{"id":22019,"date":"2020-09-30T08:03:47","date_gmt":"2020-09-30T11:03:47","guid":{"rendered":"https:\/\/www.editorapeiropolis.com.br\/?p=22019"},"modified":"2020-09-30T08:03:47","modified_gmt":"2020-09-30T11:03:47","slug":"presenca-de-henriqueta-angela-vaz-leao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.editorapeiropolis.com.br\/antigo\/presenca-de-henriqueta-angela-vaz-leao\/","title":{"rendered":"Presen\u00e7a de Henriqueta: \u00c2ngela Vaz Le\u00e3o"},"content":{"rendered":"<h6>Henriqueta Lisboa, leitora e tradutora de Dante<\/h6>\n<h5><em>\u00c2ngela Vaz Le\u00e3o<\/em><\/h5>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Minha participa\u00e7\u00e3o na Semana Henriqueta Lisboa se deve antes de tudo, estou certa, \u00e0 gentileza da comiss\u00e3o organizadora, encabe\u00e7ada por tr\u00eas colegas e amigas: Mel\u00e2nia Silva Aguiar, diretora da Faculdade de Letras da UFMG; Abigail de Oliveira Carvalho, curadora do esp\u00f3lio liter\u00e1rio e cultural de Henriqueta Lisboa; e Eneida Maria de Souza, presidente da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Literatura Comparada. A elas o meu agradecimento, que se estende aos outros membros da comiss\u00e3o organizadora.<\/p>\n<p>Em segundo lugar, talvez tamb\u00e9m se deva a minha participa\u00e7\u00e3o, pelo menos \u00e9 o que suponho, ao fato de saberem as colegas que, durante certa fase de minha vida profissional, estive muito ligada a Henriqueta Lisboa. Foi, por\u00e9m, um contato intermitente, ou melhor, foram tr\u00eas per\u00edodos de aproxima\u00e7\u00e3o intelectual e eventual coopera\u00e7\u00e3o. O pri- meiro deu-se nos tempos long\u00ednquos em que eu, ainda estudante de letras, mas j\u00e1 professora do Col\u00e9gio Isabela Hendrix, ministrei um curso sobre a sua poesia e criei, com os alunos dos cursos ent\u00e3o chamados cl\u00e1ssico e cient\u00edfico, uma biblioteca de literatura brasileira que se denominou precisamente Biblioteca Henriqueta Lisboa. O segundo veio um pouco mais tarde, quando a substitu\u00ed durante um ano, por solicita\u00e7\u00e3o sua, nas aulas de hist\u00f3ria geral da literatura do curso de biblioteconomia do Instituto Nacional do Livro (INL). E ocorreu o terceiro quando, j\u00e1 transformado esse curso na atual Escola de Biblioteconomia, e transferido do INL para a UFMG, assumi a mesma disciplina (de que ela se exonerara), ap\u00f3s ter-me submetido a concurso p\u00fablico perante banca examinadora presidida por ela mesma. Foram contatos em que o conhecimento da pessoa s\u00f3 fez crescer em mim o respeito e a admira\u00e7\u00e3o que j\u00e1 nutria pela obra de Henriqueta Lisboa.<\/p>\n<p>N\u00e3o posso deixar de lamentar o momento em que os encargos administrativos dentro da UFMG mudaram os rumos de minha atividade intelectual. Afastei-me da Escola de Biblioteconomia, onde ministrava modestamente, por\u00e9m com enorme prazer, as aulas de hist\u00f3ria geral da literatura. Tamb\u00e9m abandonei a literatura francesa, que ensinava em mais de uma institui\u00e7\u00e3o, for\u00e7ada que fui por uma participa\u00e7\u00e3o ativa na reforma universit\u00e1ria e, principalmente, na instala\u00e7\u00e3o e estrutura\u00e7\u00e3o da Faculdade de Letras. Foi isso na virada de 1968 para 1969. Passei a ser absorvida por tarefas universit\u00e1rias que hoje me parecem apenas ancilares. J\u00e1 n\u00e3o tinha tempo sequer para cultivar a boa conversa, quanto mais a literatura. O tempo me mostrou que perdi na troca. Perdi o contato com Henriqueta. Perdi a conviv\u00eancia com a poesia.<\/p>\n<p>Por esse motivo, ao receber o convite para participar desta semana na sua sess\u00e3o de abertura, \u201cMem\u00f3ria de Henriqueta Lisboa\u201d, n\u00e3o achei justo que tomasse o tempo e o lugar de outros que tiveram o privil\u00e9gio de conviver de perto com Henriqueta nos seus \u00faltimos vinte anos de vida, como ocorreu com Ana Elisa Gregori, sua sobrinha e disc\u00edpula, Yeda Prates Bernis, sua filha espiritual e amiga das horas derradeiras, e F\u00e1bio Lucas, seu cr\u00edtico de muitos trabalhos e fiel correspondente. S\u00f3 a eles cabia, no meu entender, a abertura dos trabalhos.