{"id":653,"date":"2007-02-06T03:57:05","date_gmt":"2007-02-06T05:57:05","guid":{"rendered":"https:\/\/www.editorapeiropolis.com.br\/?p=653"},"modified":"2020-02-21T11:32:07","modified_gmt":"2020-02-21T14:32:07","slug":"a-arte-da-vida-nas-historias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.editorapeiropolis.com.br\/antigo\/a-arte-da-vida-nas-historias\/","title":{"rendered":"A arte da vida nas hist\u00f3rias"},"content":{"rendered":"<p>Gosto de ouvir hist\u00f3rias e de ler hist\u00f3rias. <\/p>\n<p>Sempre gostei de ouvir e de ler hist\u00f3rias. <\/p>\n<p>Muitas vezes gosto ainda mais de tocar, sentir o sabor e at\u00e9 mesmo o perfume de hist\u00f3rias reencontradas em objetos antigos e lances de dados perdidos em meus arm\u00e1rios, estantes, gavetas, com amigos que revejo ap\u00f3s longo tempo sem conviv\u00eancia, quando ent\u00e3o mem\u00f3ria e vida se condensam e despertam mais uma p\u00e1gina do romance que escrevemos pelo prosseguir da exist\u00eancia.<\/p>\n<p>Ou\u00e7o, leio, cheiro, seguro e me alimento de hist\u00f3rias. <\/p>\n<p>Interrogo hist\u00f3rias. <\/p>\n<p>Por meus sentidos associo com preciso prazer as hist\u00f3rias que encontro. <\/p>\n<p>Se assim n\u00e3o fosse, certamente jamais teria escrito qualquer hist\u00f3ria de meus livros publicados. E quantas vezes encontro um primo, um vizinho, um colega de escola, uma cliente da cl\u00ednica de meu pai, uma namorada de adolesc\u00eancia, um fortuito companheiro de viagem num personagem inventado, presente em algum de meus contos. Quantas vezes encontro um fato vivido, lido na vida, em certa nuance da intriga, do enredo de uma ou outra das hist\u00f3rias que escrevi.  <\/p>\n<p>Assim \u00e9 comigo. E assim deve acontecer com qualquer escritor. O que me leva a crer que o escritor gosta bem mais de conviver com hist\u00f3rias do que de escrever hist\u00f3rias. <\/p>\n<p>A bem da verdade, creio que o escritor \u00e9 essencialmente um leitor. Sempre um leitor \u00e0s voltas com a arte da vida transfigurada por palavras.<\/p>\n<p><b>Li\u00e7\u00e3o de Machado de Assis<\/b><\/p>\n<p>O que concluo, por\u00e9m, \u00e9 pouco. \u00c9 t\u00e3o somente metade da verdade que se completa num desejo de Machado de Assis.<\/p>\n<p>Entendia o maior de nossos escritores que qualquer livro devia trazer na capa e na folha de rosto interior, al\u00e9m do nome do pr\u00f3prio autor, um espa\u00e7o, uma linha em branco, onde caberia a cada leitor anotar seu nome, apossando-se de uma leg\u00edtima co-autoria, pois que cada leitura de qualquer livro \u00e9 uma sens\u00edvel re-escritura do lido quando bem lido o livro. <\/p>\n<p>Assim, ler \u00e9 reescrever e cada leitor um escritor ao ler. <\/p>\n<p>Nenhuma Capitu \u00e9 a mesma no entendimento de quem a encontra nas p\u00e1ginas de ?Dom <br \/>\nCasmurro?.<\/p>\n<p>Creio que sim, e tal constata\u00e7\u00e3o sempre me desequilibra nas ocasi\u00f5es em que converso com algu\u00e9m que leu alguma de minhas hist\u00f3rias. <\/p>\n<p>Isto por conta de perturbadora sensa\u00e7\u00e3o que me alcan\u00e7a e se faz presente, desconfiado de que me faltou algum lance no que escrevi, lance de dados que o leitor me comunica por suas impress\u00f5es a prop\u00f3sito de uma personagem ou da intriga na aventura da hist\u00f3ria reescrita por ele.