Narração de histórias na escola

Narrar histórias na escola? Sim, faz todo o sentido para todas as idades

A afirmação de que a escola é lugar de leitura não causa nenhum estranhamento. Afinal, é exatamente isso uma das coisas que esperamos que essa instituição promova: a formação de leitores autônomos, críticos e plenos, ou seja, leitores que circulem por diferentes gêneros textuais, compreendo seus diversos usos, práticas e funções sociais, estabelecendo relações a partir das leituras: com sua vida, o mundo, outros textos. Nesse contexto, as histórias lidas têm seu espaço garantido.

Mas… E a narração de histórias?

Elas também são importantes na escola? Se sim, por quê? E são pertinentes a todas as etapas da educação básica? Ou apenas para aqueles que ainda não leem de forma convencional e autônoma? Muitas vezes, ouvimos as afirmações:

  • “Para as crianças pequenas, é melhor contar histórias do que ler. Afinal, dessa forma, elas compreendem melhor o enredo e prestam mais atenção”.
  • “Depois que aprendem a ler, é importante que o façam sozinhos, para treinar as habilidades de leitura e, também, para que exerçam a leitura como acontece na vida: silenciosamente e de forma solitária”.

Em relação à primeira afirmativa, precisamos considerar que ler e contar são ações completamente distintas e envolvem também diferentes aprendizagens para as crianças, que certamente não se restringem ao entendimento ou não da história.

O que estaria em jogo nas duas situações?

Ao ler uma história para as crianças, elas entram em contato com a linguagem escrita, que se estrutura de modo muito diverso da linguagem falada, utilizando diferentes expressões e construções. Além disso, ao ouvir uma história lida, as crianças aprendem a reconhecer o estilo de um autor ou autora, o modo como ele ou ela combinou as palavras para que gerem efeitos estéticos no leitor, ou seja: as crianças entram em contato com a beleza da linguagem escrita, podendo frui-la esteticamente. As crianças também aprendem que a língua escrita é fixa: não importa quem lê, quando lê: o texto é sempre o mesmo, é estável. E ainda, no caso dos livros ilustrados, as crianças aprendem a construir sentidos a partir da inter-relação entre diferentes narrativas, a textual e a visual. Por último, mas não menos importante, ao acompanhar a leitura em voz alta pelo adulto ou outro leitor mais experiente, as crianças podem aprender os comportamentos leitores, que são as ações que fazemos quando lemos (conversar, voltar ao texto para verificar o que se compreendeu, pular o que não interessa etc).

E no caso da narração oral de histórias, o que as crianças podem aprender? Em primeiro lugar, que a língua oral é maleável às circunstâncias, ou seja, eu não conto uma história sempre do mesmo jeito, sou afetado pelo público, pelo momento (por mais que tenha ensaiado e me preparado). As crianças também entram em contato com um patrimônio oral e imaterial: as histórias passadas de boca em boca, e compreendem que o conhecimento não está apenas nos livros, mas naquilo que as pessoas sabem de memória, naquilo que conhecem. Além disso, vão aprendendo que há muitos jeitos diferentes de contar uma história, há expressões mais comuns a certos contadores, e ainda que guardem muitas semelhanças, cada um tem o seu jeito de contar, de se relacionar com o público e com a história. Finalmente, as crianças aprendem a imaginar aquilo que escuta, criando mentalmente os cenários, as personagens.

E quanto ao entendimento? Essa é uma questão… Será que todos precisamos mesmo compreender do mesmo jeito, sendo a história lida ou contada? Nós mesmos não vamos compreendendo um mesmo enredo de modos diferentes ao longo da vida? Pois então, uma boa história bem lida e bem contada vai percorrer diferentes caminhos entre aqueles que entram em contato com ela. E essa é a beleza da experiência com a literatura, seja escrita ou oral.

