Nós, a natureza e a pandemia nossa de cada dia

Parece um azar, um acaso, um acidente ou talvez um desastre natural, mas a pandemia do coronavírus não é nada disso. Essa pandemia que vivemos agora, a pandemia que nos prende em casa e nos deixa apreensivos sobre o futuro, é uma consequência do que nós fazemos com a natureza. A forma que produzimos alimentos, que confinamos, abatemos e matamos os animais, que destruímos o meio ambiente, enfim, o jeito que usamos e abusamos do nosso planeta.

Por que?

Confinamos bois, vacas, porcos, galinhas e patos em pequenos ou grandes espaços, esperando a hora de, com mais ou menos sofrimento, matá-los e devorá-los.

Invadimos e destruímos florestas, savanas, campos e mares, forçando os animais a mudarem de lugar e muitas vezes, por falta de opção , passarem a compartilhar conosco espaços cheios de humanos.

Arrancamos barbatanas de tubarão, chifres de rinocerontes, presas de elefantes, escamas de pingalins e deixamos esses animais morrerem em longo sofrimento.

Poluímos os lugares onde os animais vivem, envenenamos os mares onde eles nadam e contaminamos as águas que eles bebem.

Traficamos animais, levamos bichos de um lugar para outro, de um continente para o outro, muitas vezes em condições bastante precárias.

Caçamos animais ferozes em busca de troféus e de nos sentirmos corajosos e poderosos.

Essas situações criam condições para que novas doenças surjam… O coronavírus, da pandemia nossa de cada dia, de onde apareceu?

O coronavírus, como bem diz seu nome, é um vírus. Nem é possível dizer se um vírus é um ser vivo ou não, pois todos os vírus que circulam na natureza precisam de um outro ser vivo para se reproduzir. O vírus usa a célula de outro organismo para se multiplicar e depois se espalhar. Os vírus também se transformam ao longo do tempo e às vezes com essas mudanças o vírus passa a ter a capacidade se instalar em outros animais, novos hospedeiros, onde eles não conseguiam se alojar antes.

O que se sabe hoje é que possivelmente o coronavírus começou a infectar humanos no mercado de Wuhan, na China. Nesses mercados, como também em vários outros mundo afora, os animais ficam em gaiolas pequenas, em condições inacreditáveis, empilhados de um jeito que fezes, urina e outros fluídos corporais de diversos animais se misturam.

O que aconteceu é que o vírus que existia nos morcegos, mas não provocava doenças neles, “pulou” para os humanos. Isso pode ter acontecido porque havia sempre morcegos nesse mercado e ele também estava sempre cheio de gente.

Alguns pesquisadores acreditam que talvez o vírus não tenha “pulado” diretamente do morcego para os humanos, ele teria feito uma escala em um outro animal, o pangolim. Ali, o vírus teria se transformado mais e ficado mais apto a infectar os humanos.

O pangolim parece um tamanduá, mas não é. Aliás, nem parente do tamanduá ele é… O pangolim é cheio de escamas que, na Ásia, são usadas para o tratamento de câncer, artrites e outras inflamações. Existem hoje no nosso planeta oito espécies de pangolins e todas elas estão ameaçadas de extinção. Só na última década, mais de um milhão desses animais foram caçados. Mas, apesar de estarem tão ameaçados, os pangolins eram comercializados abertamente no mercado de Wuhan.

Nunca é demais lembrar que o tráfico de animais é, na maioria das vezes, resultado de falta de outras alternativas para matar a fome e para atender as necessidades básicas, como ter uma casa, poder comprar roupas, ter acesso a saúde e a educação. As pessoas que vendiam os pangolins, assim como aquelas outras que caçavam e retiravam suas escamas para vender, provavelmente não tinham outra alternativa, ou comercializavam os pangolins ou não tinham o que comer.

Essa não é a primeira pandemia da história da humanidade, nem do Brasil. Houve várias que mataram milhões de pessoas desde a antiguidade até hoje. No século passado, tivemos, por exemplo,  a gripe espanhola, em 1918 e 1919, que dizem que matou cerca de 50 milhões de pessoas. O presidente do Brasil, nessa época, o Rodrigues Alves, também morreu nessa pandemia.