<\/p>\n<p>Situa\u00e7\u00e3o \u00e0s vezes at\u00e9 espetacular, na contradi\u00e7\u00e3o que me instaura.<\/p>\n<p>Certa feita, com a \u00e2nsia de ser lido, passei a uma aluna o texto de um conto que havia terminado na manh\u00e3 do mesmo dia. <\/p>\n<p>Em meu entender de escritor, tratava-se de uma hist\u00f3ria triste, trist\u00edssima, dessas que \u00e0s vezes n\u00e3o sei bem porqu\u00ea sou levado a escrever.<\/p>\n<p>Claro que me afastei, enquanto o conto era lido por essa aluna.<\/p>\n<p>\u00c0 dist\u00e2ncia, surpreendi-me ao escutar r\u00e1pidas e discretas risadas da leitora amiga. <\/p>\n<p>Mais perplexo deixou-me o seu coment\u00e1rio:<\/p>\n<p>&#8211; \u00d3timo! Divertid\u00edssimo, esse conto! ? foi o que me revelou essa leitora, apossando-se da autoria com outro entendimento de minha hist\u00f3ria, no caso,  leitora-escritora \u00e0s voltas com a arte da vida transfigurada por palavras.<\/p>\n<p>Nada lhe retruquei, seguro da injusti\u00e7a presente em meu sentimento de raiva devido \u00e0 perda da posse \u00fanica de meu conto, perda que devo entender que \u00e9 um ganho, pois tantas vezes, igualmente, tomo para mim a autoria de hist\u00f3rias escritas por outros escritores.  <\/p>\n<p><b>A casa do tesouro<\/b><\/p>\n<p>Se escrever hist\u00f3rias exige do escritor um empenho \u00e1rduo, n\u00e3o menos, ler hist\u00f3rias exige do leitor um \u00e1rduo empenho. Deveras, ler e escrever hist\u00f3rias n\u00e3o s\u00e3o h\u00e1bitos f\u00e1ceis de adquirir. Contudo, nos fornecem prazeres de preciosa valia.<\/p>\n<p>Verdade \u00e9 que o melhor na vida n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil. <\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil a conquista feliz de uma boa hist\u00f3ria de amor na vida. O que, igualmente, nos fornece prazeres de preciosa valia.<\/p>\n<p>Se conviver com hist\u00f3rias e seus prazeres ? na fantasia dos livros ou na realidade da exist\u00eancia ? nos fornece sabedoria para a arte de viver, n\u00e3o menos \u00e9 necess\u00e1ria uma justa aprendizagem para essa promissora conviv\u00eancia.<\/p>\n<p>Principiei a gostar de ouvir hist\u00f3rias, ler hist\u00f3rias, escrever hist\u00f3rias e gostar da vida ? na fantasia dos livros ou na realidade da exist\u00eancia ? por obra e gra\u00e7a da aprendizagem que no costume do dia-a-dia me forneceram meu pai e meus professores, desde minha inf\u00e2ncia, em casa, na escola prim\u00e1ria e, mais tarde, na adolesc\u00eancia, no gin\u00e1sio da cidade em que nasci.<\/p>\n<p>Verdade \u00e9 que era um tempo sem tanta pressa in\u00fatil feito hoje. <\/p>\n<p>\u00c0 noite, ap\u00f3s o jantar, na sala de estar de casa, se n\u00e3o havia o que conversar entre meus tios, primos e meus av\u00f3s espanh\u00f3is, meu pai lia hist\u00f3rias para todos n\u00f3s.<\/p>\n<p>Ator em sua juventude, quando estudante de Medicina no Rio de Janeiro, interpretava os enredos e suas personagens, de tudo fazia feliz espet\u00e1culo. Chegava ao requinte de paramentar-se tal qual um ou outro protagonista da hist\u00f3ria de ocasi\u00e3o que lia. <\/p>\n<p>Quem mais gostava dessa festa era minha av\u00f3 espanhola em seus \u00faltimos anos de vida. <\/p>\n<p>Hoje, passados mais de cinq\u00fcenta anos desses acontecimentos familiares de minha inf\u00e2ncia, estou seguro de que era mais para a alegria de vov\u00f3 que se endere\u00e7ava todo o esfor\u00e7o e empenho das leituras de meu pai.