos Liter\u00e1rios, gostaria de propor uma breve reflex\u00e3o sobre uma vertente da cr\u00edtica, aquela que privilegia o estudo das fontes prim\u00e1rias.<\/p>\n<p>Saliento que ambos os acontecimentos devem ser aproveitados por n\u00f3s como momento privilegiado. Estamos diante de um momento de cria\u00e7\u00e3o de novas perspectivas para as atividades de pesquisa n\u00e3o s\u00f3 no que se refere ao mestrado e doutorado, mas igualmente no que diz respeito \u00e0s atividades de gradua\u00e7\u00e3o, inicia\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e outras, abertas \u00e0 comunidade em geral.<\/p>\n<p>Do acervo constam, entre outras coisas, documentos pessoais, fotografias, quadros, a correspond\u00eancia de Henriqueta com intelectuais destacados. Dele fazem parte recortes de jornal falando sobre a poetisa e sobre a atividade liter\u00e1ria em geral, cr\u00edticas e discursos, pareceres sobre concursos liter\u00e1rios. Ali se encontram as primeiras edi\u00e7\u00f5es de seus livros, poemas manuscritos e datilografados por ela, tradu\u00e7\u00f5es que fez, fitas em que declamou poemas e sua biblioteca.<\/p>\n<p>\u00c9 de grande import\u00e2ncia para o estudo cient\u00edfico da literatura e das ci\u00eancias humanas em geral a utiliza\u00e7\u00e3o desse material, o uso de jornais e revistas, da margin\u00e1lia, dos manuscritos e rascunhos como fontes prim\u00e1rias, quer para a caracteriza\u00e7\u00e3o de tend\u00eancias liter\u00e1rias, quer para a localiza\u00e7\u00e3o mais precisa e cr\u00edtica das obras que comp\u00f5em o acervo liter\u00e1rio e art\u00edstico de determinada \u00e9poca. Muitas vezes, \u00e9 pela imprensa que s\u00e3o publicados poemas e contos, romances em folhetim que nem sequer aparecem posteriormente sob a forma de livro ou o fazem com profundas modifica\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>E as v\u00e1rias vers\u00f5es de um texto? E seus rascunhos?<\/p>\n<p>Est\u00e1 claro que essas modifica\u00e7\u00f5es e projetos s\u00e3o de interesse para o estudioso da literatura e da produ\u00e7\u00e3o cultural porque d\u00e3o oportunidade de rastrear o fato liter\u00e1rio como linguagem m\u00f3bil, em constitui\u00e7\u00e3o, carente de explica\u00e7\u00f5es. Do cotejo entre v\u00e1rias vers\u00f5es pode-se aclarar o mecanismo entre texto e contexto, entre escritura e g\u00eaneros, abrindo-se perspectivas n\u00e3o s\u00f3 para estudos po\u00e9ticos, mas tamb\u00e9m para os sociol\u00f3gicos, hist\u00f3ricos, psicanal\u00edticos.<\/p>\n<p>Um acervo, uma biblioteca como essa de Henriqueta Lisboa, s\u00f3 aparentemente \u00e9 a conserva\u00e7\u00e3o de uma cultura morta. Que livros leu Henriqueta? Em quais fez anota\u00e7\u00f5es? Que leituras dessas respiram em seus textos? Que livros n\u00e3o leu? Tamb\u00e9m de aus\u00eancias se faz a hist\u00f3ria. Muitas vezes, a partir de uma aus\u00eancia manifesta, a pesquisa e a cr\u00edtica podem revelar uma presen\u00e7a.<\/p>\n<p>Como eram lidos pelos outros os livros que Henriqueta conservou em sua biblioteca? Em que medida o predom\u00ednio de determinada leitura pelo p\u00fablico interferiu na leitura e na escrita de Henriqueta, remodelando, modificando, elaborando cortes na sua frui\u00e7\u00e3o e alterando a natureza dos textos que ela lia e escrevia?