Coleção: “E eu com isso?”

A especialização do saber, a despeito de ter possibilitado o acúmulo de conhecimento em todas as áreas, acabou por promover a desconexão entre elas. Com isso, a ciência, envolta em jargões e processos de grande complexidade, ficou muito distante das pessoas “comuns”; e essas, por sua vez, estão muito distantes da tomada de decisões políticas que envolvem, por exemplo, a questão do impacto da construção civil sobre o clima. Afinal, elas “não são especialistas”, nada entendem de engenharia.

Para agravar mais a situação, no contexto mundial do neoliberalismo, em que ciência e mercado andam de mãos dadas, o conhecimento gerado, além de se tornar propriedade intelectual de poucos, tornou-se também a justificativa para interesses empresariais. Justificativa, essa, que em geral as pessoas não têm como rebater. Afinal, os argumentos não são acessíveis a todos.

Reduzidos ao status de meros “consumidores” e “clientes”, nem sequer conscientes do que significa a dimensão de “contribuintes”, homens e mulheres contemporâneos às vezes parecem confirmar as profecias da ficção científica, como em “Fahrenheit 451” e seu mundo de respostas prontas em que é proibido questionar.

Nas últimas décadas, algumas ações vêm sendo adotadas no sentido de reconectar os saberes, promovendo também a reconexão das pessoas com o mundo que os produz e os detém, e com isso despertando a capacidade de correlacionar idéias e pensar por conta própria. A introdução dos “temas transversais” no ensino pelo Ministério da Educação é um sinal de que o panorama começa a se transformar.

Nesse contexto, a Editora Peirópolis busca contribuir ao abrigar autores de ideias instigantes como a bióloga Nurit Bensusan, coordenadora e autora de títulos da coleção “E eu com isso?”.

E eu com isso? é uma coleção de livros para pensar de maneira ousada e divertida sobre as conexões entre as pessoas e o planeta. Em crônicas ágeis, rápidas e irreverentes, cheias de humor e perspicácia, a bióloga Nurit Bensusan nos faz relembrar a intrigante complexidade da natureza. Resgata a dimensão humana dos problemas ambientais enquanto revela ao leitor conexões aparentemente insólitas entre os diferentes problemas do mundo contemporâneo. A leitura dessas crônicas em mosaico subverte definitivamente o comodismo que parece nos consolar diante de desafios complexos e nos conecta para sempre com a dimensão planetária de nossas vidas.

Conheça alguns textos
Pandemia: e eu com isso?

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Meio ambiente: e eu com isso?

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Amazônia: e eu com isso?

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Conversa com a autora

Nurit Bensusan é uma ex-humana.

Diante dos descalabros da humanidade, desistiu da nossa espécie, mas não da biologia, nem das questões socioambientais. Enquanto isso, divide seu tempo trabalhando com políticas públicas ligadas à conservação da biodiversidade e das paisagens, e pesquisando temas como a história das paisagens naturais e culturais e o uso do patrimônio genético e dos conhecimentos de povos indígenas a comunidades locais.

Como autora, dedica-se a escrever e organizar livros que contribuam para a popularização da ciência, inserindo-a num contexto mais amplo e em relação direta com o leitor. Ainda encontra tempo para se dedicar à criação de jogos com temas biológicos na oficina Biolúdica. Seus textos são publicados também em seu blog Planeta Bárbaro e no site do Instituto Socioambiental.

Nurit Bensusan tem graduação em Biologia pela Universidade de Brasília (1986), pós-graduação em História, Sociologia e Filosofia da Ciência pela Universidade Hebraica de Jerusalém (1988), graduação em Engenharia Florestal pela Universidade de Brasília (1993), mestrado em Ecologia pela Universidade de Brasília (1997), doutorado em Educação (2012) e pós-doutorado em Antropologia (2019) pela mesma universidade.

Confira essa breve entrevista com Nurit:

  • Antes de mais nada, por que você se define como uma ex-humana?

É uma espécie de protesto: se ser humano é compactuar com toda essa destruição que nossa espécie vem fazendo, então eu não quero ser humana. Mas, há também outro protesto de fundo: por muito tempo, apenas os homens brancos cristãos se consideravam humanos, como se fizessem parte de um clube seleto denominado humanidade onde mulheres, negros, povos indígenas e vários outros não eram bem vindos. Assim, ser uma ex-humana é um transbordamento das fronteiras do que é humanidade, tanto para pluralidade da nossa espécie, como também para o mundo dos outros seres com quem compartilhamos o planeta.