Quantas aprendizagens que essas situações de contato com as histórias podem nos dar! Ainda assim, não podemos deixar que o foco nessas aprendizagens se sobreponha às experiências que estão em jogo no contato com uma história lida ou contada. Aliás, as aprendizagens dependem de tudo isso ser vivido com sentido e muito significado.

Bem, até aqui, focamos mais nas crianças menores, embora essas aprendizagens perdurem ao longo da escolaridade. Mas, o que dizer da narração de histórias entre aqueles que já sabem ler por conta própria? Anteriormente, vimos que as aprendizagens envolvidas na leitura e na narração são bem diferentes, certo? Uma experiência não substitui a outra. Portanto, faz todo o sentido seguir com as duas modalidades. Mas, e quando os jovens estudantes já compreenderam as diferenças entre elas? Quando já reconhecem a linguagem oral é maleável e diversa da linguagem escrita, por exemplo?

Quais seriam as outras aprendizagens e experiências que a narração de histórias poderia proporcionar aos jovens estudantes?

Para tentar responder a essas questões, vamos pensar um pouco sobre o mundo em que vivemos?  Um mundo permeado pela agilidade, pela sobreposição de informações que se sucedem dia a dia ou hora a hora, pelo excesso de opiniões rapidamente construídas, pelo fazer automatizado, pela profusão de imagens que nos assolam, muitas vezes estereotipadas.

Diante desse contexto contemporâneo, a proposta de se compartilhar histórias narradas pode significar uma parada.

Parar para ouvir o outro e o seu jeito de contar, parar para escolher o que cada contador vai narrar, parar para perceber a reação dos outros diante de uma história, parar para refletir sobre a vida, sobre o mundo em que vivemos e como aquela história se relaciona com o momento de cada um. Parar para construir sentidos pessoais. Parar para imaginar cenários, personagens, outros tempos e mundos, diferentes dos nossos. Parar para fantasiar.

Além disso tudo, ao ouvir uma história contada, vivemos uma experiência de encontro, muito diferente do que experimentamos em nosso cotidiano. Estar diante do outro de outro jeito. Encontro com o outro e seu jeito de contar, com o enredo, com o mistério que é a vida, a complexidade do humano.

Quantas coisas se passam dentro da gente quando ouvimos uma história!

Além disso, também podemos também aprender a nos narrar melhor e, portanto, a nos conhecer melhor.

E tudo isso faz parte do que precisa acontecer na escola? Claro que sim! A escola é o lugar em que todas essas experiências precisam acontecer. Muitas das experiências e as aprendizagens que elas proporcionam estão, inclusive, previstas na BNCC. Vamos ver como esse documento pode dialogar com o que estamos falando?

Algumas competências específicas da BNCC (destacamos duas por aqui – a número 1 e a número 5) para a área de linguagens do Ensino Fundamental envolvem:

  • compreender as linguagens como construção humana, histórica, social e cultural, de natureza dinâmica, reconhecendo-as e valorizando-as como formas de significação da realidade e expressão de subjetividades e identidades sociais e culturais.
  • desenvolver o senso estético para reconhecer, fruir e respeitar as diversas manifestações artísticas e culturais, das locais às mundiais, inclusive aquelas pertencentes ao patrimônio cultural da humanidade, bem como participar de práticas diversificadas, individuais e coletivas, da produção artístico-cultural, com respeito à diversidade de saberes, identidades e culturas.

Além disso, tudo o que estamos abordando também dialoga com alguns objetivos, ligados ao eixo da oralidade. Em se tratando da “consideração e reflexão sobre as condições de produção dos textos orais que regem a circulação de diferentes gêneros nas diferentes mídias e campos de atividade humana”, espera-se que os estudantes possam:

  • refletir sobre diferentes contextos e situações sociais em que se produzem textos orais e sobre as diferenças em termos formais, estilísticos e linguísticos que esses contextos determinam, incluindo-se aí a multimodalidade e a multissemiose.
  • conhecer e refletir sobre as tradições orais e seus gêneros, considerando-se as práticas sociais em que tais textos surgem e se perpetuam, bem como os sentidos que geram.

