Leitura em quadrinhos na sala de aula

Novos velhos heróis

Os criadores de heróis e super-heróis dos quadrinhos, que arquitetaram mundos originais e paisagens inteiramente novos para nós, dedicaram-se também (re)contar histórias não tão novas, com enredos talvez não tão desconhecidos, e, especialmente, heróis emprestados de outros criadores, muitas vezes de gerações anteriores. Já a partir da década de 1940, eles se lançaram na aventura de ler e recriar os clássicos da literatura universal em quadrinhos, uma aventura compartilhada entre leitores e criadores de toda uma geração, que pode representar uma viagem para dentro de nós mesmos, capaz de operar grandes transformações.

A ideia de emprestar da literatura enredos já testados e provados, histórias que, por sua potência e de seus personagens, foram capazes de atravessar os séculos para encontrar novos leitores, não é privilégio dos quadrinhos, mas, sim, uma prática da cultura. Outras artes visuais, como o cinema ou, mais tarde, as novelas de televisão, também adotaram essa forma de transmissão de valores e conhecimento entre as diferentes gerações. Afinal, é característica da cultura que nenhum indivíduo tenha que aprender do zero – ele recebe o conhecimento acumulado pelas gerações que o antecederam. Na cultura da convergência, como Henry Jenkins (2009) define a nossa época, não apenas a literatura emprestou seu prestígio para as novas linguagens que foram surgindo, mas todos os conteúdos passaram a ser compartilhados em múltiplas plataformas de mídia, deslizando entre elas ­­– e assim as narrativas migram, enredos e personagens ficcionais são recriados e desdobrados, enriquecendo-se a cada novo contar.

Uma viagem para dentro de nós

A leitura dos clássicos da literatura universal pode ser feita solitariamente ou de forma compartilhada. Você pode sempre ler a obra original, mas tenha certeza de que, ao ler a versão em quadrinhos terá a sensação de não estar só. É uma viagem diferente e nunca poderá comprometer a leitura da obra original ou outras releituras da mesma obra. Porque, afinal, cada leitura é apenas mais uma leitura.

Os clássicos curam a alma?

Ler os clássicos pode ser uma aventura transformadora e formativa. Foi o que descobriu o historiador Dante Gallian. Em A literatura como remédio, ele apresenta a experiência do Laboratório de Leitura, programa de humanização para profissionais da saúde, em que a leitura compartilhada de clássicos da literatura possibilita entender enredos e mitos literários e assim promover a cura de doenças da alma.

 

 

Uma ideia maravilhosa

Os primeiros álbuns em quadrinhos que se baseavam em obras literárias (ou quadrinizações) surgiram nos Estados Unidos. O editor russo Albert Kanter, radicado ali, desenvolveu uma coleção que se espalharia pelo mundo todo, encantaria os soldados no front de batalha e seria uma das grandes predileções dos leitores norte-americanos.

Chamava-se Classics Illlustrated e durou de 1941 a 1971, reconhecida pelos leitores pelo retângulo amarelo que trazia na capa. As revistas, inspiradas tanto em clássicos como na literatura folhetinesca anglo-saxã do século 19, foram traduzidas para mais de 26 idiomas, em cerca de 36 países. No Brasil, bem como na Grécia, a coleção foi traduzida e enriquecida com álbuns originais, baseados em obras da literatura pátria. A coleção brasileira, publicada pela EBAL com o nome de Edição Maravilhosa, começou também com romances já provados e testados: Os três mosqueteiros e O conde de Monte Cristo, de Alexandre Dumas, e Moby Dick, de Herman Melville, e assim por diante, totalizando mais de 400 quadrinizações em diferentes séries da editora.

Capas da Edição Maravilhosa e de números desenvolvidos na Grécia e no Brasil, respectivamente

Curiosidade

O reconhecido editor brasileiro de quadrinhos, Adolfo Aizen, fundador da Editora Brasil América Ltda (EBAL), cunhou o termo quadrinização para se referir à obra em quadrinhos que tomou como ponto de partida uma obra literária. Aizen foi responsável no Brasil por publicar as artes da Classics Illustrated e por promover a quadrinização de obras de autores brasileiros. Sua coleção teve 200 números na série principal, publicados de 1948 e 1962.

