Entrevista com Ana Carolina Neves e Renata Lourenço
Entrevista com Ana Carolina Neves e Renata Lourenço
Sobre o livro A que horas meus pais chegam?
Entrevista com Ana Carolina Neves:
Peirópolis: Ana, como nasceu a ideia deste livro? Conte um pouco sobre o processo que deu origem à história.
Ana Carolina Neves: Essa história nasceu de uma vivência que marcou muito minha infância: o medo dos meus pais não voltarem para casa no fim do dia. Eles não tinham um trabalho arriscado, nem a cidade era mais perigosa que outras capitais, mas eu sentia uma angústia sofrida ao entardecer, que era uma mistura da incerteza da volta deles com o crepúsculo.
Enquanto meus pais trabalhavam fora, eu e meu irmão erámos cuidados pela Rita, que era empregada doméstica na nossa casa. A gente morava em um bairro na borda da cidade de Belo Horizonte. Depois que voltávamos da escola, a gente estudava, brincava, assistia TV e lanchava. Mas, com o passar do dia, principalmente quando começava a escurecer, ia surgindo em mim aquele sentimento ruim, que era uma preocupação de chegar a hora da Rita ir embora e dos meus pais não terem chegado em casa ainda. Acho que essa angústia é mesmo ancestral, vem dos tempos em que morávamos nas cavernas, quando escurecia e o mundo lá fora ficava mais perigoso. Minha mãe, que foi criança numa fazenda, também conta que sentia tristeza quando o dia ia escurecendo, os bezerros eram apartados das vacas e a seriema cantava o campo. Era o medo da luz do dia ir embora e ficarem à luz de lamparinas, medo também de assombrações.
Naquela época, eu não tinha relógio, então percebia a passagem do tempo pelos acontecimentos ao meu redor: todo dia, no mesmo horário, passava um sorveteiro na rua de baixo tocando uma buzina que fazia o cachorro do vizinho uivar. Logo em seguida, os morcegos começavam a revoar no céu da tarde, em torno das árvores, e no rádio da cozinha tocava ave maria. Era assim que eu sabia que estava entardecendo, e que meus pais demoravam a chegar.
Anos mais tarde, depois de ter vivido em outros locais e em outra cidade, voltei a morar no bairro onde passei minha infância. E que surpresa tive ao descobrir que ele ainda se parecia com aquele que conheci nos tempos passados, e lá ainda se encontravam os mesmos ofícios, como o padeiro em sua bicicleta, o coletor de ferro velho e sua carrocinha, o vendedor de beiju com sua matraca…
Escrevi sobre a espera de uma criança pelos seus pais nesse cenário que lembrava o da minha infância. Daí passei o original para uma leitora crítica, a Fabíola Farias. Ela apontou para a singularidade daquele bairro, e me fez pensar em como crianças em diferentes situações culturais e socioeconômicas têm vivências diversas, apesar da angústia pela espera dos pais ser talvez universal. Então, decidi trazer essa discussão, incluindo um novo personagem na história, que vivia em um bairro mais central, com mais comércio, mais carros e outros ofícios ao seu redor.
P: Na narrativa, você constrói duas personagens que se aproximam e se distanciam em muitos aspectos, criando uma relação interessante e desafiadora para a criança leitora. Como surgiu essa ideia? E de que maneira imagina que essa história pode dialogar com crianças em diferentes contextos?
ACN: A escolha de narrar a espera de duas crianças pelos seus pais em diferentes territórios trouxe a possibilidade de falar de temas universais, como a curiosidade pelo ambiente em que se vive, o mal-estar do fim da tarde, a espera dos pais, a presença das mulheres que cuidam das crianças na ausência dos pais. Por outro lado, traz a possibilidade de falar de diferenças, das especificidades das infâncias. Isso é, mesmo sendo crianças, cada indivíduo experiencia o mundo de formas diversas, conforme sua realidade. Existem muitas cidades dentro da cidade.
Estar atento a essas semelhanças e diferenças é enriquecedor para as pessoas como indivíduos, e para a sociedade como um todo, pois é um exercício de alteridade.
P: O livro aborda com delicadeza a relação da criança com o tempo e com o território em que vive. Como você imagina que esses temas podem ser explorados em situações de mediação de leitura?