<\/p>\n<p>Ao longo daqueles anos 50, por mais de mil e uma noites desse percurso de leituras em casa conviveram conosco, entre tantos outros contistas, romancistas e poetas, Machado de Assis, Gon\u00e7alves Dias, Castro Alves, Casimiro de Abreu, Monteiro Lobato, \u00c9rico Ver\u00edssimo, Jorge Amado, Mark Twain, Jack London, Edgar Alan Poe, Charles Dickens, Robert Louis Stevenson, Oscar Wilde, Leon Tolstoi, M\u00e1ximo Gorki, Anton Tchecov, Voltaire, Victor Hugo, Honor\u00e9 de Balzac, Gustave Flaubert, Emile Zola e, sempre, sempre, sempre Miguel de Cervantes, mais Federico Garcia Lorca, pois afinal de contas tratava-se de uma casa espanhola com certeza, no interior do Estado do Esp\u00edrito Santo, Brasil.<\/p>\n<p>Num certo 13 de maio, creio que em 1953, papai nos reuniu a todos, inclusive alguns vizinhos, para uma leitura pomposa de ?O Navio Negreiro?, de Castro Alves. A que juntou um poema de sua pr\u00f3pria autoria a respeito do valor dos negros e da Aboli\u00e7\u00e3o da Escravatura.<\/p>\n<p>Outras festas semelhantes com leituras de papai aconteceram em um ou outro vinte e um de abril ou sete de setembro, nalgum dia da \u00e1rvore ou quinze de novembro e sempre no Natal, mais no dia de Reis.<\/p>\n<p>Na v\u00e9spera de meu d\u00e9cimo anivers\u00e1rio, em 1956, mam\u00e3e avisou-me em segredo que papai havia comprado um tesouro para mim. E que esse tesouro seria meu presente no dia seguinte. <\/p>\n<p>Era, n\u00e3o mais, nem menos do que ?O Tesouro da Juventude?, valiosa reuni\u00e3o de conhecimentos em 18 volumes bel\u00edssimos e ilustrados que me foram entregues com a obriga\u00e7\u00e3o de ler no decorrer das f\u00e9rias e do ano seguinte.<\/p>\n<p>Evidente que li sem me arrepender. A bem dizer, nada demais. Dois anos antes, ganhara todo o Monteiro Lobato para crian\u00e7as, 17 volumes em capa dura, que li em menos de dez meses.<\/p>\n<p>Verdade \u00e9 que ainda hoje, em minha mem\u00f3ria, reencontro papai e suas hist\u00f3rias, algumas vezes alegremente com tapa-olho e espada de pirata, lendo para n\u00f3s ?A Ilha do Tesouro?, de Robert Louis Stevenson. <\/p>\n<p><b>O mel das abelhas<\/b><\/p>\n<p>Certa manh\u00e3, tio Al\u00edpio Barcelos, portugu\u00eas em quem bondade e intelig\u00eancia nasceram e viveram por mais de noventa anos, ao me encontrar na biblioteca de casa com ?Hist\u00f3rias de Tia Nast\u00e1cia?, Monteiro Lobato, interrompeu-me a leitura com outra hist\u00f3ria, a de que ler \u00e9 t\u00e3o importante para todos feito respirar e comer.<\/p>\n<p>&#8211; E n\u00e3o s\u00f3 a leitura dos livros. Se tu queres ver, deixe de prosa e venha comigo ? insistiu e me levou at\u00e9 o pomar, no quintal de casa.<\/p>\n<p>No pomar, p\u00f4s-se a contar a hist\u00f3ria de cada \u00e1rvore, da origem das mudas de flor no jardim, de meu av\u00f4 contrariado com a oliveira que jamais frutificava, da constru\u00e7\u00e3o da cerca que margeava o riacho nos fundos do terreno, da grande enchente que tudo cobrira e derrubara as paredes da ed\u00edcula onde ficavam guardadas as ferramentas usadas para o plantio, sua reconstru\u00e7\u00e3o posterior.