120 anos de Henriqueta Lisboa

Em 2021 completam-se 120 anos do nascimento de Henriqueta Lisboa (1901-1985). Nessa ocasião, é lançada a edição de sua obra completa em três volumes, organizada por Reinaldo Marques e Wander Melo Miranda, pela Editora Peirópolis. A obra da poeta, tradutora, ensaísta e professora se multiplica em várias outras edições e em um site que disponibilizará a versão digital das mais de 2 mil páginas para visualização do leitor, além de trazer outras matérias sobre a autora, entre as quais uma edição faz-símile de Fogo-fátuo (1924), seu livro de estreia, renegada diversas vezes por ela mesma.

Segundo os organizadores, “a obra de Henriqueta Lisboa ocupa certamente um lugar especial na literatura brasileira do século 20, embora uma avaliação mais acurada de sua trajetória ainda esteja por fazer, em razão das dificuldades de acesso a seus livros, muitos deles limitados às primeiras edições. A par disso, acrescente-se a personalidade recatada e esquiva da escritora, que procurou fazer do silêncio e da sombra sua morada, conforme ela mesma afirma em seu ensaio-depoimento ‘Poesia: minha profissão de fé’”.

Entre as edições previstas em formato impresso estão, além dos três volumes de Henriqueta Lisboa – Obra completa, livros de poema avulsos, como Flor da morte,  Alvo humano e Pousada do ser. A obra da poeta está migrando para outras coleções da editora,  como a tradução do Purgatório, uma das partes de A divina comédia, de Dante Alighieiri, que sairá pela coleção “Clássicos de bolso”, e Poesias escolhidas de Gabriela Mistral, livro de poemas da chilena que recebeu em 1945 o prêmio Nobel de literatura, traduzidos por Henriqueta.

O lançamento de Henriqueta Lisboa: obra completa se dará até o final de 2020.

Conheça o Acervo de Escritores Mineiros inaugurado em 1989, com a doação do acervo pessoal da poeta para a Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais.
O centenário de Henriqueta Lisboa em 2001

As comemorações de seu centenário de nascimento, ocorridas em 2001, incluíram sessão solene na Academia Mineira de Letras, com conferência do escritor Fábio Lucas, em 12 de julho, e sessão comemorativa na Biblioteca Pública Estadual Luiz de Bessa, no dia 17 de julho,  quando também foi inaugurada a exposição itinerante “Aquela paisagem ninguém a viu como eu”, que começou em Belo Horizonte e percorreu o interior de Minas Gerais e outras cidades do país e incluía encontros regionais sobre a obra da poeta.

 

Palavras de Abigail de Oliveira Carvalho na sessão comemorativa do centenário de nascimento de Henriqueta Lisboa, realizada na Biblioteca Pública Estadual Luiz de Bessa, no dia 17 de julho de 2001:

 

“Represento aqui a família de Henriqueta Lisboa, com natural emoção; emociona compartilhar o carinho e a admiração que a família tem por Henriqueta com todos aqueles que apreciam os valores belamente cultivados pela poetisa

Nas homenagens, estamos juntos família, amigos, admiradores, lideranças da área de cultura. A atuação de cada um contribui para o êxito das comemorações. Merecem, contudo, destaque especial:

– A sensibilidade de Octávio Elísio Alves de Brito, secretário de Patrimônio, Museus e Artes Plásticas do Ministério da Cultura, que, ao destinar recursos ao centenário de Henriqueta Lisboa, permitiu a realização da exposição ‘Aquela paisagem ninguém a viu como eu’, em Belo Horizonte, pelo interior de Minas e por outras cidades do país.

– A capacidade mobilizadora de Angelo Oswaldo de Araújo Santos, secretário de Estado da Cultura, seu conhecimento da obra de Henriqueta; sua iniciativa de criação da Comissão Especial de Comemoração do Centenário de Nascimento da Poeta Henriqueta Lisboa deu uma dimensão oficial às homenagens.

– A inteligência e o dinamismo de Maria Augusta da Nóbrega Cesarino, superintendente das Bibliotecas Públicas do Estado de Minas Gerais, ex-aluna extraordinária, colega e amiga, que sabe transformar boas ideias em ações efetivas.

