{"id":34361,"date":"2024-05-06T13:05:05","date_gmt":"2024-05-06T16:05:05","guid":{"rendered":"https:\/\/www.editorapeiropolis.com.br\/?p=34361"},"modified":"2024-08-05T13:32:22","modified_gmt":"2024-08-05T16:32:22","slug":"entrevista-com-tadeu-sarmento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.editorapeiropolis.com.br\/antigo\/entrevista-com-tadeu-sarmento-e-samuel-casal\/","title":{"rendered":"Entrevista com Tadeu Sarmento e Samuel Casal"},"content":{"rendered":"<h3>Entrevista com Tadeu Sarmento<\/h3>\n<p><strong><span style=\"color: #ff6600;\">Peir\u00f3polis:<\/span> Tadeu, nos conte um pouco sobre a inspira\u00e7\u00e3o para escrever <a href=\"https:\/\/www.editorapeiropolis.com.br\/antigo\/produto\/a-viagem-de-hanno-e-ganda\/\"><em>A viagem de Hanno e Ganda<\/em><\/a>. A hist\u00f3ria nos parece t\u00e3o inusitada, t\u00e3o diferente&#8230;<\/strong><\/p>\n<p><span style=\"color: #ff6600;\"><strong>Tadeu:<\/strong><\/span> Ah, isso foi bem bacana. Em 2019 eu estava pesquisando sobre o s\u00e9culo XVII, lendo coisas, vendo document\u00e1rios, pois estava escrevendo um romance que se passa nessa \u00e9poca, mais especificamente em 1646. Um romance para o p\u00fablico adulto, com quinhentas p\u00e1ginas e todo escrito em linguagem colonial. Um romance bem cabe\u00e7udo, como se diz, t\u00e3o cabe\u00e7udo que est\u00e1 in\u00e9dito at\u00e9 hoje, nenhuma editora se interessou em publicar (risos). Mas foi gra\u00e7as a ele que tive a oportunidade de escrever <a href=\"https:\/\/www.editorapeiropolis.com.br\/antigo\/produto\/a-viagem-de-hanno-e-ganda\/\"><em>A viagem de Hanno e Ganda<\/em><\/a>.<\/p>\n<p>Quer dizer, foi pesquisando para ele que acabei conhecendo esse fato hist\u00f3rico maravilhoso, sobre um rei em Portugal que em 1515 decide presentear o papa l\u00e1 em Roma com um elefante, sem ter a m\u00ednima ideia do que fosse um, ou visto um \u00fanico elefante na vida. Claro que isso s\u00f3 podia dar em confus\u00e3o, como deu. E assim que tomei conhecimento da hist\u00f3ria, enxerguei ali um tema bem bacana para lidar em um livro para crian\u00e7as e jovens: a diferen\u00e7a entre fato e fic\u00e7\u00e3o, verdade e fantasia, ci\u00eancia e imagina\u00e7\u00e3o, poder monocr\u00e1tico e democracia. Tudo isso com animais falando, como uma f\u00e1bula.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><span style=\"color: #ff6600;\">P:<\/span> Voc\u00ea realizou muitas pesquisas para escrever a hist\u00f3ria? Conte um pouco sobre seu processo de escrita, pesquisa e cria\u00e7\u00e3o.<\/strong><\/p>\n<p><span style=\"color: #ff6600;\"><strong>T:<\/strong> <\/span>Muitas pesquisas. E muita escrita e reescrita. De todo trabalho que envolve um livro, essa \u00e9 a parte que mais gosto: pesquisar, depois escrever; depois pesquisar de novo e reescrever. \u00c9 um imenso prazer para mim. \u00c9 a hora em que mergulho completamente em um mundo s\u00f3 meu, mas que est\u00e1 sendo constru\u00eddo e ordenado para ser compartilhado com o outro, por uma necessidade de se comunicar com o outro. \u00c9 um momento \u00fanico, que n\u00e3o se repete nunca mais, pois com cada livro acontece de um jeito diferente. E com <a href=\"https:\/\/www.editorapeiropolis.com.br\/antigo\/produto\/a-viagem-de-hanno-e-ganda\/\">A<em> viagem de Hanno e Ganda<\/em><\/a> foi muito especial. Li muitos livros e besti\u00e1rios espalhados pela internet. E li bastante Rudyard Kipling, para aprender sobre a tradi\u00e7\u00e3o dos macacos-narradores. Li tamb\u00e9m uma edi\u00e7\u00e3o ilustrada de <em>A Origem das Esp\u00e9cies<\/em> para me inspirar com a m\u00e1gica curiosidade e o m\u00e1gico amor de Darwin pelo mundo.