Para os anos iniciais do EF, ainda destacamos algumas habilidades previstas na BNCC:

Do 1º ao 5º ano:

(EF15LP19) Recontar oralmente, com e sem apoio de imagem, textos literários lidos pelo professor.

Para o 3º ano:

(EF03LP27) Recitar cordel e cantar repentes e emboladas, observando as rimas e obedecendo ao ritmo e à melodia.

Do 3º ao 5º ano:

(EF35LP11) Ouvir gravações, canções, textos falados em diferentes variedades linguísticas, identificando características regionais, urbanas e rurais da fala e respeitando as diversas variedades linguísticas como características do uso da língua por diferentes grupos regionais ou em diferentes culturas locais, rejeitando preconceitos linguísticos.

(EF35LP28) Declamar poemas, com entonação, postura e interpretação adequadas.

Do 6º ao 9º ano:

(EF69LP53) – (…) contar/recontar histórias tanto da tradição oral (causos, contos de esperteza, contos de animais, contos de amor, contos de encantamento, piadas, dentre outros) quanto da tradição literária escrita, expressando a compreensão e interpretação do texto por meio de uma leitura ou fala expressiva e fluente, que respeite o ritmo, as pausas, as hesitações, a entonação indicados tanto pela pontuação quanto por outros recursos gráfico-editoriais, como negritos, itálicos, caixa-alta, ilustrações etc., gravando esse conto/reconto, seja para análise posterior, seja para produção de audiobooks de textos literários diversos ou de podcasts de leituras dramáticas com ou sem efeitos especiais (…).

 

Abrindo outras janelas: propostas e espaços para a narração de histórias na escola

Contar histórias é protagonizar uma cena ou…  a importância de dar voz aos jovens estudantes

Atualmente não se pensa mais o estudante como um receptor de um conhecimento pré-estabelecido. Conhecer e aprender são experiências que supõe uma interação ativa com o conhecimento, que supõe estar em ação, participando de práticas sociais que dão sentido ao conteúdo com o qual entramos em contato.

Quando pensamos, por exemplo, na formação do leitor e daquele que faz uso da linguagem para se comunicar oralmente, por escrito ou por meios digitais, é preciso garantir que possa participar de situações que envolvem o contato com a linguagem, concebendo que ele não é apenas leitor, mas também ouvinte/consumidor/produtor. Isso significa considerar, portanto, que o jovem, ao ser formado como ser que usufrui de práticas sociais de linguagem necessita percorrer toda a cadeia que envolve o texto. Isso também significa que é preciso colocá-lo no centro do processo, como autor, como protagonista daquela prática. É preciso que se dê voz e autoria.

E por que isso é tão importante, afinal? Quais são os conhecimentos envolvidos quando o jovem ocupa esse lugar?

Quando participa ativamente de práticas que dão sentido à linguagem, os estudantes entendem melhor a função dos textos, para que eles servem, como circulam, quais são seus alcances, como são produzidos.

No caso específico da narração de histórias, há muitas aprendizagens envolvidas:

  • Maior compreensão acerca do lugar que as histórias ocuparam e ainda ocupam para os seres humanos: um lugar de transcendência em relação à realidade concreta, abrindo espaço para a fantasia e a ficção, algo tão fundamental para que possamos criar coisas no mundo e, portanto, fazer nascer novos mundos.
  • Ampliação de repertório diverso de histórias de origem oral ou de histórias autorais cuja fonte foram as narrativas orais.
  • Apropriação dos processos de escolha da história que se vai narrar.
  • Aprofundamento da relação com aquela narrativa escolhida, refletindo sobre os sentidos que ela tem para cada narrador.
  • Maior autoria narrativa – como cada um escolhe contar aquela história.
  • Ampliação da capacidade de escuta – da história e do grupo para o qual se vai contar.
  • Ampliação da capacidade de conversar sobre a história narrada.