<\/p>\n<p>Eis-me, portanto, a participar desta mesma semana, por\u00e9m numa outra sess\u00e3o de estudos. O tema geral se intitula \u201cLeitura e tradu\u00e7\u00e3o\u201d e veio ao encontro de um desejo meu: falar de Henriqueta como leitora e tradutora de Dante. Esse \u00e9, pois, o objetivo da comunica\u00e7\u00e3o que, depois de um depoimento pessoal, passo a fazer.<\/p>\n<p>Se tomarmos o termo \u201ctradu\u00e7\u00e3o\u201d em seu sentido lato, no sentido de \u201cinterpreta\u00e7\u00e3o\u201d, o t\u00edtulo do tema de hoje parece pleon\u00e1stico. N\u00e3o h\u00e1 tradu\u00e7\u00e3o que n\u00e3o seja uma leitura, como n\u00e3o h\u00e1 leitura verdadeira que n\u00e3o seja uma tradu\u00e7\u00e3o. Em outras palavras, leitura e tradu\u00e7\u00e3o se confundem, quando se lhes dilata o sentido. O mesmo j\u00e1 n\u00e3o ocorre se tomarmos o termo \u201ctradu\u00e7\u00e3o\u201d em sentido estrito, isto \u00e9, como \u201ctransposi\u00e7\u00e3o de um texto de uma l\u00edngua para outra\u201d.<\/p>\n<p>Essa forma de tradu\u00e7\u00e3o, tradu\u00e7\u00e3o propriamente dita, Henriqueta Lisboa a praticou com compet\u00eancia rara. Nela investiu o seu dom\u00ednio de algumas l\u00ednguas, o seu poder de ler nas linhas e entrelinhas, a sua sensibilidade po\u00e9tica, o seu compromisso com o ato de criar.<\/p>\n<p>Apesar disso, a atividade de tradutora de Henriqueta Lisboa n\u00e3o tem tido o destaque que merece. O padre Lauro Pal\u00fa, um dos estudiosos da obra de Henriqueta, inicia o seu curto pref\u00e1cio para a colet\u00e2nea de ensaios <em>Viv\u00eancia po\u00e9tica<\/em>com a seguinte frase: \u201cH\u00e1 tr\u00eas caminhos para conhecer Henriqueta Lisboa\u201d. Segundo ele, esses caminhos s\u00e3o a poesia, os ensaios e os ensaios autoexeg\u00e9ticos. Entre estes \u00faltimos, destaca-se o depoimento inicial de <em>Viv\u00eancia po\u00e9tica<\/em>, intitulado: \u201cPoesia: minha profiss\u00e3o de f\u00e9\u201d. Ap\u00f3s pequenos par\u00e1grafos dedicados a esses tr\u00eas caminhos, o padre Pal\u00fa fecha o pref\u00e1cio como o come\u00e7ara, ampliando, por\u00e9m, com o verbo \u201camar\u201d, a ora\u00e7\u00e3o reduzida de infinitivo: \u201cTr\u00eas caminhos para conhecer e amar Henriqueta Lisboa\u201d<sup>1<\/sup>.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 refer\u00eancia a\u00ed a um quarto caminho poss\u00edvel \u2013 o da tradu\u00e7\u00e3o. Mas a falta, ao que parece, pode explicar-se: a tradu\u00e7\u00e3o estaria impl\u00edcita na poesia, pois quem traduz poesia, na realidade faz poesia. O primeiro caminho apontado pelo padre Pal\u00fa, o da poesia, incluiria, pois, tamb\u00e9m as tradu\u00e7\u00f5es po\u00e9ticas feitas por Henriqueta Lisboa.<\/p>\n<p>Passemos, por\u00e9m, ao pr\u00f3prio ensaio de Henriqueta Lisboa, \u201cPoesia: minha profiss\u00e3o de f\u00e9\u201d. Trata-se, originariamente, de confer\u00eancia proferida em Bras\u00edlia, a convite da Funda\u00e7\u00e3o Cultural do Distrito Federal, ao ensejo do XII Encontro Nacional de Escritores, em abril de 1978. Nesse trabalho, que o padre Lauro Pal\u00fa classifica, como j\u00e1 vimos, entre os denominados \u201censaios autoexeg\u00e9ticos&#8221;, Henriqueta Lisboa estuda a pr\u00f3pria poesia. Numa primeira parte exp\u00f5e, em teoria, o seu ide\u00e1rio po\u00e9tico, isto \u00e9, suas convic\u00e7\u00f5es a respeito da cria\u00e7\u00e3o po\u00e9tica, da palavra, do ritmo, da musicalidade, da rima, da imagem, do motivo, da representa\u00e7\u00e3o. Numa segunda parte, trata concretamente da pr\u00f3pria obra, comentando os temas recorrentes e situando de forma cr\u00edtica cada um de seus livros de poesia, desde <em>Vel\u00e1rio<\/em> at\u00e9 <em>Reverbera\u00e7\u00f5es<\/em>. Pois bem. Tamb\u00e9m a\u00ed n\u00e3o h\u00e1 a mais leve alus\u00e3o a tradu\u00e7\u00f5es, ou melhor, ao trabalho da cria\u00e7\u00e3o po\u00e9tica que realizou em suas tradu\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Por que motivo estariam as tradu\u00e7\u00f5es ausentes da autoan\u00e1lise de Henriqueta, em t\u00e3o importante texto metapo\u00e9tico? Consideraria a tradu\u00e7\u00e3o como um trabalho menor? Ou n\u00e3o veria nela um trabalho de cria\u00e7\u00e3o, pelo simples fato de as ideias pertencerem ao autor do texto original? Imposs\u00edvel encontrar, at\u00e9 agora, a resposta de Henriqueta a essas perguntas.