{"id":22021,"date":"2020-09-30T08:05:33","date_gmt":"2020-09-30T11:05:33","guid":{"rendered":"https:\/\/www.editorapeiropolis.com.br\/?p=22021"},"modified":"2020-09-30T08:05:33","modified_gmt":"2020-09-30T11:05:33","slug":"presenca-de-henriqueta-fabio-lucas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.editorapeiropolis.com.br\/antigo\/presenca-de-henriqueta-fabio-lucas\/","title":{"rendered":"Presen\u00e7a de Henriqueta: F\u00e1bio Lucas"},"content":{"rendered":"<h6>Lembran\u00e7a de Henriqueta Lisboa<\/h6>\n<h5><em>F\u00e1bio Lucas<\/em><\/h5>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Muito comedida nas suas exterioriza\u00e7\u00f5es, o que mais importa em Henriqueta Lisboa \u00e9 a sua intimidade. Na verdade, toda a sua obra documenta precisamente a sua intimidade, em que o confessional ora se disfar\u00e7a, ora se explicita.<\/p>\n<p>Al\u00e9m da atividade criadora propriamente dita, que se inicia com <em>Enternecimento <\/em>(Rio de Janeiro, Pongetti, 1929) e se prolonga at\u00e9 <em>Pousada do ser <\/em>(Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1982), dedicou-se tamb\u00e9m \u00e0 tradu\u00e7\u00e3o de poetas, como Dante e Gabriela Mistral, e ao coment\u00e1rio cr\u00edtico de autores, como Alphonsus de Guimaraens <em>(Alphonsus de Guimaraens<\/em>, Rio de Janeiro, Agir, 1945), a quem dedicou um trabalho de interpreta\u00e7\u00e3o, e a v\u00e1rios outros poetas, tanto nacionais quanto estrangeiros, como se v\u00ea nos livros <em>Conv\u00edvio po\u00e9tico <\/em>(Belo Horizonte, Secretaria de Estado da Educa\u00e7\u00e3o, 1955), <em>Vig\u00edlia po\u00e9tica <\/em>(Belo Horizonte, Imprensa Oficial, 1968) e <em>Viv\u00eancia po\u00e9tica <\/em>(Belo Horizonte, Imprensa Oficial, 1979).<\/p>\n<p>Sem contar os poetas j\u00e1 citados \u2013 Dante, Mistral e Alphonsus \u2013, teve especial afei\u00e7\u00e3o por Cruz e Sousa, M\u00e1rio de Andrade, Carlos Drummond de Andrade, Murilo Mendes, Em\u00edlio Moura, Jos\u00e9 Severiano de Rezende, Camilo Pessanha, M\u00e1rio de S\u00e1-Carneiro, Ungaretti, Jorge Guill\u00e9n e Huidobro.<\/p>\n<p>V\u00ea-se perfeitamente que os seus comparsas de aventura liter\u00e1ria est\u00e3o entre os simbolistas e os modernos. Dante \u00e9 uma exce\u00e7\u00e3o: indica a sua liga\u00e7\u00e3o com o passado cl\u00e1ssico. Dedicou aten\u00e7\u00e3o especial a Guimar\u00e3es Rosa, cuja prosa de fic\u00e7\u00e3o, cheia de lances \u00e9picos, n\u00e3o deixa de manter estreita rela\u00e7\u00e3o com a mais pura poesia.<\/p>\n<p>Meu primeiro contato com Henriqueta Lisboa se deu na inf\u00e2ncia, creio que em 1945. Eu era interno no Instituto Padre Machado e tinha como colega e amigo um sobrinho dela, Paulo Henrique. Como goz\u00e1vamos de licen\u00e7a para sair do internato na hora do recreio, fomos,\u00a0em grupo de tr\u00eas, como era preceito, passear pelos arredores e acabamos, puxados pelo Paulo Henrique, indo visitar Henriqueta.<\/p>\n<p>Ela nos recebeu com a delicadeza que a caracterizava e presenteou-me com <em>O menino poeta <\/em>(Rio de Janeiro, Bedeschi, 1943), seu mais recente lan\u00e7amento naquela ocasi\u00e3o.<\/p>\n<p>Anos depois, mais interessado na literatura, deparei com artigos nos jornais enaltecendo <em>Flor da morte <\/em>(Belo Horizonte, Jo\u00e3o Calazans, 1949). A transcri\u00e7\u00e3o de alguns poemas na imprensa fez-me entusiasmar com a nova fase de Henriqueta Lisboa e procurar o livro para ler. Foi um deslumbramento aquele reencontro com a sua poesia. At\u00e9 hoje, <em>Flor da morte <\/em>me parece marcante na sua obra e, mesmo, na minha forma\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria.<\/p>\n<p>N\u00e3o dei por menos: tamb\u00e9m julguei-me capaz de comentar as emo\u00e7\u00f5es de minha leitura. Ousei escrever um artigo e levei-o ao<em> Di\u00e1rio de Minas. <\/em>Comecei pedantemente citando alguns versos de Shakespeare, colhidos na antologia escolar que possu\u00eda. E passei a explorar o conceito de morte, dentro daquele casulo de incerteza e morbidez que era a juventude, apoiando-me nos versos de Henriqueta. Qual n\u00e3o foi a minha surpresa ao ver o meu artigo publicado no jornal. Aquilo era uma promo\u00e7\u00e3o que me inebriava, a concretiza\u00e7\u00e3o de um sonho, um passo em dire\u00e7\u00e3o da gl\u00f3ria.