<\/p>\n<p>Essas tramas n\u00e3o se engendram, \u00e9 claro, somente a partir da escrita e sua leitura, mas se inscrevem no universo que Bakhtin conceitua como circularidade, influxo rec\u00edproco de culturas<sup>1<\/sup>. No como se leu se entalha tamb\u00e9m uma viv\u00eancia n\u00e3o liter\u00e1ria que cumpre perseguir e resgatar para se dar conta de um momento cultural filtrado pela escritura.<\/p>\n<p>Do mesmo modo pode ser lida a correspond\u00eancia trocada entre Henriqueta e seus amigos. Nela aparecem poemas com observa\u00e7\u00f5es de M\u00e1rio de Andrade explicitando alguns par\u00e2metros do gosto liter\u00e1rio da \u00e9poca; inquieta\u00e7\u00f5es de Gabriela Mistral em face da guerra, em carta de 1940; as cartas de Drummond revelando seu papel mediador entre intelectuais e Estado.<\/p>\n<p>A biblioteca \u2013 met\u00e1fora da hist\u00f3ria, mito e modelo, espa\u00e7o em que se joga o amb\u00edguo, o poliss\u00eamico dos contr\u00e1rios \u2013 nos coloca diante da efervesc\u00eancia das rupturas, mas, igualmente, faz emergir as longas continuidades subterr\u00e2neas que, gota a gota, tamb\u00e9m fazem a hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>O estudo daquilo que o autor acrescentou, modificou ou omitiu num texto de peri\u00f3dico em posterior publica\u00e7\u00e3o em livro, muitas vezes, \u00e9 o caminho para se fazer ouvir o interdito do texto, chave para a compreens\u00e3o cr\u00edtica de determinado momento cultural no qual ele se insere.<\/p>\n<p>A pesquisa em peri\u00f3dicos \u00e9 igualmente reveladora para a historiografia liter\u00e1ria. Se \u00e9 indiscut\u00edvel o valor em si mesmo de um conto e de um poema ou de um cap\u00edtulo de romance inseridos num peri\u00f3dico, n\u00e3o se pode, por outro lado, desprezar o di\u00e1logo cerrado que travam com as outras partes do jornal ou revista. Atrav\u00e9s desse di\u00e1logo, pode-se avaliar o grau de radicalidade de certa escrita, comparar sua linguagem com outras do todo de que faz parte, perceber, comparativamente, seu car\u00e1ter de inova\u00e7\u00e3o ou conservadorismo.<\/p>\n<p>Henriqueta, nos jornais da d\u00e9cada de 1920, onde inicia a publica\u00e7\u00e3o de seus poemas, j\u00e1 revela os tra\u00e7os simbolistas da sua poesia, sempre t\u00e3o radicalmente otimista.<\/p>\n<p>Como ler tal tend\u00eancia? Se s\u00f3 levarmos em conta a an\u00e1lise isolada dos poemas, eles poderiam ser vistos como anacr\u00f4nicos, numa d\u00e9cada em que as vanguardas j\u00e1 imprimiam uma renova\u00e7\u00e3o mais radical ao verso. No conjunto dos jornais analisados, no entanto, a produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria em geral se apresentava marcantemente parnasiana. Comparada a ela, uma produ\u00e7\u00e3o simbolista j\u00e1 representava uma certa ruptura. Como simbolista apresentou-se, de resto, boa parte da poesia publicada em jornais da d\u00e9cada pelos futuros integrantes do grupo modernista mineiro: Drummond, Jo\u00e3o Alphonsus, Em\u00edlio Moura. Desse modo, a produ\u00e7\u00e3o desses novos na imprensa demonstra que a passagem para o Modernismo n\u00e3o foi brusca, como a publica\u00e7\u00e3o posterior em livro faz supor. Essa passagem se deu tamb\u00e9m na viv\u00eancia do Simbolismo que elaborava, esp\u00e9cie de transi\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria para a modernidade.