{"id":685,"date":"2010-06-02T02:42:39","date_gmt":"2010-06-02T05:42:39","guid":{"rendered":"https:\/\/www.editorapeiropolis.com.br\/?p=685"},"modified":"2020-02-21T13:21:52","modified_gmt":"2020-02-21T16:21:52","slug":"demonios","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.editorapeiropolis.com.br\/antigo\/demonios\/","title":{"rendered":"Dem\u00f4nios"},"content":{"rendered":"<p>Alu\u00edsio Azevedo<\/p>\n<p><i>O meu quarto de rapaz solteiro era bem no alto; um mirante isolado, por cima do terceiro andar de uma grande e sombria casa de pens\u00e3o da rua do Riachuelo com uma larga varanda de duas portas, aberta contra o nascente, e meia d\u00fazia de janelas desafrontadas, que davam para os outros pontos, dominando os telhados da vizinhan\u00e7a.<\/p>\n<p>Um pobre quarto, mas uma vista espl\u00eandida! Da varanda, em que eu tinha as minhas queridas violetas, as minhas beg\u00f4nias e os meus tinhor\u00f5es, \u00fanicos companheiros animados daquele meu isolamento e daquela minha triste vida de escritor, descortinava-se amplamente, nas encantadoras nuan\u00e7as da perspectiva, uma grande parte da cidade, que se estendia por ali a fora, com a sua pitoresca acumula\u00e7\u00e3o de \u00e1rvores e telhados, palmeiras e chamin\u00e9s, torres de igreja e perfis de montanhas tortuosas, donde o sol atrav\u00e9s da atmosfera, tirava, nos seus sonhos dourados, os mais belos efeitos de luz. Os morros, mais perto, mais longe, erguiam-se alegres e verdejantes, ponteados de casinhas brancas, e l\u00e1 se iam desdobrando, a fazer-se cada vez mais azuis e vaporosos, at\u00e9 que se perdiam de todo, muito al\u00e9m, nos segredos do horizonte, confundidos com as nuvens, numa s\u00f3 colora\u00e7\u00e3o de tintas ideais e castas.<\/p>\n<p>Meu prazer era trabalhar a\u00ed, de manh\u00e3 bem cedo, depois do caf\u00e9, olhando tudo aquilo pelas janelas abertas defronte da minha velha e singela mesa de carvalho, bebendo pelos olhos a alma dessa natureza inocente e namoradora, que me sorria, sem fatigar-me jamais o esp\u00edrito, com a sua gra\u00e7a ing\u00eanua e com sua virgindade sensual.<\/p>\n<p>E ningu\u00e9m me viesse falar em quadros e estatuetas; n\u00e3o! queria as paredes nuas, totalmente nuas, e os m\u00f3veis sem adornos, porque a arte me parecia mesquinha e banal em confronto com aquela fascinadora realidade, t\u00e3o simples, t\u00e3o despretensiosa, mas t\u00e3o rica e t\u00e3o completa.<\/p>\n<p>O \u00fanico desenho que eu conservava \u00e0 vista, pendurado \u00e0 cabeceira da cama, era um retrato de Laura, minha noiva prometida, e esse feito por mim mesmo, a pastel, representando-a com a roupa de andar em casa, o pesco\u00e7o nu e o cabelo preso ao alto da cabe\u00e7a por um la\u00e7o de fita cor-de-rosa.<\/p>\n<p>I<\/p>\n<p>Quase nunca trabalhava \u00e0 noite; \u00e0s vezes, por\u00e9m, quando me sucedia acordar fora de horas, sem vontade de continuar a dormir, ia para a mesa e esperava lendo ou escrevendo que amanhecesse.<\/p>\n<p>Uma ocasi\u00e3o acordei assim, mas sem consci\u00eancia de nada, como se viesse de um desses longos sonos de doente a decidir; desses profundos e silenciosos, em que n\u00e3o h\u00e1 sonhos, e dos quais, ou se desperta vitorioso para entrar em ampla convalescen\u00e7a, ou se sai apenas um instante para mergulhar logo nesse outro sono, ainda mais profundo, donde nunca mais se volta.<\/p>\n<p>Olhei em torno de mim, admirado do longo espa\u00e7o que me separava da vida e, logo que me senti mais senhor das minhas faculdades, estranhei n\u00e3o perceber o dia atrav\u00e9s das cortinas do quarto, c n\u00e3o ouvir, como de costume, pipilarem as cambachirras defronte das janelas por cima dos telhados.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 que naturalmente ainda n\u00e3o amanheceu. Tamb\u00e9m n\u00e3o deve tardar muito&#8230; calculei, saltando da cama e enfiando o roup\u00e3o de banho, disposto a esperar sua alteza o sol, assentado \u00e0 varanda a fumar um cigarro.<\/p>\n<p>Entretanto, cousa singular! Parecia-me ter dormido em demasia; ter dormido muito mais da minha conta habitual. Sentia-me estranhamente farto de sono; tinha a impress\u00e3o lassa de quem passou da sua hora de acordar e foi entrando, a dormir pelo dia e pela tarde, como s\u00f3 nos acontece depois de uma grande extenua\u00e7\u00e3o nervosa ou tendo anteriormente perdido muitas noites seguidas.<\/p>\n<p>Ora, comigo n\u00e3o havia raz\u00e3o para semelhante cousa, porque, justamente naqueles \u00faltimos tempos, desde que estava noivo, recolhia-me sempre cedo e cedo me deitava. Ainda na v\u00e9spera, lembro-me bem, depois do jantar sa\u00edra apenas a dar um pequeno passeio, fizera \u00e0 fam\u00edlia de Laura a minha visita de todos os dias, e \u00e0s dez horas j\u00e1 estava de volta, estendido na cama, com um livro aberto sobre o peito, a bocejar. N\u00e3o passariam de onze e meia quando peguei no sono.<br \/>\nSim! n\u00e3o havia d\u00favida que era bem singular n\u00e3o ter amanhecido!&#8230; pensei, indo abrir uma das janelas da varanda.<\/p>\n<p>Qual n\u00e3o foi, por\u00e9m, a minha decep\u00e7\u00e3o quando, interrogando o nascente, dei com ele ainda completamente fechado e negro, e, abaixando o olhar, vi a cidade afogada em trevas e sucumbida no mais profundo sil\u00eancio!<\/p>\n<p>&#8211; Oh! Era singular, muito singular!<br \/>\nNo c\u00e9u as estrelas pareciam amortecidas, de um bruxulear difuso e p\u00e1lido; nas ruas os 1ampi\u00f5es mal se acusavam por longas retic\u00eancias de uma luz deslavada e triste. Nenhum oper\u00e1rio passava para o trabalho; n\u00e3o se ouvia o cantarolar de um \u00e9brio, o rodar de um carro, nem o ladrar de um c\u00e3o.<\/p>\n<p>Singular! muito singular!<\/p>\n<p>Acendi a veia e corri ao meu rel\u00f3gio de algibeira. Marcava meia-noite. Levei-o ao ouvido, com avidez de quem consulta o cora\u00e7\u00e3o de um moribundo; j\u00e1 n\u00e3o pulsava: tinha esgotado toda a corda. Fi-lo come\u00e7ar a trabalhar de novo, mas as suas pulsa\u00e7\u00f5es eram t\u00e3o fracas, que s\u00f3 com extrema dificuldade conseguia eu distingui-las.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 singular! muito singular!, repetia, calculando que, se o rel\u00f3gio esgotara toda a corda, era porque eu ent\u00e3o havia dormido muito mais ainda do que supunha! eu ent\u00e3o atravessara um dia inteiro sem acordar e entrara do mesmo modo pela noite seguinte.<br \/>\nMas, afinal que horas seriam?&#8230;<\/p>\n<p>Tornei \u00e0 varanda, para consultar de novo aquela estranha noite, em que as estrelas desmaiavam antes de chegar a aurora. E a noite nada me respondeu, fechada no seu ego\u00edsmo surdo e tenebroso.<\/p>\n<p>Que horas seriam?&#8230; Se eu ouvisse algum rel\u00f3gio da vizinhan\u00e7a!&#8230; Ouvir?&#8230; Mas se em torno de mim tudo parecia entorpecido e morto?&#8230;<br \/>\nE veio-me a d\u00favida de que eu tivesse perdido a faculdade de ouvir durante aquele maldito sono de tantas horas; fulminado por esta id\u00e9ia, precipitei-me sobre o t\u00edmpano da mesa e vibrei-o com toda a for\u00e7a.<\/p>\n<p>O som fez-se, por\u00e9m, abafado e lento, como se lutasse com grande resist\u00eancia para vencer o peso do ar.<\/p>\n<p>E s\u00f3 ent\u00e3o notei que a luz da vela, \u00e0 semelhan\u00e7a do som do t\u00edmpano, tamb\u00e9m n\u00e3o era intensa e clara como de ordin\u00e1rio e parecia oprimida por uma atmosfera de catacumba.<\/p>\n<p>Que significaria isto?&#8230; que estranho cataclismo abalaria o mundo?