<\/p>\n<p>Mas minha fonte principal, sem d\u00favida algum, foi um besti\u00e1rio medieval digitalizado e dispon\u00edvel na internet que compartilho com voc\u00eas agora:<\/p>\n<p>https:\/\/bestiary.ca\/primarysrc.htm<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><span style=\"color: #ff6600;\">P:<\/span> Falando nisso, voc\u00ea apresenta os besti\u00e1rios para o jovem leitor, esp\u00e9cie de publica\u00e7\u00e3o bem distante do repert\u00f3rio atual e comum de leituras. Fale um pouco sobre esse tipo de livro e sobre o que pode haver de t\u00e3o encantador nos besti\u00e1rios para o jovem de hoje.<\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"color: #ff6600;\">T:<\/span><\/strong> Ah, os besti\u00e1rios s\u00e3o incr\u00edveis, s\u00e3o interessant\u00edssimos. Primeiro que eram livros ou folhetos aleg\u00f3ricos que traziam e misturavam animais reais com animais imagin\u00e1rios, mitol\u00f3gicos, e o mais legal: sem que o leitor ou a leitora conseguissem saber a diferen\u00e7a. Segundo que&nbsp; as gravuras desses animais eram absurdamente fascinantes e misturavam elementos entre si (cobras com asas, le\u00f5es com cauda de serpente, cavalos com chifres e assim por diante).<\/p>\n<p>Mas o principal encantamento dos besti\u00e1rios voc\u00ea j\u00e1 citou na sua pergunta: a dist\u00e2ncia que separa as pessoas que liam os besti\u00e1rios das pessoas de hoje. S\u00e9culos e s\u00e9culos. Eram sociedades absolutamente diferentes. Mas com uma coisa em comum, que sobrevive at\u00e9 agora: o esp\u00edrito humano, a curiosidade humana, os pr\u00f3prios defeitos da humanidade e a incr\u00edvel capacidade que ela tem ou para melhor\u00e1-los ou para criar discursos melhores para justific\u00e1-los.&nbsp; E o texto, as palavras, s\u00e3o a ponte que nos leva de volta a esse passado fant\u00e1stico. E precisamos sempre visitar o passado se quisermos construir o futuro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><span style=\"color: #ff6600;\">P:<\/span> A hist\u00f3ria parte de um engano proposital, baseado no desconhecimento das esp\u00e9cies, quando uma imagem poderia muito bem ser trocada por outra. H\u00e1 rela\u00e7\u00f5es poss\u00edveis com o que vivemos hoje, no contexto da p\u00f3s-verdade, em que cren\u00e7as, fatos e fake News se embaralham tanto?<\/strong><\/p>\n<p><span style=\"color: #ff6600;\"><strong>T:<\/strong><\/span> Com certeza &#8211; e o livro fala dessa quest\u00e3o nas entrelinhas. O problema maior que a confus\u00e3o entre verdade e mentira, entre fato e fake news, causa, \u00e9 a maneira como os governantes e poderosos utilizam essa confus\u00e3o para dominar as pessoas. Nesse sentido, o livro n\u00e3o condena os besti\u00e1rios, pelo contr\u00e1rio. O retrato que temos, em <a href=\"https:\/\/www.editorapeiropolis.com.br\/antigo\/produto\/a-viagem-de-hanno-e-ganda\/\"><em>A viagem de Hanno e Ganda <\/em><\/a>(e sem querer dizer muito para n\u00e3o dar <em>spoiler<\/em>) \u00e9 a de um rei vaidoso e infantiloide, que utiliza as cren\u00e7as cegas no besti\u00e1rio para manter as pessoas entretidas na ignor\u00e2ncia. Tudo para n\u00e3o reconhecer as pr\u00f3prias falhas.<\/p>\n<p>O que n\u00e3o tem nada a ver com os besti\u00e1rios. Os besti\u00e1rios s\u00e3o fant\u00e1sticos documentos de um tempo que utilizava a imagina\u00e7\u00e3o para inventar possibilidades a respeito de coisas que a ci\u00eancia ainda n\u00e3o podia explicar. Ponto. Foi a inven\u00e7\u00e3o da imprensa de Gutenberg que popularizou os besti\u00e1rios (assim como as redes sociais popularizaram as fake news) em uma \u00e9poca em que o m\u00e9todo cient\u00edfico j\u00e1 estava conquistando espa\u00e7o. Esse foi todo o embate. Mas os besti\u00e1rios existem at\u00e9 hoje. S\u00e3o valiosas fontes de informa\u00e7\u00f5es para todos que quiserem saber que tipo de rela\u00e7\u00e3o j\u00e1 tivemos com o mundo. Uma rela\u00e7\u00e3o na qual as categorias eram fluidas, e um homem poderia ter cabe\u00e7a de touro, ou um le\u00e3o ter a cabe\u00e7a de uma \u00e1guia. Um besti\u00e1rio tamb\u00e9m se diferencia das fake News atuais no sentido de que estas est\u00e3o para a mentira, enquanto aqueles estavam para o sonho.