Presença de Henriqueta: Maria Zilda Ferreira Cury

A biblioteca como metáfora
Maria Zilda Ferreira Cury

 

Sei de uma região agreste cujos bibliotecários repudiam

o costume supersticioso e vão de procurar sentido nos

livros e o equiparam ao de procurá-lo nos sonhos ou nas linhas caóticas da mão…

                                           Jorge Luis Borges

 

 

Aproveitando a oportunidade da doação do acervo de Henriqueta Lisboa feita pela família à UFMG e também da criação do Centro de Estudos Literários, gostaria de propor uma breve reflexão sobre uma vertente da crítica, aquela que privilegia o estudo das fontes primárias.

Saliento que ambos os acontecimentos devem ser aproveitados por nós como momento privilegiado. Estamos diante de um momento de criação de novas perspectivas para as atividades de pesquisa não só no que se refere ao mestrado e doutorado, mas igualmente no que diz respeito às atividades de graduação, iniciação científica e outras, abertas à comunidade em geral.

Do acervo constam, entre outras coisas, documentos pessoais, fotografias, quadros, a correspondência de Henriqueta com intelectuais destacados. Dele fazem parte recortes de jornal falando sobre a poetisa e sobre a atividade literária em geral, críticas e discursos, pareceres sobre concursos literários. Ali se encontram as primeiras edições de seus livros, poemas manuscritos e datilografados por ela, traduções que fez, fitas em que declamou poemas e sua biblioteca.

É de grande importância para o estudo científico da literatura e das ciências humanas em geral a utilização desse material, o uso de jornais e revistas, da marginália, dos manuscritos e rascunhos como fontes primárias, quer para a caracterização de tendências literárias, quer para a localização mais precisa e crítica das obras que compõem o acervo literário e artístico de determinada época. Muitas vezes, é pela imprensa que são publicados poemas e contos, romances em folhetim que nem sequer aparecem posteriormente sob a forma de livro ou o fazem com profundas modificações.

E as várias versões de um texto? E seus rascunhos?

Está claro que essas modificações e projetos são de interesse para o estudioso da literatura e da produção cultural porque dão oportunidade de rastrear o fato literário como linguagem móbil, em constituição, carente de explicações. Do cotejo entre várias versões pode-se aclarar o mecanismo entre texto e contexto, entre escritura e gêneros, abrindo-se perspectivas não só para estudos poéticos, mas também para os sociológicos, históricos, psicanalíticos.

Um acervo, uma biblioteca como essa de Henriqueta Lisboa, só aparentemente é a conservação de uma cultura morta. Que livros leu Henriqueta? Em quais fez anotações? Que leituras dessas respiram em seus textos? Que livros não leu? Também de ausências se faz a história. Muitas vezes, a partir de uma ausência manifesta, a pesquisa e a crítica podem revelar uma presença.

Como eram lidos pelos outros os livros que Henriqueta conservou em sua biblioteca? Em que medida o predomínio de determinada leitura pelo público interferiu na leitura e na escrita de Henriqueta, remodelando, modificando, elaborando cortes na sua fruição e alterando a natureza dos textos que ela lia e escrevia?

Essas tramas não se engendram, é claro, somente a partir da escrita e sua leitura, mas se inscrevem no universo que Bakhtin conceitua como circularidade, influxo recíproco de culturas1. No como se leu se entalha também uma vivência não literária que cumpre perseguir e resgatar para se dar conta de um momento cultural filtrado pela escritura.

Do mesmo modo pode ser lida a correspondência trocada entre Henriqueta e seus amigos. Nela aparecem poemas com observações de Mário de Andrade explicitando alguns parâmetros do gosto literário da época; inquietações de Gabriela Mistral em face da guerra, em carta de 1940; as cartas de Drummond revelando seu papel mediador entre intelectuais e Estado.

A biblioteca – metáfora da história, mito e modelo, espaço em que se joga o ambíguo, o polissêmico dos contrários – nos coloca diante da efervescência das rupturas, mas, igualmente, faz emergir as longas continuidades subterrâneas que, gota a gota, também fazem a história.