&#8230; que teria acontecido de t\u00e3o transcendente durante aquela minha aus\u00eancia da vida, para que eu, \u00e0 volta, viesse encontrar o som e a luz, as duas express\u00f5es mais impressionadoras do mundo f\u00edsico, assim tr\u00f4pegas e assim vacilantes, nem que toda a natureza envelhecesse maravilhosamente enquanto eu tinha os olhos fechados e o c\u00e9rebro em repouso?!&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ilus\u00e3o minha, com certeza! que louca \u00e9s tu, minha pobre fantasia! Daqui a nada estar\u00e1 amanhecendo, e todos estes teus caprichos, teus ou da noite, essa outra doida, desaparecer\u00e3o aos primeiros raios do sol. O melhor \u00e9 trabalharmos! Sinto-me at\u00e9 bem disposto para escrever! trabalhemos, que daqui a pouco tudo reviver\u00e1 como nos outros dias! de novo os vales e as montanhas se far\u00e3o esmeraldinas e alegres; e o c\u00e9u transbordar\u00e1 da sua refulgente concha de turquesa a opul\u00eancia das cores e das luzes; e de novo ondular\u00e1 no espa\u00e7o a m\u00fasica dos ventos; e as aves acordar\u00e3o as rosas dos campos com os seus melodiosos duetos de amor! Trabalhemos! Trabalhemos!<br \/>\nAcendi mais duas velas, porque s\u00f3 com a primeira quase que me era imposs\u00edvel enxergar; arranjei-me ao lavat\u00f3rio; fiz uma x\u00edcara de caf\u00e9 bem forte, tomei-a, e fui para a mesa de trabalho.<\/p>\n<p>II<\/p>\n<p>Da\u00ed a um instante, vergado defronte do tinteiro, com o cigarro fumegando entre os dedos, n\u00e3o pensava absolutamente em mais nada, sen\u00e3o no que o bico da minha pena ia desfiando caprichoso do meu c\u00e9rebro para lan\u00e7ar, linha a linha, sobre o papel.<\/p>\n<p>Estava de veia, com efeito! As primeiras folhas encheram-se logo. Minha m\u00e3o, a princ\u00edpio lenta, come\u00e7ou, pouco a pouco, a fazer-se nervosa, a n\u00e3o querer parar, e afinal abriu a correr, a correr, cada vez mais depressa; disparando por fim \u00e0s cegas, como um cavalo que se esquenta e se inflama na vertigem do galope. Depois, tal febre de concep\u00e7\u00e3o se apoderou de mim, que perdi a consci\u00eancia de tudo e deixei-me arrebatar por ela, arquejante e sem f\u00f4lego, num v\u00f4o febril, num arranco violento, que me levava de rastros pelo ideal aos trope\u00e7\u00f5es com as minhas doidas fantasias de poeta.<\/p>\n<p>E p\u00e1ginas e p\u00e1ginas se sucederam. E as id\u00e9ias, que nem um bando de dem\u00f4nios, vinham-me em borbot\u00e3o, devorando-se umas \u00e0s outras, num del\u00edrio de chegar primeiro; e as frases e as imagens acudiam-me como rel\u00e2mpagos, fuzilando, j\u00e1 prontas e armadas da cabe\u00e7a aos p\u00e9s. E eu, sem tempo de molhar a pena, nem tempo de desviar os olhos do campo da peleja, ia arremessando para tr\u00e1s de mim, uma ap\u00f3s outra, as tiras escritas, suando, arfando, sucumbindo nas garras daquele feroz inimigo que me aniquilava.<\/p>\n<p>E lutei! e lutei! e lutei!<br \/>\nDe repente acordo desta vertigem, como se voltasse de um pesadelo estonteado, com o sobressalto de quem, por uma briga de momento, se esquece do grande perigo que o espera. Dei um salto da cadeira; varri inquieto o olhar em derredor. Ao lado da minha mesa havia um monte de folhas de papel cobertas de tinta; as velas bruxuleavam a extinguir-se e o meu cinzeiro estava pejado de pontas de cigarro.<\/p>\n<p>Oh! muitas horas deviam ter decorrido durante essa minha aus\u00eancia, na qual o sono agora n\u00e3o fora c\u00famplice. Parecia-me imposs\u00edvel haver trabalhado tanto, sem dar o menor acordo do que se passava em torno de mim.<\/p>\n<p>Corri \u00e0 janela.<\/p>\n<p>Meu Deus! o nascente continuava fechado e negro; a cidade deserta e muda. As estrelas tinham empalidecido ainda mais, e as luzes dos lampi\u00f5es transpareciam apenas, atrav\u00e9s da espessura da noite, como sinistros olhos que me piscavam da treva.<br \/>\nMeu Deus! meu Deus, que teria acontecido?!&#8230;<\/p>\n<p>Acendi novas velas, e notei que as suas chamas eram mais l\u00edvidas que o fogo-f\u00e1tuo das sepulturas. Conchei a m\u00e3o contra o ouvido e fiquei longo tempo a esperar inutilmente que do profundo e gelado sil\u00eancio l\u00e1 de fora me viesse um sinal de vida.<\/p>\n<p>Nada! Nada!<\/p>\n<p>Fui \u00e0 varanda; apalpei as minhas queridas plantas; estavam fanadas, e as suas tristes folhas pendiam molemente para fora dos vasos, como embambecidos membros de um cad\u00e1ver ainda quente. Debrucei-me sobre as minhas estremecidas violetas e procurei respirar-lhes a alma embalsamada. J\u00e1 n\u00e3o tinham perfume!<br \/>\nAt\u00f4nito e ansioso volvi os olhos para o espa\u00e7o. As estrelas, j\u00e1 sem contornos, derramavam-se na tinta negra do c\u00e9u, como indecisas n\u00f3doas luminosas que fugiam lentamente.<br \/>\nMeu Deus! meu Deus, que iria acontecer ainda?<\/p>\n<p>Voltei ao quarto e consultei o rel\u00f3gio. Marcava dez horas.<br \/>\nOh! Pois j\u00e1 dez horas se tinham passado depois que eu abrira os olhos?&#8230; Por que ent\u00e3o n\u00e3o amanhecera em todo esse tempo!&#8230; Teria eu enlouquecido?&#8230;<\/p>\n<p>J\u00e1 tr\u00eamulo, apanhei do ch\u00e3o as folhas de papel, uma por uma; eram muitas, muitas! E por melhor esfor\u00e7o que fizesse, n\u00e3o conseguia lembrar-me do que eu pr\u00f3prio nelas escrevera.<br \/>\nApalpei as fontes; latejavam. Passei as m\u00e3os pelos olhos, depois consultei o cora\u00e7\u00e3o; batia forte.<\/p>\n<p>E s\u00f3 ent\u00e3o notei que estava com muita fome e estava com muita sede.<\/p>\n<p>Tomei a bilha d&#8217;\u00e1gua e esgotei-a de uma assentada. Assanhou-se-me a fome.<br \/>\nAbri todas as janelas do quarto, em seguida a porta, e chamei pelo criado. Mas a minha voz, apesar do esfor\u00e7o que fiz para gritar, sa\u00eda frouxa e abafada, quase indistingu\u00edvel.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m me respondeu, nem mesmo o eco.<br \/>\nMeu Deus! Meu Deus!<\/p>\n<p>E um violento calefrio percorreu-me o corpo. Principiei a ter medo de tudo; principiei a n\u00e3o querer saber o que se tinha passado em torno de mim durante aquele maldito sono trai\u00e7oeiro; desejei n\u00e3o pensar, n\u00e3o sentir, n\u00e3o ter consci\u00eancia de nada. O meu c\u00e9rebro, todavia, continuava a trabalhar com a precis\u00e3o do meu rel\u00f3gio, que ia desfiando os segundos inalteravelmente, enchendo minutos e formando horas.<\/p>\n<p>E o c\u00e9u era cada vez mais negro, e as estrelas cada vez mais apagadas, como derradeiros e tristes lampejos de uma pobre natureza que morre!<\/p>\n<p>Meu Deus! meu Deus! o que seria?<\/p>\n<p>Enchi-me de coragem; tomei uma das velas e, com mil precau\u00e7\u00f5es para impedir que ela se apagasse, desci o primeiro lance de escadas.<\/p>\n<p>A casa tinha muitos c\u00f4modos e poucos desocupados. Eu conhecia quase todos os h\u00f3spedes. No segundo andar morava um m\u00e9dico; resolvi bater de prefer\u00eancia \u00e0 porta dele.<\/p>\n<p>Fui e bati; mas ningu\u00e9m me respondeu.<br \/>\nBati mais forte. Ainda nada.<\/p>\n<p>Bati ent\u00e3o desesperadamente, com as m\u00e3os e com os p\u00e9s. A porta tremia, abalava, mas nem o eco respondia.<br \/>\nMeti ombros contra ela e arrombei-a. O mesmo sil\u00eancio. Espichei o pesco\u00e7o, espiei l\u00e1 para dentro. Nada consegui ver; a luz da minha vela iluminava menos que a brasa de um cigarro.<br \/>\nEsperei um instante.<\/p>\n<p>Ainda nada.<\/p>\n<p>Entrei.<\/p>\n<p>III<\/p>\n<p>O m\u00e9dico estava estendido na sua cama, embrulhado no len\u00e7ol. Tinha contra\u00edda a boca e os olhos meio abertos.