Sinfonia da Amazônia – está a escutar?

Lalau é poeta e paulista, nascido em 1954. Seu nome verdadeiro é Lázaro Simões Neto. Formou-se em Comunicação Social. Começou a escrever poesia para crianças a partir de 1994, incentivado pelo seu grande mestre José Paulo Paes.

Desde o começo, publica seus livros em parceria com Laurabeatriz, que é uma carioca que nasceu em 1949 e vive em São Paulo, é artista plástica e ilustradora, apaixonada pela natureza e muito engajada em causas voltadas à proteção do meio-ambiente.

Juntos, os dois têm uma extensa publicação de livros de poesias infantis (mais de 40 títulos) em diferentes editoras e pode-se dizer, sem medo de errar, que eles são responsáveis pelo primeiro contato de muitos brasileirinhos com a poesia.

Várias obras da dupla ganharam o selo Altamente Recomendável da FNLIJ. Pela editora Peirópolis, este é o oitavo livro publicado.

 

Sinfonia – do grego – [συμφωνία] – significa Todos os sons juntos, [συμ = Syn] e [φωνία = fonia], sendo fonia o mesmo que fonos, aquele que produz qualquer coisa relativo ao som.

No dicionário Uol – Michaelis – Combinação de sons, toada agradável e harmoniosa; harmonia, melodia, no sentido figurado: conjunto variado e harmônico.

Já imaginou ouvir todos os sons da floresta Amazônica? Os barulhos do dia e da noite, os sussurros das águas e dos ventos nas folhas das árvores, as narrativas das lendas, as músicas dos povos que habitam a imensa floresta, o silêncio das raízes das árvores e dos ruídos provocados por todo o tipo de animal – os que estão no chão, nos ares, nas águas e nas árvores? Muito se fala sobre a diversidade da floresta, a necessidade de preservação e sobre os riscos que se corre com os inúmeros desmatamentos e todo o tipo de relação de exploração com aquele ambiente. Mas, o que compõe essa diversidade e o que está em risco quando não cuidamos desse nosso tesouro natural e humano?

É disso que se trata Sinfonia da Amazônia. Um livro de poemas ilustrados que coloca uma lente de aumento em cada canto dessa enorme floresta. Aproxima o leitor, o faz mergulhar. Destrincha a diversidade, como se apresentasse cada instrumento que compõe uma sinfonia. Na orquestra, todos os sons precisam estar juntos e são importantes: a ausência de um se refletirá em desarmonia para todos. Com delicadeza, Lalau e Laurabeatriz trazem um conceito importante para a convivência e para a preservação do meio-ambiente: é preciso que cada componente se mantenha vivo.

 

Com o livro em mãos (ou na tela)
Primeiras aproximações

Na capa, o leitor encontra três galos-da-serra, anunciando a sinfonia. Abaixo deles, vê-se o rio Amazonas, em uma de suas imagens mais famosas: visto de cima, em seu trajeto sinuoso. A capa é portanto, um sobrevoo e um convite para entrar na floresta. O leitor vira as páginas iniciais e chega cada vez mais perto do seio da floresta.

A dedicatória é, ao mesmo tempo, uma informação e nos conta quais povos vivem na ali: os ribeirinhos, os indígenas e os povos da floresta. Apenas uma frase e já um bom caldo para uma conversa: sabemos a diferença entre eles? O quanto conhecemos suas particularidades? Conhecer é o primeiro passo para se saber sobre a importância de preservar. A dedicatória também pode indicar ao leitor a motivação que os autores tiveram para fazer o livro, que neste caso, pode girar em torno da valorização daqueles que vivem na Amazônia, seus povos, sua cultura e seu meio-ambiente. A presença da borboleta ao lado da dedicatória traz delicadeza e beleza. É de fato delicado e belo conhecer todo esse ambiente, chegar perto, olhar para as riquezas com lente de aumento. Mas também pode fazer com o que o leitor pense na fragilidade. Ali, há muitas formas de vida que estão ameaçadas.

O leitor segue e encontra a mesma imagem da capa, o rio majestoso, gigante, como uma grande serpente. Mas também se depara com uma espécie de encantamento: a presença do rio voador, que é formado pela água que se evapora, vinda das muitas, milhares árvores da floresta. Um rio voador que não se vê e que cobre boa parte do Brasil, garantindo mais humidade. Misto de natureza e sagrado. Há também nessa imagem, uma espécie de visão do todo, como se ouvíssemos a própria sinfonia da Amazônia. No poema, o diálogo com a imagem, o conhecimento que vem carregado de poesia e, também, uma ideia crucial: ali, naquele ambiente, estão as sementes, a promessa de bichos que ainda não existem. Cuidar da Amazônia é cuidar das vidas porvir.