<\/p>\n<p>N\u00e3o contente com os coment\u00e1rios dos amigos, generosos, resolvi embarcar para Esmeraldas, a fim de sentir na minha terra a repercuss\u00e3o da estreia como cr\u00edtico. Sabia que o meu pai e os irm\u00e3os haviam tomado conhecimento de meu texto. Meu pai, orgulhoso, divulgava o meu feito liter\u00e1rio. E, ao encontrar um tio muito am\u00e1vel, mas pouco entendido de coisas escritas, n\u00e3o pude conter a minha emo\u00e7\u00e3o ao ouvi-lo dizer-me serenamente: \u201cF\u00e1bio, meus parab\u00e9ns! Outro dia vi um \u2018apanhado&#8217; seu no jornal\u201d. Aquele \u201capanhado\u201d me deslumbrou.<\/p>\n<p>Mais tarde, quando Affonso \u00c1vila, Rui Mour\u00e3o e eu lan\u00e7amos a revista <em>Voca\u00e7\u00e3o, <\/em>aproximei-me de Henriqueta Lisboa. Ela j\u00e1 nos identificava e, como outros escritores na \u00e9poca, gentilmente nos ofertou um dos seus livros. Era o <em>Poemas<\/em> (Belo Horizonte, Jo\u00e3o Calazans, 1951), que reuni<em>a Flor da morte <\/em>e <em>A face l\u00edvida.\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Estreitamos rela\u00e7\u00f5es em encontros v\u00e1rios. Naquela \u00e9poca, eram comuns as recep\u00e7\u00f5es a escritores c\u00e9lebres, e alguns sal\u00f5es se abriam a n\u00f3s, os novos da revista <em>Voca\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Assim, com o tempo, passei a frequentar a casa e a poesia de Henriqueta Lisboa. Ela recebia a gente com brandura, carinho e extrema reserva. Dificilmente se permitia um coment\u00e1rio avaliativo de qualquer escritor. Muito menos uma informa\u00e7\u00e3o azeda ou maliciosa acerca de quem quer que seja. E a maledic\u00eancia era o prato preferido das rodas liter\u00e1rias. S\u00f3 com demorada conviv\u00eancia \u00e9 que fui capaz de surpreender uma ou outra ironia de Henriqueta. Algo refinado, embora c\u00e1ustico.<\/p>\n<p>Quando se prop\u00f4s a entrar para a Academia Mineira de Letras, contou com o meu apoio imediatamente. Foi nessa \u00e9poca que a vi, pela primeira vez, um tanto mordaz acerca de um colega escritor, como ela ligado ao grupo cat\u00f3lico. Tendo surgido um competidor ao pleito acad\u00eamico, parece que se magoou com aquilo, ficou arrepiada e acabou, para pesar nosso, desprezando a Academia, deixando de frequent\u00e1-la.<\/p>\n<p>Se a vida muito recolhida e solit\u00e1ria permitiu a ela um encontro t\u00e3o radical com a poesia, a fez tamb\u00e9m ilhar-se muito do mundo e das circunst\u00e2ncias, e a refugiar-se na timidez, na fragilidade por vezes suscept\u00edvel.<\/p>\n<p>Era uma amiga dedicada e uma correspondente correta e pontual. Possuo cartas suas enviadas para os diversos lugares a que fui levado a viver. Embora evitasse os temas pol\u00edticos, sabia declarar a seu modo a sua solidariedade, com palavras de saudade, \u00e2nimo e conforto.<\/p>\n<p>Protegia-se muito da curiosidade alheia, revelava-se pouco, ao mesmo tempo que estimava a gl\u00f3ria, mesmo aquela que advinha de fontes incompetentes.<\/p>\n<p>Era estranho como Henriqueta Lisboa perdia seu tempo com admiradores que sequer possu\u00edam a capacidade de estimar a sua grandeza. Ela se deixou aproveitar ingenuamente pela sanha de alguns aventureiros, que buscavam o seu escudo para penetrar no campo liter\u00e1rio.<\/p>\n<p>Descuidava-se tamb\u00e9m da apresenta\u00e7\u00e3o gr\u00e1fica de suas obras. Algumas vezes tomei a liberdade de sugerir a ela que acompanhasse o projeto gr\u00e1fico dos seus livros, especialmente os impressos na Imprensa Oficial, a fim de que n\u00e3o fosse v\u00edtima do mau gosto que ali impera frequentemente. Embalde. A sua vigil\u00e2ncia t\u00e9cnica, t\u00e3o acurada para a elabora\u00e7\u00e3o dos poemas, n\u00e3o alcan\u00e7ava a fei\u00e7\u00e3o gr\u00e1fica. Tinha constrangimento, talvez, de influenciar os trabalhos rotineiros daquela gente da Imprensa.