 

Aizen abraçou a ideia do editor Albert Kanter: publicar os clássicos em quadrinhos que lá fora conquistavam ao mesmo tempo o público infantil e pais e educadores, e assim cumpriam o propósito de promover os quadrinhos como linguagem. E deu certo. Somadas a iniciativas dos concorrentes, foram mais de 800 edições em formato de revistas em quadrinhos publicadas no século 20. E para mostrar que o gênero manteve sua popularidade, a Editora Abril lançou, em comemoração aos 60 anos da revista do Pato Donald, a série infantil semanal Clássicos da Literatura Disney, com 40 volumes, incluindo adaptações de vários romances, como O conde de Monte Cristo, As viagens de Gulliver, As aventuras do barão de Munchausen, e também de obras supostamente mais graves, como Os Miseráveis, de Victor Hugo ou Os sofrimentos do jovem Werther, de Goethe.

Adaptação da Disney que ilustra o momento em que Werther conhece o noivo de sua amada

 

Capas de adaptações paródicas de clássicos da literatura

Seria pouco pensar as adaptações literárias como obras menores ou secundárias cuja função é estimular o jovem leitor a aproximar-se da obra original. Muitas adaptações literárias têm todas as qualidades de um bom álbum de quadrinhos

 

Por que ler os clássicos

Apresentar aos jovens (mas não apenas aos jovens) de hoje, nascidos e criados em uma cultura essencialmente visual, os dramas, enredos, intrigas, questões e temáticas universais exploradas pelo gênio criador de gerações passadas é possibilitar a eles uma visão histórica da condição humana, suas aflições, ideias e ideais. Vários autores se debruçaram para discutir por que ler os clássicos. Algumas das razões:

  • Para entender quem somos e aonde chegamos (CALVINO, 1993)
  • Para compreender o projeto de conhecimento do homem e do mundo. (COMPAGNON, 2012)
  • Para continuar a tarefa multimilenar de manobrar a “máquina do mundo” – metáfora criada por Camões para definir a vida que cada um de nós vai construindo dentro das circunstâncias em que nos cabe viver ou transformar. (COELHO, 2006)
  • Para identificar a construção histórica de determinados valores, bem como a universalidade e essencialidade de outros
  • Para pensar a condição humana


O que faz do clássico um clássico?

São muitas as questões que são vivas e verdadeiras para todas as gerações. Um clássico é um modelo? Eu tenho que gostar do clássico? Quem decide o que é clássico? Os clássicos dependem do tempo para se tornar clássicos? O que faz do clássico um clássico?

 

Por que em quadrinhos?

Não somente porque a leitura dos quadrinhos pode ser prazerosa por si só, mas também porque a quadrinização pode, sim, ser um mapa capaz de encurtar distâncias e ampliar os horizontes de compreensão da obra literária. A quadrinização pode soar como convite honroso para compreender os clássicos além de seu sentido histórico, de como a obra foi recebida pelos leitores da época, ou como um convite para ler um bom quadrinho –ou tudo junto ao mesmo tempo.

Ler uma quadrinização é autorizar um artista gráfico a apresentar sua leitura da obra clássica que mantém sua capacidade de falar às gerações de hoje e marcou a cultura como modelo estético, historiográfico, político e artístico.

Hoje em dia existe uma grande comunidade de editores, quadrinistas e roteiristas dedicada a reler os clássicos, contribuindo para reproduzi-los ou para inová-los, atualizando o sentido desses modelos. Assim, o cânone literário tem sido constantemente revisitado por esses artistas, promovendo a leitura e a reflexão sobre as obras.

O leitor pode se beneficiar da mediação possibilitada pela visualidade dos quadrinhos e pelos registros gráficos da leitura do artista. O quadrinista faz o convite para guiá-lo no universo da obra e vai compartilhando com ele suas estratégias de representação, dando pistas de como dissecou o texto literário e suas estratégias retóricas para transpor para os quadrinhos. Com vocabulário e gramática próprias, os quadrinhos lançam mão de um amplo leque de expedientes para narrar uma história no tempo e no espaço, descrever um cenário, explorar sensações ou alcançar qualquer outra intenção comunicacional do autor.

 

O quadrinista no leme

O processo criativo do artista, desde a seleção das cenas a quadrinizar, até a finalização, pode desvendar camadas de leitura e possibilidades didáticas, e persegui-lo é uma rota interessante para a leitura compartilhada.