Possíveis diálogos com os livros

Há dois títulos que podem conversar muito com esse lugar de autoria dos jovens: À sombra da mangueira e Mesma Nova História. Vamos ver como esses livros se encaixam nesses objetivos? 

  • Para conhecer vozes de outros jovens contadores e se aventurar na narração de histórias: À sombra da mangueira. Neste livro, os jovens ocupam lugar central. Suas histórias podem ser lidas no livro e suas vozes ouvidas nos áudios, com acesso via QR code. A partir da leitura e da escuta, pode-se propor que os estudantes gravem e compartilhem suas histórias (narrativas orais a partir de pesquisas, histórias de autoria dos estudantes, com base no modo de narrar dos contos tradicionais). As gravações podem fazer parte de uma coleção de podcasts, compartilhada em plataforma, por exemplo, ou em redes sociais, como grupos de whatsApp ou semelhantes).
  • Para refletir sobre as diferentes versões de uma mesma história: Mesma Nova História. A antiga expressão quem conta um conto aumenta um ponto faz todo o sentido no caso das narrações orais. Em alguns casos, não se trata de aumentar um ponto, mas trocar expressões, mudar um pouco o enredo, trazer elementos que dialoguem com o contexto atual. Enfim, voltamos aqui à ideia de que as histórias narradas oralmente são muito mais permeáveis às circunstâncias. Como exemplo, pode-se citar o livro Mesma nova história, de Everson Bertucci, Mafuane Oliveira e João Paulo Vaz e explorar as diferentes maneiras de contar e de versões que surgiram com cada narrador e sua linguagem.

No caso deste livro, o leitor encontrará contribuições diversas: Everson escreveu a história, Mafuane a contou oralmente e João Paulo a ilustrou, narrando a seu modo.

Como cada autor apresenta seu olhar para o mesmo enredo? O que as imagens nos contam sobre a história? Como Mafuane apropriou-se da história, ao conta-la oralmente? Em que medida as narrativas se aproximam ou se afastam, apresentando semelhanças e diferenças?

É possível, em trio, criar três diferentes linguagens para uma mesma história? Pode-se propor uma ação como essa aos estudantes, dividindo-os em trios.

  • Para apropriar-se do modo tradicional de narrar histórias, criando enredos que dialogam com nossa realidade: Ah… Nisso eu não tinha pensado! Há algumas fórmulas muito comuns nas histórias tradicionais e que, ao longo da escolaridade, espera-se que os estudantes já tenham se apropriado. Alguns aspectos que podem ser citados são: a repetição e a acumulação. Em geral, as histórias com acumulação apresentam um evento desencadeador da narrativa, e a partir daí, a história é contada de maneira repetitiva: uma mesma ação vai sendo realizada por personagens diferentes, e a repetição de um mesmo acontecimento se dá por acumulação: surge um personagem, que não consegue resolver o conflito central da história, e então vem outro, que também não consegue, e assim vai, até que finalmente se resolva a questão. Essa forma de organização do enredo pode ser vista no livro Ah… Nisso eu não tinha pensado! que explora temas muito atuais: especulação imobiliária nas grandes cidades, a falta de cuidado com pessoas mais velhas e a saída pela solidariedade. Buscando exercitar-se nesse modo tradicional de narrar, mas também exercendo o a autoria, pode-se propor que os estudantes criem seu próprios enredos, a partir de contextos ou conflitos contemporâneos.

E quando os professores (e outros funcionários da escola) também são narradores de histórias? Deveria ser sempre!

Olhares para o percurso de quem conta histórias

Não precisa ser performático, não precisa fantasiar-se e nem montar um cenário. Narrar uma história deveria fazer parte do cotidiano da escola, deveria ser espaço permanente de encontro entre estudantes, educadores e toda a comunidade escolar. Já pensou se pudéssemos parar todo dia para ouvir ou contar uma história? Ou pelo menos, alguns dias por semana? Certamente isso estreitaria os laços entre todos, exercitaríamos mais a arte da escuta e, portanto, a empatia. O mundo anda muito precisado dessas coisas.