<\/p>\n<p>Lia para mim algumas das p\u00e1ginas do grande romance de nosso quintal.<\/p>\n<p>Diante das caixas de abelhas sob os eucaliptos junto ao muro que dividia nosso terreno com o terreno dos vizinhos, adiantou-me que n\u00e3o s\u00f3 os homens sabem ler: <\/p>\n<p>&#8211; Toda a natureza l\u00ea. As abelhas, se n\u00e3o soubessem ler, n\u00e3o saberiam fazer mel. L\u00eaem as hist\u00f3rias que as flores lhes contam e com elas constroem a vida das abelhas. \u00c9 isto&#8230;     <\/p>\n<p>Da\u00ed, adiantou-me que na capoeira de erva cidreira al\u00e9m do p\u00e9 de carambola vivia um saci.<\/p>\n<p>&#8211; Nunca vi, mas sei que mora ali, pois foi o que certa vez me alertou sua av\u00f3, que n\u00e3o \u00e9 mulher de mentir. Esta, por\u00e9m, \u00e9 outra hist\u00f3ria que te conto noutra ocasi\u00e3o. Trate agora de voltar ao livro que lia e deixe de contar prosa do que leu. H\u00e1 muito o que ler e nunca \u00e9 bastante, pois que ningu\u00e9m consegue ler tudo, s\u00f3 Deus.<\/p>\n<p>Imediatamente, retornei a Lobato. Evidente que intrigado.<\/p>\n<p>Por conta dessa conversa com meu tio, hoje reconhe\u00e7o que desde ent\u00e3o trazia comigo a mais precisa descoberta da hist\u00f3ria de qualquer leitor.<\/p>\n<p><b>A primeira palavra<\/b><\/p>\n<p>A primeira palavra que por conta pr\u00f3pria li em p\u00fablico e em voz alta, ap\u00f3s pretensamente alfabetizado, foi ?ep\u00f3ca?. Assim mesmo, com a t\u00f4nica deslocada para a segunda s\u00edlaba.<\/p>\n<p>&#8211; O que \u00e9 ?ep\u00f3ca?? ? logo perguntei a meu pai, apontando a folha de jornal que protegia o assoalho rec\u00e9m-encerado da sala de jantar, onde se encontrava escrita a estranha palavra.<\/p>\n<p>Papai, surpreso, corrigiu:<\/p>\n<p>&#8211; ?\u00c9poca?! ?\u00c9poca?! ? e feliz levantou-me do ch\u00e3o, seguro por suas m\u00e3os para o melhor abra\u00e7o de minha vida. ? Ele j\u00e1 sabe ler! Ele j\u00e1 sabe ler! ? logo levou a not\u00edcia a mam\u00e3e com tamanho entusiasmo que, a bem da verdade, livrou-me da vergonha de ter lido errado, certo de que n\u00e3o era mau reconhecer e corrigir um erro.<\/p>\n<p>No dia seguinte, deu-me uma caixa com um tabuleiro e muitas pe\u00e7as de madeira, meu jogo de palavras cruzadas que tenho comigo at\u00e9 hoje junto de outras lembran\u00e7as de inf\u00e2ncia, rel\u00edquias preciosas de minha hist\u00f3ria pessoal, evidentes testemunhas de que viver \u00e9 bom.   <\/p>\n<p>Desde essa hist\u00f3ria, todas as vezes que leio a palavra ?\u00e9poca?, n\u00e3o me mete medo a Hist\u00f3ria de nossa ?\u00e9poca?, ainda que tempo de tantas desigualdades, guerras, barbaridades.<\/p>\n<p><b>Cam\u00f5es quase destronado<\/b><\/p>\n<p>Na escola prim\u00e1ria onde me alfabetizei n\u00e3o foi diferente. <\/p>\n<p>Ainda que nossa professora fosse mal vista por alguns pais como ?a maior malandra que n\u00e3o ensina a ler e s\u00f3 sabe ler hist\u00f3rias para as crian\u00e7as durante as aulas?, deveras, ela nos ensinou a ler e a gostar de hist\u00f3rias t\u00e3o somente lendo hist\u00f3rias para n\u00f3s.