O processo de adaptação envolve reconhecer o texto literário original e imaginar como o espírito da obra, seu enredo, personagens e ação serão comunicados pelos quadrinhos. Enquanto no texto literário a visualização da história, cenários, sentimentos e valores são imaginados pelo leitor a partir de recursos próprios e exclusivos da literatura, nas adaptações para quadrinhos o sentido da ação é dado pela linguística dos quadrinhos, associando a tais recursos verbais os recursos imagético-visuais em uma sequência de quadros.

Os quadrinhos compartilham características com a literatura, o cinema, as artes plásticas e várias especialidades das artes cênicas. Mas é o conjunto de suas características e recursos que compõe a linguagem e sua poética particular. O artista adaptador vai usar como forma de expressão as ferramentas da linguagem dos quadrinhos e, assim, o processo de leitura pode ser bastante enriquecido pelo aprofundamento do educador nos recursos da linguagem dos quadrinhos.

A quadrinização de uma obra literária é sempre uma releitura muito particular do artista, e seu resultado é uma obra original única, mas não definitiva, já que muitos outros artistas podem fazer diferentes escolhas em relação à tradução da mesma obra para os quadrinhos. Assim, há HQs que se mantêm próximas das obras originais e outras que usam a obra original como inspiração, gerando resultados bastante diversos. As mais fiéis ao texto original podem ser classificadas como adaptação pastiche. Mas as adaptações podem ser criativas, no caso em que os quadrinhos acrescentam elementos à obra original e inovam sua leitura; e podem ser chamadas de recriações paródicas quando reconstroem o texto a partir de um viés cômico ou outro qualquer, como as edições da Disney.

 

Depoimento de leitura valioso

Vários artistas se propõem a fazer uma quadrinização justamente porque leram a obra clássica e, encantados, tiraram da experiência o desejo de compartilhar com os mais jovens a possibilidade dessa viagem. Outros têm uma relação mais antiga com a obra e ela faz parte de sua formação leitora. O fato é que muitos quadrinistas alegram-se em saber que a quadrinização desperta o interesse do leitor em conhecer os clássicos e compartilham o seu processo criativo para ajudar educadores e outros artistas e pesquisadores a descobrir as principais sacadas da quadrinização. É um depoimento valioso, que esconde as principais sacadas do autor, seja ele o roteirista, o desenhista, ou ambos. Cada uma delas pode abrir caminhos para a exploração em sala de aula, nas disciplinas de Literatura, claro, mas também com possibilidades transdisciplinares, em que se envolvem conteúdos de História, Geografia, Artes e Humanidades em geral. Vamos ver alguns exemplos de como o processo criativo dos artistas pode ser sedutor e indicar caminhos para a leitura compartilhada.

 

A montagem

Um dos aspectos importantes da tradução do literário para os quadrinhos é a seleção das partes do texto a quadrinizar, que, por si só, já pode ser tomada como uma autoria do quadrinista. No caso de Os Lusíadas (NESTI, 2006), por exemplo, a seleção das partes mais emblemáticas da obra de Camões contribuiu para o sucesso do uso paradidático do álbum. Foram escolhidos os episódios de Inês de Castro, Velho do Restelo, Gigante Adamastor e Ilha dos Amores.

Um bom caminho para começar a leitura compartilhada seria expor aos alunos a estrutura do poema épico de Camões: cantos e partes, e fazê-los perceber que o álbum em quadrinhos fez uma seleção de partes a representar e sua posterior montagem. O álbum pode ser usado nas disciplinas de Literatura, Artes, História e Geografia, por exemplo, explorando o estabelecimento da língua portuguesa e outras temáticas importantes, como as grandes navegações, a cartografia e visão de mundo da época, as dinastias portuguesas, dentre outros aspectos históricos e culturais.

A montagem também pode oferecer outro caminho didático interessante: propor aos alunos a leitura e posterior tradução para quadrinhos de uma parte da obra. Escolha para isso um trecho da obra original que não tenha sido quadrinizado no álbum.

Dica

A comparação entre duas quadrinizações de uma mesma obra clássica pode ser uma outra aventura. Pode-se também buscar a releitura de Lailson de Hollanda Cavalcanti (2006), Lusíadas 2500, que traz a obra na íntegra em três volumes, ambientada num futuro intergaláctico.

 

Pesquisa de referências visuais

Mesmo o mais experiente e criativo desenhista precisa fazer uma pesquisa antes de iniciar o esboço de sua quadrinização. A reunião de referências visuais de vestuário, objetos de época e locações demanda tempo e seu resultado enriquece bastante as informações complementares que a quadrinização oferece ao leitor para a compreensão da obra e de seu contexto de época.