<\/p>\n<p>Contraditoriamente \u2013 e o estudo dos jornais e revistas de Belo Horizonte da d\u00e9cada de 1920 o comprova \u2013, a presen\u00e7a modernizadora do Simbolismo se inscrevia numa tradi\u00e7\u00e3o ainda muito viva em Minas, a ponto de a reflex\u00e3o cr\u00edtica sobre ela ser um dos tra\u00e7os definidores do Modernismo mineiro. A presen\u00e7a intelectual de Alphonsus de Guimaraens \u2013 que continuava publicando poemas e cr\u00f4nicas nos mesmos jornais em que publicavam Henriqueta e os jovens renovadores \u2013 despertava a admira\u00e7\u00e3o e a rever\u00eancia dos modernistas inclusive fora do \u00e2mbito do Estado.<\/p>\n<p>Assim, a escrita de Henriqueta, mesmo n\u00e3o compartilhando a ousadia dos textos modernistas, j\u00e1 revelava tra\u00e7os de modernidade. O contr\u00e1rio tamb\u00e9m pode vir a se manifestar, lan\u00e7ando-se m\u00e3o ainda de pesquisas em fontes prim\u00e1rias.<\/p>\n<p>No <em>Di\u00e1rio de Minas<\/em>, no ano de 1922, a poetisa faz publicar o poema \u201cBelo Horizonte\u201d, onde tematiza o espa\u00e7o urbano, t\u00e3o caro aos modernistas. Longe ficou, todavia, da abordagem \u201cdesvairada\u201d de uma cidade que j\u00e1 se industrializava e modernizava. Antes, o acento recaiu sobre as belezas naturais e os pores do sol da capital mineira. Nem ao menos nele apareceu a figura do poeta desterrado no espa\u00e7o urbano, imagem comum ao simbolismo franc\u00eas. A voz da cidade n\u00e3o assumiu, na fala de Henriqueta, o barulho das buzinas presente no poema de Drummond, chamado \u201cSerenata\u201d, do mesmo per\u00edodo e publicado no mesmo jornal. O cotejo dos dois poemas e sua compara\u00e7\u00e3o com as not\u00edcias que o jornal trazia sobre a cidade revelam dimens\u00f5es insuspeit\u00e1veis ao seu estudo isolado, nas publica\u00e7\u00f5es posteriores em livro.<\/p>\n<p>\u00c9 muito comum dizer-se que este ou aquele escritor fez uso de uma linguagem jornal\u00edstica, muitas vezes sem se determinar, de fato, qual era a linguagem dos jornais da \u00e9poca; \u00e9 frequente a supervaloriza\u00e7\u00e3o da influ\u00eancia do jornal sobre a linguagem liter\u00e1ria. E uma pesquisa que correlacionasse o estudo de jornais \u00e0 produ\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria n\u00e3o poderia revelar o contr\u00e1rio? Se pensarmos que at\u00e9 meados do s\u00e9culo era indispens\u00e1vel para o escritor a passagem pelos jornais, n\u00e3o \u00e9 de estranhar que a linguagem liter\u00e1ria tamb\u00e9m entranhasse a fala jornal\u00edstica.<\/p>\n<p>\u00c9 claro que essa inter-rela\u00e7\u00e3o atua na recep\u00e7\u00e3o das obras e na sua cr\u00edtica. A historiografia mais recente ressalta quanto a ideia da cultura como privil\u00e9gio ficou gravemente ferida, ainda que n\u00e3o eliminada, pela inven\u00e7\u00e3o da imprensa<sup>2<\/sup>.