Entrevista com André Gravatá e Ana Matsusaki - Editora Peirópolis

Entrevista com André Gravatá e Ana Matsusaki

Entre memória, poesia e cultura popular, Todo mundo rodopia enquanto rodopia o mundo, que chega na Peirópolis em março, é um livro que nasce do movimento — dos corpos, das palavras, das mãos que criam e das histórias que atravessam gerações. Nesta entrevista, André Gravatá fala sobre o processo de transformar a história de seus pais, artesãos de brinquedos, em uma narrativa sensível e pulsante, enquanto Ana Matsusaki comenta as escolhas visuais e gráficas que dão ritmo e continuidade a essa experiência. A seguir, autores e ilustradora compartilham reflexões, imagens e afetos que ajudam a compreender como esse livro foi ganhando forma.

Entrevista com André Gravatá

Peirópolis: André, Todo mundo rodopia… é um livro múltiplo: traz algo de biografia, algo de poesia e algo de saberes da cultura popular — e, ao mesmo tempo, carrega a história dos seus pais, com toda a dimensão afetiva que isso envolve. Como esse livro chegou até você? E como foi o processo de escrevê-lo e acompanhar a forma que ele foi tomando, entre tantos fios que se entrelaçam?

André Gravatá: O livro nasceu da vontade de compartilhar uma história que testemunhei em primeira mão: vi os olhos da minha mãe e do meu pai brilharem quando começaram a criar brinquedos! O livro também nasceu do espanto que tenho diante do mistério que é o movimento de tudo que existe a cada instante. O poema que escrevi é o cruzamento de uma história pessoal e do desejo de desfrutar o sabor do movimento incessante da vida. Quando comecei a escrever os versos, me senti como numa cachoeira: ia me lembrando das cenas com meus pais, dos momentos vividos na natureza da Bahia, e uma cena despencava em seguida à outra, como frutos maduros caindo da ponta da língua. O texto foi tomando forma à medida que li e reli em voz alta, como se, pra que o poema nascesse, eu tivesse que colocar as palavras em movimento por meio da oralidade. 

P: No livro, a vida aparece como movimento. Para você, toda biografia é, de algum modo, movimento?

AG: Sinto que a biografia de alguém é a fotografia de um movimento. A gente tenta descrever o movimento, mas algo sempre escapa. Por isso que as biografias são sempre incompletas. O movimento de uma vida se cruza com o movimento de tantas outras vidas, humanas e muito além do humano. Essa pergunta me fez pensar que esse livro é, em parte, um pedacinho da biografia dos meus pais, mas também um fragmento da biografia de um brinquedo chamado Mané Gostoso. 

P: Seus pais acompanharam a escrita e a publicação do livro? E como foi, para você, vê-los se transformarem em personagens de uma narrativa?

AG: Há um bom tempo tenho comentado com meus pais sobre a vontade de escrever um livro a partir da história deles com os brinquedos. Até que um dia cheguei a ler para os dois uma primeira versão do texto. E senti a alegria deles diante da possibilidade de contar pra mais pessoas essa história. E outro dia mostrei as páginas já com as imagens maravilhosas criadas pela Ana Matsusaki (aliás, celebro imensamente a arte da Ana, ela expressa tão lindamente o movimento que pulsa em cada brinquedo!). E quando meus pais viram como o livro estava ficando, deu pra sentir uma emoção profunda na expressão deles. Minha mãe disse inclusive ver o livro como uma chance de fazer essa história não morrer. Pra mim, esse livro também me lembra que a história dos meus pais não tem a ver só com eles. Toda história é pessoal e coletiva ao mesmo tempo! Falar dos meus pais é falar de uma multidão de migrantes do Nordeste que vivem nas cidades do Sudeste. Falar dos meus pais é falar de uma multidão de pessoas da periferia que por causa da desigualdade do país não tem sua arte reconhecida e valorizada, mas que fazem maravilhas e merecem sim mais atenção.

P: Na sua trajetória, você tem revelado intersecções entre a poesia e o mundo. Como vê o lugar da poesia na escola hoje?

AG: Sinto que a escola ainda pode muito mais em relação à poesia! Salvo exceções, ainda vejo uma abordagem muito engessada. Desejo muito que as escolas tragam mais voz, mais movimento e mais encanto no encontro com a poesia. A poesia é uma arte ancestral, que existe desde antes da palavra, que brota do ritmo e da perplexidade que é estar vivo, então lembremos disso, se a escola lembrar disso a palavra vai existir na escola com muito mais sabor e rodopio!

 

Entrevista com Ana Matsusaki

Peirópolis: Ana, você poderia comentar um pouco sobre a técnica que utilizou nas ilustrações? O que a levou à escolha das colagens, e como elas dialogam com o espírito do livro?

Ana Matsusaki: Assim que entrei no projeto, recebi um acervo precioso de fotos dos familiares e pais do André, dos brinquedos que eles criam e das paisagens onde a história se passa. Minha intenção foi trazer todo esse universo de cor e de brincadeira para os leitores, fazer um convite para que se entre dentro da imaginação de quem joga com essas criações. A própria técnica de colagem digital não deixa de ser uma brincadeira, é uma grande mesa onde colocamos imagens de diferentes contextos para um delicioso banquete.

P: E quanto ao projeto gráfico: de que maneira ele conversa com a história contada e com a forma particular que o livro assume?

AM: Quando li o texto do André senti como se eu estivesse sendo levada pelas paisagens de seus pais, por suas histórias, é um passeio sensorial pelo minúsculo e pelo imensurável. Como trazer todas essas sensações de movimento para o livro? Bom, há também movimento durante uma leitura, quem lê dá o gatilho quando move as mãos para virar as páginas, quando pula os olhos de palavra em palavra. A história se inicia já nas guardas, com as peças soltas e adormecidas que compõem o Mané Gostoso, em seguida vemos as mãos que dão vida a esses brinquedos (talvez também viraram a página?) e que são a faísca que dá origem a um fio do movimento, como se um big bang explodisse e desse corda para uma sequência de eventos. Uma imagem desemboca na próxima, há sempre um ou mais elementos de uma dupla que se repetem na página seguinte, trazendo o curso da página anterior e reverberando pelo livro inteiro como em ondas de movimento.

 

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