É tão simples e tão importante, que deveríamos nos perguntar: por que não pensamos nisso antes? Pois é. Mas, se não pensamos, está na hora de começar a pensar e colocar em prática. E para que a narração de histórias passe a habitar com mais frequência o espaço escolar – ou qualquer outro espaço educativo, pode pensar numa sequência de ações:

  • Conhecer narradores e suas formas de narrar – ouvir muitas histórias e ir se aproximando das muitas maneiras de contar uma história;
  • Relembrar de histórias ouvidas na infância ou em outras ocasiões da vida – o que encantava naquela narrativa e no jeito que me foi contada;
  • Ler muitas histórias de origem oral e exercitar-se na narração – como posso contar oralmente uma história lida;

Possíveis diálogos com livros:

  • No livro Antigamente era assim, temos não apenas exemplos de como se contar histórias, mas também reflexões sobre os caminhos de cada contadora/o. Para além do texto existente no livro, é interessante consultar os áudios gravados (via QR code) pelos contadores de histórias. A partir da leitura e escuta, pode-se refletir:
  • o que chama a atenção nas histórias dos contadores?
  • Há algo em comum no processo de formação de todos eles? Como cada um se relaciona com seu ofício, preparando-se para contar histórias?
  • Com qual ou quais narrativas você se identifica mais? Por quê?

Para ir além nas reflexões sobre a arte de narrar histórias – um passeio por diferentes vídeos:

A pedagoga, contadora e escritora Mafuane Oliveira reflete sobre a arte de narrar histórias

Regina Machado conta sobre sua relação com a arte de narrar histórias

Série Histórias de Contador – realização Itaú Cultural e Boca do Céu

O que mais?

Outras práticas sociais que envolvem compartilhamento de histórias: Sarau de Narração de Histórias

Para além de contar história de forma mais permanente, é possível e desejável organizar outras práticas sociais que envolvem a narração de histórias, como por exemplo um sarau. Desta forma, pode-se ampliar não só o número de participantes, como misturar diferentes faixas etárias e públicos – um sarau aberto para a comunidade, um sarau online aberto ao público em geral, entre outras formas.

Será que o sarau faz parte do repertório de todos?

Ultimamente os saraus andaram em voga novamente. Muitos espaços culturais aderiram a essa prática antiquíssima, atraindo um público cada vez maior. Nos últimos anos inclusive, alguns eventos desse tipo ficaram bastante popularizados em diversas regiões do país. Na cidade de São Paulo, por exemplo, ganhou notoriedade o sarau da Cooperifa, realizado no bar do Zé Batidão, na zona sul da cidade. O Sarau foi responsável por lançar vários escritores e poetas, dando voz a muitos talentos, mas sobretudo por juntar muitas pessoas daquela comunidade em torno da poesia e da literatura, aproximando-as dessa forma de arte. Tal como ficou conhecido, a melhor definição deste sarau é: o Sarau da Cooperifa é quando a poesia desce do pedestal e beija os pés da comunidade.

Será que na sua região há algum sarau que se firmou nos últimos tempos? Faça uma pesquisa. Pergunte também aos estudantes se eles sabem o que é um sarau, se já frequentaram algum.

Caso esse tipo de evento seja desconhecido da maioria, pode-se fazer uma pesquisa como o grupo sobre as origens do sarau, de onde veio esse nome e porque se convencionou chamar assim. Para ampliar as referências, pode-se consultar a revista online Arara.

Você sabe o que é sarau?

Sarau presencial ou online?