  • Por que a escolha desse título – E eu com isso? – para a coleção?

Ah, porque a maior parte das pessoas acha que não tem nada a ver com isso. Destruição da Amazônia? E eu com isso? Moro no Rio… Incêndios no Pantanal? E eu com isso? Nunca fui lá e vivo em Fortaleza… Extinção do mico-leão? Do pangolim? Do caranguejo-ferradura? Ora, francamente, o que eu tenho a ver com isso…

Ou seja, as pessoas não conseguem fazer uma conexão entre suas vidas cotidianas e o que acontece nos ambientes naturais, como se houvesse uma barreira e não uma profusão de redes de comunicação entre cada um de nós e os seres e as paisagens que fazem desse planeta um lugar convidativo para a nossa espécie. Muita gente, por exemplo, não percebe que a carne que come tem vínculos profundos com o desmatamento da Amazônia. Mas, 2/3 de tudo que é desmatado nesta floresta vira pasto e a pecuária ali instalada alimenta o mercado interno brasileiro. Menos gente ainda se dá conta que muitos produtos de couro, como bancos de carro, bolsas e sapatos, também alimentam o desmatamento na Amazônia. Mas há o caminho contrário, talvez, ainda mais relevante para a escolha do título “e eu com isso?”. Trata-se de ajudar o leitor a estabelecer conexões entre a destruição do planeta e os impactos sobre sua vida cotidiana. As recentes crises hídricas, em várias cidades do país, e a própria pandemia do coronavírus deveriam ajudar as pessoas a entender que suas vidas podem ser muito impactadas pela degradação da natureza, mas infelizmente não foi isso que se viu. Minha intenção, com essa coleção, é tornar essas relações mais claras para os leitores e ajudá-los a pensar nas consequências de transformarmos esse mundo em um lugar hostil para nossa espécie.

  • Crônica também pode ser um gênero da ciência? Quais foram suas inspirações para os textos e seu formato?

Minha maior inspiração para escrever divulgação científica é o paleontólogo Stephen Jay Gould, ele escrevia muito bem e conectava os mais diversos elementos da cultura humana com seus argumentos sobre espécies, evolução e paleontologia. Uma leitura fascinante que me fez sonhar, desde a minha graduação, com a possibilidade de escrever sobre ciência para um público mais geral, mas não pensando a divulgação científica como uma tradução da ciência, mas sim como literatura. É assim que eu vejo as crônicas dessa coleção.

  • Você traz, de forma muito simples, mas ao mesmo tempo com profundidade, a relação da ciência com nosso cotidiano, problematizando nossos hábitos mais comuns. Poderia falar um pouco sobre esse jeito de ensinar ciência?

Estou convencida que as pessoas precisam conectar as questões ambientais e científicas com suas próprias vidas. Uma coisa é discorrer sobre o direito de existir dos caranguejos-ferradura, o que pode comover alguns, mas poucos, outra coisa é dizer que sem eles não há vacinas, nem para gripe, nem para Covid-19. (Aticei sua curiosidade? Eu conto essa história na crônica Os rastros inesquecíveis da pandemia nossa de cada dia).

  • É possível falar sobre meio ambiente sem trazer o social?

Não há meio ambiente sem o social, pois tudo é parte do meio ambiente. Além disso, inúmeros fatores sociais impactam o meio ambiente, para o bem e para o mal. Situações de precariedade socioeconômica empurram as pessoas para práticas que degradam a natureza, como o desmatamento e o tráfico de animais. Um conjunto de outros fatores, como a falta de saneamento básico e o descontrole no uso de agrotóxicos, além de trazerem grandes prejuízos para a saúde humana, provocam significativos impactos ambientais. Por outro lado, é a sociodiversidade existente no Brasil, mais de 300 povos indígenas e milhares de comunidades locais, que é a responsável pela manutenção de muito da nossa biodiversidade.

Conheça os títulos que autora publicou pela Peirópolis:

 

E eu com isso? Vai ficar aí parado?

O que posso fazer para melhorar o mundo? Ações para o meu entorno.