Nas disciplinas de Artes, são muitas as estratégias pedagógicas para se aproveitar:

  • Avaliar o traço e estilo do artista: é acadêmico e realista? É mais caricato, próximo do cartum? Ou está mais para o estilo dos quadrinhos de super-heróis? Contém características do mangá? Os cenários usam bem os recursos da construção de ambientes? Analisar elementos como proporção, perspectiva, linhas do horizonte, enquadramentos, pode dar dicas de como o artista usou a expressividade dos quadrinhos para traduzir a obra original.

 

Diferenças estilísticas na forma de representar a luta na Guerra de Troia, da Ilíada, de Homero (esquerda) e em Macbeth, de Shakespeare

 

  • Discutir o processo criativo do quadrinista a partir de entrevistas ou de conteúdos extra.
  • Produzir uma história em quadrinhos a partir da leitura de trechos da obra original que não foram adaptados na quadrinização adotada.
  • Buscar referências artísticas na obra em quadrinhos. Por exemplo: referências de Botticelli, Doré e Dalí na adaptação da Divina Comédia de Dante (BAGNARIOL, BAGNARIOL, 2011). Referências do Modernismo na adaptação de Macunaíma, de Mário de Andrade (ABU, DAN X, 2016).
 

Referências à obra de Tarsila do Amaral na quadrinização de Macunaíma. À esquerda, “Batizado de Macunaíma” (1956) e ao lado, “O abaporu” (1928)

 

História

Na disciplina de História, os quadrinhos podem ser excelentes máquinas de viajar no tempo. O professor tem à disposição boas HQs produzidas atualmente, mas ambientadas em outro tempo e espaço, em que é possível identificar e reconhecer o vestuário, a ambientação de época, e a rica pesquisa que o desenhista fez para representar o tempo em que se passa a história. Além disso, o professor pode avaliar a linguagem em relação à passagem do tempo dentro da narrativa. Por exemplo, observar como os quadrinhos representam a passagem do tempo em que a história ocorre: número de quadros por página, seleção dos episódios e partes da obra efetivamente quadrinizadas.

Outra possibilidade é apresentar aos alunos a história das mentalidades como área de conhecimento, usando as adaptações dos clássicos para entender as transformações da sociedade ao lidar com temas como amor, morte, erotismo ou poder, dentre outros. Pode-se explorar a representação da morte, da vida e de Deus pelos quadrinhos, investigando como esses temas estão expressos nas obras literárias. Exemplo: Em A morte de Ivan Ilitch, de Tolstói, Caeto Melo (2014), usa a engrenagem do tempo na espera da morte por meio da quantidade de quadros empenhados na passagem vagarosa e cada vez mais angustiante do tempo em direção à morte.

A representação da morte nos quadrinhos para o clássico de Tolstói, A morte de Ivan Ilitch

Em Morte e vida Severina, poema de João Cabral de Melo Neto, a banalização da morte na trajetória de um retirante nordestino em direção ao litoral ganha quadrinização de Miguel Falcão (FALCÃO, 2005) e animação média metragem, ambas em preto e branco. Os temas levantados pelo poema regionalista vão da exploração da terra à reforma agrária, dos movimentos migratórios às desigualdades sociais, da caracterização dos espaços geográficos, em especial a caatinga e o litoral, às questões socioculturais relacionadas à vida sertaneja. O leitor pode observar como os artistas conseguiram criar um subtexto, ou uma narrativa independente, motivada pelas metáforas do poema, mas capaz de, por si só, narrar. Pode observar o estilo de cordel escolhido e a exploração de texturas e sombreados alcançada pela diversidade de hachuras e tracejados usada pelo desenhista.

A releitura do texto poético pela linguagem dos quadrinhos e pela animação pode oferecer uma boa oportunidade de aprofundamento sobre as especificidades de cada linguagem: literatura, quadrinhos e cinema. Pode-se aproveitar para buscar também a produção audiovisual para tevê de 1971 do mesmo poema, por Zelito Viana.

Abertura da animação Morte vida Severina

Literatura

As quadrinizações podem ser grandes guias para a leitura compartilhada de textos clássicos. Neste caso, os quadrinhos cumprem a função de um livro paradidático e a escolha do título depende da obra e do autor de interesse. O educador pode avaliar os títulos disponíveis segundo critérios como o nível de aproximação dos quadrinhos com a obra literária, suas opções estéticas, o lugar e origem do autor clássico e do quadrinista e o projeto de trabalho.

