Entrevista com Tadeu Sarmento - Editora Peirópolis

Entrevista com Tadeu Sarmento

Peirópolis: Tadeu, nos conte um pouco sobre a inspiração para escrever A Viagem de Hanno e Ganda. A história nos parece tão inusitada, tão diferente…

Tadeu: Ah, isso foi bem bacana. Em 2019 eu estava pesquisando sobre o século XVII, lendo coisas, vendo documentários, pois estava escrevendo um romance que se passa nessa época, mais especificamente em 1646. Um romance para o público adulto, com quinhentas páginas e todo escrito em linguagem colonial. Um romance bem cabeçudo, como se diz, tão cabeçudo que está inédito até hoje, nenhuma editora se interessou em publicar (risos). Mas foi graças a ele que tive a oportunidade de escrever A Viagem de Hanno e Ganda.

Quer dizer, foi pesquisando para ele que acabei conhecendo esse fato histórico maravilhoso, sobre um rei em Portugal que em 1515 decide presentear o papa lá em Roma com um elefante, sem ter a mínima ideia do que fosse um, ou visto um único elefante na vida. Claro que isso só podia dar em confusão, como deu. E assim que tomei conhecimento da história, enxerguei ali um tema bem bacana para lidar em um livro para crianças e jovens: a diferença entre fato e ficção, verdade e fantasia, ciência e imaginação, poder monocrático e democracia. Tudo isso com animais falando, como uma fábula.

 

P: Você realizou muitas pesquisas para escrever a história? Conte um pouco sobre seu processo de escrita, pesquisa e criação.

T: Muitas pesquisas. E muita escrita e reescrita. De todo trabalho que envolve um livro, essa é a parte que mais gosto: pesquisar, depois escrever; depois pesquisar de novo e reescrever. É um imenso prazer para mim. É a hora em que mergulho completamente em um mundo só meu, mas que está sendo construído e ordenado para ser compartilhado com o outro, por uma necessidade de se comunicar com o outro. É um momento único, que não se repete nunca mais, pois com cada livro acontece de um jeito diferente. E com A Viagem de Hanno e Ganda foi muito especial. Li muitos livros e bestiários espalhados pela internet. E li bastante Rudyard Kipling, para aprender sobre a tradição dos macacos-narradores. Li também uma edição ilustrada de A Origem das Espécies para me inspirar com a mágica curiosidade e o mágico amor de Darwin pelo mundo.

Mas minha fonte principal, sem dúvida algum, foi um bestiário medieval digitalizado e disponível na internet que compartilho com vocês agora:

https://bestiary.ca/primarysrc.htm

 

P: Falando nisso, você apresenta os bestiários para o jovem leitor, espécie de publicação bem distante do repertório atual e comum de leituras. Fale um pouco sobre esse tipo de livro e sobre o que pode haver de tão encantador nos bestiários para o jovem de hoje.

T: Ah, os bestiários são incríveis, são interessantíssimos. Primeiro que eram livros ou folhetos alegóricos que traziam e misturavam animais reais com animais imaginários, mitológicos, e o mais legal: sem que o leitor ou a leitora conseguissem saber a diferença. Segundo que  as gravuras desses animais eram absurdamente fascinantes e misturavam elementos entre si (cobras com asas, leões com cauda de serpente, cavalos com chifres e assim por diante).

Mas o principal encantamento dos bestiários você já citou na sua pergunta: a distância que separa as pessoas que liam os bestiários das pessoas de hoje. Séculos e séculos. Eram sociedades absolutamente diferentes. Mas com uma coisa em comum, que sobrevive até agora: o espírito humano, a curiosidade humana, os próprios defeitos da humanidade e a incrível capacidade que ela tem ou para melhorá-los ou para criar discursos melhores para justificá-los.  E o texto, as palavras, são a ponte que nos leva de volta a esse passado fantástico. E precisamos sempre visitar o passado se quisermos construir o futuro.

 

P: A história parte de um engano proposital, baseado no desconhecimento das espécies, quando uma imagem poderia muito bem ser trocada por outra. Há relações possíveis com o que vivemos hoje, no contexto da pós-verdade, em que crenças, fatos e fake News se embaralham tanto?

T: Com certeza – e o livro fala dessa questão nas entrelinhas. O problema maior que a confusão entre verdade e mentira, entre fato e fake news, causa, é a maneira como os governantes e poderosos utilizam essa confusão para dominar as pessoas. Nesse sentido, o livro não condena os bestiários, pelo contrário. O retrato que temos, em A Viagem de Hanno e Ganda (e sem querer dizer muito para não dar spoiler) é a de um rei vaidoso e infantiloide, que utiliza as crenças cegas no bestiário para manter as pessoas entretidas na ignorância. Tudo para não reconhecer as próprias falhas.