<sup>\u00a0 <\/sup><\/p>\n<p>Desse modo, mais do que fonte meramente confirmadora de outras an\u00e1lises, representa a imprensa \u2013 por si mesma e em especial na \u00e9poca moderna \u2013 um objeto pr\u00f3prio de estudo, indispens\u00e1vel ao pesquisador da literatura que deseje uma arqueologia do fazer liter\u00e1rio, reveladora de seus avessos e tra\u00e7ados. A imprensa e os rascunhos s\u00e3o textos que devem ser tomados no seu presente, como diz Bellemin-Noel<sup>3<\/sup>, textos que n\u00e3o s\u00e3o privados de estrutura\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A pesquisa em fontes prim\u00e1rias \u2013 em acervos, arquivos e bibliotecas \u2013 pode ser elemento essencial n\u00e3o s\u00f3 para redefinir, mas tamb\u00e9m para estabelecer novas concep\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O estudo do prototexto, ou seja, dos rascunhos, das primeiras vers\u00f5es, dos projetos de livros nunca conclu\u00eddos, \u00e9 material importante para o estudo gen\u00e9tico e hist\u00f3rico dos textos. Cumpre valorizar essas falhas do discurso que nos dizem de projetos e desejos, teatro de sombras no qual tamb\u00e9m \u00e9 encenada a hist\u00f3ria. (Foi somente a partir, por exemplo, da descoberta de seus manuscritos que Marx se revelou como um humanista para a hist\u00f3ria.)<\/p>\n<p>Uma nova senda foi aberta pela historiografia contempor\u00e2nea ao pretender recuperar o cotidiano, o indiv\u00edduo e seu embate com os limites impostos pela cultura e por seu grupo social. Uma hist\u00f3ria das mentalidades, que insiste nos elementos conservados, obscuros, inconscientes de uma determinada vis\u00e3o de mundo.<\/p>\n<p>Historiografia do cotidiano, trabalho de formiga, \u00e9 o estudo da fonte prim\u00e1ria que permite ver na produ\u00e7\u00e3o final do romance, do poema, do conjunto de obras de um autor um palimpsesto de in\u00fameras outras escritas e outras viv\u00eancias. Acostumado a lidar com o objeto de pesquisa j\u00e1 pronto \u2013 o livro \u2013, fetiche que reluta em se deixar desmitificar, o pesquisador da literatura envolvido com a fonte prim\u00e1ria v\u00ea-se na conting\u00eancia de ir criando n\u00e3o s\u00f3 uma metodologia pessoal de pesquisa, mas de ter de construir ele mesmo, passo a passo, seu objeto de pesquisa: a literatura em constru\u00e7\u00e3o, a mem\u00f3ria \u2013 sua pr\u00f3pria e a da hist\u00f3ria no seu cont\u00ednuo fazer-se e desfazer-se.<\/p>\n<p>O estudo das fotos, registros do cotidiano \u2013 concretiza\u00e7\u00f5es que seguem a pr\u00f3pria cad\u00eancia das palavras, como nos diz Benjamin<sup>4<\/sup> \u2013, quanto nos revela da mem\u00f3ria de um tempo! O fot\u00f3grafo \u00e9 o arque\u00f3logo do contempor\u00e2neo. Saliente-se o pioneirismo das artes fotogr\u00e1ficas no Brasil, desde o Imp\u00e9rio<sup>5<\/sup>, registros que permanecem, at\u00e9 certo ponto, intocados enquanto caminho interessante a ser trilhado num estudo que relacione literatura e imagem fotogr\u00e1fica. As fotos, os objetos pessoais sup\u00e9rfluos, diria Henriqueta, tais quais os biografemas de que nos fala Barthes, nos dizem do sujeito e da inscri\u00e7\u00e3o de seu desejo na hist\u00f3ria<sup>6<\/sup>.<\/p>\n<p>No entanto, nem sempre \u00e9 valorizado pela cr\u00edtica e pela teoria da literatura o lidar com a fonte prim\u00e1ria n\u00e3o por falta de material, mas talvez pelo preconceito ante o trabalho artesanal que ele pressup\u00f5e: levantamento, classifica\u00e7\u00e3o e decifra\u00e7\u00e3o. Mesmo com os recursos da inform\u00e1tica, como salienta Ginzburg na proposta de uma nova historiografia, \u201cs\u00f3 uma s\u00e9rie de pesquisas de grande f\u00f4lego pode permitir a elabora\u00e7\u00e3o de um programa articulado, a ser submetido ao computador\u201d<sup>7<\/sup>.