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Refugiados urbanos: de onde eles vêm?

A origem do projeto

Em 1996, chega ao Programa de Orientação e Atendimento a Dependentes (Proad), ligado ao Departamento de Psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), um pedido de supervisão a educadores que trabalhavam com crianças usuárias de droga nas imediações da Ceagesp, entreposto de alimentos da cidade de São Paulo que abastece mercados e restaurantes.

Forma-se uma equipe de psiquiatra e psicólogos que, no início do trabalho, já depara com histórias de crianças e jovens perambulando entre caminhões, caixas e muito lixo misturado a restos de comida.

Logo percebem que o desafio do trabalho com essas crianças e adolescentes era muito mais complexo que a chamada “toxicomania precoce”. Crianças e adolescentes não estavam lá à procura de droga, mas de sobrevivência física (alimento) e psíquica (significado para sua vida).

Foi com a percepção de que, para além da droga, há a singularidade de cada pessoa e de sua cultura que essa equipe criou o Projeto Quixote, tendo como referência as ideias de Olievenstein, segundo as quais a questão do uso de drogas é bastante complexa e deve ser considerada sempre pela perspectiva do tripé INDIVÍDUO – sua história, estrutura; SUBSTÂNCIA utilizada; e CONTEXTO sociocultural, para uma visão mais ampla (Olievenstein, 1983).

Refugiados urbanos

Refugiados urbanos é um programa do Projeto Quixote que lida com o drama presente em várias sociedades: a situação de crianças e adolescentes que se refugiam no centro da cidade como mecanismo de afirmação da vida.

Trata-se de um exílio: precisar sair de casa ou distanciar-se dela, às vezes romper com a família, com a história das referências da comunidade de origem, com as pessoas com quem possui vínculos afetivos, com os cheiros, as marcas do seu lugar, da sua mátria.

Mátria é um neologismo criado por Ernesto Sábato para descrever a imagem do imigrante que precisa sair de sua cidade, sua casa, sua pátria, entrar num navio e da popa testemunhar a costa se distanciando; naquele momento, a pátria é tão forte e poderosa, que deveria se chamar “mátria”.

Essas crianças e adolescentes não estão nas ruas por causa das drogas.

O uso de drogas, de substâncias que alteram a percepção sobre si mesmo e o mundo, como o crack, em situações de desterritorialização, de desenraizamento, como as vividas por essas crianças e adolescentes, merece ser considerado um mecanismo humano muito compreensível para tornar suportável o insuportável.

Crianças e adolescentes nas ruas do centro da cidade de são Paulo fazem do espaço público a sua morada, o seu lugar de pouso, de busca de outra possibilidade. Buscam nas ruas uma possibilidade menos violenta de ser vivida. Nas ruas! – ET LIVIA

O fator determinante para a criança ou o adolescente estar morando nas ruas não é o consumo de drogas. Quando consideramos as condições de vulnerabilidade social, observamos que estas, sim, acabam por gerar situações de exclusão e assim favorecer o uso de drogas.

No levantamento acima, a droga aparece em quarto lugar, enquanto o abandono e a violência, juntos, representam 71,2% dos motivos para sair de casa e escolher a rua. Logo, o que se apresenta como relevante demonstra ser muito mais complexo porque abarca uma fragilidade microssocial, circunscrita à família, e macrossocial, porque revela que na comunidade de origem existem poucos recursos de acolhimento por parte das políticas públicas dirigidas a territórios onde há constante violência e uso de drogas.

Refugiados na rua: o bizarro

Crianças descalças, adolescentes cinza e esfarrapados se misturam ao ritmo apressado do centro da grande cidade. Essa presença desperta um misto de sensações: indiferença, medo, repúdio, raiva, compaixão. Desperta também a consciência do quanto fomos nos acostumando, ao longo do tempo, com o bizarro (Lescher e Loureiro, 2007).

O bizarro é a criança sozinha, sem um adulto que dela cuide, que lhe dê proteção e lhe assegure o direito de ser criança.

O bizarro é a criança estar à mercê da violência, do abuso e da exploração.

O bizarro é a criança ter que buscar nas ruas, no lixo, no furto e na droga a sua sobrevivência.

O bizarro é tudo isso acontecer sob os olhos da sociedade civil e do governo, que se vão acostumando e transformando essas crianças em crianças invisíveis.

Relatório da UNICEF (2006): “as crianças podem tornar-se invisíveis, efetivamente desaparecendo dentro de sua família, de sua comunidade
e de sua sociedade, assim como desaparecem para os governos, para doadores, para a sociedade civil, para os meios de comunicação e até mesmo para outras crianças. Para milhões de crianças, a principal causa de sua invisibilidade é a violação de seu direito à proteção.”

“São crianças que chegam às ruas desencantadas por não ter sido acolhidas e respeitadas em suas necessidades fundamentais constitutivas”. (Guimarães, 2007)

Rematriamento

Por ser um processo de profundas rupturas com a família, com a comunidade de origem, com os estatutos de garantia de direitos
e proteção da criança e do adolescente, entendemos que crianças e adolescentes que fazem da rua um espaço privilegiado de sobrevivência, moradia e relações estão na condição de estrangeiros e estranhos em sua própria pátria – são refugiados urbanos.

O complexo processo de saída das ruas foi nomeado “rematriamento”, tecnologia social desenvolvida pelo Projeto Quixote para atender a essas criancas e adolescentes, que significa o retorno a sua mátria, a possibilidade de rever e de integrar de alguma forma emocionalmente suas referências na comunidade de origem, se apropriar da própria história, que é oriunda de um lugar, de uma família que sobreviveu ou não às tempestades desestrutrantes dos conflitos psíquicos e sociais de seu meio.

“A falta de acesso a políticas públicas que respondam de forma eficiente a isso os coloca realmente numa situação assemelhada a uma guerra, numa situação de profundas privações.” (Cláudio Loureiro)

Rematriar-se consigo mesmo, sua história e seus afetos.

Rematriar-se com sua comunidade.

Rematriar-se com a vida.

o TrabaLho coM vioLência exTreMa Pede

p a c i ê n c i a.

Exige paciência. Não uma paciência sem preocupação, mas uma paciência angustiada. É um trabalho angustiante por essência, pois cultivamos não precisar saber todas as respostas. Para cada situação, uma história, uma singularidade. Precisamos de tempo e espaço – as brechas – para a história poder chegar, poder se mostrar – nas sutilezas, nos detalhes, na poesia doída do tempo. Oferecer encontro, gente-pra-gente. Olhar, ouvido e corpo. Estar presente. Atento, angustiado, presente e paciente. Não querer responder com pressa. Suportar a angústia, suportar a rua, suportar a droga. Se preocupar com todas essas coisas, mas suportá-las. Pois só assim é possível descobrir, no encontro, o que ali se passa. Oferecer outras possibilidades, ampliar mundo, brincar, tempo-livre, tempo-arte, tempo-tempo. Sim, é violento criança usar droga. Que reconheçamos essa violência e que não tentemos eliminá-la de cara e de princípio. Que possamos sustentá-la. Pois, no pacote das violências, essa é só a ponta. A droga tem uma função clara de anestesiar a dor, mudar o foco, a atenção, a noção de tempo, de futuro, passado e presente. E, diante de tantas violências, que não se tente começar a mudar bem o que está na ponta do iceberg.

eT líVia

(Trechos retirados do livro Refugiados Urbanos)

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