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><span style=\"color: #ff6600;\">P:<\/span> Outras discuss\u00f5es interessantes que seu livro parece trazer s\u00e3o sobre o lugar da ci\u00eancia e da imagina\u00e7\u00e3o; sobre o \u201cprogresso\u201d que o conhecimento cient\u00edfico nos possibilita, mas tamb\u00e9m sobre o ponto em que estamos, como humanidade que se relaciona t\u00e3o mal com a natureza. Comente um pouco para a gente sobre esses alcances que a hist\u00f3ria tem, por favor. Voc\u00ea tinha tudo isso em mente quando escreveu?<\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"color: #ff6600;\">T:<\/span><\/strong> N\u00e3o, n\u00e3o tinha tudo isso em mente. J\u00e1 viu imagens de mineradores dentro de cavernas escuras, com aquela l\u00e2mpada presa no capacete? Escrever na maior parte do tempo \u00e9 isso. Quando come\u00e7amos, s\u00f3 vemos um peda\u00e7o da frente do caminho iluminado e, para iluminar mais, precisamos avan\u00e7ar mais. Ci\u00eancia e imagina\u00e7\u00e3o s\u00e3o dois lados da mesma moeda, isso que aprendi depois de avan\u00e7ar mais, at\u00e9 o final de <a href=\"https:\/\/www.editorapeiropolis.com.br\/antigo\/produto\/a-viagem-de-hanno-e-ganda\/\"><em>A viagem de Hanno e Ganda<\/em><\/a>. Que ci\u00eancia e imagina\u00e7\u00e3o s\u00e3o express\u00f5es do esp\u00edrito criativo humano, com algumas diferen\u00e7as. A principal delas pode ser retratada na \u201cdisputa\u201d besti\u00e1rios versus m\u00e9todo cient\u00edfico: enquanto o m\u00e9todo cient\u00edfico separou a natureza do homem que iria estud\u00e1-la, os besti\u00e1rios, pelo contr\u00e1rio, consideravam o homem como parte dela. E mais que isso: os besti\u00e1rios falam de um tempo onde havia uma comunh\u00e3o entre n\u00f3s, o meio ambiente e os animais, onde t\u00ednhamos um outro tipo de rela\u00e7\u00e3o, mais harmoniosa e menos predat\u00f3ria.<\/p>\n<p>Isto \u00e9, apesar de todas as coisas bacanas que a ci\u00eancia nos deu, essa ideia da separa\u00e7\u00e3o do homem da natureza \u00e9 a causa de tudo que estamos vendo hoje em dia. Falo da emerg\u00eancia clim\u00e1tica e da destrui\u00e7\u00e3o do meio ambiente. N\u00e3o estamos indo por um caminho muito legal, basta olhar o que acontece hoje no Rio Grande do Sul, enchentes de propor\u00e7\u00f5es nunca vistas (maio de 2024). Talvez seja mesmo hora de voltarmos aos besti\u00e1rios para aprender com eles sobre nossa pr\u00f3pria sobreviv\u00eancia. Voltarmos os olhos para sociedades vistas como \u201cprimitivas\u201d, mas que s\u00e3o avan\u00e7adas no melhor trato com o planeta, que sabem respeitar os outros seres, t\u00e3o leg\u00edtimos moradores do planeta Terra como pensamos que somos n\u00f3s, mas estamos destruindo nossa casa e quando digo isso volto aos poderosos. A pequena por\u00e7\u00e3o de homens mais ricos do planeta com suas empresas e empreendimentos poluem e degradam mais que a enorme popula\u00e7\u00e3o pobre do planeta para quem faltam recursos b\u00e1sicos. \u00c9 preciso responsabilizar os que mais poluem, matam e destroem.<\/p>\n<p>O poema \u201cAntropoceno\u201d do <a href=\"https:\/\/www.editorapeiropolis.com.br\/antigo\/produto\/estive-no-fim-do-mundo-e-me-lembrei-de-voce\/\"><em>Estive no fim do mundo e me lembrei de voc\u00ea<\/em><\/a>, de Adriane Garcia, faz a den\u00fancia mais contundente dessa calamidade que se aproxima. No final, de tanto denunciar o homem, a poeta afirma que \u201cfica parecendo que eu odeio a humanidade\u201d. Mas n\u00e3o \u00e9 verdade. N\u00f3s amamos a humanidade no que ela tem de melhor. E queremos que ela sobreviva.<\/p>\n<p>Ainda d\u00e1 tempo!