O estudo daquilo que o autor acrescentou, modificou ou omitiu num texto de periódico em posterior publicação em livro, muitas vezes, é o caminho para se fazer ouvir o interdito do texto, chave para a compreensão crítica de determinado momento cultural no qual ele se insere.

A pesquisa em periódicos é igualmente reveladora para a historiografia literária. Se é indiscutível o valor em si mesmo de um conto e de um poema ou de um capítulo de romance inseridos num periódico, não se pode, por outro lado, desprezar o diálogo cerrado que travam com as outras partes do jornal ou revista. Através desse diálogo, pode-se avaliar o grau de radicalidade de certa escrita, comparar sua linguagem com outras do todo de que faz parte, perceber, comparativamente, seu caráter de inovação ou conservadorismo.

Henriqueta, nos jornais da década de 1920, onde inicia a publicação de seus poemas, já revela os traços simbolistas da sua poesia, sempre tão radicalmente otimista.

Como ler tal tendência? Se só levarmos em conta a análise isolada dos poemas, eles poderiam ser vistos como anacrônicos, numa década em que as vanguardas já imprimiam uma renovação mais radical ao verso. No conjunto dos jornais analisados, no entanto, a produção literária em geral se apresentava marcantemente parnasiana. Comparada a ela, uma produção simbolista já representava uma certa ruptura. Como simbolista apresentou-se, de resto, boa parte da poesia publicada em jornais da década pelos futuros integrantes do grupo modernista mineiro: Drummond, João Alphonsus, Emílio Moura. Desse modo, a produção desses novos na imprensa demonstra que a passagem para o Modernismo não foi brusca, como a publicação posterior em livro faz supor. Essa passagem se deu também na vivência do Simbolismo que elaborava, espécie de transição literária para a modernidade.

Contraditoriamente – e o estudo dos jornais e revistas de Belo Horizonte da década de 1920 o comprova –, a presença modernizadora do Simbolismo se inscrevia numa tradição ainda muito viva em Minas, a ponto de a reflexão crítica sobre ela ser um dos traços definidores do Modernismo mineiro. A presença intelectual de Alphonsus de Guimaraens – que continuava publicando poemas e crônicas nos mesmos jornais em que publicavam Henriqueta e os jovens renovadores – despertava a admiração e a reverência dos modernistas inclusive fora do âmbito do Estado.

Assim, a escrita de Henriqueta, mesmo não compartilhando a ousadia dos textos modernistas, já revelava traços de modernidade. O contrário também pode vir a se manifestar, lançando-se mão ainda de pesquisas em fontes primárias.

No Diário de Minas, no ano de 1922, a poetisa faz publicar o poema “Belo Horizonte”, onde tematiza o espaço urbano, tão caro aos modernistas. Longe ficou, todavia, da abordagem “desvairada” de uma cidade que já se industrializava e modernizava. Antes, o acento recaiu sobre as belezas naturais e os pores do sol da capital mineira. Nem ao menos nele apareceu a figura do poeta desterrado no espaço urbano, imagem comum ao simbolismo francês. A voz da cidade não assumiu, na fala de Henriqueta, o barulho das buzinas presente no poema de Drummond, chamado “Serenata”, do mesmo período e publicado no mesmo jornal. O cotejo dos dois poemas e sua comparação com as notícias que o jornal trazia sobre a cidade revelam dimensões insuspeitáveis ao seu estudo isolado, nas publicações posteriores em livro.

É muito comum dizer-se que este ou aquele escritor fez uso de uma linguagem jornalística, muitas vezes sem se determinar, de fato, qual era a linguagem dos jornais da época; é frequente a supervalorização da influência do jornal sobre a linguagem literária. E uma pesquisa que correlacionasse o estudo de jornais à produção literária não poderia revelar o contrário? Se pensarmos que até meados do século era indispensável para o escritor a passagem pelos jornais, não é de estranhar que a linguagem literária também entranhasse a fala jornalística.

