Entrevista com Adriana Calabró e Tita Berredo
Em Rosa e Dinorá, imaginação, ciência e poesia se encontram para atravessar o tempo e aproximar mundos separados por milhões de anos. Nesta entrevista, a autora Adriana Calabró fala sobre a origem da história, o papel da curiosidade e da pesquisa na construção do livro, enquanto a ilustradora Tita Berredo compartilha seu fascínio pelos dinossauros e revela as escolhas visuais que dão forma a esse encontro delicado entre realidade e fantasia.
Entrevista com Adriana Calabró
Peirópolis: Adriana, conte-nos um pouco sobre a inspiração para escrever este livro. De onde veio a ideia de escrever uma história que se passa em tempos muito diversos, mas ainda assim, fala de um encontro entre personagens distantes por milhares de anos?
Adriana Calabró: A imaginação é sempre uma aliada. A partir dela, não existe tempo, nem espaço, nem limites. Cá entre nós, até no pensamento científico é ela que permite o levantamento de hipóteses e a expansão das possibilidades. Nesse livro, faço uma homenagem à curiosidade humana por meio das protagonistas: a menina que nasceu para saber mais e a dinossaura de mente investigativa. A ligação entre Rosa e Dinorá se dá de forma subjetiva, uma vez que elas intuem a existência uma da outra, mas também de forma concreta, no capítulo do pôr do sol, quando elas se “encontram”. A imagem dessa cena é como uma fotografia na minha cabeça e espero que também inspire as mentes e corações dos leitores.
P: E por que dinossauros? Como foi seu processo de pesquisa, já que sua formação profissional não é em biologia ou paleontologia, áreas afins a uma das temáticas do livro?
AC: A faísca do livro veio quando li uma matéria dizendo que não existiam flores no período Jurássico e que elas vieram nos últimos (milhões de) anos da presença dos dinossauros no planeta Terra. Ou seja, eram uma novidade para aquele período! Achei poético. Sem contar que a temática dos dinos é sempre interessante, para todas as idades, pois mexe com o imaginário da gente. Embora eu tenha pesquisado bastante, meu olhar não é especializado e abre espaço para algumas licenças poéticas. Coisas que só a literatura faz por você!
P: Na sua história há uma ideia muito bonita de que procuramos algo que está a nossa espera. Você pode falar um pouco sobre isso para a gente?
AC: Acho que esse conceito tem muito a ver com uma atitude positiva diante da vida. Trazer para o campo das possibilidades aquilo que se deseja e confiar no tempo das coisas. E mais: quando digo que o que você procura também procura por você, não é algo que tenha a ver com certezas ou garantias. Tem a ver com ajustar a vela na direção da sua preferência e confiar que o vento é seu amigo nessa empreitada.
Entrevista com Tita Berredo
Peirópolis: Tita, você tem um interesse antigo nos dinossauros. Conta para a gente sobre essa sua relação com a representação desses animais?
Tita Berredo: Desde pequena sou muito fascinada por dinossauros, fui crescendo e nunca deixei de ser. Tenho dezenas de livros, modelos, bonecos, e até réplicas de fósseis, e fico feliz que minha paixão tenha acompanhado a evolução dos meus desenhos.
Acho que em geral, a fascinação da criança por dinossauros vem de algo que assusta e também intriga, e que tem a ver com o mistério e com a descoberta que cercam esses animais. Acho que também tem a ver com o desejo de ser grande, de ser maior do que os adultos (já que muitos dinossauros têm um tamanho descomunal), e com o fato de eles serem animais reais que pertencem a uma época que não existe mais — o que os torna admiráveis e inalcançáveis. Perdidos no tempo, deixaram pistas sobre sua existência, que vão sendo encontradas como em uma brincadeira de caça ao tesouro, deixando para o imaginário seus elementos desconhecidos. É exatamente como na ilustração e na literatura. Para mim, os dinossauros são esse ponto de interseção entre realidade e fantasia, eles são os dragões que existem fora dos contos de fadas.
P: E como foi ilustrar elementos da natureza, que exigem certo grau de fidedignidade, em uma história ficcional? Você tomou algumas liberdades nas representações e trouxe aspectos mais inventivos em suas ilustrações?
TB: Apesar de meu estilo de desenho não ser realista, para mim ainda é importante ser fidedigna aos detalhes que diferenciam as espécies de dinossauros. No caso de linhas simplificadas, é essencial entender bem a silhueta, pois é o elemento principal que vai fazer o leitor identificar aquilo que está olhando.
Morando na Europa, visitei vários museus e acervos que preservavam fósseis de dinossauros da espécie maiassaura. Também pude contar com modelos, livros, e documentários para poder representar bem as formas e movimentos da Dinorá. É um animal elegante, cheio de curvas grossas e finas que combinam bem com o meu estilo de desenho.
P: Você tomou algumas liberdades nas representações e trouxe aspectos mais inventivos em suas ilustrações?
TB: O meu estilo principal de desenho é de um traço mais artístico e simplificado, que brinca com a ausência de detalhes. O fato de o texto transitar entre a realidade e a ficção me ajuda a compor essa visão. Resolvi dar mais finalização para as plantas e os insetos, mas no caso das personagens pré-históricas, eu quis deixar menos finalizado, como um fóssil que dá pistas sem mostrar o corpo completo. O texto já dava toda a profundidade que elas deveriam ter.
Assim como a própria autora comenta, essa é uma história de natureza poética, o que dá bastante liberdade ao meu traço. As duas jovens estão conectadas desde o início, e espelham suas jornadas através diferentes representações. Vemos Dinorá em sua forma de Maiassaura, mas a Rosa se faz presente através de sua relação estreita com a natureza. Ela está nas plantas e nos insetos que observa, seu amadurecimento é simbolizado pela metamorfose da lagarta em borboleta, e continua transitando pelo espaço e pelo tempo como o cometa, o céu, e o sol poente que cercam Dinorá.
Rosa e Dinorá compartilham os passos uma da outra em mundos diferentes, caminhando em pontas opostas do tempo, até se encontrarem. Isso é o que eu mais gosto no livro, um encontro inesperado, mas ao mesmo tempo, fadado. Gosto de pensar que Rosa encontrou Dinorá, assim como Adriana encontrou a Tita.

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