Depois da pandemia, essa é uma questão que sempre nos colocaremos quando planejarmos uma ação coletiva. Embora nos tenha limitado as ações presenciais, o isolamento social nos trouxe outras possibilidades de formato que permitem não só atingir outros públicos, mas também incluir novas ferramentas e, portanto, novas aprendizagens para os envolvidos. Aliás, é fundamental que os estudantes se envolvam de diferentes maneiras na organização do sarau – desde o seu planejamento até a divulgação e participação.

No sarau a distância, pode-se lançar mão do uso de vídeos com narrações de histórias e podcasts, mesmo se o encontro for síncrono.

E se quiser ter outras referências sobre como planejar, pode-se consultar:

Como realizar um sarau?

 

Estante de livros

Títulos que têm tudo a ver com a literatura oral e a narração de histórias

Antigamente era assim, organizado por Regina Machado

Um livro para quem quer refletir sobre a arte de narrar histórias, conhecer o percurso e o jeito de narrar de sete contadores e uma de suas histórias preferidas. Antigamente era assim: alguém parava para contar, outros paravam para ouvir.

E não é que nem tão antigamente assim um grupo se uniu para escutar e compartilhar histórias? Não apenas as histórias preferidas de cada narrador. Também tinha isso, claro, afinal eram narradores que se encontravam para trocar histórias. Mas o grupo também aconteceu para compartilhar as histórias dos narradores de histórias. Quem são aqueles que contam? Como chegaram a ser contadores? Como registro das histórias desse grupo, este livro se propõe a contar sobre quem conta e nos dá a conhecer quem são esses que param para contar (e que contando, sempre param para ouvir), quais caminhos percorreram, como foram fazendo as suas escolhas: os enredos, os jeitos de narrar, como foram tocados pela arte da palavra e como fazem para tocar aqueles que ouvem suas histórias?

Não é livro para ensinar como se faz. “Ninguém ensina ninguém a contar histórias”, escreve Regina Machado, organizadora do livro. Mas certamente pode ser bastante inspirador conhecer como cada narrador encontrou seu caminho. Não há uma receita pronta, uma fórmula mágica, itens a serem “ticados” em lição instantânea. Nada disso. Contar histórias envolve um profundo processo de encontro consigo mesmo, com as raízes, os porquês, as vontades, as possibilidades de cada um. É caminho e, sendo assim, cada qual trilha o seu. Mas conhecer o andar do outro pode nos ajudar a encontrar o nosso passo. Este livro é sobre isso: mostrando caminhos, nos ajuda a pensar sobre o que é necessário para se contar histórias.

Por alguns anos, Regina Machado acompanhou sete narradores de histórias em seu Paço do Baobá. Não era curso, nem aula, eram apenas “pessoas que chegaram “atraídas por não sei que vento da alma” e formaram o grupo que ganhou o nome de Antigamente era assim, numa referência ao final de uma história indígena. Pessoas que queriam investigar juntas a arte de narrar, o processo que faz cada um virar contador de histórias, os encontros, os equívocos e os achados. Cada relato abre para o leitor uma possibilidade de olhar para a narração de histórias de um jeito diferente e convida a refletir: que jeito será o meu? O que faz mais sentido para mim?

Depois dos relatos, há sempre o encontro com a história narrada por aquele que acabou de falar de si, como que iluminando tudo aquilo que foi dito, combinando o percurso pessoal com a forma de contar. Tudo está no livro, fixado pela palavra. Mas terminamos a leitura com uma certeza: tudo pode mudar, tudo é movimento. Contar pode ser sempre de outro jeito. O caminho não termina, e cada narrador será sempre transformado pela palavra, pela história, pelo momento e pela escuta.

 

À sombra da mangueira, de Angelo Abu e alunos do Hakumana

Neste livro conhecemos jovens contadores de histórias moçambicanos, as histórias narradas por eles e os jeitos que cada um tem de contar. Um livro que aproxima os jovens dessa arte milenar: a narração oral de histórias.

