{"id":26518,"date":"2021-10-05T21:12:46","date_gmt":"2021-10-06T00:12:46","guid":{"rendered":"https:\/\/www.editorapeiropolis.com.br\/?p=26518"},"modified":"2022-10-28T15:52:33","modified_gmt":"2022-10-28T18:52:33","slug":"prefacio-de-lanca-chamas-de-regina-azevedo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.editorapeiropolis.com.br\/antigo\/prefacio-de-lanca-chamas-de-regina-azevedo\/","title":{"rendered":"Pref\u00e1cio de Lan\u00e7a-chamas, de Regina Azevedo"},"content":{"rendered":"<p><strong>Fazer da l\u00edngua a pr\u00f3pria bala<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Maria Lu\u00edza Chacon*<\/strong><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Plantar o trigo e refazer o p\u00e3o de cada dia<\/em><br \/>\n<em>Beber o vinho e renascer na luz de todo dia<\/em><br \/>\n<em>A f\u00e9, a f\u00e9, paix\u00e3o e f\u00e9, a f\u00e9, faca amolada<\/em><br \/>\n<em>O ch\u00e3o, o ch\u00e3o, o sal da terra, o ch\u00e3o, faca amolada<\/em><\/p>\n<p>(Milton Nascimento e Ronaldo Bastos)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>H\u00e1 quase dez anos eu e Regina nos conhecemos e nos tornamos amigas \u2013 primeiro admirei a vivacidade com que ela, ainda pr\u00e9-adolescente, se debru\u00e7ou sobre a poesia, a forma como isso acendia os seus olhos. Depois, uma s\u00e9rie de afinidades nas formas de ver as coisas e de sentir o mundo aconteceu entre n\u00f3s, entre duas capricornianas nascidas no dia 11 de janeiro. Ser amiga de Regina \u00e9 aprender sucessivamente com a sua generosidade, com a sua forma de estar atenta, de permanecer curiosa, e tamb\u00e9m com a seguran\u00e7a com que ela d\u00e1 cada passo: n\u00e3o por ser cheia de certezas, mas por parecer t\u00e3o consciente do inconcili\u00e1vel que comp\u00f5e a escrita de cada poeta e de cada escritor. Regina faz o que tem de ser feito, o que precisa fazer. E \u00e9 por essas e outras que a considero um dos maiores presentes que viver na cidade de Natal me deu.<\/p>\n<p>Este livro re\u00fane poemas in\u00e9ditos e j\u00e1 publicados da poeta potiguar, e se divide em quatro partes: \u201cCapim\u201d, cujos poemas giram em torno da inf\u00e2ncia e da rela\u00e7\u00e3o do eu-po\u00e9tico com os av\u00f3s; \u201cMar aberto\u201d, onde triunfam poemas ligados \u00e0 juventude e ao amor; \u201cMultid\u00e3o\u201d, que, como a palavra indica, se interliga \u00e0 luta que se d\u00e1 no encontro e na coletividade; \u201cA poeta\u201d, com poemas relacionados ao of\u00edcio de poeta e \u00e0 pr\u00f3pria escrita, em um movimento por vezes metalingu\u00edstico. J\u00e1 o t\u00edtulo que nomeia a obra, <em>Lan\u00e7a chamas<\/em>, despojado do h\u00edfen que se utilizaria para indicar o aparelho que projeta uma chama longa ou control\u00e1vel, parece dizer mais respeito ao gesto em si, ao exerc\u00edcio de lan\u00e7ar fogo pr\u00f3prio da linguagem po\u00e9tica que aqui se estabelece. A obra anterior a esta, publicada por Regina neste ano de 2021, possui t\u00edtulo (<em>Vermelho fogo<\/em>) e poemas que v\u00e3o em uma dire\u00e7\u00e3o semelhante.<\/p>\n<p>Um dos primeiros poemas do livro, \u201cVov\u00f3 flutuava na praia\u201d, merece destaque. Com ep\u00edgrafe de Gon\u00e7alo Manoel Tavares (\u201cpor mais que se ande, o que se andou permanece no corpo\u201d), esse poema escancara com delicadeza dolorosa a irreversibilidade do tempo celebrada e renovada pelo signo do instante. Se, por um lado, o instante \u00e9 fugidio, por outro \u00e9 marca indel\u00e9vel do corpo: essa parte, para a qual n\u00e3o se pode retornar e para a qual, no entanto, se retorna, comp\u00f5e os percursos que ele empreende. Este poema, que para mim marca um dos pontos altos do livro, culmina na imagem final (que fere com afabilidade a quem o l\u00ea) do eu-po\u00e9tico crian\u00e7a na praia, junto \u00e0 av\u00f3, \u201ceu ao lado dela correndo\/ contra o vento, correndo contra o tempo\/ as m\u00e3os em concha, juntava um punhado\/ de mar e molhava seus p\u00e9s\u201d.