Entrevista: Alonso Alvarez, autor de "A paixão de A e Z", Acervo Básico da FNLIJ

O escritor e editor Alonso Alvarez já foi também livreiro. Guarda muitas histórias dos tempos em que comandava uma movimentada livraria na zona boêmia do Bexiga. O mais incrível é que, enquanto a crônica da madrugada se desenrolava à sua frente, ele escrevia histórias infantis atrás do balcão.

Uma dessas histórias saiu da gaveta de Alonso e foi parar no catálogo da Peirópolis, que lançou o livro A paixão de A e Z, história de amor entre duas letras que vivem nos extremos do alfabeto. Com ilustrações de Marcelo Cipis, A paixão de A e Z foi selecionado para compor o Acervo Básico da FNLIJ (obras lançadas em 2010, seleção 2011).

No início de 2012, Alonso teve sua estreia como dramaturgo “batizada” no palco, com a montagem da peça A saga da bruxa Morgana e a família real, com Rosi Campos encabeçando o elenco e direção da atriz Christiane Tricerri, sua esposa. Na entrevista publicada a seguir, Alonso fala de suas experiências, do encontro com a literatura infantil e do lançamento pela Editora Peirópolis.

Os caminhos do escritor Alonso Alvarez

Alonso, vamos começar com A paixão de A e Z: você criou um texto enxuto e criativo com uma temática já bastante explorada, que é o abecedário e a relação entre as letras. Como a história chegou para você?

Chegou por acaso. Escrevi essa história em 1991, há quase 20 anos. Eu tinha uma livraria noturna que abria às 18 horas e fechava às 5 horas da manhã. Vivia cheia, pois estava enfiada na boemia do antigo bairro do Bexiga. No meio daquele barulho todo eu escrevia histórias infantis no verso de filipetas de teatro e shows que deixavam no balcão. Chegava em casa e jogava dentro de sacos plásticos. Nessa época eu também participava de um pequeno grupo de escritores de histórias infantis que se encontrava toda sexta-feira e passava a tarde trocando ideias sobre textos que escrevíamos. Aí um dia me casei com a atriz Christiane Tricerri e tive filhos; eles começaram a crescer e então me reencontrei com as histórias que estavam guardadas. Algumas coisas eu mudei, pois com filhos por perto, tudo muda. E fiquei feliz que essa história sobreviveu ao tempo.

Seu texto passa muitos valores para o leitor de uma forma inteiramente literária, sem “lição de moral”. Como se deu a elaboração desses valores na obra?

Gosto de inventar histórias simples, sem querer passar conselhos e valores, pois os personagens surgem do jeito que são e deixo acontecer, vou atrás. Mas, é claro, o universo em que eles surgem brinca com o universo onde eu vivo, onde observo o mundo ao redor e tenho o meu jeito de ver as coisas. Lutei contra a Ditadura Militar, no seu finalzinho, abandonei um bom emprego para participar do Movimento Estudantil e reorganizar a UNE. De alguma forma, isso flui levemente entre as histórias e os personagens; mas sem parar para pensar se algo pode ou não. Gosto de observar que nunca consegui, por exemplo, criar um personagem mau. Gosto de brincar com assuntos sérios.

Na literatura infantojuvenil as ilustrações têm uma importância muito grande. A paixão de A e Z foi ilustrado pelo Marcelo Cipis. Como se deu a parceria?

A parceria se deu por causa da Renata (Borges, diretora da Peirópolis). Ela leu o texto e no mesmo dia sugeriu o Cipis. E foi a escolha certa, pois a história de amor entre duas letras do alfabeto não podia ter letrinhas animadas, com expressões e mãozinhas… A ilustração tinha que brincar com o significado das palavras. Demorou anos para o livro acontecer; agora sei que a história queria encontrar uma editora como a Renata Borges e um ilustrador como o Marcelo Cipis. O poeta Mallarmé dizia que os poetas contavam com a ajuda dos Deuses; às vezes demora, mas eles sabem conspirar para um livro acontecer na hora certa.

