"Demônios", conto fantástico de Aluísio Azevedo, em quadrinhos de Guazzelli

Há mais de cem anos demônios invadiram a noite do célebre escritor naturalista Aluísio Azevedo, levando-o a escrever um conto fantástico. Em 2010 foi a vez do quadrinista Eloar Guazzelli. O irrequieto artista, já dado a enfrentar madrugadas armado de papéis e pincéis, encontrou no conto de Aluísio um bom motivo para fazer jorrar sua força expressiva. O resultado é Demônios em quadrinhos, quarto álbum da coleção dedicada a oferecer leituras dos clássicos em linguagem de HQ.

O encontro de Guazzelli com Aluísio Azevedo

Gaúcho de Vacaria, Eloar Guazzelli é admirador do gênero fantástico desde a adolescência. A partir de Poe, seguiu pela admirável trilha de Lovecraft, Quiroga, Borges, Cortázar e Simões Lopes Neto, enquanto se deleitava com as conexões entre esse gênero literário e os primeiros ensaios da linguagem de HQ com Windsor, McCay, Raymond, Breccia, Moebius e Frazzetta.

Nesse panorama surgiu o conto de Aluísio Azevedo, autor da trilogia naturalista escrita no final do século XIX – O mulato, Casa de Pensão e O cortiço -, portanto lembrado na história da literatura brasileira como um autor essencialmente realista. O conto Demônios traz uma vertente pouco conhecida do trabalho do autor, que exercitou várias orientações estéticas.

Leia abaixo o posfácio escrito por Eloar Guazzelli e o texto de orelhas da editora Renata Borges.

POSFÁCIO

Eu tive a sorte de passar a infância num ambiente cheio de livros e na companhia de irmãos mais velhos. A literatura foi a grande parceira do guri esquisito que fui. Foi meu irmão mais velho que me apresentou essa pequena relíquia: o conto “Demônios”. Ele chamou minha atenção justamente para o enorme potencial imagético desse texto numa época em que eu ainda não fazia quadrinhos, mas essa impressão ficou gravada no meu inconsciente. Muitos anos depois, quando comecei a me aventurar nessa linguagem, sempre me vinha a ideia de um dia, “quem sabe quando tudo mudasse e fosse possível fazer álbuns no Brasil (cada um com suas utopias…)”, ilustrar essa narrativa. E não é que veio esse estranho século de improbabilidades que se realizam…

Quando ganhei de presente da Peirópolis a oportunidade de realizar um álbum, não tive dúvida em escolher “Demônios”. Esse conto desenrola-se sobre um dos pilares da narrativa de horror: a súbita alteração da ordem natural das coisas; e, mais ainda, traz à tona um dos maiores fenômenos da psicologia humana, que vem desde a mais remota infância: os terrores noturnos. Quem nunca despertou no meio da madrugada desorientado e com uma angústia no peito? Eu sim, na mesma casa onde passei a infância cercado de livros. Muitas vezes despertei em plena madrugada, imerso num terrível silêncio. Antes das tempestades, muito comuns próximo ao Lago Guaíba, tudo ficava em suspensão numa atmosfera carregada, extremamente tensa. Quando comecei a desenhar, foi pra essas noites que viajei em busca desse clima, e foi numa ambientação de sonho que procurei construir minha tradução. Deixei que a própria estrutura dos quadrinhos fosse contaminada pelo caos da narrativa e desenhei as páginas como se eu também fosse um solitário desenhista que despertou no meio da noite em um mundo morto, tendo pela frente somente o exercício do seu ofício, muitas horas antes de uma improvável aurora.

Eloar Guazzelli

ORELHAS

Esta adaptação à HQ do conto fantástico “Demônios”, de Aluísio Azevedo (1857-1913) – um dos mais importantes escritores brasileiros, reconhecido como o precursor do naturalismo no Brasil – reflete toda a ambiguidade e riqueza da obra original.

Praticamente desconhecido, o conto é uma das mais precoces manifestações do fantástico na literatura brasileira e a única peça do gênero do escritor maranhense, autor da trilogia canônica composta por O mulato (1881), Casa de pensão (1884) e O cortiço (1890).

Pelo traço do quadrinista Guazzelli, o leitor é conduzido, junto com o personagem narrador, pelos caminhos abismais dessa narrativa, que se inicia com uma pequena e sutil alteração do ritmo natural das coisas. De um estado de hesitação diante do que vê, quando acorda à noite em meio ao silêncio absoluto, o personagem é vencido pelo torpor e pelo estranhamento, atirado ao medo, à escuridão e ao lodo, entregue ao mistério do processo de criação, ao seu aprisionamento e terror.

Para além da pura manifestação do fantástico, Guazzelli ilustrou não apenas a riqueza imagética do conto em seu voo quase cego em direção ao caos e à escuridão. Leitor atento e artista que convive intimamente com as agruras do processo criativo, Guazzelli soube também captar do conto as características mais recônditas, como a consagração do amor romântico e sua premissa de isolamento. Na busca do personagem pela resposta para o torpor instaurado, Guazzelli encontra a experiência quase mítica de Adão e Eva, que, enxotados do paraíso, mergulham na incerteza e se fazem permanentes, partes da natureza.

A reflexão sobre a literatura em si mesma, sobre a vida e sobre a arte, aparece em cada quadro desse mundo singular, num convite irrecusável para um mergulho na obra de Aluísio Azevedo.

Renata Borges

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