Presença de Henriqueta: Fábio Lucas

Lembrança de Henriqueta Lisboa
Fábio Lucas

 

Muito comedida nas suas exteriorizações, o que mais importa em Henriqueta Lisboa é a sua intimidade. Na verdade, toda a sua obra documenta precisamente a sua intimidade, em que o confessional ora se disfarça, ora se explicita.

Além da atividade criadora propriamente dita, que se inicia com Enternecimento (Rio de Janeiro, Pongetti, 1929) e se prolonga até Pousada do ser (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1982), dedicou-se também à tradução de poetas, como Dante e Gabriela Mistral, e ao comentário crítico de autores, como Alphonsus de Guimaraens (Alphonsus de Guimaraens, Rio de Janeiro, Agir, 1945), a quem dedicou um trabalho de interpretação, e a vários outros poetas, tanto nacionais quanto estrangeiros, como se vê nos livros Convívio poético (Belo Horizonte, Secretaria de Estado da Educação, 1955), Vigília poética (Belo Horizonte, Imprensa Oficial, 1968) e Vivência poética (Belo Horizonte, Imprensa Oficial, 1979).

Sem contar os poetas já citados – Dante, Mistral e Alphonsus –, teve especial afeição por Cruz e Sousa, Mário de Andrade, Carlos Drummond de Andrade, Murilo Mendes, Emílio Moura, José Severiano de Rezende, Camilo Pessanha, Mário de Sá-Carneiro, Ungaretti, Jorge Guillén e Huidobro.

Vê-se perfeitamente que os seus comparsas de aventura literária estão entre os simbolistas e os modernos. Dante é uma exceção: indica a sua ligação com o passado clássico. Dedicou atenção especial a Guimarães Rosa, cuja prosa de ficção, cheia de lances épicos, não deixa de manter estreita relação com a mais pura poesia.

Meu primeiro contato com Henriqueta Lisboa se deu na infância, creio que em 1945. Eu era interno no Instituto Padre Machado e tinha como colega e amigo um sobrinho dela, Paulo Henrique. Como gozávamos de licença para sair do internato na hora do recreio, fomos, em grupo de três, como era preceito, passear pelos arredores e acabamos, puxados pelo Paulo Henrique, indo visitar Henriqueta.

Ela nos recebeu com a delicadeza que a caracterizava e presenteou-me com O menino poeta (Rio de Janeiro, Bedeschi, 1943), seu mais recente lançamento naquela ocasião.

Anos depois, mais interessado na literatura, deparei com artigos nos jornais enaltecendo Flor da morte (Belo Horizonte, João Calazans, 1949). A transcrição de alguns poemas na imprensa fez-me entusiasmar com a nova fase de Henriqueta Lisboa e procurar o livro para ler. Foi um deslumbramento aquele reencontro com a sua poesia. Até hoje, Flor da morte me parece marcante na sua obra e, mesmo, na minha formação literária.

Não dei por menos: também julguei-me capaz de comentar as emoções de minha leitura. Ousei escrever um artigo e levei-o ao Diário de Minas. Comecei pedantemente citando alguns versos de Shakespeare, colhidos na antologia escolar que possuía. E passei a explorar o conceito de morte, dentro daquele casulo de incerteza e morbidez que era a juventude, apoiando-me nos versos de Henriqueta. Qual não foi a minha surpresa ao ver o meu artigo publicado no jornal. Aquilo era uma promoção que me inebriava, a concretização de um sonho, um passo em direção da glória.

Não contente com os comentários dos amigos, generosos, resolvi embarcar para Esmeraldas, a fim de sentir na minha terra a repercussão da estreia como crítico. Sabia que o meu pai e os irmãos haviam tomado conhecimento de meu texto. Meu pai, orgulhoso, divulgava o meu feito literário. E, ao encontrar um tio muito amável, mas pouco entendido de coisas escritas, não pude conter a minha emoção ao ouvi-lo dizer-me serenamente: “Fábio, meus parabéns! Outro dia vi um ‘apanhado’ seu no jornal”. Aquele “apanhado” me deslumbrou.

Mais tarde, quando Affonso Ávila, Rui Mourão e eu lançamos a revista Vocação, aproximei-me de Henriqueta Lisboa. Ela já nos identificava e, como outros escritores na época, gentilmente nos ofertou um dos seus livros. Era o Poemas (Belo Horizonte, João Calazans, 1951), que reunia Flor da morte e A face lívida. 

Estreitamos relações em encontros vários. Naquela época, eram comuns as recepções a escritores célebres, e alguns salões se abriam a nós, os novos da revista Vocação. 

Assim, com o tempo, passei a frequentar a casa e a poesia de Henriqueta Lisboa. Ela recebia a gente com brandura, carinho e extrema reserva. Dificilmente se permitia um comentário avaliativo de qualquer escritor. Muito menos uma informação azeda ou maliciosa acerca de quem quer que seja. E a maledicência era o prato preferido das rodas literárias. Só com demorada convivência é que fui capaz de surpreender uma ou outra ironia de Henriqueta. Algo refinado, embora cáustico.

