Entrevista com Samuel Casal - Editora Peirópolis

Entrevista com Samuel Casal

Peirópolis: Samuel, sobre o processo de ilustrar A Viagem de Hanno e Ganda, conta um pouco como foi, desde o contato com a obra e a escolha da técnica e das imagens. 

Samuel: Quando comecei a ler o texto, de imediato já começaram a surgir as possibilidades de ilustração na minha cabeça e todas faziam muita referência ao meu universo de imagens! Além dos animais sempre terem feito parte do meu repertório visual, pelo meu interesse na diversidade de formas peculiares que cada um traz em sua natureza, neste livro, os próprios animais ainda são criaturas fantasiosas, pelo contexto do desconhecido, do imaginado. Percebi, então, que o grande desafio na abordagem do texto seria justamente o de representar as criaturas de forma menos contaminada pelo conhecimento visual e diminuindo as referências de imagens que já temos prontas na nossa cabeça. Para isso, eu escolhi uma técnica onde não fosse possível controlar completamente o traço, deixando assim as artes sujeitas a acidentes e passíveis de mudanças de direção durante o processo. Utilizei o acetato com manchas básicas pinceladas de tinta, e com instrumentos de ponta seca, dentais e até bisturis.  Praticamente criei fotolitos artesanais, descontruindo as camadas e abrindo espaços de luz nas silhuetas pintadas. Vários fatores da técnica, como a espessura de tinta e até temperatura ambiente interferiam no processo, em que várias vezes surgiam texturas e comportamentos nas matrizes, que levavam o trabalho a uma direção diferente da que eu imaginava e assim, o resultado acabava me surpreendendo também. Desse modo, as criaturas ganhavam ainda mais a estranheza que eu buscava, como uma forma natural de interpretar as descrições de seres ainda não representados visualmente, com mais uso da imaginação do que da memória.

 

P: O livro traz os bestiários aos leitores, publicações que circulavam durante a Idade Média e que misturavam ciência e imaginação, borrando as fronteiras entre o que existia e o que não existia. De que modo sua obra dialoga com o espírito dos bestiários?

S: No meu processo de criação, eu dificilmente projeto os desenhos antes, fazendo esboços complexos ou usando imagens de referência, e como muitas das técnicas que eu utilizo são baseadas no desenho negativo, eu parto de manchas escuras e silhuetas onde desenho com a luz, ou seja, parto do escuro para o claro, então existe algo como uma revelação no processo. Acho que essa forma de compor o desenho tem muito em comum com o tema do livro, já que através de uma descrição, seu cérebro começa a construir, a revelar a criatura descrita pelas palavras aos poucos, com suas sensações e imaginação, até formar uma imagem, que não necessariamente é fiel à realidade, mas que é carregada de impressões muito pessoais, carregada de imaginação, e isso que começa a levar a realidade para o mundo da fantasia. Muitos mitos e lendas podem se originar dessa fronteira entre o real e a imaginação, e isso tem tudo a ver com meu trabalho.

 

P: Ilustrar para livros é muito diferente do trabalho que realiza quando faz gravuras ou pinta em cerâmicas?

S: Neste caso, foi muito semelhante. Com a liberdade editorial e com o próprio contexto da história, criei todas as artes como eu costumo fazer em minhas peças e gravuras, ou seja, sem praticamente nenhum esboço prévio, deixando os traços fluírem de acordo com a forma com que o material se comportava, deixando o gestual trabalhar às vezes e, em outros momentos, tentando ter mais controle dos traços, mas sempre aceitando os acidentes e aproveitando as surpresas durante o processo.

 

P: Quais são as suas fontes? Quais artistas e poéticas se fazem presentes em seu trabalho?

S: Eu me inspiro basicamente em duas vertentes muito diferentes do desenho. Uma tem origem nas gravuras tradicionais como as de Gustave Doré, onde admiro todo apuro técnico, hachuras e o controle totalmente racional da criação; e outra que é o oposto, que vem da arte primitiva, de povos antigos, com grafismos naturais sem interferência de referências visuais definidas. Gosto muito também da arte popular do cordel nordestino, um desenho mais intuitivo e originado em algum lugar mais desconhecido da mente, um lugar menos racional, com menos interferência. Acho que meu trabalho acaba sendo uma mistura disso, gosto desses movimentos no meu processo, às vezes parece até uma meditação, onde deixo minha mão solta, sem pensar muito, traçando de acordo com a sensação que estou tendo naquele tempo. Já em outros momentos, gosto de controlar, de limitar e definir o que está acontecendo no trabalho. Acho que assim sempre consigo ter um algum elemento de surpresa, não óbvio e projetado no final do trabalho, para que o resultado não seja apenas uma demonstração de técnica ou uma jornada que já comece se sabendo exatamente onde se vai chegar.

 

Conheça o ilustrador:

Samuel Casal nasceu em 1974, em Caxias do Sul, RS, mas reside em Florianópolis, SC, desde 1998. Trabalha como artista visual desde 1990 e ilustrou diversas publicações nacionais e internacionais, e foi vencedor de oito troféus HQMIX (Museu de Artes Gráficas Brasileiro). Casal desenvolveu inicialmente seu trabalho em ambiente digital, até que em 2003 decidiu também se dedicar a técnicas tradicionais da gravura, como a xilogravura, entre outras, tendo seus trabalhos publicados e expostos no Brasil e no Exterior. Em 2013, recebeu o Prêmio Jabuti e Menção Honrosa na Bienal Brasileira de Design Gráfico. Seus trabalhos com relevo e pintura em grandes formatos já integraram espaços como a loja conceito da marca Nike no RJ, e também a abertura da novela Velho Chico (Rede Globo). Sempre pesquisando mídias diferentes para a expressão do seu trabalho, o artista atualmente se dedica também a arte da pintura em cerâmica, sempre conjugando técnicas variadas através da experimentação dos materiais.

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