ACN: Preciso contar que, além de escritora, sou bióloga. Quando trabalhava como pesquisadora na área de Ecologia, eu prestava muita atenção nos ecossistemas ao meu redor, com suas plantas minúsculas, bichos escondidos debaixo das folhas, sons, cheiros e outros elementos. Mas antes de ser pesquisadora, eu já era uma criança atenta, observadora do espaço que me cercava. Era um tempo em que a única tela que tínhamos à nossa disposição era a da televisão, e, de vez em quando, a do cinema. Apesar de eu ter sido uma criança particularmente observadora, percebo que contemplar o ambiente ao redor, naquele tempo de poucas telas, era algo rotineiro para as crianças.
Perceber o ecossistema em que se vive, com seus personagens (pessoas, animais, plantas), sons, cheiros e acontecimentos é algo muito interessante para se desenvolver a atenção ao momento presente, fazendo aqui uma contraposição ao uso excessivo de telas. É importante também para criarmos um sentido de identidade e pertencimento, pois nosso habitat faz parte da nossa construção, da composição de quem somos. E por fim, é isso que vai nos permitir enxergar a diversidade de vidas e de infâncias que estão aí dispostas.
P: No posfácio, a educadora Cisele Ortiz destaca as diferentes camadas da obra ao tratar das perspectivas das crianças e das mulheres cuidadoras. De que forma você acredita que essas perspectivas podem contribuir para a formação humana de leitores e leitoras iniciantes?
ACN: De fato, uma das camadas da história é sobre as mulheres que têm o ofício de cuidar da alimentação, da saúde e da segurança das pessoas, sejam elas doentes, idosos ou crianças, enquanto seus pais estão trabalhando. Esse é um trabalho geralmente pouco valorizado, invisibilizado e, muitas vezes, não remunerado, mas que dá suporte à roda do mundo, é o que possibilita que as pessoas saiam de casa todos os dias para trabalharem nas empresas, nos comércios etc.
Reconhecer a importância desse trabalho e enxergar a vida dessas pessoas além do ofício que representam, é uma forma de torná-las visíveis, e é também um exercício de alteridade, de reconhecer o outro.
Entrevista com Renata Lourenço:
Peirópolis: Renata, como foi seu primeiro contato com o texto deste livro? O que ele despertou em você como ilustradora?
Renata Lourenço: Quando li o texto de Ana Carolina pela primeira vez, eu me reconheci rapidamente nas crianças. Eu, a filha única que esperava ansiosamente a mãe chegar do trabalho. A saudade, o não compreender totalmente a ausência daquela mãe, o tempo que não passava nunca, o brincar enquanto esperava ela chegar, e a alegria da chegada! Meu primeiro caminho para a construção das imagens do livro foi o da espera. Crianças em diferentes contextos sociais dividindo os mesmos sentimentos.
Após uma segunda leitura, Dalva, a empregada doméstica, não me saía da cabeça. Ela é o fio que une os dois mundos. Então, o meu olhar foi redirecionado e a minha intenção passou a ser mostrar, nas imagens, a presença silenciosa de Dalva, que representa as mulheres-multitarefas que cuidam, que limpam, que alimentam, que dão segurança às crianças, mas que não são vistas, não são valorizadas, não são levadas em conta.
P: Nas ilustrações, as personagens aparecem com cores que não correspondem exatamente às cores reais, enquanto a história se ancora em situações muito próximas do cotidiano. Como surgiu essa escolha estética?
RL: Sempre que o texto permite, gosto muito de trabalhar com cores de forma mais livre, porque acredito que amplia o repertório visual da criança leitora. Em A que horas meus pais chegam? usei cores que não correspondem à realidade para criar um contraponto com as situações reais e tão comuns no dia a dia de muitas famílias. Para, assim, gerar um contraste com a realidade apresentada no texto de Ana Carolina.
Utilizei uma paleta de cor reduzida e optei por diferentes cores de destaque para marcar a narrativa do menino (amarelo e azul) e a da menina (vermelho e verde). E dei maior ênfase a cores dessaturadas, com a intenção de provocar uma sensação de silêncio, de calma, de cuidado e de segurança. Escolhi o amarelo saturado para a roupa de Dalva, para que tivéssemos sempre um ponto de luz nela.
A cor azul para as personagens foi a minha primeira escolha estética, que abandonei durante o processo de construção das imagens, mas retornei a ela por perceber que fazia mais sentido. Para reforçar as semelhanças entre as crianças, optei por um mesmo tom de azul.
p: De maneira sutil, suas imagens também sugerem uma questão importante presente no livro: a invisibilidade da personagem Dalva. Você poderia comentar um pouco sobre esse caminho que percorreu na construção visual da obra?