<\/p>\n<p>Chamei-o; segurei-lhe o bra\u00e7o com viol\u00eancia e recuei aterrado, porque lhe senti o corpo r\u00edgido e frio. Aproximei, tr\u00eamulo, a minha vela contra o seu rosto im\u00f3vel; ele n\u00e3o abriu os olhos; n\u00e3o fez o menor gesto. E na palidez das faces notei-lhe as manchas esverdeadas de carne que vai entrar em decomposi\u00e7\u00e3o.<br \/>\nE o meu terror cresceu. E apoderou-se de mim o medo do incompreens\u00edvel; o medo do que se n\u00e3o explica; o medo do que se n\u00e3o acredita. E sa\u00ed do quarto querendo pedir socorro, sem conseguir ter voz para gritar e apenas resbunando uns vagidos guturais de agonizante.<\/p>\n<p>E corri aos outros quartos, e j\u00e1 sem bater fui arrombando as portas que encontrei fechadas. A luz da minha vela, cada vez mais l\u00edvida, parecia, como eu, tiritar de medo.<\/p>\n<p>Oh! que terr\u00edvel momento! que terr\u00edvel momento! Era como se em torno de mim o Nada insond\u00e1vel e tenebroso escancarasse, para devorar-me, a sua enorme boca viscosa e s\u00f4frega. Por todas aquelas camas, que eu percorria como um louco, s\u00f3 tateava corpos enregelados e hirtos.<br \/>\nN\u00e3o encontrava ningu\u00e9m com vida; ningu\u00e9m! Era a morte geral! a morte completa! uma trag\u00e9dia silenciosa e terr\u00edvel, com um \u00fanico espectador, que era eu. Em cada quarto havia um cad\u00e1ver pelo menos! Vi m\u00e3es apertando contra o seio sem vida os filhinhos mortos; vi casais abra\u00e7ados, dormindo aquele derradeiro sono, enleados ainda pelo \u00faltimo del\u00edrio de seus amores; vi brancas figuras de mulher estateladas no ch\u00e3o descompostas na impud\u00eancia da morte; estudantes cor de cera debru\u00e7ados sobre a mesa de estudo, os bra\u00e7os dobrados sobre o comp\u00eandio aberto, defronte da l\u00e2mpada para sempre extinta. E tudo frio, e tudo im\u00f3vel, como se aquelas vidas fossem de improviso apagadas pelo mesmo sopro; ou como se a terra, sentindo de repente uma grande fome, enlouquecesse para devorar de uma s\u00f3 vez todos os seus filhos.<\/p>\n<p>Percorri os outros andares da casa: Sempre o mesmo abomin\u00e1vel espet\u00e1culo!<br \/>\nN\u00e3o havia mais ningu\u00e9m! n\u00e3o havia mais ningu\u00e9m! Tinham todos desertado em massa!<\/p>\n<p>E por qu\u00ea? E para onde tinham fugido aquelas almas, num s\u00f3 v\u00f4o, arribadas como um bando de aves forasteiras?&#8230;<br \/>\nEstranha greve! Mas por que n\u00e3o me chamaram, a mim tamb\u00e9m, antes de partir?&#8230; Por que me abandonaram sozinho entre aquele pavoroso despojo nauseabundo?&#8230;<\/p>\n<p>Que teria sido, meu Deus? que teria sido tudo aquilo?&#8230; Por que toda aquela gente fugia em segredo, silenciosamente, sem a extrema despedida dos moribundos sem os gritos de agonia?&#8230; E eu, execr\u00e1vel exce\u00e7\u00e3o! por que continuava a existir, acotovelando os mortos e fechado com eles dentro da mesma catacumba?&#8230;<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, uma id\u00e9ia fuzilou r\u00e1pida no meu esp\u00edrito, pondo-me no cora\u00e7\u00e3o um sobressalto horr\u00edvel. Lembrei-me de Laura. Naquele momento estaria ela, como os outros, tamb\u00e9m, inanimada e g\u00e9lida; ou, triste retardat\u00e1ria! ficaria a minha espera, impaciente por desferir o misterioso v\u00f4o?&#8230; Em todo o caso era para l\u00e1, para junto dessa adorada e virginal criatura, que eu devia ir sem perda de tempo; junto dela, viva ou morta, \u00e9 que eu devia esperar a minha vez de mergulhar tamb\u00e9m no tenebroso p\u00e9lago!<br \/>\nMorta?! Mas por que morta?&#8230; se eu vivia era bem poss\u00edvel que ela tamb\u00e9m vivesse ainda!&#8230;<\/p>\n<p>E que me importava o resto, que me importavam os outros todos, contanto que eu a tivesse viva e palpitante nos meus bra\u00e7os?!&#8230;<\/p>\n<p>Meu Deus! e se n\u00f3s fic\u00e1ssemos os dois sozinhos na terra, sem mais ningu\u00e9m, ningu\u00e9m?&#8230; Se nos v\u00edssemos a s\u00f3s, ela e eu, estreitados um contra o outro, num eterno ego\u00edsmo paradis\u00edaco, assistindo recome\u00e7ar a cria\u00e7\u00e3o em torno do nosso isolamento?&#8230; assistindo, ao som dos nossos beijos de amor, formar-se de novo o mundo, brotar de novo a vida, acordando toda a natureza, estrela por estrela, asa por asa, p\u00e9tala por p\u00e9tala?&#8230;<\/p>\n<p>Sim! sim! Era preciso correr para junto dela!<\/p>\n<p>IV<\/p>\n<p>Mas a fome torturava-me cada vez mais f\u00faria. Era imposs\u00edvel levar mais tempo sem comer. Antes de socorrer o cora\u00e7\u00e3o era preciso socorrer o est\u00f4mago.<\/p>\n<p>A fome! O amor! Mas, como todos os outros morriam em volta de mim e eu pensava em amor e eu tinha fome!&#8230; A fome, que \u00e9 a voz mais poderosa do instinto da conserva\u00e7\u00e3o pessoal, como o amor \u00e9 a voz do instinto da conserva\u00e7\u00e3o da esp\u00e9cie! A fome e o amor, que s\u00e3o a garantia da vida; os dois inalter\u00e1veis p\u00f3los do eixo em que h\u00e1 milh\u00f5es de s\u00e9culos gira misteriosamente o mundo org\u00e2nico!<br \/>\nE, no entanto, n\u00e3o podia deixar de comer antes de mais nada. Quantas horas teriam decorrido depois da minha \u00faltima refei\u00e7\u00e3o?&#8230; N\u00e3o sabia; n\u00e3o conseguia calcular sequer. O meu rel\u00f3gio, agora in\u00fatil, marcava estupidamente doze horas. Doze horas de qu\u00ea?&#8230;. Doze horas!&#8230; Que significaria esta palavra?&#8230;<br \/>\nArremessei o rel\u00f3gio para longe de mim, despeda\u00e7ando-o contra a parede.<br \/>\n\u00d3 meu Deus! se continuasse para sempre aquela incompreens\u00edvel noite, como poderia eu saber os dias que se passavam?&#8230; Como poderia marcar as semanas e os meses?&#8230; O tempo \u00e9 o sol; se o sol nunca mais voltasse, o tempo deixaria de existir!<\/p>\n<p>E eu me senti perdido num grande Nada indefinido, vago, sem fundo e sem contornos.<\/p>\n<p>Meu Deus! meu Deus! quando terminaria aquele supl\u00edcio?<\/p>\n<p>Desci ao andar t\u00e9rreo da casa, apressando-me agora para aproveitar a mesquinha luz da vela que, pouco a pouco, me abandonava tamb\u00e9m.<br \/>\nOh! s\u00f3 a id\u00e9ia de que era aquela a derradeira luz que me restava!&#8230; A id\u00e9ia da escurid\u00e3o completa que seria depois, fazia-me gelar o sangue. Trevas e mortos, que horror!<\/p>\n<p>Penetrei na sala de jantar. \u00c0 porta tropecei no cad\u00e1ver de um c\u00e3o; passei adiante. O criado jazia estendido junto \u00e0 mesa, espumando pela boca e pelas ventas; n\u00e3o fiz caso. Do fundo dos quartos vinha j\u00e1 um bafo enjoativo de putrefa\u00e7\u00e3o ainda recente.<br \/>\nArrombei o arm\u00e1rio, apoderei-me da comida que l\u00e1 havia e devorei-a como um animal, sem procurar talher. Depois bebi, sem copo, uma garrafa de vinho. E, logo que senti o est\u00f4mago reconfortado, e, logo que o vinho me alegrou o corpo, foi-se-me enfraquecendo a id\u00e9ia de morrer com os outros e foi-me nascendo a esperan\u00e7a de encontrar vivos l\u00e1 fora, na rua. Mal era que a luz da vela minguara tanto que agora brilhava menos que um pirilampo. Tentei acender outras. V\u00e3o esfor\u00e7o! a luz ia deixar de existir.<\/p>\n<p>E, antes que ela me fugisse para sempre, comecei a encher as algibeiras com o que sobrou da minha fome.<\/p>\n<p>Era tempo! era tempo! porque a miser\u00e1vel chama, depois de espregui\u00e7ar-se um instante, foi-se contraindo, a tremer, a tremer, bruxuleando, at\u00e9 sumir-se de todo, como o extremo lampejo do olhar de um moribundo.<\/p>\n<p>E fez-se ent\u00e3o a mais completa, a mais cerrada escurid\u00e3o que \u00e9 poss\u00edvel conceber. Era a treva absoluta; treva de morte; treva de caos; treva que s\u00f3 compreende quem tiver os olhos arrancados e as \u00f3rbitas entupidas de terra.