– A competência do intelectual Wander Melo Miranda, diretor da Editora UFMG, responsável pela belíssima edição do livro Henriqueta Lisboa: poesia traduzida, que está sendo lançado hoje.

– A eficácia de Marília Salgado, diretora do BDMG Cultural, que com presteza deu apoio financeiro às iniciativas de homenagem a Henriqueta.

Para realizar a exposição ‘Aquela paisagem ninguém a viu como eu’ e publicar Henriqueta Lisboa: poesia traduzida, foram reunidos os talentos de pesquisadores, artistas e técnicos da Superintendência de Bibliotecas do Estado, do Acervo de Escritores Mineiros e da Editora UFMG, e de consultores autônomos. Henriqueta foi a inspiração de todas essas belezas aqui recriadas. A exposição, com seu caráter de itinerância e sua qualidade artística, é um estímulo importante para conhecer Henriqueta, além de propiciar o prazer da leitura e releitura de sua obra

Lembro também que tem sido fundamental para a sobrevivência da obra de Henriqueta o tratamento competente que o Acervo de Escritores Mineiros dá à documentação que a família doou à UFMG. Percebo não só a competência do tratamento como o respeito, e diria mesmo o amor, com que todo o material é cuidado.

O acervo é composto pela biblioteca, pinacoteca e mobiliário de escritório de Henriqueta e também pelos manuscritos, fotografias, correspondência, originais, primeiras edições, documentação sobre a crítica literária brasileira dos últimos cinquenta anos.

A disponibilização desses documentos para os pesquisadores resulta em estudos, pesquisas e maior conhecimento de Henriqueta, a cuja obra temos um acesso ainda restrito. Brevemente o acesso será ampliado através da internet e de novas edições, já programadas.

Na comemoração do centenário de nascimento de uma poetisa que viveu sua vida e publicou sua obra no século passado e no lançamento de um livro em que poesia escrita no século XIV é trazida a nosso idioma por essa poetisa, ressurgem para nós as questões da permanência da poesia, do compromisso do artista com o tempo e com o meio em que vive. Mas esses são temas para especialistas. Permito-me apenas lembrar aqui um depoimento que revela a postura de Henriqueta e, a nosso ver, ajuda a explicar a permanência de sua poesia.

Quando Edla van Steen, em 1984, pergunta, em entrevista, se Henriqueta acredita que todo artista deve refletir seu tempo e que tipo de compromisso o autor deve ter para com a sociedade em que vive, Henriqueta responde:

‘O compromisso do artista para com o meio em que vive decorre de sua mesma consciência e personalidade. Ao projetar emoções, de acordo com seu foro íntimo e convicções estéticas, ele poderá refletir o estado de espírito de seu tempo e sensibilidade de uma parcela do mundo a que pertence. Mesmo sem referência a interesses globais, sem alusão a circunstâncias e eventos, o poeta se acusa como ser comunitário ao traduzir, com sutileza, certo estado de angústia reinante, o que significa denúncia e repúdio a contingências em foco. Há uma infinita gradação de cores para cada temperamento. Há uma sofrida realidade interior para cada indivíduo, em face da realidade exterior que a todos envolve. O principal é que o poeta não se prenda a modismos, nem limite a liberdade de opção.’

Henriqueta, quando Edla lhe pergunta se costumava mostrar seus originais para alguém, afirma: ‘Em geral, meu irmão José Carlos, dono de requintada sensibilidade, é meu primeiro leitor’. E é do depoimento dado em 1984 por José Carlos Lisboa, meu tio, sobre Henriqueta, que me valho para sintetizar o sentimento de familiares:

‘Ela era, para nosso orgulho e para nossa alegria, a singular figura marcada para a Eternidade, a Maga, a Mágica – sem qualquer ostentação: a Irmã perfeita, a Filha perfeita, a Amiga perfeita, era e é: o Poeta.'”

Abigail de Oliveira Carvalho, sobrinha e curadora da obra da poeta

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