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Conhe\u00e7a o autor:<\/strong><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-medium wp-image-34368\" src=\"https:\/\/www.editorapeiropolis.com.br\/antigo\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/Cristiano-Rato-300x200.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"200\" srcset=\"https:\/\/www.editorapeiropolis.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/Cristiano-Rato-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.editorapeiropolis.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/Cristiano-Rato-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www.editorapeiropolis.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/Cristiano-Rato-150x100.jpg 150w, https:\/\/www.editorapeiropolis.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/Cristiano-Rato-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.editorapeiropolis.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/Cristiano-Rato-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/www.editorapeiropolis.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/Cristiano-Rato-2048x1365.jpg 2048w, https:\/\/www.editorapeiropolis.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/Cristiano-Rato-203x135.jpg 203w, https:\/\/www.editorapeiropolis.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/Cristiano-Rato-600x400.jpg 600w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><a href=\"https:\/\/www.editorapeiropolis.com.br\/antigo\/biografia\/?autor=579&amp;nome=Tadeu+Sarmento+\">Tadeu Sarmento<\/a> &nbsp;nasceu em Recife em 4 de mar\u00e7o de 1977, \u00e9 casado e mora em Belo Horizonte h\u00e1 v\u00e1rios anos. Estudou Filosofia na USP. \u00c9 escritor e UX Writer. Autor de <em>Associa\u00e7\u00e3o Robert Walser para S\u00f3sias An\u00f4nimos<\/em> e <em>E se Deus for um de n\u00f3s?<\/em>, entre outros quinze livros. Em 2017, conquistou o 13\u00ba Pr\u00eamio Barco a Vapor, com a obra juvenil <em>O cometa \u00e9 um sol que n\u00e3o deu certo<\/em>, publicada pela Edi\u00e7\u00f5es SM. Em 2023, foi a vez do <em>Meu amigo Pedro<\/em>, publicado pela Abacatte Edtorial, vencer um pr\u00eamio, o Biblioteca Nacional. <a href=\"https:\/\/www.editorapeiropolis.com.br\/antigo\/produto\/a-viagem-de-hanno-e-ganda\/\"><em>A viagem de Hanno e Ganda<\/em><\/a> \u00e9 seu livro de estreia na Peir\u00f3polis.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3>Entrevista com Samuel Casal<\/h3>\n<p><strong><span style=\"color: #ff6600;\">Peir\u00f3polis:<\/span> Samuel, sobre o processo de ilustrar <a href=\"https:\/\/www.editorapeiropolis.com.br\/antigo\/produto\/a-viagem-de-hanno-e-ganda\/\"><em>A viagem de Hanno e Ganda<\/em><\/a>, conta<\/strong> <strong>um pouco como foi, desde o contato com a obra e a escolha da t\u00e9cnica e das imagens.&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"color: #ff6600;\">Samuel:<\/span><\/strong> Quando comecei a ler o texto, de imediato j\u00e1 come\u00e7aram a surgir as possibilidades de ilustra\u00e7\u00e3o na minha cabe\u00e7a e todas faziam muita refer\u00eancia ao meu universo de imagens! Al\u00e9m dos animais sempre terem feito parte do meu repert\u00f3rio visual, pelo meu interesse na diversidade de formas peculiares que cada um traz em sua natureza, neste livro, os pr\u00f3prios animais ainda s\u00e3o criaturas fantasiosas, pelo contexto do desconhecido, do imaginado. Percebi, ent\u00e3o, que o grande desafio na abordagem do texto seria justamente o de representar as criaturas de forma menos contaminada pelo conhecimento visual e diminuindo as refer\u00eancias de&nbsp;imagens que j\u00e1 temos prontas na nossa cabe\u00e7a. Para isso, eu escolhi uma t\u00e9cnica onde n\u00e3o fosse poss\u00edvel controlar completamente o tra\u00e7o, deixando assim as artes sujeitas a acidentes e pass\u00edveis de mudan\u00e7as de