<\/p>\n<p>Foi terr\u00edvel o meu abalo, fiquei espavorido, como se ela me apanhasse de surpresa. Inchou-se-me por dentro o cora\u00e7\u00e3o, sufocando-me a garganta; gelou-se-me a medula e secou-se-me a l\u00edngua. Senti-me como entalado ainda vivo no fundo de um t\u00famulo estreito; senti desabar sobre minha pobre alma, com todo o seu peso de maldi\u00e7\u00e3o, aquela imensa noite negra e devoradora.<\/p>\n<p>Im\u00f3vel, arquejei por algum tempo nesta agonia. Depois estendi os bra\u00e7os e, arrastando os p\u00e9s, procurei tirar-me dali \u00e0s apalpadelas.<br \/>\nAtravessei o longo corredor, esbarrando em tudo, como um cego sem guia, e conduzi-me lentamente at\u00e9 ao port\u00e3o de entrada.<\/p>\n<p>Sa\u00ed.<\/p>\n<p>L\u00e1 fora, na rua, o meu primeiro impulso foi olhar para o espa\u00e7o; estava t\u00e3o negro e t\u00e3o mudo como a terra. A luz dos lampi\u00f5es apagara-se de todo e no c\u00e9u j\u00e1 n\u00e3o havia o mais t\u00eanue vest\u00edgio de uma estrela.<br \/>\nTreva! Treva e s\u00f3 treva!<\/p>\n<p>Mas eu conhecia muito bem o caminho da casa de minha noiva, e havia de l\u00e1 chegar, custasse o que custasse!<br \/>\nDispus-me a partir, tateando o ch\u00e3o com os p\u00e9s sem despregar das paredes as minhas duas m\u00e3os abertas na altura do rosto.<\/p>\n<p>Passo a passo, venci at\u00e9 \u00e0 primeira esquina. Esbarrei com um cad\u00e1ver encostado \u00e0s grades de um jardim; apalpei-o, era um pol\u00edcia. N\u00e3o me detive; segui adiante, dobrando para a rua transversal.<\/p>\n<p>Come\u00e7ava a sentir frio. Uma densa umidade sa\u00eda da terra, tornando aquela maldita noite ainda mais dolorosa. Mas n\u00e3o desanimei, prossegui pacientemente, medindo o meu caminho, palmo a palmo, e procurando reconhecer pelo tato o lugar em que me achava.<\/p>\n<p>E seguia, seguia lentamente.<\/p>\n<p>J\u00e1 me n\u00e3o abalavam os cad\u00e1veres com que eu topava pelas cal\u00e7adas. Todo o meu sentido se me concentrava nas m\u00e3os; a minha \u00fanica preocupa\u00e7\u00e3o era me n\u00e3o desorientar e perder na viagem.<\/p>\n<p>E l\u00e1 ia, l\u00e1 ia, arrastando-me de porta em porta, de casa em casa, de rua em rua, com a silenciosa resigna\u00e7\u00e3o dos cegos desamparados.<\/p>\n<p>De vez em quando, era preciso deter-me um instante, para respirar mais \u00e0 vontade. Do\u00edam-me os bra\u00e7os de os ter continuamente erguidos. Secava-se-me a boca. Um enorme cansa\u00e7o invadia-me o corpo inteiro. H\u00e1 quanto tempo durava j\u00e1 esta tortura? n\u00e3o sei; apenas sentia claramente que pelas paredes, o bolor principiava a formar altas camadas de uma vegeta\u00e7\u00e3o aquosa, e que meus p\u00e9s se encharcavam cada vez mais no lodo que o solo ressumbrava.<\/p>\n<p>Veio-me ent\u00e3o o receio de que eu, da\u00ed a pouco, n\u00e3o pudesse reconhecer o caminho e n\u00e3o lograsse por conseguinte chegar ao meu destino. Era preciso, pois, n\u00e3o perder um segundo; n\u00e3o dar tempo ao bolor e \u00e0 lama de esconderem de todo o ch\u00e3o e as paredes.<\/p>\n<p>E procurei, numa afli\u00e7\u00e3o, aligeirar o passo, a despeito da fadiga que me acabrunhava. Mas, ah! era imposs\u00edvel conseguir mais do que arrastar-me penosamente, como um verme ferido.<br \/>\nE o meu desespero crescia com a minha impot\u00eancia e com o meu sobressalto.<br \/>\nMis\u00e9ria! Agora j\u00e1 me custava at\u00e9 distinguir o que meus dedos tateavam, porque o frio os tornara dormentes e sem tato. Mas arrastava-me, arquejante, sequioso, coberto de suor, sem f\u00f4lego; mas arrastava-me.<\/p>\n<p>Arrastava-me.<\/p>\n<p>Afinal uma alegria agitou-me o cora\u00e7\u00e3o: minhas m\u00e3os acabavam de reconhecer as grades do jardim de Laura. Reanimou-me a alma. Mais alguns passos somente, e estaria \u00e0 sua porta!<\/p>\n<p>Fiz um extremo esfor\u00e7o e rastejei at\u00e9 l\u00e1.<\/p>\n<p>Enfim!<\/p>\n<p>E deixei-me cair prostrado, naquele mesmo patamar, que eu, dantes, tantas vezes atravessara ligeiro e alegre, com o peito a estalar-me de felicidade.<\/p>\n<p>A casa estava aberta. Procurei o primeiro degrau da escada e a\u00ed ca\u00ed de rojo, sem for\u00e7as ainda para galg\u00e1-la.<br \/>\nE resfoleguei, com a cabe\u00e7a pendida, os bra\u00e7os abandonados ao descanso, as pernas entorpecidas pela umidade. E, todavia, ai de mim! as minhas esperan\u00e7as feneciam ao frio sopro de morte que vinha l\u00e1 de dentro.<\/p>\n<p>Nem um rumor! Nem o mais leve murm\u00fario! Nem o mais ligeiro sinal de vida! Terr\u00edvel desilus\u00e3o aquele sil\u00eancio pressagiava!<\/p>\n<p>As l\u00e1grimas come\u00e7aram a correr-me pelo rosto tamb\u00e9m silenciosas.<br \/>\nDescansei longo tempo! depois ergui-me e pus-me a subir a escada, lentamente, lentamente.<\/p>\n<p>V<\/p>\n<p>Ah! Quantas recorda\u00e7\u00f5es aquela escada me trazia!&#8230; Era a\u00ed, nos seus \u00faltimos degraus, junto \u00e0s grades de madeira polida que eu, todos os dias, ao despedir-me de Laura, trocava com esta o silencioso juramento do nosso olhar. Foi a\u00ed que eu pela primeira vez lhe beijei a sua formosa e pequenina m\u00e3o de brasileira.<\/p>\n<p>Estaquei, todo vergado l\u00e1 para dentro, escutando.<\/p>\n<p>Nada!<\/p>\n<p>Entrei na sala de visitas, vagarosamente, abrindo caminho com os bra\u00e7os abertos, como se nadasse na escurid\u00e3o. Reconheci os primeiros objetos em que tropecei; reconheci o velho piano em que ela costumava tocar as suas pe\u00e7as favoritas; reconheci as estantes, pejadas de partituras, em que nossas m\u00e3os muitas vezes se encontraram, procurando a mesma m\u00fasica; e depois, avan\u00e7ando alguns passos de son\u00e2mbulo, dei com a poltrona, a mesma poltrona em que ela, reclinada, de olhos baixos e chorosos ouviu corando o meu protesto de amor, quando, tamb\u00e9m pela primeira vez, me animei a confessar-lho.<\/p>\n<p>Oh! como tudo isso agora me acabrunhava de saudade!&#8230; Conhecemo-nos havia cousa de cinco anos; Laura ent\u00e3o era ainda quase uma crian\u00e7a e eu ainda n\u00e3o era bem um homem. Vimo-nos um domingo, pela manh\u00e3, ao sairmos da missa. Eu ia ao lado de minha m\u00e3e, que nesse tempo ainda existia e&#8230;<\/p>\n<p>Mas, para que reviver semelhantes recorda\u00e7\u00f5es?&#8230; Acaso tinha eu o direito de pensar em amor?&#8230; Pensar em amor, quando em torno de mim o mundo inteiro se transformava em lodo?&#8230;<\/p>\n<p>Esbarrei contra uma mesinha redonda, tateei-a, achei sobre ela, entre outras cousas, uma bilha d&#8217;\u00e1gua; bebi sequiosamente. Em seguida procurei achar a porta, que comunicava com o interior da casa; mas vacilei. Tremiam-me as pernas e arquejava-me o peito.<\/p>\n<p>Oh! J\u00e1 n\u00e3o podia haver o menor vislumbre de esperan\u00e7a! Aquele canto sagrado e tranq\u00fcilo, aquela habita\u00e7\u00e3o da honestidade e do pudor, tamb\u00e9m tinham sido varridos pelo implac\u00e1vel sopro!<\/p>\n<p>Mas era preciso decidir-me a entrar. Quis chamar por algu\u00e9m; n\u00e3o consegui articular mais do que o murm\u00fario de um segredo indistingu\u00edvel.<br \/>\nFiz-me forte; avancei \u00e0s apalpadelas. Encontrei uma porta; abri-a. Penetrei numa saleta; n\u00e3o encontrei ningu\u00e9m. Caminhei para diante; entrei na primeira alcova, tateei o primeiro cad\u00e1ver.<\/p>\n<p>Pelas barbas reconheci logo o pai de Laura. Estava deitado no seu leito; tinha a boca \u00famida e viscosa. Limpei as m\u00e3os \u00e0 roupa e continuei a minha tenebrosa revista.