Entrevista: Alonso Alvarez, autor de "A paixão de A e Z", fala de seu percurso na literatura

O escritor e editor Alonso Alvarez já foi também livreiro. Guarda muitas histórias dos tempos em que comandava uma movimentada livraria na zona boêmia do Bexiga. O mais incrível é que, enquanto a crônica da madrugada se desenrolava à sua frente, ele escrevia histórias infantis atrás do balcão. Uma dessas histórias saíram da gaveta de Alonso e foram parar no catálogo da Peirópolis, que acaba de lançar o livro A paixão de A e Z, história de amor entre duas letras que vivem nos extremos do alfabeto. As ilustrações são de Marcelo Cipis.

Da mecânica para a literatura

Alonso Alvarez é um escritor que experimentou muitas vivências diferentes antes de chegar à literatura. Na entrevista publicada a seguir ele fala de suas experiências, do encontro com a literatura infantil e do lançamento pela Editora Peirópolis.

Alonso, neste mês a Peirópolis lança A paixão de A e Z, infantojuvenil de sua autoria. Você criou um texto enxuto e criativo com uma temática já bastante explorada, que é o abecedário e a relação entre as letras. Como a história chegou para você?

Chegou por acaso. Escrevi essa história em 1991, há quase 20 anos. Eu tinha uma livraria noturna que abria às 18 horas e fechava às 5 horas da manhã. Vivia cheia, pois estava enfiada na boemia do antigo bairro do Bexiga. No meio daquele barulho todo eu escrevia histórias infantis no verso de filipetas de teatro e shows que deixavam no balcão. Chegava em casa e jogava dentro de sacos plásticos. Nessa época eu também participava de um pequeno grupo de escritores de histórias infantis que se encontrava toda sexta-feira e passava a tarde trocando ideias sobre textos que escrevíamos. Aí um dia me casei com a atriz Christiane Tricerri e tive filhos; eles começaram a crescer e então me reencontrei com as histórias que estavam guardadas. Algumas coisas eu mudei, pois com filhos por perto, tudo muda. E fiquei feliz que essa história sobreviveu ao tempo.

Seu texto passa muitos valores para o leitor de uma forma inteiramente literária, sem “lição de moral”. Como se deu a elaboração desses valores na obra?

Gosto de inventar histórias simples, sem querer passar conselhos e valores, pois os personagens surgem do jeito que são e deixo acontecer, vou atrás. Mas, é claro, o universo em que eles surgem brinca com o universo onde eu vivo, onde observo o mundo ao redor e tenho o meu jeito de ver as coisas. Lutei contra a Ditadura Militar, no seu finalzinho, abandonei um bom emprego para participar do Movimento Estudantil e reorganizar a UNE. De alguma forma, isso flui levemente entre as histórias e os personagens; mas sem parar para pensar se algo pode ou não. Gosto de observar que nunca consegui, por exemplo, criar um personagem mau. Gosto de brincar com assuntos sérios.

Na literatura infantojuvenil as ilustrações têm uma importância muito grande. A paixão de A e Z foi ilustrado pelo Marcelo Cipis. Como se deu a parceria?

A parceria se deu por causa da Renata (Borges, diretora da Peirópolis). Ela leu o texto e no mesmo dia sugeriu o Cipis. E foi a escolha certa, pois a história de amor entre duas letras do alfabeto não podia ter letrinhas animadas, com expressões e mãozinhas… A ilustração tinha que brincar com o significado das palavras. Demorou anos para o livro acontecer; agora sei que a história queria encontrar uma editora como a Renata Borges e um ilustrador como o Marcelo Cipis. O poeta Mallarmé dizia que os poetas contavam com a ajuda dos Deuses; às vezes demora, mas eles sabem conspirar para um livro acontecer na hora certa.

Em sua biografia publicada no livro, você conta que a literatura infantojuvenil entrou na sua vida depois de muitas vivências. Vivências no mundo operário, universitário, político, livreiro e editorial. Como surgiu o Alonso Alvarez escritor de livros infantis? Ele guarda relação com as experiências anteriores, ou foi algo totalmente novo em seu percurso?

Acho que o nosso jeito de ver o mundo se dissolve na vida que tivemos. Fiz Senai, fiquei anos na graxa e na mecânica, operando máquinas de produção, depois virei projetista de máquinas, participei de greves que pararam o ABC e a região sul de São Paulo, fui fazer faculdade de história, entrei no Movimento Estudantil. Nessa época, lembro-me, eu viajava pelo interior de São Paulo com gasolina no tanque do carro até a próxima cidade e, onde chegasse, eu precisava conhecer pessoas, fazer amizades, encontrar militantes que estavam saindo da clandestinidade e seguir viagem, com o porta-malas cheio de documentos proibidos pela Ditadura Militar… Aí, um dia a Ditatura caiu. Com amigos da faculdade criei uma livraria que deu certo em São Paulo, num tempo de muita efervescência cultural na cidade (livraria Artepaubrasil, no Bexiga). A livraria virou ponto de encontro de escritores, poetas, artistas plásticos, músicos, atores, cineastas, ecologistas, etc. Resolvi fazer um curso de literatura infantil para saber o que escolher para vender na livraria. E fiz um belo curso na antiga Livraria Brasiliense, na rua Consolação. Três meses depois o curso acabou, e montamos um pequeno grupo de escritores que toda as sextas se encontrava na casa da professora para conversar e trocar ideias sobre livros infantis que escrevíamos.