Em sua biografia publicada no livro, você conta que a literatura infantojuvenil entrou na sua vida depois de muitas vivências. Vivências no mundo operário, universitário, político, livreiro e editorial. Como surgiu o Alonso Alvarez escritor de livros infantis? Ele guarda relação com as experiências anteriores, ou foi algo totalmente novo em seu percurso?

Acho que o nosso jeito de ver o mundo se dissolve na vida que tivemos. Fiz Senai, fiquei anos na graxa e na mecânica, operando máquinas de produção, depois virei projetista de máquinas, participei de greves que pararam o ABC e a região sul de São Paulo, fui fazer faculdade de história, entrei no Movimento Estudantil. Nessa época, lembro-me, eu viajava pelo interior de São Paulo com gasolina no tanque do carro até a próxima cidade e, onde chegasse, eu precisava conhecer pessoas, fazer amizades, encontrar militantes que estavam saindo da clandestinidade e seguir viagem, com o porta-malas cheio de documentos proibidos pela Ditadura Militar… Aí, um dia a Ditatura caiu. Com amigos da faculdade criei uma livraria que deu certo em São Paulo, num tempo de muita efervescência cultural na cidade (livraria Artepaubrasil, no Bexiga). A livraria virou ponto de encontro de escritores, poetas, artistas plásticos, músicos, atores, cineastas, ecologistas, etc. Resolvi fazer um curso de literatura infantil para saber o que escolher para vender na livraria. E fiz um belo curso na antiga Livraria Brasiliense, na rua Consolação. Três meses depois o curso acabou, e montamos um pequeno grupo de escritores que toda as sextas se encontrava na casa da professora para conversar e trocar ideias sobre livros infantis que escrevíamos.

E o Alonso Alvarez poeta haikaista, ele já tinha surgido antes?

Lancei um juvenil em 2005, O Encanto da Lua Nova, que também foi escrito na mesma época que eu tinha a livraria no Bexiga. Eu acho que escrevi uma caixa cheia de histórias no balcão daquela livraria. Ainda nessa época, ganhei o Jabuti por Melhor Produção Editorial com uma coleção de traduções. A gráfica que tinha impresso a coleção ficou tão contente com o prêmio que me deu, de presente, a impressão de um livro: “Escreve que a gente imprime.” Aí saiu um livro de haikais, , em um mês, em parceria com a minha ex-mulher Camila Jabur. Mas surgiram muitos haikais, que o livro virou uma caixa com quatro pequenos livros. Preocupado, procurei a poeta Alice Ruiz, pois desconfiava que não era normal achar tantos haikais por aí (haikais a gente acha por aí, pelas quatro estações do ano). Mas ela disse que era assim mesmo: “Às vezes, jorra. Outras vezes, seca.” E foi assim, a minha fonte dos haikais secou naquele livro. Um ou outro haikai, muito de vez em quando, se desprende de alguma estação do ano, mas raramente consigo capturá-lo. O haikai é um instante, um breve instante.

Além de todas as experiências citadas acima, você também é editor, atuando à frente da Ficções Editora, que tem em seu catálogo títulos de sua autoria. O que você buscou ao optar pela publicação na Peirópolis?

Achei que a história tem a ver com a proposta editorial da Peirópolis e adoro o trabalho da Renata Borges. Foi uma felicidade imensa receber o e-mail dela dizendo: “Eu quero fazer!” Pois sabia que, com a Peirópolis, seria muito bem feito. Como disse, esse livro esperou anos, por conta dos Deuses, para ser editado pela Renata. Um presente!

A literatura infantojuvenil tornou-se um segmento muito forte no mercado livreiro do Brasil. Autores que nunca atuaram nesta seara passaram a atuar e novos projetos pipocam a cada dia. Como você vê esse crescimento da produção? Ele vem acompanhado de qualidade?