dire\u00e7\u00e3o durante o processo. Utilizei o acetato com manchas b\u00e1sicas pinceladas de tinta, e com instrumentos de ponta seca, dentais e at\u00e9 bisturis. &nbsp;Praticamente criei fotolitos artesanais, descontruindo as camadas e abrindo espa\u00e7os de luz nas silhuetas pintadas. V\u00e1rios fatores da t\u00e9cnica, como a espessura de tinta e at\u00e9 temperatura ambiente interferiam no processo, em que v\u00e1rias vezes surgiam texturas e comportamentos nas matrizes, que levavam o trabalho a uma dire\u00e7\u00e3o diferente da que eu imaginava e assim, o resultado acabava me surpreendendo tamb\u00e9m. Desse modo, as criaturas ganhavam ainda mais a estranheza que eu buscava, como uma forma natural de interpretar as descri\u00e7\u00f5es de seres ainda n\u00e3o representados visualmente, com mais uso da imagina\u00e7\u00e3o do que da mem\u00f3ria.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><span style=\"color: #ff6600;\">P:<\/span> O livro traz os besti\u00e1rios aos leitores, publica\u00e7\u00f5es que circulavam durante a Idade M\u00e9dia e que<\/strong> <strong>misturavam ci\u00eancia e imagina\u00e7\u00e3o, borrando as fronteiras entre o que existia e o que n\u00e3o existia.<\/strong> <strong>De que modo sua&nbsp;obra dialoga com o esp\u00edrito dos besti\u00e1rios?<\/strong><\/p>\n<p><span style=\"color: #ff6600;\"><strong>S:<\/strong><\/span> No meu processo de cria\u00e7\u00e3o, eu dificilmente projeto os desenhos antes, fazendo esbo\u00e7os complexos ou usando imagens de refer\u00eancia, e como muitas das t\u00e9cnicas que eu utilizo s\u00e3o baseadas no desenho negativo, eu parto de manchas escuras e silhuetas onde desenho com a luz, ou seja, parto do escuro para o claro, ent\u00e3o existe algo como uma revela\u00e7\u00e3o no processo. Acho que essa forma de compor o desenho tem muito em comum com o tema do livro, j\u00e1 que atrav\u00e9s de uma descri\u00e7\u00e3o, seu c\u00e9rebro come\u00e7a a construir, a revelar a criatura descrita pelas palavras aos poucos, com suas sensa\u00e7\u00f5es e imagina\u00e7\u00e3o, at\u00e9 formar uma imagem, que n\u00e3o necessariamente \u00e9 fiel \u00e0 realidade, mas que \u00e9 carregada de impress\u00f5es muito pessoais, carregada de imagina\u00e7\u00e3o, e isso que come\u00e7a a levar a realidade para o mundo da fantasia. Muitos mitos e lendas podem se originar dessa fronteira entre o real e a imagina\u00e7\u00e3o, e isso tem tudo a ver com meu trabalho.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><span style=\"color: #ff6600;\">P:<\/span> Ilustrar para livros \u00e9 muito diferente do trabalho que realiza quando faz gravuras ou<\/strong> <strong>pinta em cer\u00e2micas?<\/strong><\/p>\n<p><span style=\"color: #ff6600;\"><strong>S:<\/strong><\/span> Neste caso, foi muito semelhante. Com a liberdade editorial e com o pr\u00f3prio contexto da hist\u00f3ria, criei todas as artes como eu costumo fazer em minhas pe\u00e7as e gravuras, ou seja, sem praticamente nenhum esbo\u00e7o pr\u00e9vio, deixando os tra\u00e7os flu\u00edrem de acordo com a forma com que o material se comportava, deixando o gestual trabalhar \u00e0s vezes e, em outros momentos, tentando ter mais controle dos tra\u00e7os, mas sempre aceitando os acidentes e aproveitando as surpresas durante o processo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><span style=\"color: #ff6600;\">P:<\/span> Quais s\u00e3o as suas fontes? Quais artistas e po\u00e9ticas se fazem presentes em seu trabalho?