<\/p>\n<p>Tratemos n\u00f3s, ent\u00e3o, de refletir sobre as implica\u00e7\u00f5es que elas cont\u00eam, ou, mais explicitamente, tentemos situar o ato de traduzir em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 cria\u00e7\u00e3o po\u00e9tica. Para faz\u00ea-lo, sugiro que pe\u00e7amos ajuda a tr\u00eas grandes escritores: um brasileiro dos nossos dias e dois franceses velhos de alguns s\u00e9culos.<\/p>\n<p>O brasileiro de hoje \u00e9 Mill\u00f4r Fernandes, que, com a inten\u00e7\u00e3o de prefaciar a sua pr\u00f3pria tradu\u00e7\u00e3o do <em>Hamlet,<\/em> diz:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00c9 evidente que traduzir o <em>Hamlet<\/em> \u00e9 mais dif\u00edcil do que escrever o <em>Hamlet<\/em>. Fique claro que n\u00e3o quero dizer mais importante. Mas reescrever a pe\u00e7a \u2013 a mesma pe\u00e7a numa outra l\u00edngua, 384 anos depois \u2013 \u00e9 como escrever amarrado, segurando a caneta com a boca ou batendo na m\u00e1quina com a ponta do nariz.?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A tradu\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9, pois, um trabalho menor. Pela sua fun\u00e7\u00e3o, quando cumprida, e pela sua dificuldade inerente, quando vencida, eleva-se a tradu\u00e7\u00e3o, em princ\u00edpio, ao mesmo n\u00edvel da obra original. Em princ\u00edpio, disse eu. Porque, na pr\u00e1tica, tanto pode n\u00e3o atingir o n\u00edvel do original quanto pode ultrapass\u00e1-lo. \u00c9 conhecida a blague de um humorista norte-americano, segundo o qual haveria dois escritores chamados Edgar Allan Poe: um, norte-americano, razoavelmente med\u00edocre; e outro, franc\u00eas, genial \u2013 o Poe traduzido e regenerado por Baudelaire e Mallarm\u00e9<sup>3<\/sup>.<\/p>\n<p>Os franceses de outrora s\u00e3o Buffon e Pascal, dos s\u00e9culos XVIII e XVII respectivamente.<\/p>\n<p>Buffon, ao ser recebido na Academia Francesa, profere o c\u00e9lebre <em>\u201cDiscours sur le style\u201d<\/em>, de onde se tem retirado e deturpado a frase <em>&#8220;Le style est l&#8217;homme m\u00eame<\/em>&#8220;<sup>4<\/sup>. Citada assim, fora do contexto, tem sido levada a significar que o estilo reflete o car\u00e1ter, revela o temperamento do autor. Reintegrada no contexto, por\u00e9m, significa que o estilo permite ao autor imprimir sua marca pessoal ao pensamento, ou, ainda, que o estilo pertence ao autor, enquanto o resto pode vir-lhe de fora. O pensamento pode, pois, ser um s\u00f3. Mas, exprimindo-o com seus estilos pessoais, dois autores lhe imprimir\u00e3o marcas pessoais.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 diferente o que se l\u00ea em Pascal, numa verdadeira teoria do estilo, que se acha disseminada nos <em>Pensamentos<\/em>. Imitar um modelo, pensa Pascal (ou traduzir uma obra, dir\u00edamos n\u00f3s), n\u00e3o implica falta de originalidade. Em outras palavras, a originalidade fica por conta do estilo: essa \u00e9 a ideia que se esclarece atrav\u00e9s do exemplo do <em>jeu de paume: &#8220;quand on joue \u00e0 la paume, c&#8217;est une m\u00eame balle dont joue l&#8217;un et l&#8217;autre, mais l&#8217;un la place le mieux<\/em>\u201d<sup>5<\/sup>. Poder\u00edamos traduzir o franc\u00eas de Pascal para o portugu\u00eas do Brasil de hoje \u2013 lugar e \u00e9poca em que n\u00e3o se conhece o <em>\u201cjeu de paume\u201d<\/em>, mas onde o futebol \u00e9 familiar a todo o povo. E a tradu\u00e7\u00e3o, para ser bem intelig\u00edvel a um brasileiro de hoje, poderia talvez ficar assim: \u201cquando se joga futebol, \u00e9 a mesma bola que os jogadores utilizam, mas um a coloca melhor que o outro\u201d, ou, em outras palavras, cada um a coloca a seu jeito.