É claro que essa inter-relação atua na recepção das obras e na sua crítica. A historiografia mais recente ressalta quanto a ideia da cultura como privilégio ficou gravemente ferida, ainda que não eliminada, pela invenção da imprensa2. 

Desse modo, mais do que fonte meramente confirmadora de outras análises, representa a imprensa – por si mesma e em especial na época moderna – um objeto próprio de estudo, indispensável ao pesquisador da literatura que deseje uma arqueologia do fazer literário, reveladora de seus avessos e traçados. A imprensa e os rascunhos são textos que devem ser tomados no seu presente, como diz Bellemin-Noel3, textos que não são privados de estruturação.

A pesquisa em fontes primárias – em acervos, arquivos e bibliotecas – pode ser elemento essencial não só para redefinir, mas também para estabelecer novas concepções.

O estudo do prototexto, ou seja, dos rascunhos, das primeiras versões, dos projetos de livros nunca concluídos, é material importante para o estudo genético e histórico dos textos. Cumpre valorizar essas falhas do discurso que nos dizem de projetos e desejos, teatro de sombras no qual também é encenada a história. (Foi somente a partir, por exemplo, da descoberta de seus manuscritos que Marx se revelou como um humanista para a história.)

Uma nova senda foi aberta pela historiografia contemporânea ao pretender recuperar o cotidiano, o indivíduo e seu embate com os limites impostos pela cultura e por seu grupo social. Uma história das mentalidades, que insiste nos elementos conservados, obscuros, inconscientes de uma determinada visão de mundo.

Historiografia do cotidiano, trabalho de formiga, é o estudo da fonte primária que permite ver na produção final do romance, do poema, do conjunto de obras de um autor um palimpsesto de inúmeras outras escritas e outras vivências. Acostumado a lidar com o objeto de pesquisa já pronto – o livro –, fetiche que reluta em se deixar desmitificar, o pesquisador da literatura envolvido com a fonte primária vê-se na contingência de ir criando não só uma metodologia pessoal de pesquisa, mas de ter de construir ele mesmo, passo a passo, seu objeto de pesquisa: a literatura em construção, a memória – sua própria e a da história no seu contínuo fazer-se e desfazer-se.

O estudo das fotos, registros do cotidiano – concretizações que seguem a própria cadência das palavras, como nos diz Benjamin4 –, quanto nos revela da memória de um tempo! O fotógrafo é o arqueólogo do contemporâneo. Saliente-se o pioneirismo das artes fotográficas no Brasil, desde o Império5, registros que permanecem, até certo ponto, intocados enquanto caminho interessante a ser trilhado num estudo que relacione literatura e imagem fotográfica. As fotos, os objetos pessoais supérfluos, diria Henriqueta, tais quais os biografemas de que nos fala Barthes, nos dizem do sujeito e da inscrição de seu desejo na história6.

No entanto, nem sempre é valorizado pela crítica e pela teoria da literatura o lidar com a fonte primária não por falta de material, mas talvez pelo preconceito ante o trabalho artesanal que ele pressupõe: levantamento, classificação e decifração. Mesmo com os recursos da informática, como salienta Ginzburg na proposta de uma nova historiografia, “só uma série de pesquisas de grande fôlego pode permitir a elaboração de um programa articulado, a ser submetido ao computador”7. 

Não deixa de ser desafiador tal trabalho, uma vez que, de certa forma, engloba a proposta de desmitificar o texto final, revelando o segredo de seus antecedentes, um remanejamento da linguagem e da cultura.

Philippe Willemart, defendendo o estudo do prototexto como um novo campo de pesquisa, nos diz que “o desejo do crítico não se limitará a extrair e expor essas riquezas, mas tal qual um alquimista”8 tentará discernir e entender o processo de criação.

Essa senda muitas vezes é rejeitada em função do respeito e da mítica que envolvem a obra publicada. Esse vasculhar do que aconteceu entre o autor e sua escritura torna a obra passível de reformulações. E com isso aflora o medo de violação do mistério com o qual cercamos a criação artística. Desmitificação do agente produtor; desmitificação do texto enquanto original.