RL: Como comentei, Dalva foi o meu ponto de partida para a construção do conceito da narrativa visual que queria propor: a invisibilidade das mulheres que cuidam. Como mostrá-la invisível foi uma questão que levei comigo durante dias. Então, decidi que Dalva não iria aparecer por completo: o cordão do avental, as mãos executando uma tarefa, uma parte do corpo aqui, outra parte do corpo acolá… não vemos o seu rosto até que ela volta pra casa. Enfim, inteira!
E foi por Dalva que comecei as ilustrações. A imagem-mãe do livro, aquela imagem inicial que norteia todas as outras, foi a dupla onde Dalva está no balcão da cozinha, fazendo a comida, enquanto o menino brinca.
Ao mesmo tempo que pensei nas imagens incompletas de Dalva para sugerir uma reflexão sobre a sua invisibilidade, decidi colocá-la, na maioria das vezes, no lado direito da página dupla, que é ponto de chegada do olhar do leitor e momento de parada antes de virar a página. Com isso, quis propor uma pausa para pensarmos sobre a importância de Dalva não só para a casa e para a família, mas também para a sociedade.
p: Conte um pouco sobre o processo de criação das ilustrações e sobre o diálogo entre texto e imagem. Como você vê o resultado final do livro?
RL: O texto é narrado paralelamente por duas crianças, cada uma em seu contexto social, mas que compartilham o mesmo sentimento em relação à chegada de quem amam. Portanto, a narrativa visual precisaria separar esses dois mundos que se conectam, mas sem revelar ao leitor essa dicotomia. O objetivo era manter a surpresa, usar a linearidade narrativa para surpreender o leitor.
Decidi fazer um esquema, um pré storyboard, com recortes de papéis coloridos (amarelo, azul, vermelho, verde e cinza) para a minha proposta conceitual e para a estrutura das imagens. Inicialmente as cores eram apenas indicativas: personagens, cenários, contextos, o interior e o exterior das casas. Os recortes de papel também mostravam quando o dentro da casa e o lado de fora se misturavam. A minha intenção era que a brincadeira e a observação se entrelaçassem a ponto de gerar dúvida no leitor: será que é real ou é imaginação da criança?
Quando finalizei o storyboard, já com os personagens trabalhados e cores e técnica definidas, vimos que personagens tradicionais mais figurativos não funcionavam tão bem para a história que queríamos contar. Então, voltei àquele esquema inicial com recortes de papel, pois fazia muito mais sentido. E, a partir dele, criei personagens e cenários mais gráficos e abstratos para dialogar com a ambiguidade visual proposta e com o texto.
Decidi por uma técnica que eu gosto muito e que já havia trabalhado em vinhetas e em ilustração para cartaz, mas ainda não em narrativas visuais mais longas: carimbos feitos em folhas de EVA, recortes de papel e lápis grafite. Digitalizei todo o material físico (inúmeras folhas A4) e, com todos os elementos em mãos para compor as imagens, trabalhei digitalmente. Essa técnica de colagem é como um quebra-cabeça, como um jogo de montar peças, no qual surpresas acontecem e uma composição pensada pode ser rapidamente substituída por outra surgida ao acaso. Apesar desta técnica ter sido mais demorada do que outras com as quais já trabalhei, foi muito prazerosa e divertida a construção deste livro.
Para o diálogo entre texto e imagem, propus imagens não descritivas, que ampliassem a leitura. Como o texto é narrado através das crianças que observam o lado de fora da casa, decidi narrar em imagens, sobretudo, o que acontece no seu interior.
Estou muito feliz com o resultado do livro. Acho que conseguimos ir por um caminho que queríamos desde o início.
A QUE HORAS MEUS PAIS CHEGAM?
Ana Carolina Neves
Ilustrações de Renata Lourenço
Formato: 22 x 21.5 cm | 48 páginas | 4 cores
Preço: R$69,00
Em A que horas meus pais chegam?, Ana Carolina Neves e Renata Lourenço desenham com delicadeza e precisão dois retratos de infância que, embora distintos, se espelham. Em um apartamento na cidade grande, uma criança observa a rua lá embaixo enquanto aguarda os pais voltarem do trabalho. Longe dali, no alto de um morro, outra criança espera pela mãe. São mundos diferentes, separados por distâncias sociais e urbanas, mas aproximados pela mesma experiência: o tempo que se alonga, os sons que anunciam o entardecer, os cheiros que preenchem o ar e cada ruído ouvido como promessa de reencontro. Um livro sobre a espera — e sobre o que a vida revela nesse intervalo entre o que falta e o que chega.

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