<\/p>\n<p>Lia com gra\u00e7a de viva contadora de hist\u00f3rias. <\/p>\n<p>Se nos percebia atra\u00eddos por alguma palavra, frase, passagem do enredo da hist\u00f3ria lida, escrevia no quadro negro e em muitos modos de escrever &#8211; com letras de forma, manuscritas, em mai\u00fasculas e min\u00fasculas ? essa palavra, frase ou passagem, nos despertando a aten\u00e7\u00e3o para seus desenhos caligrafados na lousa.<\/p>\n<p>Sem demora nos incentivou a copiar seus desenhos.<\/p>\n<p>Rapidinho aprendemos a ler. E a gostar ainda mais de ouvir hist\u00f3rias e de ler hist\u00f3rias.<\/p>\n<p>No gin\u00e1sio, em especial na terceira s\u00e9rie, hoje s\u00e9tima, a professora de Portugu\u00eas, nos dois semestres do ano letivo, cuidou t\u00e3o somente de ler para n\u00f3s e nos fazer ler cr\u00f4nicas, contos, trechos de romances, biografias e poesias que, direta ou indiretamente, tinham por temas os conte\u00fados das mais diversas disciplinas em curso.<\/p>\n<p>Assim, nos afei\u00e7oamos \u00e0 Matem\u00e1tica, lendo, comentando e discutindo ?O Homem que Calculava?, de Malba Tahan. <\/p>\n<p>Melhor entendemos a Hist\u00f3ria do Brasil, quando estivemos \u00e0s voltas com os cap\u00edtulos de ?Esa\u00fa e Jac\u00f3?, Machado de Assis, dedicados \u00e0 proclama\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica. <\/p>\n<p>Surpreendente foi, para n\u00f3s todos da classe, a leitura dramatizada que fizemos de ?\u00c9dipo Rei?, S\u00f3focles, em meio \u00e0 nossa un\u00e2nime paix\u00e3o pela mitologia grega.  <\/p>\n<p>Vasta foi a contribui\u00e7\u00e3o de Julio Verne nos afei\u00e7oando \u00e0 Geografia e \u00e0s demais ci\u00eancias da conquista humana.<\/p>\n<p>?Mem\u00f3rias de um Sargento de Mil\u00edcias?, Manuel Ant\u00f4nio de Almeida, muito nos esclareceu como era a vida do povo no tempo do rei Dom Jo\u00e3o. E melhor compreendemos os primeiros anos do mando de Pedro II com a vivacidade da com\u00e9dia ?O Novi\u00e7o? Martins Pena.<\/p>\n<p>Lemos e discutimos as mais pungentes passagens da vida de Madame Curie, dando evidente realce \u00e0 import\u00e2ncia da Qu\u00edmica para a Hist\u00f3ria da Humanidade.<\/p>\n<p>E a Biologia nos chegou com a biografia de Louis Pasteur.<\/p>\n<p>Feliz foi, sobretudo para mim, a ocasi\u00e3o em que essa professora de Portugu\u00eas trouxe at\u00e9 nos meu pai, que, m\u00e9dico na cidade, nos contou, em palestra ilustrada com fotos, cartazes, cr\u00f4nicas e m\u00fasicas de \u00e9poca, a hist\u00f3ria da vida do cientista brasileiro Oswaldo Cruz.<\/p>\n<p>Fomos estimulados a buscar outras hist\u00f3rias entrevistando av\u00f3s e tios, imigrantes, filhos das mais diversas na\u00e7\u00f5es agora vivendo na comunidade de todos n\u00f3s.<\/p>\n<p>Escrev\u00edamos relat\u00f3rios e reda\u00e7\u00f5es, em grupo e individualmente, a partir das hist\u00f3rias que ouv\u00edamos e l\u00edamos, nessas aulas de Portugu\u00eas. <\/p>\n<p>Muitas vezes parodi\u00e1vamos poemas em pl\u00e1gio expl\u00edcito, incentivados pela professora, o que nos divertia pra valer aprimorando nossa escrita. <\/p>\n<p>Cam\u00f5es, admirado, glorificado e lido, por pouco n\u00e3o foi destronado:  <\/p>\n<p>?Sem armas ou bar\u00f5es assinalados,<br \/>\nNeste cant\u00e3o da terra capixaba,<br \/>\nGente simples, povo de outros povos,<\/p>\n<p>Mais do que prometia a pr\u00f3pria for\u00e7a humana,<br \/>\nCom trabalho duro e sem vara de fada,<br \/>\nMostra cafezais e gado bem tratados,?