Com o estudo das primeiras edições, dos rascunhos, de suas leituras, de suas produções paralelas ou anteriores na imprensa pode-se reconstituir e fertilizar a análise da obra de um escritor, apreender mais criticamente a atuação do grupo literário a que pertenceu e os que ajudam a montar as pedras que – como um mosaico – compõem sua articulação. Tudo isso permite valorizar o pano de fundo, a criação quase anônima sobre a qual ressalta a produção diferenciada de alguns escritores de maior destaque.

Saliente-se também a necessidade de pesquisa em fontes primárias num país como o nosso, tão carente de pesquisas que crítica e profundamente participem da reconstrução de sua memória.

Não se faz pesquisa por diletantismo, mas por necessidade de respostas, de problematização do momento em que se vive. Há que ultrapassar o mero dado, trabalhar dialeticamente o empírico, aprender a pesquisar o passado não por ele mesmo, mas naquilo em que ele possa ser fértil para a compreensão do presente.

Trata-se de recuperar o passado não como um fetiche, conservadorismo ou nostalgia, mas de forma crítica, nos seus elementos de utopia e sensibilidade que podem ser liberados como fragmentos que transformem e iluminem o presente. Só assim pode-se ser digno do intransferível patrimônio de que nos falam os poemas de Henriqueta.

Se, por um lado, o crítico, como o analista, investiga os arcanos do homem, por outro lado, tanto quanto o analisando, o crítico trabalha na própria memória pela escritura do outro, visando uma reconstrução e um deslocamento únicos de sua lógica crítica.

Cumpre trazer para a frente da cena da história o que se passa nos bastidores, com energia, para o teatro do qual somos simultaneamente atores e espectadores9.

“Afirmo que a Biblioteca é inestimável”10, nos diz Borges. E eu, leitora de Henriqueta, no emaranhado de seus rascunhos, ocupo um lugar movente, volúvel e buscante. Lugar onde se inserem minhas outras lembranças, meus espelhos, cortes que tramo, caminhos de escolha que sempre bifurcam.

 

1 BAKHTIN, M. A cultura popular na Idade Média e no Renascimento. São Paulo: Hucitec, 1987.

2 GINZBURG, Carlo. O queijo e os vermes: o cotidiano e as ideias de um moleiro perseguido pela Inquisição. São Paulo: Companhia das Letras, 1987.

3 BELLEMIN-NOEL, Jean. Avant-texte et lecture psychanalytique. Avant-texte, texte, après-texte. Paris: CNRS; Budapeste: Akadémiai Kiadó, 1982 (Colloque international de textologie à Mátrafüred, 13-16 octobre, 1978.)

4 BENJAMIN, Walter. A obra de arte na época de suas técnicas de reprodução. 1. ed. São Paulo: Abril Cultural, 1975. (Os pensadores, v. 48).

5 HARDMAN, Francisco Foot. Trem-fantasma: a modernidade na selva. São Paulo: Companhia das Letras, 1988.

6 “O cronista que narra os acontecimentos, sem distinguir entre os grandes e os pequenos, leva em conta a verdade de que nada do que um dia aconteceu pode ser considerado perdido pela história.” Walter Benjamin, ‘Sobre o conceito de história’, em Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. São Paulo: Brasiliense, 1987. p. 223.

7 GINZBURG, Carlo. Op. cit., p. 28.

8 WILLEMART, Philippe. Ainda o prototexto: argumentos para um novo campo de pesquisa. Folha de S. Paulo, São Paulo, 24 jun. 1984. Folhetim, p. 10.

9 REICH, Wilhelm. Psicologia di massa del fascismo (1933). Milão: Sugar, 1971.

10 BORGES, Jorge Luis. O jardim dos caminhos que se bifurcam. In: ­­_____. Ficções., São Paulo: Abril Cultural, 1972.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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