<\/strong><\/p>\n<p><strong><span style=\"color: #ff6600;\">S:<\/span><\/strong> Eu me inspiro basicamente em duas vertentes muito diferentes do desenho. Uma tem origem nas gravuras tradicionais como as de Gustave Dor\u00e9, onde admiro todo apuro t\u00e9cnico, hachuras e o controle totalmente racional da cria\u00e7\u00e3o; e outra que \u00e9 o oposto, que vem da arte primitiva, de povos antigos, com grafismos naturais sem interfer\u00eancia de refer\u00eancias visuais definidas. Gosto muito tamb\u00e9m da arte popular do cordel nordestino, um desenho mais intuitivo e originado em algum lugar mais desconhecido da mente, um lugar menos racional, com menos interfer\u00eancia. Acho que meu trabalho acaba sendo uma mistura disso, gosto desses movimentos no meu processo, \u00e0s vezes parece at\u00e9 uma medita\u00e7\u00e3o, onde deixo minha m\u00e3o solta, sem pensar muito, tra\u00e7ando de acordo com a sensa\u00e7\u00e3o que estou tendo naquele tempo. J\u00e1 em outros momentos, gosto de controlar, de limitar e definir o que est\u00e1 acontecendo no trabalho. Acho que assim sempre consigo ter um algum elemento de surpresa, n\u00e3o \u00f3bvio e projetado no final do trabalho, para que o resultado n\u00e3o seja apenas uma demonstra\u00e7\u00e3o de t\u00e9cnica ou uma jornada que j\u00e1 comece se sabendo exatamente onde se vai chegar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Conhe\u00e7a o ilustrador:<\/strong><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-medium wp-image-34364\" src=\"https:\/\/www.editorapeiropolis.com.br\/antigo\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/SamuelCasal_LeoCardoso-200x300.jpg\" alt=\"\" width=\"200\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.editorapeiropolis.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/SamuelCasal_LeoCardoso-200x300.jpg 200w, https:\/\/www.editorapeiropolis.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/SamuelCasal_LeoCardoso-683x1024.jpg 683w, https:\/\/www.editorapeiropolis.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/SamuelCasal_LeoCardoso-100x150.jpg 100w, https:\/\/www.editorapeiropolis.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/SamuelCasal_LeoCardoso-768x1152.jpg 768w, https:\/\/www.editorapeiropolis.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/SamuelCasal_LeoCardoso-1024x1536.jpg 1024w, https:\/\/www.editorapeiropolis.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/SamuelCasal_LeoCardoso-1365x2048.jpg 1365w, https:\/\/www.editorapeiropolis.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/SamuelCasal_LeoCardoso-203x305.jpg 203w, https:\/\/www.editorapeiropolis.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/SamuelCasal_LeoCardoso-600x900.jpg 600w, https:\/\/www.editorapeiropolis.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/SamuelCasal_LeoCardoso-150x225.jpg 150w, https:\/\/www.editorapeiropolis.com.br\/wp-content\/uploads\/2024\/05\/SamuelCasal_LeoCardoso-scaled.jpg 1707w\" sizes=\"(max-width: 200px) 100vw, 200px\" \/><a href=\"https:\/\/www.editorapeiropolis.com.br\/antigo\/biografia\/?autor=582&amp;nome=Samuel+Casal\">Samuel Casal<\/a> nasceu em 1974, em Caxias do Sul, RS, e reside em Florian\u00f3polis, SC, desde 1998. Trabalhando como artista visual h\u00e1 mais de trinta anos, ilustrou publica\u00e7\u00f5es nacionais e internacionais e foi vencedor de oito trof\u00e9us HQMIX. Em 2013, recebeu o Pr\u00eamio Jabuti e Men\u00e7\u00e3o Honrosa na Bienal Brasileira de Design Gr\u00e1fico. Seus trabalhos com relevo e pintura em grandes formatos j\u00e1 integraram espa\u00e7os como a loja conceito da marca Nike no Rio de Janeiro, e a abertura da novela Velho Chico (Rede Globo). Atualmente se dedica tamb\u00e9m \u00e0 arte da pintura em cer\u00e2mica, conjugando t\u00e9cnicas variadas atrav\u00e9s da experimenta\u00e7\u00e3o de materiais.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entrevista com Tadeu Sarmento Peir\u00f3polis: Tadeu, nos conte um pouco sobre a inspira\u00e7\u00e3o para escrever A viagem de Hanno e Ganda. A hist\u00f3ria nos parece t\u00e3o inusitada, t\u00e3o diferente&#8230; Tadeu: Ah, isso foi bem bacana. 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