<\/p>\n<p>Da mesma forma, quando se traduz, ainda que se queira transpor o mesmo conte\u00fado (o que dificilmente ocorre, ali\u00e1s), isso n\u00e3o impede que o trabalho do tradutor seja uma verdadeira cria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Traduzir \u00e9 uma tarefa complexa, em que, atrav\u00e9s de um processo interpretativo, se busca uma equival\u00eancia de sentido, com solu\u00e7\u00f5es estil\u00edsticas criativas. A tradu\u00e7\u00e3o tem sido, dessa forma, para muitos grandes poetas, um momento de descoberta e inven\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>E assim foi, creio, no caso de Henriqueta Lisboa, que leu, leu muito, leu copiosamente, antes de traduzir. Fazia da leitura um exerc\u00edcio de aproxima\u00e7\u00e3o, deixando-se guiar pelo jogo das afinidades espirituais. E eram essas que ditavam sua escolha final, sua escolha para a perman\u00eancia. Henriqueta traduziu daqui e dali, mas fez parada em dois grandes poetas: Dante Alighieri e Gabriela Mistral. A afinidade com Gabriela vinha da poesia e do magist\u00e9rio. A afinidade com Dante residia na religi\u00e3o e na poesia.<\/p>\n<p>As circunst\u00e2ncias desta sess\u00e3o de estudos me obrigam a fazer, tamb\u00e9m eu, uma escolha. Falarei apenas da tradu\u00e7\u00e3o de Dante e procurarei faz\u00ea-lo brevemente.<\/p>\n<p>Em 1965, o Instituto Cultural \u00cdtalo-Brasileiro, de S\u00e3o Paulo, comemorou o s\u00e9timo centen\u00e1rio do nascimento de Dante com uma s\u00e9rie de confer\u00eancias cuja unidade estava no seu objeto \u2013 a (Divina) Com\u00e9dia \u2013 e na forma de abordagem da obra: n\u00e3o a de um estudo cr\u00edtico, mas a de um depoimento pessoal sobre a descoberta da obra e sobre a experi\u00eancia emocional da leitura. O que se pedia era o testemunho autobiogr\u00e1fico do conferencista a respeito de seu di\u00e1logo com Dante. Foram convidadas, dos mais diferentes setores, figuras expressivas da cultura brasileira, incluindo-se poetas, romancistas, cr\u00edticos, historiadores, juristas, fil\u00f3sofos.<\/p>\n<p>Henriqueta Lisboa, que j\u00e1 vinha traduzindo o \u201cPurgat\u00f3rio\u201d, foi convidada para abrir o ciclo de estudos, como se v\u00ea pela ordem dos artigos na publica\u00e7\u00e3o intitulada <em>O meu Dante.<\/em> Leiamos os seus per\u00edodos iniciais:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Com toda a pureza de sua ess\u00eancia, espelho partido \u00e9 sempre espelho, em cada uma das part\u00edculas refletoras.<\/p>\n<p>Contemplado, bafejado, esquadrinhado, percutido e perquerido em suas facetas, esse monumental retrato da humanidade que \u00e9 a <em>Divina com\u00e9dia<\/em> conserva a mesma limpidez de h\u00e1 sete s\u00e9culos. (p. 9)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Numa imagem bel\u00edssima, que ouso interpretar assumindo o risco de quebrar-lhe o teor po\u00e9tico, Henriqueta justifica, de certa forma, a sua escolha: s\u00e3o as qualidades intr\u00ednsecas da <em>Divina com\u00e9dia<\/em> (\u201ca pureza de sua ess\u00eancia\u201d) que explicam a sua perman\u00eancia atrav\u00e9s dos s\u00e9culos (\u201cespelho partido \u00e9 sempre espelho&#8221;), a sua perenidade (\u201csempre\u201d&#8230; \u201cesquadrinhado, percutido e perquerido\u201d), a sua validade universal (\u201cmonumental retrato da humanidade\u201d) e, portanto, a sua modernidade (\u201cconserva a mesma limpidez de h\u00e1 sete s\u00e9culos\u201d).<\/p>\n<p>Henriqueta faz em seguida um relato comovido de suas primeiras not\u00edcias de Dante, ainda na meninice: not\u00edcias vagas de \u201cum homem que havia conhecido o inferno por dentro\u201d, ouvidas talvez das camadas de imigrantes italianos que colonizavam o sul de Minas e se integravam na popula\u00e7\u00e3o de uma cidadezinha do interior.<\/p>\n<p>V\u00eam, tempos depois, as tentativas de leitura do texto em tradu\u00e7\u00e3o portuguesa, durante a mocidade, j\u00e1 ap\u00f3s o col\u00e9gio de religiosas francesas. Foram numerosas tentativas, todas elas sucessivamente abandonadas: o texto, com suas \u201cdificultosas invers\u00f5es estil\u00edsticas\u201d, devia ser mesmo rebarbativo. Era possivelmente a tradu\u00e7\u00e3o do bar\u00e3o da Vila da Barra, talvez, a \u00fanica dispon\u00edvel na biblioteca da fam\u00edlia.