<sup>\u00a0 <\/sup><\/p>\n<p>N\u00e3o deixa de ser desafiador tal trabalho, uma vez que, de certa forma, engloba a proposta de desmitificar o texto final, revelando o segredo de seus antecedentes, um remanejamento da linguagem e da cultura.<\/p>\n<p>Philippe Willemart, defendendo o estudo do prototexto como um novo campo de pesquisa, nos diz que \u201co desejo do cr\u00edtico n\u00e3o se limitar\u00e1 a extrair e expor essas riquezas, mas tal qual um alquimista\u201d<sup>8<\/sup> tentar\u00e1 discernir e entender o processo de cria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Essa senda muitas vezes \u00e9 rejeitada em fun\u00e7\u00e3o do respeito e da m\u00edtica que envolvem a obra publicada. Esse vasculhar do que aconteceu entre o autor e sua escritura torna a obra pass\u00edvel de reformula\u00e7\u00f5es. E com isso aflora o medo de viola\u00e7\u00e3o do mist\u00e9rio com o qual cercamos a cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica. Desmitifica\u00e7\u00e3o do agente produtor; desmitifica\u00e7\u00e3o do texto enquanto original.<\/p>\n<p>Com o estudo das primeiras edi\u00e7\u00f5es, dos rascunhos, de suas leituras, de suas produ\u00e7\u00f5es paralelas ou anteriores na imprensa pode-se reconstituir e fertilizar a an\u00e1lise da obra de um escritor, apreender mais criticamente a atua\u00e7\u00e3o do grupo liter\u00e1rio a que pertenceu e os que ajudam a montar as pedras que \u2013 como um mosaico \u2013 comp\u00f5em sua articula\u00e7\u00e3o. Tudo isso permite valorizar o pano de fundo, a cria\u00e7\u00e3o quase an\u00f4nima sobre a qual ressalta a produ\u00e7\u00e3o diferenciada de alguns escritores de maior destaque.<\/p>\n<p>Saliente-se tamb\u00e9m a necessidade de pesquisa em fontes prim\u00e1rias num pa\u00eds como o nosso, t\u00e3o carente de pesquisas que cr\u00edtica e profundamente participem da reconstru\u00e7\u00e3o de sua mem\u00f3ria.<\/p>\n<p>N\u00e3o se faz pesquisa por diletantismo, mas por necessidade de respostas, de problematiza\u00e7\u00e3o do momento em que se vive. H\u00e1 que ultrapassar o mero dado, trabalhar dialeticamente o emp\u00edrico, aprender a pesquisar o passado n\u00e3o por ele mesmo, mas naquilo em que ele possa ser f\u00e9rtil para a compreens\u00e3o do presente.<\/p>\n<p>Trata-se de recuperar o passado n\u00e3o como um fetiche, conservadorismo ou nostalgia, mas de forma cr\u00edtica, nos seus elementos de utopia e sensibilidade que podem ser liberados como fragmentos que transformem e iluminem o presente. S\u00f3 assim pode-se ser digno do intransfer\u00edvel patrim\u00f4nio de que nos falam os poemas de Henriqueta.<\/p>\n<p>Se, por um lado, o cr\u00edtico, como o analista, investiga os arcanos do homem, por outro lado, tanto quanto o analisando, o cr\u00edtico trabalha na pr\u00f3pria mem\u00f3ria pela escritura do outro, visando uma reconstru\u00e7\u00e3o e um deslocamento \u00fanicos de sua l\u00f3gica cr\u00edtica.<\/p>\n<p>Cumpre trazer para a frente da cena da hist\u00f3ria o que se passa nos bastidores, com energia, para o teatro do qual somos simultaneamente atores e espectadores<sup>9<\/sup>.