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o do tempo, inclusive, tamb\u00e9m figura em outros poemas. Em \u201cO sert\u00e3o sou eu\u201d, o verso \u201cpasseio na estrada do tempo\u201d sintetiza uma das t\u00f4nicas da obra, que vai da reminisc\u00eancia \u2013 e do pertencimento a um ch\u00e3o, a lugares como a praia e o sert\u00e3o \u2013 ao futuro que \u201cbrinca de balan\u00e7o\/ e mira alto\u201d.<\/p>\n<p>J\u00e1 em \u201cAzul intenso\u201d, poema que nomeou o segundo livro da poeta (<em>Por isso eu amo em azul intenso<\/em>, publicado em 2015), lemos: \u201co tamanho da dor \u00e9 a for\u00e7a do voo\u201d e \u201c\u00e9 pela fantasia costurada no meu peito\/ desde os sete, quando recusei medicina\/ que vejo esperan\u00e7a no c\u00e9u\u201d. Aqui, a dor desponta como for\u00e7a e fica evidente o in\u00edcio do caminho do eu-po\u00e9tico em termos de fantasia \u2013 a perda dos av\u00f3s, essa ang\u00fastia, \u00e9 capaz de lan\u00e7ar o eu-po\u00e9tico na liberdade da fabula\u00e7\u00e3o e da poesia.<\/p>\n<p>No curioso poema \u201cTempo\u201d, presente na segunda se\u00e7\u00e3o do livro (\u201cMar aberto\u201d), surge uma forma espec\u00edfica de vivenciar o tempo; isto \u00e9, de conhec\u00ea-lo por meio do corpo do ser amado, enquanto aprendizado de um idioma que lhe \u00e9 pr\u00f3prio. Da\u00ed \u00e9 que o eu-po\u00e9tico tira do pulso o rel\u00f3gio, marcador do tempo ordin\u00e1rio, para ent\u00e3o dar vaz\u00e3o a um saber das horas por meio dos olhos, do corpo e da fala do ser amado que, no final das contas, inevitavelmente vai embora. Como o pr\u00f3prio poema enfatiza, alcan\u00e7ar esse \u201csaber\u201d do outro tem algo de trava-l\u00edngua e desafio, de experi\u00eancia abismal e demorada. Um dos versos que finalizam o poema menciona o Sol, significativo marcador do dia, enquanto luminosidade distante, que devido \u00e0 partida do amante j\u00e1 n\u00e3o irradia para dentro da casa. Dessa forma, o tempo parece em suspenso: \u201cdepois que voc\u00ea se foi\/ n\u00e3o h\u00e1 quem deixe o sol entrar\/ e talvez por isso\/ esteja tudo\/ adormecido\u201d. Esse desfecho retorna \u00e0 mente mais adiante na leitura do livro, quando o eu-po\u00e9tico afirma, de modo certeiro: \u201cpoesia n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 luz (ainda bem)\u201d. Pois bem, o leitor encontrar\u00e1 parcelas de luz e de sombras nestas p\u00e1ginas escritas por Regina Azevedo.<\/p>\n<p>A pot\u00eancia dos encontros est\u00e1 presente tamb\u00e9m em poemas como \u201cSetor 02\u201d, no qual o eu-po\u00e9tico fala das suas viv\u00eancias na faculdade de Letras: \u201cali n\u00e3o h\u00e1 sinal, n\u00e3o h\u00e1 toque\/ como em outros lugares\/ nunca acertamos o tempo\/ no setor 02\/ n\u00e3o somos bons de in\u00edcios e fins\/ gostamos mesmo \u00e9 de nos perder\/ em olhares demorados\/ gostamos mesmo \u00e9 do almo\u00e7o no bar de m\u00e3e\/ gostamos do banquinho do chinchila,\/ da biblioteca, de ler\/ na sombra de uma \u00e1rvore\u201d. A reincidente imagem da entrada do sol que, nesse caso, consegue passagem, aponta para um arejamento que se d\u00e1 pela via da coletividade e da vida partilhada.<\/p>\n<p>Com uma linguagem prosaica que, ali\u00e1s, faz-se presente no livro como um todo, o poema autobiogr\u00e1fico que encerra a primeira parte passa pela exposi\u00e7\u00e3o do nome real e completo da poeta, o seu sonho com dois versos de um poema (um deles \u00e9 \u201cum poema nasce do escuro\u201d), a ida ao oftalmologista, o exame de vista que traz \u00e0 mente os analfabetos e que des\u00e1gua na lembran\u00e7a sobre seus av\u00f3s, C\u00edcero e Eg\u00eddia. Ao final, diz o poema: \u201cvejo os meus av\u00f3s\/ na faculdade de letras\/ vejo meus av\u00f3s\/ no espelho\/ vejo meus av\u00f3s\/ na pele ensolarada\/ dos trabalhadores\/ um poema nasce do escuro\/ e depois, o que vem?\u201d. Esse questionamento final ressoa ap\u00f3s a leitura \u2013 depois do poema, o que vem? A aus\u00eancia n\u00e3o continua? O que pode a palavra? Em outros poemas da autora, tomar a palavra consiste em um exerc\u00edcio de liberdade e revide; j\u00e1 nesse, a tomada de palavra n\u00e3o parece apontar para uma dire\u00e7\u00e3o oposta, mas aprofunda a d\u00favida acerca dos limites da linguagem.