 

A sinfonia é composta por diferentes sons, numa mesma toada

Nas páginas seguintes, o leitor se aproximará de cada instrumento, para conhecer melhor cada parte que compõe o todo – uma toada harmoniosa.

Ao passar as páginas e conhecer cada poema, escritos sempre em parelhas, ou seja, estrofes compostas por dois versos, formando no total, 4 estrofes, o conjunto de poemas imprime um ritmo próprio, uma harmonia nessa composição. Também pode chamar a atenção do leitor como o autor vai juntando diferentes elementos – flores, árvores, peixes, pássaros, manifestações culturais, povos que habitam a floresta, personagens de lendas. Isso é bonito porque coloca todos esses elementos em uma sintonia, no mesmo grau de importância, como uma sinfonia faz com todos os sons que a compõe: nenhum é mais importante do que outro, porque se não tivermos um único som, não teremos a mesma sinfonia.

O traçado de Laurabeatriz também contribui para essa experiência com a diversidade: o leitor ora está no ar, no fundo de um rio, à sombra das árvores ou em um igarapé, observando uma palafita e suas longas “pernas”. Um convite a conhecer a Amazônia de perto, tanto por meio dos poemas, quanto das ilustrações.

A linguagem poética também convida a olhar para as metáforas, como nesses dois versos:

chuva é choro de lua
sumaúma é trovão

Por meio dessas metáforas, o leitor pode ser levado ao encontro de outra forma de entender os fenômenos da natureza, por exemplo: a chuva como manifestação da lua, colocada aqui como um ser que tem sentimentos; ou aproximar-se de características físicas da sumaúma, árvore gigantesca, cujo tamanho e presença podem ser comparados à força de um trovão. Assim, por meio da linguagem poética conhece-se um pouco mais sobre a floresta e a cultura de seus povos.

Além das metáforas, outro aspecto que pode chamar a atenção do leitor, diz respeito à sonoridade, ao ritmo do texto, dado ora pela presença das rimas, ora pela junção de palavras que sustentam o mesmo tom.

Como exemplo do primeiro caso:

o que fazer amanhã,
aruanã?
barranco de rio,
paixão de matrinxã.
maloca
é ninho de mandioca
bois de Parintins
bebem da pororoca.

No segundo caso, pode-se observar como as palavras “solo solitário” parecem voar como uirapuru, pela presença repetida do S e do L, e pela própria circularidade do verso:

O solo solitário
Do uirapuru

As rimas, por sua vez, podem estar emparelhadas ou alternadas.
A estrofe:
ô, raimundo,
aqui é o quintal do mundo?
É exemplo de rima emparelhada (AA).
Ao passo que, como rima alternada, tem-se, no mesmo poema:
escorpiões e aranhas
compõem a realeza.
(…)
jupará come flor
tem fome de beleza.

Outro aspecto que pode chamar a atenção do leitor está na presença da letra minúscula em todo o poema, como se o autor não quisesse fazer nenhuma distinção entre todos os elementos que fazem parte da floresta. Dessa forma, não há a centralidade do humano, como estamos acostumados a ver no mundo ocidental. Como pode-se observar nos versos aqui citados, raimundo, embora seja nome próprio não está em maiúscula. Ele é tão parte da floresta como o boto, a iara, o igarapé, a maloca, o galo-de-serra etc. Isso se coaduna com o jeito dos indígenas e povos da floresta conceberem o mundo e estabelecerem relação com a natureza: o homem é parte dela e não está de fora, como aquele que pode dominá-la ou explorá-la.

A leitura de Sinfonia da Amazônia, portanto, tem muitas camadas. É uma experiência estética, textualmente e visualmente falando: leva o leitor a experimentar uma série de sentidos, sensações e emoções diferentes quando lê. Ao mesmo, tempo, em que apresenta a floresta e seu cenário de um jeito especial, com ritmo, sonoridade, cores e formas; possibilita que o leitor reflita sobre a sua diversidade, a importância da preservação e outros modos de se relacionar com a natureza, bem como sobre a cultura dos povos que habitam a região, abrindo espaço para muitas conversas.

 

Ampliando o repertório verbal

Como já é praxe em muitos títulos da dupla, o livro traz informações técnicas sobre o tema que abarca. Nesse caso, os autores elaboraram um rico glossário dos termos que aparecem nos poemas e que podem ser desconhecidos do leitor. Essa, inclusive, é uma informação que pode ser compartilhada desde o início de uma leitura mediada, por exemplo. Para que aqueles acompanhem a leitura possam mergulhar nos ritmos e sensações que o texto e a ilustração provocam, sem se preocupar com o entendimento de tudo o que está escrito. Esse entendimento poderá vir pelo contexto da leitura, ou mesmo alcançado ao final, quando se poderá acessar o glossário e ampliar tanto o repertório verbal, quanto o que se sabe sobre essa imensa e diversa floresta amazônica.

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