<\/p>\n<p>J\u00e1 \u00e0 beira da desist\u00eancia, depara Henriqueta com a tradu\u00e7\u00e3o de um canto do \u201cInferno\u201d por Machado de Assis. O trecho escolhido por Machado n\u00e3o era muito simp\u00e1tico a Henriqueta. Teve, por\u00e9m, diz ela, \u201co cond\u00e3o de estimular-me para o confronto\u201d. Foi da\u00ed que nasceu o encanto, como declara:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A simetria da estrutura, para quem sempre amou a ordem, com a organiza\u00e7\u00e3o dos tercetos e das tr\u00eas rimas encadeadas como elos de corrente, foi decisiva para que eu me aproximasse de Dante. (p. 10)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Esse depoimento me parece eloquente, pela prova que nos d\u00e1 da fun\u00e7\u00e3o motivadora de uma boa tradu\u00e7\u00e3o. O que ela n\u00e3o esclarece \u2013 nem podia faz\u00ea-lo \u2013 \u00e9 o conceito de boa tradu\u00e7\u00e3o. Diga-se, entre par\u00eanteses, que a qualidade de uma tradu\u00e7\u00e3o parece associar-se \u00e0s respostas que se possam dar a algumas perguntas fundamentais: quem traduziu? O que traduziu? Como traduziu? = Voltando \u00e0 hist\u00f3ria desse di\u00e1logo entre Henriqueta e Dante, veio em seguida nova tentativa de leitura da tradu\u00e7\u00e3o portuguesa dispon\u00edvel (talvez, como j\u00e1 disse, a do bar\u00e3o da Vila da Barra). A leitura foi novamente interrompida e trocada pela tradu\u00e7\u00e3o espanhola integral de Bartolomeu Mitre. A essa altura, Henriqueta j\u00e1 tinha contatos v\u00e1rios com textos italianos, mais precisamente romances italianos, no original. Mas foi a tradu\u00e7\u00e3o espanhola que a encorajou a enfrentar, de novo, o original da <em>Divina com\u00e9dia<\/em>. Ou\u00e7amo-la:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ao encontrar a tradu\u00e7\u00e3o integral de Bartolomeu Mitre para o espanhol, animei-me de novo a desbravar, em confronta\u00e7\u00e3o de p\u00e1gina a p\u00e1gina, a edi\u00e7\u00e3o comentada por Scartazzini. Ent\u00e3o avancei para o \u201cPurgat\u00f3rio\u201d. Havia chegado o momento. Enamorei-me do \u201cPurgat\u00f3rio\u201d, deslumbrada diante de t\u00e3o grave beleza e serena poesia. Dificilmente o abandonarei em troca do \u201cPara\u00edso\u201d. \u00c9 o cl\u00edmax da <em>Divina com\u00e9dia,<\/em> a meu ver. \u00c9 a hora da consci\u00eancia a refletir-se na translucidez do m\u00e1rmore, a debater-se fosca nas arestas do rochedo confessional, a receber no rubor sangrento da aurora o perd\u00e3o de seus descaminhos. \u00c9 a hora da responsabilidade que dignifica, da justi\u00e7a que se cumpre, do claro reconhecimento da destina\u00e7\u00e3o humana. (p. 10)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Quem j\u00e1 leu o \u201cPurgat\u00f3rio\u201d situa logo algumas das alus\u00f5es po\u00e9ticas de Henriqueta: \u201chora da consci\u00eancia\u201d, \u201carestas do rochedo confessional\u201d, \u201co perd\u00e3o de seus descaminhos\u201d. Trata-se do canto IX, um dos mais belos de todo o \u201cPurgat\u00f3rio\u201d, se n\u00e3o de todo o poema.<\/p>\n<p>Pode-se percorrer, assim, o itiner\u00e1rio progressivo das escolhas que revelam as prefer\u00eancias de Henriqueta: entre os poetas, Dante; entre as obras de Dante, a <em>Divina com\u00e9dia<\/em>; entre as tr\u00eas partes do poema, o \u201cPurgat\u00f3rio\u201d; entre os 33 cantos do \u201cPurgat\u00f3rio\u201d, o IX. Dispenso-me de comentar, tanto em rela\u00e7\u00e3o a Dante quanto em rela\u00e7\u00e3o a Henriqueta, o que isso poderia significar em termos de simbologia num\u00e9rica.<\/p>\n<p>Fique, por\u00e9m, assinalada a cadeia sucessiva de escolhas que, embora n\u00e3o declarada, culmina com o canto IX do \u201cPurgat\u00f3rio\u201d. \u00c9 o que se depreende dos impl\u00edcitos da confer\u00eancia de Henriqueta, que, explicitamente, justifica apenas sua prefer\u00eancia pela segunda parte da <em>Divina com\u00e9dia<\/em>. Ali\u00e1s, dando continuidade, por longos anos, ao seu trabalho de leitura de Dante, Henriqueta chega a publicar o volume <em>Cantos de Dante<\/em>, com a tradu\u00e7\u00e3o de dez cantos do \u201cPurgat\u00f3rio\u201d<sup>7<\/sup>.