<\/p>\n<p>\u201cAfirmo que a Biblioteca \u00e9 inestim\u00e1vel\u201d<sup>10<\/sup>, nos diz Borges. E eu, leitora de Henriqueta, no emaranhado de seus rascunhos, ocupo um lugar movente, vol\u00favel e buscante. Lugar onde se inserem minhas outras lembran\u00e7as, meus espelhos, cortes que tramo, caminhos de escolha que sempre bifurcam.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><sup>1<\/sup> BAKHTIN, M. <em>A cultura popular na Idade M\u00e9dia e no Renascimento.<\/em> S\u00e3o Paulo: Hucitec, 1987.<\/p>\n<p><sup>2<\/sup> GINZBURG, Carlo. <em>O queijo e os vermes: o cotidiano e as ideias de um moleiro perseguido pela Inquisi\u00e7\u00e3o.<\/em> S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 1987.<\/p>\n<p><sup>3<\/sup> BELLEMIN-NOEL, Jean. Avant-texte et lecture psychanalytique. <em>Avant-texte, texte, apr\u00e8s-texte.<\/em> Paris: CNRS; Budapeste: Akad\u00e9miai Kiad\u00f3, 1982 (Colloque international de textologie \u00e0 M\u00e1traf\u00fcred, 13-16 octobre, 1978.)<\/p>\n<p><sup>4<\/sup> BENJAMIN, Walter. A obra de arte na \u00e9poca de suas t\u00e9cnicas de reprodu\u00e7\u00e3o. 1. ed. S\u00e3o Paulo: Abril Cultural, 1975. (Os pensadores, v. 48).<\/p>\n<p><sup>5<\/sup> HARDMAN, Francisco Foot. <em>Trem-fantasma: a modernidade na selva.<\/em> S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 1988.<\/p>\n<p><sup>6<\/sup> \u201cO cronista que narra os acontecimentos, sem distinguir entre os grandes e os pequenos, leva em conta a verdade de que nada do que um dia aconteceu pode ser considerado perdido pela hist\u00f3ria.\u201d Walter Benjamin, \u2018Sobre o conceito de hist\u00f3ria\u2019, em <em>Magia e t\u00e9cnica, arte e pol\u00edtica: ensaios sobre literatura e hist\u00f3ria da cultura.<\/em> S\u00e3o Paulo: Brasiliense, 1987. p. 223.<\/p>\n<p><sup>7<\/sup> GINZBURG, Carlo. Op. cit., p. 28.<\/p>\n<p><sup>8<\/sup> WILLEMART, Philippe. Ainda o prototexto: argumentos para um novo campo de pesquisa. <em>Folha de S. Paulo, <\/em>S\u00e3o Paulo, 24 jun. 1984. Folhetim, p. 10.<\/p>\n<p><sup>9<\/sup> REICH, Wilhelm. <em>Psicologia di massa del fascismo<\/em> (1933). Mil\u00e3o: Sugar, 1971.<\/p>\n<p><sup>10<\/sup> BORGES, Jorge Luis. O jardim dos caminhos que se bifurcam. In: \u00ad\u00ad_____. <em>Fic\u00e7\u00f5es.<\/em>, S\u00e3o Paulo: Abril Cultural, 1972.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A biblioteca como met\u00e1fora Maria Zilda Ferreira Cury &nbsp; Sei de uma regi\u00e3o agreste cujos bibliotec\u00e1rios repudiam o costume supersticioso e v\u00e3o de procurar sentido nos livros e o equiparam ao de procur\u00e1-lo nos sonhos ou nas linhas ca\u00f3ticas da m\u00e3o&#8230; \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Jorge Luis Borges &nbsp; &nbsp; Aproveitando a oportunidade da doa\u00e7\u00e3o do acervo de [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":12,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[1910],"tags":[2723,2724,1711,2726,118],"class_list":["post-22014","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-complementar-interno","tag-depoimento","tag-fortuna-critica","tag-henriqueta-lisboa","tag-maria-zilda-ferreira-cury","tag-poesia"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.5 - 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