<\/p>\n<p>No quarto imediato a m\u00e3e de minha noiva jazia ajoelhada defronte do seu orat\u00f3rio; ainda com as m\u00e3os postas, mas o rosto j\u00e1 pendido para a terra. Corri-lhe os dedos pela cabe\u00e7a; ela desabou para o lado, dura como uma est\u00e1tua. A queda n\u00e3o produziu ru\u00eddo.<br \/>\nContinuei a andar.<\/p>\n<p>O quarto que se seguia era o de Laura; sabia-o perfeitamente. O cora\u00e7\u00e3o agitou-se-me sobressaltado; mas fui caminhando sempre com os bra\u00e7os estendidos e a respira\u00e7\u00e3o convulsa.<\/p>\n<p>Nunca houvera ousado penetrar naquela casta alcova de donzela, e um respeito profundo imobilizou-me junto \u00e0 porta, como se me pesasse profanar com a minha presen\u00e7a t\u00e3o puro e religioso asilo do pudor. Era, por\u00e9m, indispens\u00e1vel que eu me convencesse de que Laura tamb\u00e9m me havia abandonado como os outros; que me convencesse de que ela consentira que a sua alma, que era s\u00f3 minha, partisse com as outras almas desertoras; que eu disso me convencesse, para ent\u00e3o cair ali mesmo a seus p\u00e9s, fulminado, amaldi\u00e7oando a Deus e \u00e0 sua loucura!<br \/>\nE havia de ser assim! Havia de ser assim, porque antes, mil vezes antes, morto com ela do que vivo sem a possuir!<\/p>\n<p>Entrei no quarto. Apalpei as trevas. N\u00e3o havia sequer o rumor da asa de uma mosca. Adiantei-me.<\/p>\n<p>Achei uma estreita cama, castamente velada por ligeiro cortinado de cambraia. Afastei-o e, continuando a tatear, encontrei um corpo, mimoso e franzino todo fechado num roup\u00e3o de flanela. Reconheci aqueles formosos cabelos cetinosos: reconheci aquela carne delicada e virgem; aquela pequenina m\u00e3o, e tamb\u00e9m reconheci a alian\u00e7a, que eu mesmo lhe colocara num dos dedos.<\/p>\n<p>Mas oh! Laura, a minha estremecida Laura, estava t\u00e3o fria e t\u00e3o inanimada como os outros!<\/p>\n<p>E um fluxo de solu\u00e7os, abafados e sem eco, saiu-me do cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ajoelhei-me junto \u00e0 cama e, tal como fizera com as minhas violetas, debrucei-me sobre aquele pudibundo rosto j\u00e1 sem vida, para respirar-lhe o b\u00e1lsamo da alma. Longo tempo meus l\u00e1bios, que as l\u00e1grimas ensopavam, \u00e0queles frios l\u00e1bios se colaram, no mais sentido, no mais terno e profundo beijo que se deu sobre a terra.<\/p>\n<p>&#8211; Laura! balbuciei tremente. \u00d3 minha Laura! Pois ser\u00e1 poss\u00edvel que tu, pobre e querida flor, casta companheira das minhas esperan\u00e7as! ser\u00e1 poss\u00edvel que tu tamb\u00e9m me abandonasses&#8230; sem uma palavra ao menos&#8230; indiferente e alheia como os outros?&#8230; Para onde t\u00e3o longe e t\u00e3o precipitadamente te partiste, doce amiga, que do nosso m\u00edsero amor nem a mais ligeira lembran\u00e7a me deixaste?&#8230;<br \/>\nE cingindo-a nos meus bra\u00e7os, tomei-a contra o peito, a solu\u00e7ar de dor e de saudade.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o; n\u00e3o! disse-lhe sem voz. N\u00e3o me separarei de ti, ador\u00e1vel despojo! N\u00e3o te deixarei aqui sozinha, minha Laura! Viva, eras tu que me conduzias \u00e0s mais altas regi\u00f5es do ideal e do amor; viva, eras tu que davas asas ao meu esp\u00edrito, energia ao meu cora\u00e7\u00e3o e garras ao meu talento! Eras tu, luz de minha alma, que me fazias ambicionar futuro, gl\u00f3ria, imortalidade! Morta, h\u00e1s de arrastar-me contigo ao insond\u00e1vel p\u00e9lago do Nada! Sim! Desceremos ao abismo, os dois, abra\u00e7ados, eternamente unidos, e l\u00e1 ficaremos para sempre, como duas ra\u00edzes mortas, entretecidas e petrificadas no fundo da terra!<\/p>\n<p>E, em v\u00e3o tentando falar assim, chamei-a de todo contra meu corpo, entre solu\u00e7os, osculando-lhe os cabelos.<\/p>\n<p>\u00d3 meu Deus! Estaria sonhando?&#8230; Dir-se-ia que a sua cabe\u00e7a levemente se movera para melhor repousar sobre meu ombro!&#8230; N\u00e3o seria ilus\u00e3o do meu pr\u00f3prio amor despeda\u00e7ado?&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Laura! tentei dizer, mas a voz n\u00e3o me passava da garganta.<\/p>\n<p>E colei de novo os meus l\u00e1bios contra os l\u00e1bios dela.<\/p>\n<p>&#8211; Laura! Laura!<\/p>\n<p>Oh! Agora sentira perfeitamente. Sim! sim! n\u00e3o me enganava! Ela vivia! Ela vivia ainda, meu Deus!<\/p>\n<p>VI<\/p>\n<p>E comecei a bater-lhe na palma das m\u00e3os, a soprar-lhe os olhos, a agitar-lhe o corpo entre meus bra\u00e7os, procurando cham\u00e1-la \u00e0 vida.<\/p>\n<p>E n\u00e3o haver uma luz! E eu n\u00e3o poder articular palavra! E n\u00e3o dispor de recurso algum para lhe poupar ao menos o sobressalto que a esperava quando recuperasse os sentidos! Que ansiedade! Que terr\u00edvel tormento!<br \/>\nE, com ela recolhida ao colo, assim prostrada e muda, continuei a murmurar-lhe ao ouvido as palavras mais doces que toda a minha ternura conseguia descobrir nos segredos do meu pobre amor.<\/p>\n<p>Ela come\u00e7ou a reanimar-se; seu corpo foi a pouco e pouco recuperando o calor perdido.<\/p>\n<p>Seus l\u00e1bios entreabriram-se j\u00e1, respirando de leve.<\/p>\n<p>&#8211; Laura! Laura!<\/p>\n<p>Afinal senti as suas pestanas ro\u00e7arem-me na face. Ela abria os olhos.<\/p>\n<p>&#8211; Laura!<\/p>\n<p>N\u00e3o me respondeu de nenhum modo, nem tampouco se mostrou sobressaltada com a minha presen\u00e7a. Parecia son\u00e2mbula, indiferente \u00e0 escurid\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; Laura! minha Laura!<\/p>\n<p>Aproximei os l\u00e1bios de seus l\u00e1bios ainda frios, e senti um murm\u00fario suave e medroso exprimir o meu nome.<br \/>\nOh! ningu\u00e9m, ningu\u00e9m pode calcular a como\u00e7\u00e3o que se apossou de mim! Todo aquele tenebroso inferno por um instante se alegrou e sorriu.<\/p>\n<p>E, nesse transporte de todo o meu ser, n\u00e3o entrava, todavia, o menor contingente dos sentidos. Nesse momento todo eu pertencia a um delicioso estado m\u00edstico, alheio completamente \u00e0 vida animal. Era como se me transportasse para outro mundo, reduzido a uma ess\u00eancia ideal e indissol\u00favel, feita de amor e bem-aventuran\u00e7a. Compreendi ent\u00e3o esse v\u00f4o et\u00e9reo de duas almas aladas na mesma f\u00e9, deslizando juntas pelo espa\u00e7o em busca do para\u00edso. Senti a terra mesquinha para n\u00f3s, t\u00e3o grandes e t\u00e3o alevantados no nosso sentimento. Compreendi a divinal e suprema vol\u00fapia do noivado de dois esp\u00edritos que se unem para sempre.<\/p>\n<p>&#8211; Minha Laura! Minha Laura!<\/p>\n<p>Ela passou-me os bra\u00e7os em volta do pesco\u00e7o e tr\u00eamula uniu sua boca \u00e0 minha, para dizer que tinha sede.<br \/>\nLembrei-me da bilha d&#8217;\u00e1gua. Ergui-me e fui, \u00e0s apalpadelas busc\u00e1-la onde estava.<\/p>\n<p>Depois de beber, Laura perguntou-me se a luz e o som nunca mais voltariam. Respondi vagamente, sem compreender como podia ser que ela se n\u00e3o assustava naquelas trevas e n\u00e3o me repelia do seu leito de donzela.<br \/>\nEra bem estranho o nosso modo de conversar. N\u00e3o fal\u00e1vamos, apenas mov\u00edamos com os l\u00e1bios. Havia um mist\u00e9rio de sugest\u00e3o no com\u00e9rcio das nossas id\u00e9ias; tanto que, para nos entendermos melhor, precis\u00e1vamos \u00e0s vezes unir as cabe\u00e7as, fronte com fronte.<\/p>\n<p>E semelhante processo de dialogar em sil\u00eancio fatigava-nos, a ambos, em extremo. Eu sentia distintamente, com a testa colada \u00e0 testa de Laura, o esfor\u00e7o que ela fazia para compreender bem o meu pensamento.<\/p>\n<p>E interrogamos um ao outro, ao mesmo tempo, o que seria ent\u00e3o de n\u00f3s, perdidos e abandonados no meio daquele tenebroso campo de mortos? Como poder\u00edamos sobreviver a todos os nossos semelhantes?