<\/p>\n<p>Gostaria de dispor de tempo para fazer aqui e agora um confronto estil\u00edstico entre o original e a tradu\u00e7\u00e3o do canto IX. Ou pelo menos de parte dele, at\u00e9 o momento em que os caminhantes deixam o antepurgat\u00f3rio e se preparam para entrar no reino do purgat\u00f3rio. Dante faz, ent\u00e3o, uma pequena pausa narrativa (apenas um terceto) para dirigir-se ao leitor, chamando-lhe a aten\u00e7\u00e3o para o tom elevado que conv\u00e9m ao assunto. Eis a <em>terzina<\/em> de Dante e o terceto correspondente de Henriqueta:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Lettor, tu vedi ben com&#8217;io innalzo <\/em><\/p>\n<p><em>la mia materia, e per\u00f2 con pi\u00f9 arte <\/em><\/p>\n<p><em>non ti maravigliar s&#8217;io la rincalzo. <\/em>(p. 48, v. 70-72)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>V\u00eas, leitor, que enalte\u00e7o com voz pura<\/p>\n<p>o assunto; n\u00e3o te admires se mais arte<\/p>\n<p>trouxer a esta mensagem porventura. (p. 49)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00c9 uma pausa moderna, como se v\u00ea. Fazendo um apelo ao leitor, o poeta o torna participante da narrativa, presta-lhe conta da eleva\u00e7\u00e3o de tom que o assunto exige, previne-o de que o canto poder\u00e1 enaltecer-se com mais arte ainda. Dante mostra-se consciente de que o texto constitui um lugar de encontro entre duas sensibilidades. Com efeito, o ato da escrita se complementa com o ato da leitura.<\/p>\n<p>Se pela fala direta ao leitor o trecho cumpre a fun\u00e7\u00e3o conativa da linguagem, tamb\u00e9m exerce a sua fun\u00e7\u00e3o metalingu\u00edstica quando assinala a eleva\u00e7\u00e3o do estilo, em conson\u00e2ncia com a eleva\u00e7\u00e3o do assunto. Simplesmente por esse terceto, j\u00e1 se pode ver, pois, outra afinidade entre o poeta e sua tradutora: a preocupa\u00e7\u00e3o com o fazer po\u00e9tico, a tend\u00eancia para a autoan\u00e1lise, a consci\u00eancia das formas lingu\u00edsticas, cultivada por dever de of\u00edcio. Henriqueta, em v\u00e1rios ensaios, se debru\u00e7ou sobre a pr\u00f3pria obra, seus problemas est\u00e9ticos e de linguagem, como fizera Dante na <em>Vita nuova<\/em>, no <em>De vulgari eloquentia<\/em> e em passagens da <em>Divina com\u00e9dia<\/em>, tal o terceto que acabo de citar. Esse tra\u00e7o da obra do genial poeta florentino n\u00e3o poderia escapar a Haroldo de Campos, para quem Dante \u00e9 n\u00e3o apenas o criador \u201cde um dos maiores poemas de que foi capaz o esp\u00edrito humano\u201d, mas \u201cum poeta estranhamente preocupado com o seu of\u00edcio, que em mais de uma oportunidade refletiu e teorizou criticamente sobre problemas de composi\u00e7\u00e3o po\u00e9tica e de linguagem\u201d. O mesmo tra\u00e7o da obra de Henriqueta Lisboa tamb\u00e9m n\u00e3o escapou aos seus cr\u00edticos, que j\u00e1 t\u00eam dado destaque tanto aos seus textos de autoan\u00e1lise quanto aos seus metapoemas, em que o impulso criador se faz mat\u00e9ria da pr\u00f3pria cria\u00e7\u00e3o. N\u00e3o surpreende, pois, que, com tantas afinidades, a brasileira do s\u00e9culo XX se pusesse a traduzir o italiano dos s\u00e9culos XIII e XIV.<\/p>\n<p>O que surpreende \u00e9 que o tenha feito em estilo t\u00e3o seu e, ao mesmo tempo, t\u00e3o dantesco. Pode-se ver isso, por exemplo, num breve confronto entre o original e a tradu\u00e7\u00e3o, no in\u00edcio do canto IX.<\/p>\n<p>Do estilo do poema sacro, Henriqueta conserva os tra\u00e7os formais, isto \u00e9, a estrofe (<em>terzina<\/em> ou terceto), o metro (decass\u00edlabo) e o esquema r\u00edmico (a-b-a\/b-c-b\/c-d-c\/d-e-d\/ etc.). As rimas s\u00e3o alternadas, estabelecendo-se a equival\u00eancia sonora entre as \u00faltimas s\u00edlabas do segundo verso de uma estrofe e as do primeiro e do terceiro versos da estrofe seguinte. Assim, cada rima se constitui n\u00e3o de um par, mas de um terno, em versos alternados, ultrapassando sempre o limite da estrofe, isto \u00e9, soldando as estrofes umas \u00e0s outras, do in\u00edcio ao fim do canto. Assim fez Dante, assim fez Henriqueta.<\/p>\n<p>N\u00e3o se pense, por\u00e9m, que essa esp\u00e9cie de camisa de for\u00e7a, ou melhor, esse constrangimento formal tenha impedido, na tradu\u00e7\u00e3o, o voo livre da poesia. Embora tamb\u00e9m a fidelidade ao assunto tenha sido perfeita, a tradu\u00e7\u00e3o est\u00e1 muito longe de ser literal: preservam-se, dentro da equival\u00eancia, a unidade e a identidade do texto de Henriqueta.