Quando se propôs a entrar para a Academia Mineira de Letras, contou com o meu apoio imediatamente. Foi nessa época que a vi, pela primeira vez, um tanto mordaz acerca de um colega escritor, como ela ligado ao grupo católico. Tendo surgido um competidor ao pleito acadêmico, parece que se magoou com aquilo, ficou arrepiada e acabou, para pesar nosso, desprezando a Academia, deixando de frequentá-la.

Se a vida muito recolhida e solitária permitiu a ela um encontro tão radical com a poesia, a fez também ilhar-se muito do mundo e das circunstâncias, e a refugiar-se na timidez, na fragilidade por vezes susceptível.

Era uma amiga dedicada e uma correspondente correta e pontual. Possuo cartas suas enviadas para os diversos lugares a que fui levado a viver. Embora evitasse os temas políticos, sabia declarar a seu modo a sua solidariedade, com palavras de saudade, ânimo e conforto.

Protegia-se muito da curiosidade alheia, revelava-se pouco, ao mesmo tempo que estimava a glória, mesmo aquela que advinha de fontes incompetentes.

Era estranho como Henriqueta Lisboa perdia seu tempo com admiradores que sequer possuíam a capacidade de estimar a sua grandeza. Ela se deixou aproveitar ingenuamente pela sanha de alguns aventureiros, que buscavam o seu escudo para penetrar no campo literário.

Descuidava-se também da apresentação gráfica de suas obras. Algumas vezes tomei a liberdade de sugerir a ela que acompanhasse o projeto gráfico dos seus livros, especialmente os impressos na Imprensa Oficial, a fim de que não fosse vítima do mau gosto que ali impera frequentemente. Embalde. A sua vigilância técnica, tão acurada para a elaboração dos poemas, não alcançava a feição gráfica. Tinha constrangimento, talvez, de influenciar os trabalhos rotineiros daquela gente da Imprensa.

Na história literária de Belo Horizonte sempre se falou das cartas de Mário de Andrade a Henriqueta. Ela jamais revelou o seu conteúdo, presa que se sentia ao compromisso de somente exibir aquela correspondência depois de passados os tempos reclamados pelo escritor. Cria-se, à boca pequena, que Mário tivesse demonstrado uma paixão pela tímida poetisa. O certo é que Henriqueta Lisboa jamais poupara elogios à obra e à pessoa de Mário de Andrade. Mas guardou as cartas e os segredos de suas relações com o grande estimulador do Modernismo.

Quando organizamos um curso sobre o escritor paulista, em 1955, por ocasião dos dez anos de seu falecimento, tivemos em Henriqueta Lisboa uma colaboradora entusiasta. Após a série de conferências, patrocinadas pela Academia Mineira de Letras, sob a presidência de José Oswaldo de Araújo, encarreguei-me de reuni-las e de publicá-las, graças ao apoio de José Guimarães Alves, então diretor da Imprensa Oficial. A coletânea é hoje uma raridade bibliográfica. Henriqueta Lisboa fala de Mário de Andrade poeta. A mim coube falar do crítico.

Escrevi sobre vários livros dela. E acompanhei a publicação de suas Poesias completas pela Duas Cidades, de São Paulo. Escrevi, então, um ensaio sobre a obra da amiga, hoje incorporado ao meu livro Do barroco ao moderno – Vozes da literatura brasileira, que foi publicado pela Ática, de São Paulo (1989).

Henriqueta Lisboa discorre sobre a poesia em muitas produções poéticas. Mas é importante ler a sua conferência “Poesia: minha profissão de fé”, proferida em abril de 1978 em Brasília, ao ensejo do XII Encontro Nacional de Escritores, e incluída no livro Vivência poética. Ali ela revela as fontes temáticas e os principais motivos de sua obra.

Para ela, a poesia não passa de uma coação do eterno dentro do efêmero. A seu ver, a obra só será captada, na sua unidade e porventura na sua totalidade, se a análise objetiva for presidida pela intuição eidética, ou seja, a intuição relativa à essência das coisas, não à sua existência ou função. [E prossegue:] É que a poesia reside entre o escuro e o revelado, a palavra e o silêncio. Fecundo silêncio expressivo como a palavra mesma, a limitá-la e a prolongá-la em fluidez psicológica, aureolando-a, esfumando-lhe a densidade, protegendo-a da claridade crua.

O horror da “claridade crua” perseguiu Henriqueta Lisboa a vida toda. Achava que o tema do amor e do erotismo, por exemplo, somente poderá ser tratado através de uma luz indireta, talvez para que o fulgor da mente entrasse em contraste com a zona de mistério.

Não se encontra aqui mais a criança que um dia se deslumbrou com O menino poeta. Mas a obra de Henriqueta Lisboa aí está para deslumbrar crianças e adultos através do eterno rejuvenescimento da poesia centrada sobre a “morada do ser”.

 

 

 

 

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