O bordão de Nurit está presente no final de cada crônica. Então, muito pertinente que depois de escrever a crônica a partir do tema escolhido, o grupo pense em ações possíveis para acompanhar a divulgação do texto. Para tanto, vale olhar as sugestões da própria autora ao longo do livro, no final de cada crônica, observando o caráter dessas sugestões, que versam sobre ações simples, possíveis de realizar no cotidiano e no entorno.

 

Conhecendo mais a autora: o que Nurit anda falando por aí?

Que tal sugerir propostas de discussões com os estudantes e a elaboração de um roteiro de entrevistas com a autora sobre a pandemia e relações com o meio ambiente? Aqui estão listadas algumas sugestões de vídeos para assistir e refletir.

MCB 50 anos – Nurit Bensusan, ex-humana e bióloga | Museu da Casa BrasileiraNós, a natureza e a pandemia | TEDxSaoPauloUma máquina de fazer futuros com Nurit Rachel Bensuan | Sesc São Paulo Marcha (virtual) Pela Vida | Instituto Socioambiental (ISA)Nurit Bensusan na I Semana Nacional de Ciências Ambientais | Instituto Socioambiental (ISA)Profa. Dra. Nurit Bensusan – Instituto Humanitas Unisinos | Instituto Socioambiental (ISA)A pandemia nossa de cada dia | Dos confins ao confinamento | Episódio 2A pandemia nossa de cada dia | Dos confins ao confinamento | Episódio 3Entrevista: Nurit Bensusan – Unidades de Conservação e o papel do Estado | Mídia e Amazônia O Estado como promotor do desmonte e os instrumentos para reduzir UCs | Mídia e AmazôniaBioma, viroma, cultura: entrevista com Nurit Bensusan | Vinte mil léguas Podcast | Quatro Cinco UmSemana do meio ambiente 2020 | Um futuro de pandemias e crises socioambientais: chegamos ao pico da nossa curva? | Instituto de Biociências da USPMeio ambiente: proteger x crescer – Mamilos Podcast com Nurit Bensusan e Juliano Assunção – Ep. 252BioDiversos: vamos celebrar a biodiversidade? | Biodiversidade e Divulgação Científica | Instituto Ekos

Alguns temas possíveis a partir do conteúdo que encontramos nos links:

  • A pandemia e a forma como tratamos os animais;
  • A pandemia e o desmatamento de florestas;
  • O futuro pós-pandêmico – o que nos aguarda?

Após a visita aos links indicados, pode-se propor que os estudantes façam um compilado das informações obtidas, elencando outras perguntas para a construção de um roteiro de entrevista com a autora.

O roteiro poderá ser enviado por meio do “Caixa de Entrada” e nós faremos chegar à autora, retornando a resposta ao e-mail do educador/a, cujo endereço eletrônico deverá ser vir junto à proposta de roteiro. Pedimos que enviem roteiros não muito extensos, no máximo 5 perguntas.

Essa proposta permitirá trabalhar habilidades relacionadas ao campo jornalístico/midiático, om práticas de linguagem voltadas à oralidade, tendo como objeto de conhecimento as  estratégias de produção:

(EF69LP39) Definir o recorte temático da entrevista e o entrevistado, levantar informações sobre o entrevistado e sobre o tema da entrevista, elaborar roteiro de perguntas, realizar entrevista, a partir do roteiro, abrindo possibilidades para fazer perguntas a partir da resposta, se o contexto permitir, tomar nota, gravar ou salvar a entrevista e usar adequadamente as informações obtidas, de acordo com os objetivos estabelecidos.

Conheça a proposta pedagógica completa

 

Os livros também conversam entre si

Muitos outros títulos da Peirópolis cujo tema é o meio ambiente podem conversar com os livros da Nurit. Então, fazemos um convite: explore os títulos aqui indicados. Dê uma espiada em alguns delas e procure traçar um percurso, quais relações esses livros podem ter, que costuras podemos fazer entre eles?

Uma poesia conversa com um texto informativo? Será que um texto poético pode nos apresentar informações?  Há temas nos livros de poesias que podem ser aprofundados nos livros informativos?

Fica aqui o convite para que uma leitura leve a outras, para que os livros possam conversar entre sim, colocados lado a lado na estante.

 

 

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