Depois houve várias outras epidemias de gripe, todas causadas pelo vírus influenza. Essas gripes vieram dos animais e as epidemias foram se tornando cada vez mais frequentes. Isso porque há muitas fazendas para a produção de carne, em diversos lugares do mundo, onde os animais, como porcos e galinhas, ficam confinados, espremidos, em condições muito precárias e sem nenhuma higiene. Muitas vezes esses animais são parecidos geneticamente o que cria um ambiente perfeito para um vírus infectar rapidamente todos os animais e, às vezes, depois de uma transformação, também os humanos.

Assim, o vírus da influenza se modificou e suas novas formas passaram a infectar a gente também. Paralelamente, houve grandes epidemias entre os animais dessas fazendas. Em muitos casos, milhares de animais doentes foram sacrificados.

O primeiro coronavírus que atacou os humanos provavelmente veio  também de um mercado que vendia animais na China e provocou, em 2003, o surto de SARS (sigla em inglês para Síndrome Respiratória Aguda Grave), que ficou quase restrito ao continente asiático. Depois houve outro surto de uma doença causada por um coronavírus, no Oriente Médio, talvez proveniente de criadouros de camelos.

Essas doenças se originaram em animais e, em algum momento, por causa das condições que nós criamos, esses vírus se modificaram e conseguiram saltar para os humanos e começar a nos infectar.

No caso do coronavírus dessa nossa pandemia atual, os morcegos que passam a morar perto das cidades, pois os lugares onde viviam antes foram destruídos ou degradados, e os pangolins que são transportados a força para serem vendidos e abatidos, não deveriam estar ali no mercado, junto com tantas pessoas. O lugar deles é no meio das florestas, das savanas, dos campos, dos desertos…

Outras doenças estão diretamente relacionadas com a destruição do meio ambiente. Por exemplo, a malária, uma doença transmitida por um mosquito, se tornou muito frequente na Amazônia. Sua conexão com o desmatamento é tão forte, que é possível relacionar a quantidade de florestas destruída com o número de casos de malária.

Outro exemplo é o ebola, uma doença muito perigosa, causada por um vírus. Já houve diversos surtos de ebola na África. O último foi em junho de 2019 e matou mais da metade das pessoas que pegaram a doença. Hoje se sabe que os surtos de ebola estão relacionados com grandes mudanças do uso da terra: desmatamento e transformação do que era a floresta em áreas de agricultura, como monoculturas de algodão e de palma.

 

Se continuarmos a destruir o meio ambiente,

continuarmos a produzir carne em grandes fazendas com

milhares de animais em condições precárias,

continuarmos a trocar florestas por grandes

monoculturas,

continuarmos a poluir e a contaminar solos, rios,

ares e mares,

continuarmos a achar que a pobreza não tem

relação com o meio ambiente e com a

saúde de todos nós,

continuarmos agindo como se a crise

climática já não estivesse batendo a

nossa porta,

continuarmos sem entender que a

saúde de cada um de nós, depende

da saúde de todas as outras

pessoas e de todos os

seres do planeta,

podemos nos preparar pois muitas pandemias virão!

 

Para um futuro melhor, com formas de produzir menos predatórias, menos perigosas e mais solidárias, temos que mudar. A conservação da natureza, das vidas dos animais – nossas também – e dos ambientes naturais é essencial para que haja um futuro saudável.

 

O mundo parou por causa do coronavírus?

Então, agora é a hora!

Todo mundo está em casa, pensando no que fazer?

Então, é a hora da mudança!

 

É hora de entender as consequências do que fazemos em relação à natureza e mudarmos de atitude, modificarmos nossas práticas, nossas formas de produção e o nosso jeito de estar no mundo.

O presente é uma máquina de fazer futuros: a pandemia nossa de cada dia, que nos prende em casa, que nos obriga a pensar na nossa vida e na vida das pessoas de quem a gente gosta, que nos chama a ser mais solidários, é também a nossa oportunidade de mudar o mundo para melhor!

 

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