&#8230;<\/p>\n<p>Emudecemos por longo espa\u00e7o, de m\u00e3os dadas e com as frontes unidas. Resolvemos morrer juntos.<\/p>\n<p>Sim! Era tudo que nos restava! Mas, de que modo realizar esse intento?&#8230; Que morte descobrir\u00edamos capaz de arrebatar-nos aos dois de uma s\u00f3 vez?&#8230;<\/p>\n<p>Calamo-nos de novo, ajustando melhor as frontes cada qual mais absorto pela mesma preocupa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ela, por fim lembrou o mar. Sair\u00edamos juntos \u00e0 procura dele, e abra\u00e7ados perecer\u00edamos no fundo das \u00e1guas. Ajoelhou-se e rezou, pedindo a Deus por toda aquela humanidade que partira antes de n\u00f3s; depois ergueu-se, passou-me o bra\u00e7o na cintura, e come\u00e7amos juntos a tatear a escurid\u00e3o, dispostos a cumprir o nosso derradeiro voto.<\/p>\n<p>VII<\/p>\n<p>L\u00e1 fora a umidade crescia, liq\u00fcefazendo a crosta da terra. O ch\u00e3o tinha j\u00e1 uma sorvedora acumula\u00e7\u00e3o de lodo, em que o p\u00e9 se atolava. As ruas estreitavam-se entre duas florestas de bolor que nasciam de cada lado das paredes.<\/p>\n<p>Laura e eu, presos um ao outro pela cintura, arriscamos os primeiros passos e pusemo-nos a andar com extrema dificuldade, procurando a dire\u00e7\u00e3o do mar, tristes e mudos, como os dois enxotados do Para\u00edso.<\/p>\n<p>Pouco a pouco foi-nos ganhando uma profunda indiferen\u00e7a por toda aquela lama, em cujo ventre, n\u00f3s, pobres vermes penosamente nos mov\u00edamos. E deixamos que os nossos esp\u00edritos, desarmados da faculdade de falar, se procurassem e se entendessem por conta pr\u00f3pria, num misterioso id\u00edlio em que as nossas almas se estreitavam e se confundiam.<\/p>\n<p>Agora, j\u00e1 n\u00e3o nos era preciso unir as frontes ou os l\u00e1bios para trocar id\u00e9ias e pensamentos. Nossos c\u00e9rebros travavam entre si cont\u00ednuo e silencioso di\u00e1logo, que em parte nos ado\u00e7ava as penas daquela triste viagem para a Morte; enquanto os nossos corpos esquecidos, iam maquinalmente prosseguindo, passo a passo, por entre o limo pegajoso e \u00famido.<\/p>\n<p>Lembrei-me das provis\u00f5es que trazia na algibeira; ofereci-lhas; Laura recusou-as, afirmando que n\u00e3o tinha fome.<\/p>\n<p>Deparei ent\u00e3o que eu tamb\u00e9m n\u00e3o sentia agora a menor vontade de comer e, o que era mais singular, n\u00e3o sentia frio.<\/p>\n<p>E continuamos a nossa peregrina\u00e7\u00e3o e o nosso di\u00e1logo. Ela, de vez em quando, repousava a cabe\u00e7a no meu ombro, e par\u00e1vamos para descansar.<br \/>\nMas o lodo crescia, e o bolor condensava-se de um lado e de outro lado, mal nos deixando uma estreita vereda por onde, no entanto, prossegu\u00edamos sempre, arrastando-nos abra\u00e7ados.<\/p>\n<p>J\u00e1 n\u00e3o tate\u00e1vamos o caminho, nem era preciso, porque n\u00e3o havia que recear o menor choque. Por entre a densa vegeta\u00e7\u00e3o do mofo, nasciam agora da direita e da esquerda, almofadando a nossa passagem, enormes cogumelos e fung\u00f5es, penugentos e veludados, contra os quais escorreg\u00e1vamos como por sobre arminhos podres.<\/p>\n<p>\u00c0quela absoluta aus\u00eancia do sol e do calor, formavam-se e cresciam esses monstros da treva, disformes seres \u00famidos e moles; tortulhos gigantescos cujas polpas esponjosas, como imensos tub\u00e9rculos de t\u00edsico, nossos bra\u00e7os n\u00e3o podiam abarcar. Era horr\u00edvel senti-los crescer assim fantasticamente, inchando ao lado e defronte uns dos outros como se toda a atividade molecular e toda a for\u00e7a agregativa e at\u00f4mica que povoava a terra, os c\u00e9us e as \u00e1guas, viessem concentrar-se neles, para neles resumir a vida inteira. Era horr\u00edvel, para n\u00f3s, que nada mais ouv\u00edamos, senti-los inspirar e respirar, como animais, sorvendo gulosamente o oxig\u00eanio daquela infind\u00e1vel noite.<br \/>\nAi! desgra\u00e7ados de n\u00f3s, minha querida Laura! De tudo que vivia \u00e0 luz do sol s\u00f3 eles persistiam; s\u00f3 eles e n\u00f3s <br \/>\ndois, tristes privilegiados naquela fria e tenebrosa desorganiza\u00e7\u00e3o do mundo!<\/p>\n<p>Meu Deus! Era como se nesse nojento viveiro, borbulhante do lodo e da treva, viera refugiar-se a grande alma do Mal, depois de repelida por todos os infernos.<\/p>\n<p>Respiramos um momento sem trocar uma id\u00e9ia; depois, resignados, continuamos a caminhar para diante, presos \u00e0 cintura um do outro, como dois m\u00edseros criminosos condenados a viver eternamente.<\/p>\n<p>VIII<\/p>\n<p>Era-nos j\u00e1 de todo imposs\u00edvel reconhecer o lugar por onde and\u00e1vamos, nem calcular o tempo que havia decorrido depois que est\u00e1vamos juntos. \u00c0s vezes se nos afigurava que muitos e muitos anos nos separavam do \u00faltimo sol; outras vezes nos parecia a ambos que aquelas trevas tinham-se fechado em torno de n\u00f3s apenas alguns momentos antes.<\/p>\n<p>O que sent\u00edamos bem claro era que os nossos p\u00e9s cada vez mais se entranhavam no lodo, e que toda aquela umidade grossa, da lama e do ar espesso, j\u00e1 nos n\u00e3o repugnava como a princ\u00edpio e dava-nos agora, ao contr\u00e1rio, certa satisfa\u00e7\u00e3o volutuosa embeber-nos nela, como se por todos os nossos poros a sorv\u00eassemos para nos alimentar.<\/p>\n<p>Os sapatos foram-se-nos a pouco e pouco desfazendo, at\u00e9 nos abandonarem descal\u00e7os completamente; e as nossas vestimentas reduziram-se a farrapos imundos. Laura estremeceu de pudor com a id\u00e9ia de que em breve estaria totalmente despida e descomposta; soltou os cabelos para se abrigar com eles e pediu-me que apress\u00e1ssemos a viagem, a ver se alcan\u00e7\u00e1vamos o mar, antes que as roupas a deixassem de todo. Depois calou-se por muito tempo.<br \/>\nComecei a notar que os pensamentos dela iam progressivamente rareando, tal qual sucedia ali\u00e1s comigo mesmo.<\/p>\n<p>Minha mem\u00f3ria embotava-se. Afinal, j\u00e1 n\u00e3o era s\u00f3 a palavra falada que nos fugia; era tamb\u00e9m a palavra concebida. As luzes da nossa intelig\u00eancia desmaiavam lentamente, como no c\u00e9u as tr\u00eamulas estrelas que pouco a pouco se apagaram para sempre. J\u00e1 n\u00e3o v\u00edamos; j\u00e1 n\u00e3o fal\u00e1vamos; \u00edamos tamb\u00e9m deixar de pensar.<\/p>\n<p>Meu Deus! era a treva que nos invadia! Era a treva, bem o sent\u00edamos! que come\u00e7ava, gota a gota, a cair dentro de n\u00f3s.<\/p>\n<p>S\u00f3 uma id\u00e9ia, uma s\u00f3, nos restava por fim: descobrir o mar, para pedir-lhe o termo daquela horr\u00edvel agonia. Laura passou-me os bra\u00e7os em volta do pesco\u00e7o, suplicando-me com o seu derradeiro pensamento que eu n\u00e3o a deixasse viver por muito tempo ainda.<br \/>\nE avan\u00e7amos com maior coragem, na esperan\u00e7a de morrer.<\/p>\n<p>IX<\/p>\n<p>Mas, \u00e0 propor\u00e7\u00e3o que O nosso esp\u00edrito por tal estranho modo se neutralizava, fortalecia-se-nos o corpo maravilhosamente, a refazer-se de seiva no meio nutritivo e fertilizante daquela decomposi\u00e7\u00e3o geral. Sent\u00edamos perfeitamente o misterioso trabalho de reviscera\u00e7\u00e3o que se travava dentro de n\u00f3s; sent\u00edamos o sangue enriquecer de flu\u00eddos vitais e ativar-se nos nossos vasos, circulando vertiginosamente a martelar por todo o corpo. Nosso organismo transformava-se num laborat\u00f3rio, revolucionado por uma chusma de dem\u00f4nios.