Desde a época em que fiz o curso sobre literatura infantil, acompanho a literatura infantojuvenil brasileira. É considerada uma das melhores do mundo, bastante criativa. Eu adoro o João Carlos Marinho, a Ângela Lago, a Sylvia Orthof, a Fanny Abramovich, e muitos outros. Essa produção, ao longo de tantos anos, fortaleceu a literatura infantojuvenil como mercado e, é claro, atraiu escritores de todas as áreas.

O estímulo financeiro leva muitas pessoas à literatura infantil e juvenil, uma produção erroneamente considerada “fácil” de ser feita. Para você, como é o exercício de escrever para o público infantil? O que é necessário?

Ter sorte! Às vezes uma história legal surge do nada, de uma cena, e vem tudo – preciso segurar na hora, pois pode até escapar e nunca mais voltar. De alguma forma o arranjo de palavras para contar uma história tem um tamanho certo; às vezes demoramos para chegar nele ou nem chegamos e abandonamos. Mas o mais legal é escrever histórias infantojuvenis que adultos também gostem de ler. Acho que consegui isso com a turma de meninos, o cachorro e o velho cego na aventura O Encanto da Lua Nova, e talvez consiga o mesmo com esse livro com as letras A e Z. A boa história, quando acontece, percebe-se que flui quando ela é fácil de escrever, quando vem quase pronta. É uma felicidade!

Neste início de 2012 estreou a peça “A saga da bruxa Morgana e a família real”, de sua autoria, com direção de Christiane Tricerri e Rosi Campos no elenco. Conte um pouco sobre essa experiência de escrever para teatro.

É minha estreia como autor teatral. Surgiu a partir de uma ideia de juntar duas histórias: a fuga da Família Real e o Livro de Areia, de Jorges Luis Borges. Depois descobri que na época do Brasil Colônia não havia nenhuma construção à altura do Palácio de Queluz para receber a Corte, então o Castelo da Bruxa Morgana serviu perfeitamente para inventar uma festa de boas-vindas e aí inserir as pretensões políticas de Eruditu, tio bruxo de Morgana, abolicionista e inconfidente. A vinda da Real Corte, fugindo de Napoleão, serve de pano de fundo para a aventura sobre o Livro de Areia, onde apenas com o Marcador de Páginas Dourado é possível encontrar a Página Secreta dos Bruxos. Esse Marcador e a Página Secreta são invenções minhas, pois o Livro de Areia, o do conto de Borges, é um livro infinito, sem começo nem fim, com numeração aleatória, e nunca mostra a mesma página.

E como foi ver o texto montado?

Escrevi a história e não vi nenhuma vez os ensaios. Fui apenas na estreia e depois não parei de voltar para ver, por causa do encantamento que o teatro exerce ao contar uma história. É maravilhoso! A vontade agora é fazer uma versão da peça para livro infantojuvenil.

E quais são seus próximos projetos? Dramaturgia também?

Este ano lanço mais livros infantis e um juvenil. Os infantis estavam prontos, escritos em outra época, e finalmente serão editados. O juvenil, As horas claras, já escrito, recebeu o Prêmio Proac 2010, e sai este ano. E estou trabalhando em outros projetos de dramaturgia; um deles é uma outra aventura com a Bruxa Morgana. Também tenho vontade de levar para o teatro a história A paixão de A e Z.

Você gostaria de acrescentar mais alguma coisa?

Sim! Que a melhor coisa do mundo é inventar histórias para crianças. As pessoas se espalham pelo mundo cada uma com o seu ofício. Tem o feirante, o zelador, o bibliotecário, o bancário, o motorista de ônibus, e por aí vai, todos fazendo o que sabem fazer com gosto e talento; e tem aqueles seres que inventam histórias, para deixar a vida mais divertida e colorida, porque, como dizia Fernando Pessoa, “a literatura é uma confissão de que a vida não basta”. E descobrimos isso quando abrimos um livro.

Por Luciana Tonelli

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