<\/p>\n<p>As estruturas sint\u00e1ticas s\u00e3o outras, do que se tem a prova inicial num r\u00e1pido exame da pontua\u00e7\u00e3o, distinta nos dois textos, muitas vezes at\u00e9 mesmo no limite entre as estrofes. O vocabul\u00e1rio, quando h\u00e1 sin\u00f4nimos cognatos no italiano e no portugu\u00eas, tamb\u00e9m sofre mudan\u00e7as \u2013 o que se deve ora \u00e0 diacronia divergente das duas l\u00ednguas no plano sem\u00e2ntico, ora \u00e0 sensibilidade de Henriqueta. Sirva de exemplo, no primeiro verso, a substitui\u00e7\u00e3o de <em>\u201cconcubina\u201d<\/em> por \u201ccompanheira\u201d, numa per\u00edfrase mitol\u00f3gica que designa a aurora:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>La concubina di Titone antico. <\/em>(p. 44, v. 1)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A companheira de Tit\u00e3o o Antigo. (p. 45)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Os dois substantivos, existentes ambos no portugu\u00eas, se equivalem quer no sentido, quer no n\u00famero de s\u00edlabas. N\u00e3o \u00e9, pois, uma exig\u00eancia da sem\u00e2ntica ou da m\u00e9trica que determina a op\u00e7\u00e3o de Henriqueta por \u201ccompanheira\u201d, mas simplesmente a sua prefer\u00eancia por uma palavra que talvez lhe tenha parecido menos chocante ou mais po\u00e9tica.<\/p>\n<p>Uma compara\u00e7\u00e3o de estruturas sint\u00e1ticas revela que, no estilo de Henriqueta, aparecem predicados verbais, com verbos de a\u00e7\u00e3o em forma ativa, onde o texto de Dante se faz com predicados nominais (verbos de liga\u00e7\u00e3o + predicativos) ou estruturas nominais de outro tipo (sintagmas nominais ou sintagmas adverbiais). Vejamos, com grifo meu nas diferen\u00e7as estruturais apontadas, alguns exemplos de versos em que a publica\u00e7\u00e3o bil\u00edngue conserva a ortografia italiana arcaica, de edi\u00e7\u00e3o original n\u00e3o mencionada:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>fuor de le braccia del suo dolce amico. \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 (v. 3)<\/p>\n<p>deixando os bra\u00e7os de seu doce amigo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Di gemme la sua fronte era lucente\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 (v. 4)<\/p>\n<p>Trazia sobre a fronte uma luzente \/ (joia)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>forse a memoria de&#8217;suoi primi guai, \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 (v. 15)<\/p>\n<p>a recordar, talvez, de outrora o pranto<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>pi\u00f9 dalla carne e men dai pensier presa, \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 (v. 17)<\/p>\n<p>al\u00e9m da carne ascende e j\u00e1 n\u00e3o pensa<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Para n\u00e3o alongar-me mais do que o necess\u00e1rio, passo a um verso no meio do canto e a toda uma estrofe j\u00e1 no final:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>cominci\u00f2 egli a dire: \u201cOv&#8217;\u00e8 la scorta? \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 (v. 86)<\/p>\n<p>\u2013 \u00a0perguntou ele \u2013 Quem vos acompanha?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>E quando fur sui cardini distorti \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 (v. 133-135)<\/p>\n<p>gli spigoli di quella regge sacra,<\/p>\n<p>che di metallo son sonanti e forti, (&#8230;)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Quando nos gonzos por sagradas leis<\/p>\n<p>se deslocou de sua posi\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>tal estrondo met\u00e1lico ela fez (&#8230;)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Os limites sensatos de uma comunica\u00e7\u00e3o n\u00e3o me permitem continuar o confronto estil\u00edstico entre outros tra\u00e7os estruturais da tradu\u00e7\u00e3o e do original. Com base na compara\u00e7\u00e3o de um \u00fanico tra\u00e7o (estruturas verbais da tradu\u00e7\u00e3o, em vez de estruturas nominais do original), portanto de forma prec\u00e1ria, sujeita ainda \u00e0 confirma\u00e7\u00e3o em outros elementos do estilo, ouso dizer que o texto de Henriqueta nos d\u00e1 uma impress\u00e3o de maior vida nos quadros, maior dinamismo nas cenas, enquanto o de Dante nos sugere um ambiente mais est\u00e1tico, mais prop\u00edcio \u00e0 contempla\u00e7\u00e3o. S\u00e3o estilos diferentes, mas ambos de grandes poetas.