<\/p>\n<p>Os poemas \u201cEm Mar aberto\u201d e \u201cFestejo ao fogo\u201d, que aparecem nessa ordem no livro, trazem \u00e0 tona a revelia dos afetos cujos instrumentos de controle social n\u00e3o podem conter: \u201c\u00e9 proibido soprar um dente de le\u00e3o\/ pra espantar o medo.\/ assim como \u00e9 proibido encontrar\/ e lamber com vontade o mar aberto que existe\/ no meio de cada pessoa\u201d, dizem versos de \u201cEm Mar aberto\u201d. E mais adiante, no mesmo poema: \u201ca sorte\/ \u00e9 que nesse momento, diante da cerca el\u00e9trica,\/ da placa, da assinatura de autoridade,\/ finjo n\u00e3o saber ler absolutamente nada\u201d. \u201cFestejo ao fogo\u201d, por sua vez, demarca o rito sexual no qual o orgasmo, visto como \u201canestesia contra bombas\/ de efeito moral\u201d, reafirma o poder do afeto sem reservas. Em ambos os poemas, o eu-po\u00e9tico se coloca de peito aberto para o mundo, despojado do receio de ser atingido e afetado, por isso \u00e9 que o afeto em <em>Lan\u00e7a chamas <\/em>se erige como algo revolucion\u00e1rio. Com muita sobriedade, ainda mais para os nossos tempos, a pot\u00eancia e insubmiss\u00e3o dos afetos torna a aparecer em versos como \u201cno brasil de 2018,\/ lutar e beijar\/ jamais esquecer\u201d.<\/p>\n<p>Poemas que falam alto ao nosso presente est\u00e3o contidos na terceira parte (\u201cMultid\u00e3o\u201d). Aparecem aqui temas como os mortos por Covid-19 em um Brasil devassado por um governo completamente irrespons\u00e1vel; a ruptura do pacto social brasileiro e a tens\u00e3o crescente entre direita e esquerda; a liberta\u00e7\u00e3o das mulheres que s\u00f3 se dar\u00e1 com a demoli\u00e7\u00e3o de uma cultura patriarcal e machista (seja para a mulher que sai sem suti\u00e3 de \u201cEm pleno s\u00e9culo XXI\u201d, seja para a mulher que, quando fala, faz com que o homem engravatado se engasgue com a pr\u00f3pria gravata).<\/p>\n<p>Na quarta parte (\u201cA poeta\u201d), o des\u00edgnio da escrita ganha for\u00e7a. Versos como \u201cimposs\u00edvel escrever\/ se estivesse de m\u00e3os dadas\/ o tempo todo\u201d se referem \u00e0 solid\u00e3o essencial da escrita, fincando um lugar para essa experi\u00eancia que difere das din\u00e2micas da coletividade e da vida compartilhada t\u00e3o recorrente em <em>Lan\u00e7a chamas<\/em>, ampliando seus horizontes.<\/p>\n<p>O corpo pol\u00edtico, arma que atravessa todo o livro, encontra \u00eanfase em poemas como \u201cquando voc\u00ea olhar pra essas pernas&#8230;\u201d, \u201cPasso a passo\u201d e \u201cEscrevo poemas\u201d. \u00c9, ali\u00e1s, deste \u00faltimo o verso que nomeia este livro \u2013 \u201cescrevo como quem lan\u00e7a chamas\u201d. Regina Azevedo desponta, neste <em>Lan\u00e7a chamas<\/em>, n\u00e3o s\u00f3 como poeta que lan\u00e7a labaredas, mas tamb\u00e9m como aquela que inspeciona o fogo, o brilho de paix\u00e3o e f\u00e9, faca amolada.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>*Maria Lu\u00edza Chacon<\/strong> \u00e9 escritora, professora de l\u00edngua portuguesa e doutoranda em Literatura Comparada pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fazer da l\u00edngua a pr\u00f3pria bala &nbsp; Maria Lu\u00edza Chacon* \u00a0 Plantar o trigo e refazer o p\u00e3o de cada dia Beber o vinho e renascer na luz de todo dia A f\u00e9, a f\u00e9, paix\u00e3o e f\u00e9, a f\u00e9, faca amolada O ch\u00e3o, o ch\u00e3o, o sal da terra, o ch\u00e3o, faca amolada (Milton [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":12,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[114],"tags":[2968,118,2969,3022,2947,2851],"class_list":["post-26518","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-prefacio","tag-ouvir-poesia","tag-poesia","tag-poesia-brasileira","tag-poetas-brasileiras","tag-poetas-mulheres","tag-posfacio"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.5 - 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