<\/p>\n<p>Claro que n\u00e3o fomos muito adiante com o \u00e9pico que sonhamos escrever, mas, da\u00ed, passamos a contar e a escrever hist\u00f3rias inventadas por n\u00f3s. A mais feliz farra nessas nossas aula de Portugu\u00eas.<\/p>\n<p>Hoje, tais lembran\u00e7as da import\u00e2ncia de ouvir e ler hist\u00f3rias me levam a crer que seria bastante proveitoso se os mais diversos professores de agora, sem tanta pressa para passar seus conte\u00fados aos alunos, dedicassem certo tempo de suas atividades contando e lendo hist\u00f3rias referentes ao conhecimento de suas disciplinas, somando esses seus valiosos esfor\u00e7os com seus colegas do ensino de Portugu\u00eas e Literatura.<\/p>\n<p><b>Uma valiosa pregui\u00e7a<\/b><\/p>\n<p>Na Faculdade de Letras, vivenciamos, tamb\u00e9m, incomum e curiosa experi\u00eancia de leitura no doloroso ano de 1969, em meio a nossos temores de estudantes submetidos \u00e0 viol\u00eancia da ditadura militar.<\/p>\n<p>Desde a primeira aula, nossa professora de Teoria Liter\u00e1ria dividiu a turma em oito grupos. Em rod\u00edzio, nos distribuiu, sem maior crit\u00e9rio, oito obriga\u00e7\u00f5es de estudo, cada um delas com cada grupo a cada m\u00eas do ano letivo.<\/p>\n<p>Assim, tivemos de ler e comentar por escrito e em semin\u00e1rios:<br \/>\n1- ?A Il\u00edada? &amp; ?Odiss\u00e9ia?, Homero<br \/>\n2- ?Eneida?, Virg\u00edlio<br \/>\n3- ?A Divina Com\u00e9dia?, Dante Alighieri<br \/>\n4- ?Decameron?, Boccaccio<\/p>\n<p>5- ?Fausto?, Goethe<br \/>\n6- ?Ulisses?, James Joyce<br \/>\n7- ?Esa\u00fa e Jac\u00f3? &amp; ?Memorial de Aires?, Machado de Assis<br \/>\n8- ?Grande Sert\u00e3o: veredas?, Jo\u00e3o Guimar\u00e3es Rosa<\/p>\n<p>Havia os que acusavam a professora de agir assim, n\u00e3o mais nem menos, por pregui\u00e7a de ministrar aulas. Realmente, ela n\u00e3o deu nenhuma aula no decorrer do ano. Chegava na sala, sentava em sua cadeira, fazia a devida chamada e nos perguntava se t\u00ednhamos alguma d\u00favida em nossas leituras. \u00c0s vezes passava alguma refer\u00eancia bibliogr\u00e1fica ou texto cr\u00edtico a respeito de alguma das obras que est\u00e1vamos lendo. Quando mais, sorteava a data devida para ouvir nossos semin\u00e1rios, a que atribu\u00eda suas notas.<\/p>\n<p>Outros insinuavam que a professora assim fazia por temor de ter sob suspeita da pol\u00edcia algum de seus coment\u00e1rios te\u00f3ricos, naquele ambiente de pesada repress\u00e3o pol\u00edtica. Suspeita v\u00e3, pois que ningu\u00e9m ignorava suas simpatias pelo governo militar.<\/p>\n<p>Eu me inclu\u00eda entre os que acreditavam em sua evidente pregui\u00e7a de dar aula. Pregui\u00e7a associada \u00e0 incompet\u00eancia, pois que a mestra n\u00e3o era l\u00e1 muito conhecedora do assunto de seu magist\u00e9rio. Ocupava sua cadeira na faculdade por conta de ser filha da velha catedr\u00e1tica de Literatura Brasileira, pessoa de reconhecido poder na hierarquia universit\u00e1ria.        <\/p>\n<p>Gra\u00e7as \u00e0 sua valiosa pregui\u00e7a, alcan\u00e7amos dezembro com todas as obras lidas e estudadas. Um grande ganho para todos n\u00f3s, recompensa sem d\u00favida maior e melhor do que obter\u00edamos assistindo \u00e0s supostas aulas da duvidosa mestra. <\/p>\n<p><b>Decerto ler n\u00e3o d\u00f3i<\/b><\/p>\n<p>Creio que me tornei escritor devido a meu gosto por ouvir hist\u00f3rias e ler hist\u00f3rias, prazer tatuado em mim por toda essas aventuras na travessia de minha vida, atento ao empenho e esfor\u00e7o das abelhas de meu tio portugu\u00eas.<\/p>\n<p>Sei, contudo, que prefiro ler a escrever.<\/p>\n<p>Decerto, ler n\u00e3o d\u00f3i. <\/p>\n<p>Escrever \u00e0s vezes d\u00f3i, ainda que seja dor logo transfigurada no mais seguro prazer.       <\/p>\n<p>At\u00e9 mesmo creio que leio melhor do que escrevo.<\/p>\n<p>Sei que h\u00e1 escritores que escrevem para ser amados. Outros, porque se julgam infelizes e criam, por suas hist\u00f3rias, mundos diversos, nos quais alcan\u00e7am alguma felicidade. H\u00e1 aqueles que escrevem porque n\u00e3o conseguem deixar de escrever. E os que escrevem porque n\u00e3o sabem fazer nada mais sen\u00e3o escrever hist\u00f3rias.<\/p>\n<p>Creio que escrevo por conta do sabor de certas boas saudades, feito quem procura ter o tempo nas m\u00e3os por gostar do vivido, mesmo quando inventado. Por gostar imensamente da vida, esse vasto romance de Deus, com intriga e aventuras algumas vezes t\u00e3o bem resolvidas ou tantas vezes expressas num rascunho rasurado, pleno de falhas que nos revoltam e nos levam ao desejo de reescrev\u00ea-lo, ainda que sempre obra-prima de Seu escritor. <\/p>\n<p>Que Deus aben\u00e7oe o leitor.<\/p>\n<p><i>S\u00e3o Paulo, 2006<\/i><\/p>\n<p>\n<b><i>copyright do autor<\/i><\/b><\/p>\n<p>\nJos\u00e9 Arrabal \u00e9 professor universit\u00e1rio, jornalista e escritor, autor de contos, novelas e romances. Entre suas obras, sobressaem ?A Princesa Raga-Si?, ?O Livro das Origens?, ?Lendas Brasileiras, Vol 1\/Vol. 2? e ?Cacu\u00ed O Curumim Encantado? (Editora Paulinas), ?A Ira do Curupira? (Editora Mercuryo Jovem), ?O Novi\u00e7o?, ?Demeter, A Senhora dos Trigais?, ?O Monstro e a Mata? e ?O Nariz do Vladimir? (Editora FTD), ?Hist\u00f3rias do Jap\u00e3o? (Editora Peir\u00f3polis), ?Contos Brasileiros? (com outros autores ? Ed. Express\u00e3o Popular) e ?Anos 70 ? Ainda Sob a Tempestade? (Aeroplano Editora). Contatos com o autor podem ser feitos pelo e-mail <a href=\"mailto:josearrabal@uol.com.br\">josearrabal@uol.com.br<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O escritor, professor e jornalista Jos\u00e9 Arrabal, em saboroso texto repleto de passagens de sua inf\u00e2ncia, destaca o quanto a rela\u00e7\u00e3o prazerosa com a leitura \u00e9 fundamental para o exerc\u00edcio da escrita (publicado na revista Direcional Escolas, dezembro de 2006).<\/p>\n","protected":false},"author":2445,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[16],"tags":[],"class_list":["post-653","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-na-midia"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.5 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>A arte da vida nas hist\u00f3rias - Editora Peir\u00f3polis<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/www.editorapeiropolis.com.br\/antigo\/a-arte-da-vida-nas-historias\/\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"A arte da vida nas hist\u00f3rias - 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