“Meu nome é Abu, tenho quarenta e seis anos e vou contar uma história.” Assim começa o livro À sombra de uma mangueira de Angelo Abu e mais 16 jovens contadores de histórias de Moçambique. A história que Abu nos conta versa sobre como este autor e ilustrador brasileiro conheceu esses jovens contadores de histórias no Centro Hakumana em Maputo, Moçambique.

Além de nos revelar como se deu esse encontro e as impressões de Abu sobre Maputo e sua cultura, o livro abre espaço para as histórias e vozes desses jovens contadores de histórias, adolescentes que têm em torno de 11 a 17 anos. As histórias mesclam o formato tradicional, com presença forte do fantástico, com elementos atuais, relativos às vidas e realidades dos jovens contadores.

Desse modo, nos mostram como podem atuar os contadores de histórias, que bebem na fonte tradicional, mas também podem trazer elementos da atualidade às narrativas. Além das histórias, o livro apresenta belíssimas ilustrações de Angelo Abu, com muitas referências à realidade e cultura local: as cores, as vestimentas, o movimento das ruas, manifestações culturais, os animais que fazem das histórias e os próprios jovens contadores de histórias são retratados no livro, criando uma atmosfera interessante para o leitor, aproximando-o ainda mais do contexto das histórias: tanto o enredo, como a forma como foram contadas.

 

Ah… Nisso eu não tinha pensado!, de Loudovic Souliman, tradução de Regina Machado

Loudovic Souliman é um contador de histórias francês. Ele já veio Brasil e participou do Boca do Céu – Encontro internacional de contadores de histórias, organizado por Regina Machado, que também assina a tradução da história para o português. Trata-se de um conto autoral, mas com fortes referências de histórias tradicionais, a começar pelo formato de conto acumulativo. A partir de uma narrativa oral, depois fixada na linguagem escrita, Loudovic Souliman nos promove uma reflexão sobre nosso mundo, a transformação que costuma ocorrer nas cidades grandes, privilegiando o lucro ao invés das pessoas que moram nesses espaços, trazendo uma possível saída, calcada na solidariedade.

Com essa narrativa, o autor também nos revela algo importante sobre o lugar que as histórias ocuparam na história: uma via para se pensar sobre a vida. Para além da narrativa textual, o livro foi elaborado como álbum ilustrado, explorando a relação entre texto e ilustração. A técnica utilizada pela ilustradora, Bruna Assis Brasil, também dialoga fortemente com o conteúdo, ao misturar imagens de fotografia de uma cidade grande com os desenhos.

 

Mesma nova história, de Everson Bertucci, Mafuane Oliveira e João Paulo Vaz

A história nasceu a partir da colaboração de três autores que se se experimentaram em diferentes linguagens. O texto escrito por Everson ganhou voz na narração de Mafuane e depois uma narrativa visual composta por João Vaz. Assim, como é parte do caminho das histórias orais, a narração foi se modificando, perdendo uma parte aqui, ganhando outra ali, até fixar-se nessa edição escrita.

Com muitas arestas de aproximação com o livro Ah… Nisso eu não tinha pensado!, Mesma Nova história aposta na estrutura de um conto de repetição, que vai também agregando novos elementos à narrativa e à relação entre uma avó e seu neto. Há aqui também muitas reflexões sobre questões que envolvem diferentes gerações, a memória dos mais velhos, a perspectiva da morte e as diferentes fases da vida, com suas perdas e ganhos.

A presença dos personagens negros também abre espaço para que pensemos e possamos valorizar, cada vez mais, a presença da diversidade na literatura que se apresenta para as crianças, contribuindo para que essa representação se evidencie cada vez mais, contribuindo para uma educação antirracista na escola.

 

Outros livros que dialogam com a narração de histórias

O lenhador, Catulo da Paixão Cearense

O poema “O lenhador”, publicado em 1918 no primeiro livro de poesia de Catullo da Paixão Cearense, Meu sertão, recebe da Editora Peirópolis uma edição cercada de todo o cuidado que merece.