<\/p>\n<p>E nossos m\u00fasculos robusteceram-se por encanto, e os nossos membros avultaram num cont\u00ednuo desenvolvimento. E sentimos crescer os ossos, e sentimos a medula pulular engrossando e aumentando dentro deles. E sentimos as nossas m\u00e3os e os nossos p\u00e9s tornarem-se fortes, como os de um gigante; e as nossas pernas encorparem, mais consistentes e mais \u00e1geis; e os nossos bra\u00e7os se estenderem maci\u00e7os e poderosos.<br \/>\nE todo o nosso sistema muscular se desenvolveu de s\u00fabito, em preju\u00edzo do sistema nervoso que se amesquinhava progressivamente. Fizemo-nos herc\u00faleos, de uma pujan\u00e7a de animais ferozes, sentindo-nos capazes cada qual de afrontar imp\u00e1vidos todos os elementos do globo e todas as lutas pela vida f\u00edsica.<\/p>\n<p>Depois de apalpar-me surpreso, tateei o pesco\u00e7o, o tronco e os quadris de Laura. Parecia-me ter debaixo das minhas m\u00e3os de gigante a est\u00e1tua colossal de uma deusa pag\u00e3. Seus peitos eram fecundos e opulentos; suas ilhargas cheias e grossas como as de um animal bravio.<\/p>\n<p>E assim refeitos pusemo-nos a andar familiarmente naquele lodo, como se f\u00f4ramos criados nele. Tamb\u00e9m j\u00e1 n\u00e3o pod\u00edamos ficar um instante no mesmo lugar, inativos; uma irresist\u00edvel necessidade de exerc\u00edcio arrastava-nos, a despeito da nossa vontade, agora fraca e mal segura. E, quanto mais se nos embrutecia o c\u00e9rebro, tanto mais os nossos membros reclamavam atividade e a\u00e7\u00e3o; sent\u00edamos gosto em correr, correr muito, cabriolando por ali a fora, e sent\u00edamos \u00edmpetos de lutar, de vencer, de dominar algu\u00e9m com a nossa for\u00e7a.<\/p>\n<p>Laura atirava-se contra mim, numa car\u00edcia selvagem e plet\u00f3rica, apanhando-me a boca com os seus l\u00e1bios fortes de mulher irracional e estreitando-se comigo sensualmente, a morder-me os ombros e os bra\u00e7os.<br \/>\nE l\u00e1 \u00edamos insepar\u00e1veis naquela nossa nova maneira de existir, sem mem\u00f3ria de outra vida, amando-nos com toda a for\u00e7a dos nossos impulsos; para sempre esquecidos um no outro, como os dois \u00faltimos parasitas do cad\u00e1ver de um mundo.<\/p>\n<p>Certa vez, de surpresa, nossos olhos tiveram a alegria de ver.<\/p>\n<p>Uma enorme e difusa claridade fosforescente estendia-se defronte de n\u00f3s, a perder de vista. Era o mar.<\/p>\n<p>Estava morto e quieto.<\/p>\n<p>Um triste mar, sem ondas e sem solu\u00e7os, chumbado \u00e0 terra na sua profunda imobilidade de orgulhoso monstro abatido.<\/p>\n<p>Fazia d\u00f3 v\u00ea-lo assim, concentrado e mudo, saudoso das estrelas, vi\u00favo do luar. Sua grande alma branca, de antigo lutador, parecia debru\u00e7ar-se ainda sobre o resfriado cad\u00e1ver daquelas \u00e1guas silenciosas chorando as extintas noites, claras e felizes, em que elas, como um bando de n\u00e1iades alegres, vinham aos saltos, tontas de alegria, quebrar na praia as suas risadas de prata.<\/p>\n<p>Pobre mar! Pobre atleta! Nada mais lhe restava agora sobre o pl\u00fambeo dorso fosforescente do que tristes esqueletos dos \u00faltimos navios, ali fincados, espetrais e negros, como in\u00fateis e partidas cruzes de um velho cemit\u00e9rio abandonado.<\/p>\n<p>X<\/p>\n<p>Aproximamo-nos daquele pobre oceano morto. Tentei invadi-lo, mas meus p\u00e9s n\u00e3o acharam que distinguir entre sua fosforescente gelatina e a lama negra da terra, tudo era igualmente lodo.<br \/>\nLaura conservava-se im\u00f3vel como que aterrada defronte do imenso cad\u00e1ver luminoso. Agora, assim contra a embaciada l\u00e2mina das \u00e1guas, nossos perfis se destacavam t\u00e3o bem, como, ao longe, se destacavam as ru\u00ednas dos navios. J\u00e1 nos n\u00e3o record\u00e1vamos da nossa inten\u00e7\u00e3o de afogar-nos juntos. Com um gesto chamei-a para meu lado. Laura, sem dar um passo, encarou-me com espanto, estranhando-me. Tornei a cham\u00e1-la; n\u00e3o veio.<\/p>\n<p>Fui ter ent\u00e3o com ela; ao ver-me, por\u00e9m, aproximar, deu medrosa um ligeiro salto para tr\u00e1s e p\u00f4s-se a correr pela extens\u00e3o da praia, como se fugisse a um monstro desconhecido.<br \/>\nPrecipitei-me tamb\u00e9m, para alcan\u00e7\u00e1-la. Vendo-se perseguida, atirou-se ao ch\u00e3o, a galopar, quadrupedando que nem um animal. Eu fiz o mesmo, e cousa singular! notei que me sentia muito mais \u00e0 vontade nessa posi\u00e7\u00e3o de quadr\u00fapede do que na minha natural posi\u00e7\u00e3o de homem.<\/p>\n<p>Assim galopamos longo tempo \u00e0 beira-mar; mas, percebendo que a minha companheira me fugia assustada para o lado das trevas, tentei det\u00ea-la, soltei um grito, soprando com toda a for\u00e7a o ar dos meus pulm\u00f5es de gigante. Nada mais consegui do que dar um ronco de besta; Laura, todavia respondeu com outro. Corri para ela e os nossos berros ferozes perderam-se longamente por aquele mundo vazio e morto.<\/p>\n<p>Alcancei-a por fim; ela havia ca\u00eddo por terra, prostrada de fadiga. Deitei-me ao seu lado, rosnando ofegante de cansa\u00e7o. Na escurid\u00e3o reconheceu-me logo; tomou-me contra o seu corpo e afagou-me instintivamente.<br \/>\nQuando resolvemos continuar a nossa peregrina\u00e7\u00e3o, foi de quatro p\u00e9s que nos pusemos a andar ao lado um do outro, naturalmente sem dar por isso.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o meu corpo principiou a revestir-se de um p\u00ealo espesso. Apalpei as costas de Laura e observei que com ela acontecia a mesma cousa.<br \/>\nAssim era melhor, porque ficar\u00edamos perfeitamente abrigados do frio, que agora aumentava.<\/p>\n<p>Depois, senti que os meus maxilares se dilatavam de modo estranho, e que as minhas presas cresciam, tornando-se mais fortes, mais adequadas ao ataque, e que, lentamente, se afastavam dos dentes queixais; e que meu cr\u00e2nio se achatava; e que a parte inferior do meu rosto se alongava para a frente, afilando como um focinho de c\u00e3o; e que meu nariz deixava de ser aquilino e perdia a linha vertical, para acompanhar o alongamento da mand\u00edbula; e que enfim as minhas ventas se patenteavam, arrega\u00e7adas para o ar, \u00famidas e frias.<br \/>\nLaura, ao meu lado, sofria iguais transforma\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>E notamos que, \u00e0 medida que se nos apagavam uns restos de intelig\u00eancia e o nosso tato se perdia, apurava-se-nos o olfato de um modo admir\u00e1vel, tomando as propor\u00e7\u00f5es de um faro certeiro e sutil, que alcan\u00e7ava l\u00e9guas.<\/p>\n<p>E galop\u00e1vamos contentes ao lado um do outro, grunhindo e sorvendo o ar, satisfeitos de existir assim. Agora, o fartum da terra encharcada e das mat\u00e9rias em decomposi\u00e7\u00e3o, longe de enjoar-nos, chamava-nos a vontade de comer. E os meus bigodes, cujos fios se inteiri\u00e7avam como cerdas de porco, serviam-me para sondar o caminho, porque as minhas m\u00e3os haviam afinal perdido de todo a delicadeza do tato.<br \/>\nJ\u00e1 n\u00e3o me lembrava por melhor esfor\u00e7o que empregasse, uma s\u00f3 palavra do meu idioma, como se eu nunca tivera falado. Agora, para entender-me com Laura, era preciso uivar; e ela me respondia do mesmo modo.<\/p>\n<p>N\u00e3o conseguia tamb\u00e9m lembrar-me nitidamente de como fora o mundo antes daquelas trevas e daquelas nossas metamorfoses, e at\u00e9 j\u00e1 me n\u00e3o recordava bem de como tinha sido a minha pr\u00f3pria fisionomia primitiva, nem a de Laura. Entretanto, meu c\u00e9rebro funcionava ainda, l\u00e1 a seu modo, porque, afinal, tinha eu consci\u00eancia de que existia e preocupava-me em conservar junto de mim a minha companheira, a quem agora s\u00f3 com os dentes afagava.