O que não tem nada a ver com os bestiários. Os bestiários são fantásticos documentos de um tempo que utilizava a imaginação para inventar possibilidades a respeito de coisas que a ciência ainda não podia explicar. Ponto. Foi a invenção da imprensa de Gutenberg que popularizou os bestiários (assim como as redes sociais popularizaram as fake news) em uma época em que o método científico já estava conquistando espaço. Esse foi todo o embate. Mas os bestiários existem até hoje. São valiosas fontes de informações para todos que quiserem saber que tipo de relação já tivemos com o mundo. Uma relação na qual as categorias eram fluidas, e um homem poderia ter cabeça de touro, ou um leão ter a cabeça de uma águia. Um bestiário também se diferencia das fake News atuais no sentido de que estas estão para a mentira, enquanto aqueles estavam para o sonho.

 

P: Outras discussões interessantes que seu livro parece trazer são sobre o lugar da ciência e da imaginação; sobre o “progresso” que o conhecimento científico nos possibilita, mas também sobre o ponto em que estamos, como humanidade que se relaciona tão mal com a natureza. Comente um pouco para a gente sobre esses alcances que a história tem, por favor. Você tinha tudo isso em mente quando escreveu?

T: Não, não tinha tudo isso em mente. Já viu imagens de mineradores dentro de cavernas escuras, com aquela lâmpada presa no capacete? Escrever na maior parte do tempo é isso. Quando começamos, só vemos um pedaço da frente do caminho iluminado e, para iluminar mais, precisamos avançar mais. Ciência e imaginação são dois lados da mesma moeda, isso que aprendi depois de avançar mais, até o final de A Viagem de Hanno e Ganda. Que ciência e imaginação são expressões do espírito criativo humano, com algumas diferenças. A principal delas pode ser retratada na “disputa” bestiários versus método científico: enquanto o método científico separou a natureza do homem que iria estudá-la, os bestiários, pelo contrário, consideravam o homem como parte dela. E mais que isso: os bestiários falam de um tempo onde havia uma comunhão entre nós, o meio ambiente e os animais, onde tínhamos um outro tipo de relação, mais harmoniosa e menos predatória.

Isto é, apesar de todas as coisas bacanas que a ciência nos deu, essa ideia da separação do homem da natureza é a causa de tudo que estamos vendo hoje em dia. Falo da emergência climática e da destruição do meio ambiente. Não estamos indo por um caminho muito legal, basta olhar o que acontece hoje no Rio Grande do Sul, enchentes de proporções nunca vistas (maio de 2024). Talvez seja mesmo hora de voltarmos aos bestiários para aprender com eles sobre nossa própria sobrevivência. Voltarmos os olhos para sociedades vistas como “primitivas”, mas que são avançadas no melhor trato com o planeta, que sabem respeitar os outros seres, tão legítimos moradores do planeta Terra como pensamos que somos nós, mas estamos destruindo nossa casa e quando digo isso volto aos poderosos. A pequena porção de homens mais ricos do planeta com suas empresas e empreendimentos poluem e degradam mais que a enorme população pobre do planeta para quem faltam recursos básicos. É preciso responsabilizar os que mais poluem, matam e destroem.

O poema “Antropoceno” do Estive no fim do mundo e me lembrei de você, de Adriane Garcia, faz a denúncia mais contundente dessa calamidade que se aproxima. No final, de tanto denunciar o homem, a poeta afirma que “fica parecendo que eu odeio a humanidade”. Mas não é verdade. Nós amamos a humanidade no que ela tem de melhor. E queremos que ela sobreviva.

Ainda dá tempo!

 

Conheça o autor:

Tadeu Sarmento nasceu em Recife/PE em 4 de março de 1977, tem  47 anos e é casado. Estudou Filosofia na USP. É escritor e UX Writer. Pernambucano, mora em Belo Horizonte há vários anos. Autor de Associação Robert Walser para sósias anônimos e E se Deus for um de nós?, entre outros 15 livros. Em 2017, conquistou o 13º Prêmio Barco a Vapor, com o juvenil O Cometa é um Sol que não deu certo, publicado pela Edições SM. Em 2023, foi a vez do Meu Amigo Pedro (Vencedor do Prêmio Biblioteca Nacional 2023 e publicado pela Abacatte Editorial). A Viagem de Hanno e Ganda é seu livro de estreia da Peirópolis.

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