Organizada pelo poeta Francisco Marques e prefaciada por Manoel de Barrros, esta edição em capa dura e ilustrada de “O lenhador” traz o poema em duas versões – no português formal e em linguagem sertaneja, como era declamado por Catullo, autor da célebre canção “Luar do sertão”, convidando assim o leitor a experimentá-lo em voz alta.

O segundo capítulo do livro, assinado por Francisco Marques –”Mestre Catullo: vida, paixão e lua”, leva o leitor a aprofundar o seu olhar sobre o poeta, incluindo outros poemas, anotações biográficas, citações sobre sua obra e bibliografia consultada. O leitor tem acesso a um apanhado com diversos trechos de obras de autores que comentaram a produção de Catullo, testemunharam sua performance em cantorias e recitais ou que fizeram dele personagem.

 

Literatura oral para crianças e jovens, Henriqueta Lisboa

Os contos populares, lendas, fábulas e mitos recolhidos pela poeta mineira Henriqueta Lisboa neste valioso volume representam uma rara oportunidade de o leitor mergulhar no universo do folclore brasileiro, com sua riqueza de matizes culturais e a diversidade de temas que inspiram a imaginação e a criação de novas histórias. Ou de novas versões para uma mesma história.

São histórias de ouvir contar. De emocionar e de divertir.

Histórias de todos nós, da nossa cultura, para compartilhar em rodas de contação e vivenciar no coração.

 

A origem do beija-flor / Guanãby muru-gãwa, Yaguarê Yamã

Os mitos de origem do mundo e dos seres que nele vivem são uma grande riqueza dos povos indígenas. Neste livro, Yaguarê Yamã registra uma dessas histórias: o mito da origem do beija-flor, que vive na memória dos antigos pajés do povo Maraguá, habitante do vale do rio Abacaxis, no Estado do Amazonas. Esse povo valoriza muito o contador de histórias, personagem sempre requisitado no cotidiano e nos festejos da tribo, e é conhecido como “os índios das histórias de fantasmas”.

Neste livro, a delicada história é apresentada em português e em maraguá, dialeto misto de Aruak com Nhengatu, e integra a coleção Peirópolis Mundo, que busca valorizar línguas minoritárias de todas as partes do planeta. Escute a história narrada pelo autor em Maraguá.

 

Grande assim / Utshepo mde, Mhlobo Jadezweni

Esta breve e lírica narrativa sobre o desejo de crescer e ser grande em todos os sentidos foi escrita em isiXhosa e publicada primeiramente em versão bilíngue na África do Sul, berço da história e de seu autor.

IsiXhosa é uma das inúmeras línguas africanas ameaçadas de extinção, e Mhlobo, professor universitário e estudioso de línguas africanas, é um dos seus mais ferrenhos guardiões. Escute a história narrada pelo autor em isiXhosa.

 

Folclore de chuteiras, Alexandre de Castro Gomes

As mais fantásticas feras do futebol brasileiro entram em campo em uma partida nada convencional. De um lado, a seleção brasileira com Mapinguari no gol, Mula sem Cabeça na lateral direita, Curupira na lateral esquerda, Cabra-Cabriola e Capelobo na zaga, Lobisomem (naturalizado brasileiro), Negrinho do Pastoreio, Boitatá e Saci-Pererê no meio de campo e Cabeça de Cuia e Romãozinho na frente.

Do outro lado, um combinado do resto do mundo com craques sobrenaturais – Múmia, Gárgula, Frankenstein, Ieti, Ciclope, Vampiro, Zumbi, Pé Grande e outros. Tudo o que essas criaturas fantásticas realizam em campo – os dribles, as jogadas perigosas e, claro, os gols – é transmitido com muita graça pelo locutor Carlos Cosme, que conta com o apoio do comentarista e dos repórteres de campo.

 

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