<\/p>\n<p>Em conclus\u00e3o, Henriqueta Lisboa realizou, na tradu\u00e7\u00e3o de alguns cantos do \u201cPurgat\u00f3rio\u201d, uma verdadeira proeza. Setecentos anos de dist\u00e2ncia tornam qualquer tradu\u00e7\u00e3o, j\u00e1 de si dif\u00edcil, um verdadeiro desafio. A l\u00edngua italiana nascente, balbuciante, sofrendo a concorr\u00eancia de numeros\u00edssimos dialetos, \u00e9 a f\u00f4rma de que cumpre tirar o poema, para recri\u00e1-lo na f\u00f4rma da l\u00edngua portuguesa do s\u00e9culo XX, e do Brasil. Salto temporal de gigante, modelagem artesanal de fada! E o \u201cPurgat\u00f3rio\u201d ressurge, recriado, como mais um fragmento daquele espelho partido do qual fala Henriqueta Lisboa, fragmento que n\u00e3o perdeu a limpidez nem a capacidade refletora de sua matriz secular. Tudo \u00e9 poss\u00edvel, no reino da Poesia!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><sup>1<\/sup> LISBOA, Henriqueta. <em>Viv\u00eancia po\u00e9tica.<\/em> Belo Horizonte: S\u00e3o Vicente, 1979. p. 7.<\/p>\n<p><sup>2<\/sup> FERNANDES, Mill\u00f4r. Hamlet \u2013 A tradu\u00e7\u00e3o. <em>34 Letras<\/em>, n. 3, mar. 1989.<\/p>\n<p><sup>3<\/sup> Informa\u00e7\u00e3o colhida em BRUNEL, P.; PICHOIS, Cl.; ROUSSEAU, A.-M. <em>Qu&#8217;est-ce que la litt\u00e9rature compar\u00e9e.<\/em> Paris: Armand-Colin, 1983. p. 43.<\/p>\n<p><sup>4<\/sup> BUFFON. Discours sur le style. Apud LAGARDE, Andr\u00e9 e MICHARD, Laurent. <em>XVIIIe si\u00e8cle: les grands auteurs fran\u00e7ais du programme.<\/em> Paris: Bordas, 1985. p. 257-258.<\/p>\n<p><sup>5<\/sup> PASCAL. <em>Les pens\u00e9es. <\/em>Apud LAGARDE, Andr\u00e9 e MICHARD, Laurent. <em>XVIIIe<\/em> <em>si\u00e8cle: les grands auteurs fran\u00e7ais du programme<\/em>. Paris: Bordas, 1985. p. 143.<\/p>\n<p><sup>6<\/sup> LISBOA, Henriqueta et al. <em>O meu Dante.<\/em> S\u00e3o Paulo: Instituto Cultural \u00cdtalo-Brasileiro. Caderno n. 5, 1965, p. 9-20. (As cita\u00e7\u00f5es seguintes, tomadas a essa obra, v\u00e3o acompanhadas do n\u00famero da p\u00e1gina, entre par\u00eanteses.)<\/p>\n<p><sup>7<\/sup> LISBOA, Henriqueta. <em>Cantos de Dante.<\/em> S\u00e3o Paulo: Instituto Cultural \u00cdtalo-Brasileiro. Caderno n. 7, 1969. Trata-se de edi\u00e7\u00e3o bil\u00edngue, sem indica\u00e7\u00e3o da edi\u00e7\u00e3o utilizada para a transcri\u00e7\u00e3o dos cantos do \u201cPurgat\u00f3rio\u201d (cantos I, II, VIII, IX, X, XI, XII, XXVII, XXVIII, XXIX). A cita\u00e7\u00e3o seguinte, contida no meu texto (terceto 24 do canto IX), foi retirada dessa edi\u00e7\u00e3o bil\u00edngue, da qual indico as p\u00e1ginas entre par\u00eanteses. Em outras cita\u00e7\u00f5es posteriores de versos isolados ou de estrofe, indico o n\u00famero de cada verso, sempre do canto IX, p. 44-53, da obra citada.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Henriqueta Lisboa, leitora e tradutora de Dante \u00c2ngela Vaz Le\u00e3o &nbsp; Minha participa\u00e7\u00e3o na Semana Henriqueta Lisboa se deve antes de tudo, estou certa, \u00e0 gentileza da comiss\u00e3o organizadora, encabe\u00e7ada por tr\u00eas colegas e amigas: Mel\u00e2nia Silva Aguiar, diretora da Faculdade de Letras da UFMG; Abigail de Oliveira Carvalho, curadora do esp\u00f3lio liter\u00e1rio e cultural [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":12,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[1910],"tags":[2729,2727,2723,2724,1711,118,2728],"class_list":["post-22019","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-complementar-interno","tag-angela-vaz-leao","tag-dante","tag-depoimento","tag-fortuna-critica","tag-henriqueta-lisboa","tag-poesia","tag-traducao"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.5 - 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