 

O Romantismo segundo os quadrinhos

Pode-se estudar um movimento literário a partir dos quadrinhos, comparando, por exemplo, diferentes quadrinizações de obras do Romantismo e identificando aspectos em comum e formas de representação dos ideais estéticos da época. Como o indígena foi retratado nas diferentes quadrinizações das obras de José de Alencar? Que referências estéticas ou orientações antropológicas foram utilizadas? Que recursos da linguagem foram empenhados na construção de uma ideia do indígena brasileiro romântico? Avalie os recursos da narrativa em quadrinhos, como o foco narrativo (primeira ou terceira pessoa) ou lugar do narrador, o estilo do desenho para composição da personagem e os recursos variados da linguagem quadrinística.

 

Curiosidade

No século XX, o Romantismo e os romances folhetinescos do século 19, enredos já testados e provados, eram o maior foco de interesse das coleções. O clássico do Romantismo brasileiro, José de Alencar, foi o autor mais quadrinizado no século 20. Já neste século, é Machado de Assis o autor com mais obras quadrinizadas.

 

    

Capas de quadrinizações de O guarani, de José de Alencar

 

Seguindo a linha da tradição literária, o professor pode aproveitar para discutir questões como originalidade e autoria. Afinal, a obra literária clássica tem a capacidade de falar a sucessivas gerações e é bem provável que tenha tido inúmeras releituras anteriores, possibilitando também discutir a relação entre a obra e seus leitores ao longo do tempo. O artista contemporâneo que se propõe a quadrinizar uma obra literária está, de certa forma, ganhando notoriedade ao se inscrever no rol dos autores que criam novas representações da obra para serem usufruídas por sua geração, possibilitando a renovação de seu sentido. No século 20, a autoria de uma quadrinização era comumente ocultada em favor do nome do autor da obra literária na capa. Nos dias de hoje, a quadrinização é considerada uma obra derivada, mas completamente original e o quadrinista é referendado como seu autor.

Outro caminho é procurar entender como o quadrinista conseguiu desnudar e traduzir aspectos ocultos da obra literária. Para isso, é importante explorar a gramática dos quadrinhos e as figuras retóricas do texto, a começar pela identificação da representação do narrador no texto e nos quadrinhos. Assim, por exemplo, os recordatórios costumam ser reservados para o narrador em primeira e terceira pessoas, mas outros recursos podem ser usados para marcar voz e lugar do narrador. Para trabalhar essa temática, o professor pode se debruçar sobre a obra de Machado de Assis, que faz sempre uso inventivo da voz do narrador.

 

100 anos de Machado de Assis e os quadrinhos

De 2002 a 2015 foram publicadas 24 quadrinizações em 26 edições de obras de Machado de Assis. Algumas foram adaptadas várias vezes: O alienista (4), Dom Casmurro (3)  Memórias póstumas de Brás Cubas (3). Releituras diferentes de uma mesma obra possibilitam a comparação entre as formas de representação de cenas da obra original e pode render um bom aprofundamento nas discussões. Doze obras do autor foram quadrinizadas neste século.

 

Ligados nas grandes efemérides

Há vários caminhos para a seleção de quadrinizações para se trabalhar na escola, de preferência partindo de uma visão transdisciplinar do currículo. Pode ser uma boa ideia acompanhar as datas comemorativas relacionadas a determinado autor, obra ou movimento literário. Por exemplo, 2018 é o ano em que se comemoram os 200 anos da publicação do romance Frankenstein, da jovem Mary Shelley, que viria a se tornar um clássico da literatura universal, com quase 1000 releituras no cinema, no teatro e nos quadrinhos. A obra pode ambientar reflexões importantes, como a vida, os limites entre a ciência e a ética, a complexidade das relações de poder entre criador e criatura, mas também possibilitar a identificação dos costumes sociais da época, paisagens, mobiliário e vestuário.

 

Leia mais

ABU, Angelo; DAN X, ANDRADE, Mário. Macunaíma em quadrinhos. São Paulo: Peirópolis, 2016.

BÁ, Gabriel; MOON, Fabio; HATOUM, Milton. Dois irmãos. São Paulo: Quadrinhos na Cia., 2015.

BAGNARIOL, Piero; BAGNARIOL, Giuseppe, ALIGHIERI, Dante. A divina comédia em quadrinhos. São Paulo: Peirópolis, 2011.

CAVALCANTI, Laílson de Hollanda. Lusíadas 2500. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2006.

