A cadeira do rei: textos complementares

Na fuga da Família Real para o Brasil, Dom João VI traz, entre outros pertences, sua cadeira predileta. Nesta cadeira Dom João VI se assenta e governa o país. Após treze anos de governo, retorna a Portugal, mas deixa para o filho Dom Pedro I a cadeira. Tempos depois, Dom Pedro I parte para Portugal, deixando a cadeira para seu filho Dom Pedro II, à época com cinco anos de idade. Dom Pedro II se assenta na cadeira e, cercado por tutores, cresce, até começar a governar aos quinze anos de idade. Após longo governo, certo dia, tropas militares se movimentam pela cidade do Rio de Janeiro com o Marechal Deodoro da Fonseca à frente. Ele toma a cadeira do monarca, que é exilado com toda a família imperial. O marechal se assenta na cadeira e declara a criação da República como forma de governo. Acontece, então, a primeira eleição no Brasil. O Marechal é escolhido presidente e. assentado legalmente na cadeira, governa o país.

A partir daí a história vai se desenrolar sequencialmente, de acordo com a veracidade da ocupação do poder por cada político ou militar. Com texto breve sobre cada governo a história do poder no Brasil será contada até o ano de 1964 quando os militares derrubam o Primeiro Ministro, apagam as luzes do salão e a cadeira desaparece.

Posfácio de Nelson Cruz

Já foi dito que todo livro é de autoajuda, sendo literatura ou não. Tenho certeza de que em mim este livro teve esse  efeito. Iniciei-o com a ideia básica de contar em verbetes a história dos políticos que ocuparam a cadeira da presidência do nosso país. De dom João VI ao golpe militar de 1964. Textos curtos, sem aprofundamentos. Simples assim. Uma história que seria atrativa se fosse ilustrada com uma de minhas paixões: a caricatura. Com a caricatura eu poderia mostrar ao leitor a cara de quem tomou o poder, como e por quê, apesar dos textos  sucintos.   Restaria, então, fazer a pesquisa de nomes, datas, selecionar as fotos para as caricaturas, e tudo se encaixaria na sequência. Estratégia montada, parti para as leituras e a pesquisa necessária.  A empolgação tomou conta de mim na medida em que fui aprendendo mais do que esperava da nossa história política e das relações  dos nossos presidentes para se chegar ao poder. Aos poucos, percebi que o trabalho não seria tão simples como pensava. Sequenciar nomes e datas  foi uma tarefa fácil. As ideias para as caricaturas e as charges iam aparecendo espontaneamente.

Embora a receita fosse em princípio fácil, a presença de um historiador passou a ser imprescindível. A partir desse momento, o livro tomou outras discussões e um sofrimento: a cadeira do rei não é uma obra de estudos profundos da nossa história política, mas procura esclarecer como funciona o Estado democrático e o direito natural de um povo para a escolha do presidente da República pelo voto livre.  Com a quantidade de informações que passaram a surgir e que, por motivo de edição, tiveram que ser excluídas, passei a ser aluno do livro a que me propus escrever. Como contar, por exemplo, os acordos da conhecida política do café com leite, surgida durante o governo de Washington Luís, em que políticos mineiros e paulistas passaram a se alternar nas indicações à presidência do país? Esse acordo tão citado na imprensa, em artigos e em livros, não deixou nenhum documento em que se possa apoiar para dizer que tenha de fato existido. Mas uma parcela da sociedade percebia a manobra e a  levava  ao conhecimento do público. Em 1934, Noel Rosa grava o samba Feitiço da vila, onde diz que “São Paulo dá café, Minas dá leite e a Vila Isabel dá samba”. Noel compõe a música e, a seu modo, registra o fato.

Sobre a técnica de desenho

Iniciadas em 2013 e concluídas em 2020, as ilustrações deste livro foram trabalhadas com caneta Stabilo e tinta acrílica sobre papel Fabriano. A caneta me proporcionou explorar linhas, aguadas suaves e realistas, como na caricatura de Jânio Quadros na página 55. A tinta acrílica, usei-a quase como um detalhe para realçar a luz do rosto de Jânio, enquanto, na caricatura de dom João VI, na página 6, predomina a tinta acrílica. O improviso da caneta me auxiliou muito para desenhar os elementos de fundo, como nas páginas 32- e outras similares. Mas a mistura dessas duas técnicas foi traiçoeira. Expostas à luz permanente, as cores da caneta esmaecem e podem desaparecer em breve período. O original deve estar bem guardado e protegido da luz para não se perder.  Então, substituí a Stabilo pela caneta de Nanquim, mas permaneço fiel à tinta acrílica em minhas ilustrações.

 

Orelhas / Sobre o autor

Nelson Cruz é um eloquente produtor de imagens, tanto ao ilustrar a obra de autores clássicos, como Henriqueta Lisboa ou Bertolt Brecht, quanto ao narrar a formação histórica do Brasil por meio de imagens sequenciais em torno de uma gigantesca árvore, em A árvore do Brasil. Neste livro, gestado por muitos anos, o artista retorna à linguagem da caricatura das revistas ilustradas do Brasil do século XIX, que, no traçado de grandes mestres, como o precursor Manuel de Araújo Porto-Alegre, o português Bordalo Pinheiro, ou o ítalo-brasileiro Angelo Agostini, acompanhava com ironia a vida política da jovem nação. Nelson Cruz recompõe em trinta imagens a linhagem política brasileira, revelando os movimentos em torno do poder desde a chegada de dom João VI e a Família Real, com a primeira prensa, em 1808, até o início do governo militar. Acompanham as imagens textos do próprio autor e seu testemunho sobre o processo de pesquisa acerca da vida pública brasileira.

“Sou mineiro e ilustro livros desde 1988. Em 2002, a Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ), seção brasileira do IBBY, indicou-me ao prêmio Hans Christian Andersen de ilustração. Em 2012, os originais do livro Alice no telhado participaram da exposição Tea with Alice, homenagem aos 150 anos de Alice no país das maravilhas, no Museu de História de Oxford, Londres, e na Fundação Gulbenkian, Lisboa. Em 2015, a Academia Brasileira de Letras concedeu o prêmio ABL de Literatura Infantojuvenil a O livro do acaso e, em 2016, o livro Haicais visuais recebeu o prêmio Monteiro Lobato da revista Crescer. Em 2018, recebi o sexto prêmio Jabuti pelas ilustrações do livro Os trabalhos da mão, de Alfredo Bosi. Pela Editora Peirópolis, publiquei A árvore do Brasil, finalista do prêmio Jabuti na categoria ilustração e eleito Altamente Recomendável pela FNLIJ em 2010. Atualmente tenho vinte e um livros autorais.” – Nelson Cruz

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