E o Alonso Alvarez poeta haikaista, ele já tinha surgido antes?

Lancei um juvenil em 2005, O Encanto da Lua Nova, que também foi escrito na mesma época que eu tinha a livraria no Bexiga. Eu acho que escrevi uma caixa cheia de histórias no balcão daquela livraria. Ainda nessa época, ganhei o Jabuti por Melhor Produção Editorial com uma coleção de traduções. A gráfica que tinha impresso a coleção ficou tão contente com o prêmio que me deu, de presente, a impressão de um livro: “Escreve que a gente imprime.” Aí saiu um livro de haikais, Hé, em um mês, em parceria com a minha ex-mulher Camila Jabur. Mas surgiram muitos haikais, que o livro virou uma caixa com quatro pequenos livros. Preocupado, procurei a poeta Alice Ruiz, pois desconfiava que não era normal achar tantos haikais por aí (haikais a gente acha por aí, pelas quatro estações do ano). Mas ela disse que era assim mesmo: “Às vezes, jorra. Outras vezes, seca.” E foi assim, a minha fonte dos haikais secou naquele livro. Um ou outro haikai, muito de vez em quando, se desprende de alguma estação do ano, mas raramente consigo capturá-lo. O haikai é um instante, um breve instante.

Além de todas as experiências citadas acima, você também é editor, atuando à frente da Ficções Editora, que tem em seu catálogo títulos de sua autoria. O que você buscou ao optar pela publicação na Peirópolis?

Achei que a história tem a ver com a proposta editorial da Peirópolis e adoro o trabalho da Renata Borges. Foi uma felicidade imensa receber o e-mail dela dizendo: “Eu quero fazer!” Pois sabia que, com a Peirópolis, seria muito bem feito. Como disse, esse livro esperou anos, por conta dos Deuses, para ser editado pela Renata. Um presente!

A literatura infantojuvenil tornou-se um segmento muito forte no mercado livreiro do Brasil. Autores que nunca atuaram nesta seara passaram a atuar e novos projetos pipocam a cada dia. Como você vê esse crescimento da produção? Ele vem acompanhado de qualidade?

Desde a época em que fiz o curso sobre literatura infantil, acompanho a literatura infantojuvenil brasileira. É considerada uma das melhores do mundo, bastante criativa. Eu adoro o João Carlos Marinho, a Ângela Lago, a Sylvia Orthof, a Fanny Abramovich, e muitos outros. Essa produção, ao longo de tantos anos, fortaleceu a literatura infantojuvenil como mercado e, é claro, atraiu escritores de todas as áreas.

O estímulo financeiro leva muitas pessoas à literatura infantil e juvenil, uma produção erroneamente considerada “fácil” de ser feita. Para você, como é o exercício de escrever para o público infantil? O que é necessário?

Ter sorte! Às vezes uma história legal surge do nada, de uma cena, e vem tudo – preciso segurar na hora, pois pode até escapar e nunca mais voltar. De alguma forma o arranjo de palavras para contar uma história tem um tamanho certo; às vezes demoramos para chegar nele ou nem chegamos e abandonamos. Mas o mais legal é escrever histórias infantojuvenis que adultos também gostem de ler. Acho que consegui isso com a turma de meninos, o cachorro e o velho cego na aventura O Encanto da Lua Nova, e talvez consiga o mesmo com esse livro com as letras A e Z. A boa história, quando acontece, percebe-se que flui quando ela é fácil de escrever, quando vem quase pronta. É uma felicidade!

Você gostaria de acrescentar mais alguma coisa?

Sim! Que a melhor coisa do mundo é inventar histórias para crianças. As pessoas se espalham pelo mundo cada uma com o seu ofício. Tem o feirante, o zelador, o bibliotecário, o bancário, o motorista de ônibus, e por aí vai, todos fazendo o que sabem fazer com gosto e talento; e tem aqueles seres que inventam histórias, para deixar a vida mais divertida e colorida, porque, como dizia Fernando Pessoa, “a literatura é uma confissão de que a vida não basta”. E descobrimos isso quando abrimos um livro.

1 Comment

  • Toprak Posted 1 de dezembro de 2015 08:38

    Sou uma leitora no tempo morendo: o tempo esconde-se, quando se quer ler o que realmente se deseja.A vossa livraria uma casa, o vosso Blog uma janela.E que bem sabe uma lufada de ar fresco de vez em quando…!Parabe9ns.

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