FALCÃO, Miguel. Morte e vida Severina em quadrinhos. Recife: Fundação Joaquim Nabuco; Editora Massangana, 2005.

GODOY, Marcela; VASCONCELLOS, Rafael. Macbeth. São Paulo: Editora Nemo, 2012.

MELO, Caeto; TOLSTÓI, Liev. A morte de Ivan Ilitch em quadrinhos. São Paulo: Peirópolis, 2014.

NESTI, Fido. Os Lusíadas em quadrinhos. São Paulo: Peirópolis, 2006.

SCALA, Guido; PAVESE, Osvaldo. Os sofrimentos do jovem Werther. São Paulo: Abril, 2010.

 

Viagem compartilhada

As releituras de obras literárias em quadrinhos iluminam e divulgam grandes histórias e enredos e popularizam e atualizam mitos literários fundantes de nossa cultura, resultando em álbuns que favorecem a formação do leitor literário. O resultado estético próprio dessas quadrinizações pode proporcionar uma experiência de leitura enriquecedora, não apenas por popularizar ou aproximar leitores dos clássicos, mas por aproximar leitores de outros leitores e, especialmente, pelo prazer da fruição estética que a linguagem dos quadrinhos proporciona.

Práticas de leitura compartilhadas podem ser bastante significativas se valorizadas tanto quanto a leitura individual. Leitores em formação podem tomar gosto pela leitura em função do desejo de compartilhar seus sentimentos e ideias a respeito das obras e a mediação da visualidade faz das quadrinizações uma proposta convidativa, capaz de multiplicar as possibilidades deleitura.

Esta pode ser uma viagem compartilhada por todos nós em torno de nós mesmos, de como fomos e somos, de como vivemos, envelhecemos e morremos, mas especialmente, como nos eternizamos através da literatura e dos quadrinhos!

 

Saiba mais

CALVINO, Ítalo. Por que ler os clássicos. Tradução Nilson Moulin. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.

COELHO, Nelly Novaes (org.). Versos de amor e morte. São Paulo: Peirópolis, 2006.

COMPAGNON, A. Literatura para quê? Tradução Laura Taddei Brandini. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2012.

GALLIAN, Dante. Literatura como remédio: os clássicos e a saúde da alma. São Paulo: Martin Claret, 2017.

JENKINS, Henry. Cultura da convergência. 2. ed. São Paulo: Aleph, 2009.

MARQUES, Wilton José. Por que ler os clássicos? In: BORGES, Renata Farhat (org.).

Clássicos em HQ. São Paulo: Peirópolis, 2013, p. 10-12.

http://divinacomediahq.blogspot.com.br. (blog bilingue com informações sobre a quadrinização da Divina Comédia)

 

 

Referências de outros quadrinhos citados

ACQUARONE, F. O Guarany. Rio de Janeiro: Correio Universal, 1937

BAGNARIOL, Piero; BARBOSA, Tereza Virgínia Ribeiro; CAETANO, Andreza; CORRÊA, Paulo. Ilíada. Belo Horizonte: RHJ, 2012.

BOTTARO, Luciano; MARTINA, Guido. O conde de Monte Cristo. São Paulo: Abril, 2010.

CARPI, Giovan Battista. Os Miseráveis. São Paulo: Abril, 2010.

GÊ, Luiz; JAF, Ivan. O guarani. São Paulo: Ática, 2009.

KILDALE, Malcolm. Os três mosqueteiros. Rio de Janeiro: Ebal, 1948 .

LEBLANC, André. O guarani. Rio de Janeiro: Ebal, 1950.

OLIVEIRA, Juliano; RIOS, Rosana. O guarani. São Paulo: Scipione, 2012.

SCALA, Guido; PAVESE, Osvaldo. As viagens de Gulliver. São Paulo: Abril, 2010.

SIENKIEWICZ, Bill; CHICHESTER, D.G. Moby Dick. Rio de Janeiro: Ebal, 1958.

SIMON, Allen; RAMSEY, Ray; LIPMAN, Vivian. O conde de Monte Cristo. Rio de Janeiro: Ebal, 1948.

VITA, Pier Lorenzo de; MARTINA, Guido. As aventuras do barão de Munchausen. São Paulo: Abril, 2010.

Add Comment

Your email address will not be published. Required fields are marked *

Olá! Preencha os campos abaixo para iniciar a conversa no WhatsApp

PHP Code Snippets Powered By : XYZScripts.com