<\/p>\n<p>Na hist\u00f3ria liter\u00e1ria de Belo Horizonte sempre se falou das cartas de M\u00e1rio de Andrade a Henriqueta. Ela jamais revelou o seu conte\u00fado, presa que se sentia ao compromisso de somente exibir aquela correspond\u00eancia depois de passados os tempos reclamados pelo escritor. Cria-se, \u00e0 boca pequena, que M\u00e1rio tivesse demonstrado uma paix\u00e3o pela t\u00edmida poetisa. O certo \u00e9 que Henriqueta Lisboa jamais poupara elogios \u00e0 obra e \u00e0 pessoa de M\u00e1rio de Andrade. Mas guardou as cartas e os segredos de suas rela\u00e7\u00f5es com o grande estimulador do Modernismo.<\/p>\n<p>Quando organizamos um curso sobre o escritor paulista, em 1955, por ocasi\u00e3o dos dez anos de seu falecimento, tivemos em Henriqueta Lisboa uma colaboradora entusiasta. Ap\u00f3s a s\u00e9rie de confer\u00eancias, patrocinadas pela Academia Mineira de Letras, sob a presid\u00eancia de Jos\u00e9 Oswaldo de Ara\u00fajo, encarreguei-me de reuni-las e de public\u00e1-las, gra\u00e7as ao apoio de Jos\u00e9 Guimar\u00e3es Alves, ent\u00e3o diretor da Imprensa Oficial. A colet\u00e2nea \u00e9 hoje uma raridade bibliogr\u00e1fica. Henriqueta Lisboa fala de M\u00e1rio de Andrade poeta. A mim coube falar do cr\u00edtico.<\/p>\n<p>Escrevi sobre v\u00e1rios livros dela. E acompanhei a publica\u00e7\u00e3o de suas <em>Poesias completas <\/em>pela Duas Cidades, de S\u00e3o Paulo. Escrevi, ent\u00e3o, um ensaio sobre a obra da amiga, hoje incorporado ao meu livr<em>o Do barroco ao moderno \u2013 Vozes da literatura brasileira, <\/em>que foi publicado pela \u00c1tica, de S\u00e3o Paulo (1989).<\/p>\n<p>Henriqueta Lisboa discorre sobre a poesia em muitas produ\u00e7\u00f5es po\u00e9ticas. Mas \u00e9 importante ler a sua confer\u00eancia \u201cPoesia: minha profiss\u00e3o de f\u00e9\u201d, proferida em abril de 1978 em Bras\u00edlia, ao ensejo do XII Encontro Nacional de Escritores, e inclu\u00edda no livro <em>Viv\u00eancia po\u00e9tica. <\/em>Ali ela revela as fontes tem\u00e1ticas e os principais motivos de sua obra.<\/p>\n<p>Para ela, a poesia n\u00e3o passa de uma coa\u00e7\u00e3o do eterno dentro do ef\u00eamero. A seu ver,\u00a0a obra s\u00f3 ser\u00e1 captada, na sua unidade e porventura na sua totalidade, se a an\u00e1lise objetiva for presidida pela intui\u00e7\u00e3o eid\u00e9tica, ou seja, a intui\u00e7\u00e3o relativa \u00e0 ess\u00eancia das coisas, n\u00e3o \u00e0 sua exist\u00eancia ou fun\u00e7\u00e3o. [E prossegue:] \u00c9 que a poesia reside entre o escuro e o revelado, a palavra e o sil\u00eancio. Fecundo sil\u00eancio expressivo como a palavra mesma, a limit\u00e1-la e a prolong\u00e1-la em fluidez psicol\u00f3gica, aureolando-a, esfumando-lhe a densidade, protegendo-a da claridade crua.<\/p>\n<p>O horror da &#8220;claridade crua&#8221; perseguiu Henriqueta Lisboa a vida toda. Achava que o tema do amor e do erotismo, por exemplo, somente poder\u00e1 ser tratado atrav\u00e9s de uma luz indireta, talvez para que o fulgor da mente entrasse em contraste com a zona de mist\u00e9rio.<\/p>\n<p>N\u00e3o se encontra aqui mais a crian\u00e7a que um dia se deslumbrou com <em>O menino poeta. <\/em>Mas a obra de Henriqueta Lisboa a\u00ed est\u00e1 para deslumbrar crian\u00e7as e adultos atrav\u00e9s do eterno rejuvenescimento da poesia centrada sobre a &#8220;morada do ser&#8221;.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lembran\u00e7a de Henriqueta Lisboa F\u00e1bio Lucas &nbsp; Muito comedida nas suas exterioriza\u00e7\u00f5es, o que mais importa em Henriqueta Lisboa \u00e9 a sua intimidade. Na verdade, toda a sua obra documenta precisamente a sua intimidade, em que o confessional ora se disfar\u00e7a, ora se explicita. 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