<\/p>\n<p>Quanto tempo se passou assim para n\u00f3s, nesse estado de irracionais, \u00e9 o que n\u00e3o posso dizer; apenas sei que, sem saudades de outra vida, trotando ao lado um do outro, percorr\u00edamos ent\u00e3o o mundo perfeitamente familiarizados com a treva e com a lama, esfocinhando no ch\u00e3o, \u00e0 procura de ra\u00edzes, que devor\u00e1vamos com prazer; e sei que, ao sentir-nos cansados, nos estend\u00edamos por terra, juntos e tranq\u00fcilos, perfeitamente felizes, porque n\u00e3o pens\u00e1vamos e porque n\u00e3o sofr\u00edamos.<\/p>\n<p>XI<\/p>\n<p>De uma feita, por\u00e9m, ao levantar-me do ch\u00e3o, senti os p\u00e9s tr\u00f4pegos, pesados, e como que propensos a se entranharem por ele. Apalpei-os e encontrei as unhas moles e abafadas, a despregarem-se. Laura, junto de mim, observou em si a mesma cousa. Come\u00e7amos logo a tir\u00e1-las com os dentes, sem experimentarmos a menor dor; depois passamos a fazer o mesmo com as das m\u00e3os; \u00e1s pontas dos nossos dedos logo que se acharam despojadas das unhas, transformaram-se numa esp\u00e9cie de ventosa do polvo, numas bocas de sanguessuga, que se dilatavam e contra\u00edam incessantemente, sorvendo gulosas o ar e a umidade. Come\u00e7aram-nos os p\u00e9s a radiar em longos e \u00e1vidos tent\u00e1culos de p\u00f3lipo; e os seus filamentos e as suas rad\u00edculas eminhocaram pelo lodo fresco do ch\u00e3o, procurando s\u00f4fregos internar-se bem na terra, para ir l\u00e1 dentro beber-lhes o h\u00famus azotado e nutriente; enquanto os dedos das m\u00e3os esgalhavam, um a um, ganhando pelo espa\u00e7o e chupando o ar voluptuosamente pelos seus respiradouros, fossando e fungando, irrequietos e morosos, como trombas de elefante.<\/p>\n<p>Desesperado, ergui-me em toda a minha colossal estatura de gigante e sacudi os bra\u00e7os, tentando dar um arranco, para soltar-me do solo. Foi in\u00fatil. Nem s\u00f3 n\u00e3o consegui despregar meus p\u00e9s enraizados no ch\u00e3o, como fiquei de m\u00e3os atira das para o alto, numa postura m\u00edstica como arrebatado num \u00eaxtase religioso, im\u00f3vel. Laura, igualmente presa \u00e0 terra, ergueu-se rente comigo, peito a peito, entrela\u00e7ando nos meus seus bra\u00e7os esgalhados e procurando unir sua boca \u00e0 minha boca.<\/p>\n<p>E assim nos quedamos para sempre, a\u00ed plantados e seguros, sem nunca mais nos soltarmos um do outro, nem mais podermos mover com os nossos duros membros contra\u00eddos. E, pouco a pouco, nossos cabelos e nossos p\u00ealos se nos foram desprendendo e caindo lentamente pelo corpo abaixo. E cada poro que eles deixavam era um novo respiradouro que se abria para beber a noite tenebrosa. Ent\u00e3o sentimos que o nosso sangue ia-se a mais e mais se arrefecendo e desfibrinando, at\u00e9 ficar de todo transformado numa seiva linf\u00e1tica e fria. Nossa medula come\u00e7ou a endurecer e revestir-se de camadas lenhosas, que substitu\u00edam os ossos e os m\u00fasculos; e n\u00f3s fomos surdamente nos lignificando, nos encascando, a fazer-nos fibrosos desde o tronco at\u00e9 \u00e0s hastes e \u00e0s estipulas.<\/p>\n<p>E os nossos p\u00e9s, num misterioso trabalho subterr\u00e2neo, continuavam a lan\u00e7ar pelas entranhas da terra as suas longas e insaci\u00e1veis ra\u00edzes; e os dedos das nossas m\u00e3os continuavam a multiplicar-se, a crescer e a esfolhar, como galhos de uma \u00e1rvore que reverdece. Nossos olhos desfizeram-se em goma espessa e escorreram-nos pela crosta da cara, secando depois como resina; e das suas \u00f3rbitas vazias come\u00e7avam a brotar muitos rebent\u00f5es vi\u00e7osos. Os dentes despregaram-se, um por um, caindo de per si, e as nossas bocas murcharam-se in\u00fateis, vindo, tanto delas, como de nossas ventas j\u00e1 sem faro, novas verg\u00f4nteas e renovos que abriam novas folhas e novas br\u00e1cteas. E agora s\u00f3 por estas e pelas extensas ra\u00edzes de nossos p\u00e9s \u00e9 que nos aliment\u00e1vamos para viver.<\/p>\n<p>E viv\u00edamos.<\/p>\n<p>Uma exist\u00eancia tranq\u00fcila, doce, profundamente feliz, em que n\u00e3o havia desejos, nem saudades; uma vida imperturb\u00e1vel e surda, em que os nossos bra\u00e7os iam por si mesmos se estendendo pregui\u00e7osamente para o c\u00e9u, a reproduzirem novos galhos donde outros rebentavam, cada vez mais copados e verdejantes. Ao passo que as nossas pernas, entrela\u00e7adas num s\u00f3 caule, cresciam e engrossavam, cobertas de armaduras corticais, fazendo-se imponentes e nodosas, como os estalados troncos desses velhos gigantes das florestas primitivas.<\/p>\n<p>XII<\/p>\n<p>Quietos e abra\u00e7ados na nossa silenciosa felicidade, bebendo longamente aquela inabal\u00e1vel noite, em cujo ventre dormiam mortas as estrelas, que n\u00f3s dantes tantas vezes contempl\u00e1vamos embevecidos e amorosos, crescemos juntos e juntos estendemos os nossos ramos e as nossas ra\u00edzes, n\u00e3o sei por quanto tempo.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei tamb\u00e9m se demos flor ou se demos frutos; tenho apenas consci\u00eancia de que depois, muito depois, uma nova imobilidade, ainda mais profunda, veio enrijar-nos de todo. E sei que as nossas fibras e os nossos tecidos endureceram a ponto de cortar a circula\u00e7\u00e3o dos fluidos que nos nutriam; e que o nosso polposo \u00e2mago e a nossa medula se foi alcalinando, at\u00e9 de todo se converter em gr\u00e9s siliciosa e calc\u00e1ria; e que afinal fomos perdendo gradualmente a natureza de mat\u00e9ria org\u00e2nica para assumirmos os caracteres do mineral.<\/p>\n<p>Nossos gigantescos membros agora completamente desprovidos da sua folhagem, contra\u00edram-se hirtos, sufocando os nossos poros; e n\u00f3s dois, sempre abra\u00e7ados, nos inteiri\u00e7amos numa s\u00f3 mole informe, sonora e maci\u00e7a, onde as nossas veias primitivas, j\u00e1 secas e tolhidas, formavam sulcos ferruginosos, feitos como que do nosso velho sangue petrificado.<\/p>\n<p>E, s\u00e9culo a s\u00e9culo, a sensibilidade foi-se-nos perdendo numa sombria indiferen\u00e7a de rocha. E, s\u00e9culo a s\u00e9culo, fomos de gr\u00e9s, de cisto, ao supremo estado de cristaliza\u00e7\u00e3o.<br \/>\nE vivemos, vivemos, e vivemos, at\u00e9 que a lama que nos cercava principiou a dissolver-se numa subst\u00e2ncia l\u00edquida, que tendia a fazer-se gasosa e a desagregar-se, perdendo o seu centro de equil\u00edbrio; uma gaseifica\u00e7\u00e3o geral, como devia ter sido antes do primeiro matrim\u00f4nio entre as duas primeiras mol\u00e9culas que se encontraram e se uniram e se fecundaram, para come\u00e7ar a intermin\u00e1vel cadeia da vida, desde o ar atmosf\u00e9rico at\u00e9 ao s\u00edlex, desde o eozoon at\u00e9 ao b\u00edpede.<\/p>\n<p>E oscilamos indolentemente naquele oceano fluido.<\/p>\n<p>Mas, por fim, sentimos faltar-nos o apoio, e resvalamos no v\u00e1cuo, e precipitamo-nos pelo \u00e9ter.<br \/>\nE, abra\u00e7ados a princ\u00edpio, soltamo-nos depois e come\u00e7amos a percorrer o firmamento, girando em volta um do outro, como um casal de estrelas errantes e amorosas, que v\u00e3o espa\u00e7o a fora em busca do ideal.<\/p>\n<p>Ora fica a\u00ed leitor paciente, nessa d\u00fazia de cap\u00edtulos desenxabidos, o que eu, naquela maldita noite de ins\u00f4nia, escrevi no meu quarto de rapaz solteiro, esperando que Sua Alteza, o Sol, se dignasse de abrir a sua audi\u00eancia matutina com os p\u00e1ssaros e com as flores.<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Editora Peir\u00f3polis lan\u00e7a em agosto, durante a <a href=\"http:\/\/www.bienaldolivrosp.com.br\/\">21\u00aa. 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