Há registros de que um tal de Johann Georg Faust, ou Georg Faust, que viveu entre cerca de 1480 e  1541, tenha perambulado pela Alemanha apresentando-se como filósofo, curandeiro milagroso, alquimista, mago, astrólogo e vidente. Unindo a capacidade de curar e de prever o futuro, ganhou dinheiro e fama, mas também foi considerado um charlatão por humanistas e teólogos da época. Os arquivos do Vaticano guardam o manuscrito, datado de 1507, do abade Trithemius, em que alega ter encontrado um sujeito de nome Fausto na cidade de Brandemburgo, de quem se falava com desprezo.

As histórias sobre Georg Faust, o Fausto histórico, surgiram impressas pela primeira vez numa edição popular, em 1587, com o título A história de Dr. Johann Faust, famoso mago e adivinho, de autoria anônima, e circularam por toda a Alemanha. A partir daí, o mito de Fausto foi recontado espalhando-se por toda a Europa. O inglês Christopher Marlowe (1564-1593), em A trágica história do Doutor Fausto, foi o primeiro dramaturgo a dar nova dimensão a esse personagem, empenhado na luta de compreender o misterioso sentido da existência.

Sabe-se que Goethe tomou conhecimento desse mito num teatro de marionetes, apresentado em praças de mercado quando ainda criança. Mas foi aos 20 anos, ao assistir a uma encenação na Adega de Auerbach (que dá nome a uma das cenas de seu próprio Fausto), que Goethe se apaixonou pela história do Dr. Fausto. Em 1770, Goethe se animou a escrever sua própria versão de Fausto, motivado pela verdadeira história da condenação da jovem Susanna Margaretha Brandt, moça que trabalhava na hospedaria de uma viúva quando foi seduzida por um hóspede holandês. Desconfiada de que o homem  teria sido guiado pelo diabo ao envenenar seu vinho, já que não havia conseguiu resistir à sedução, escondeu a gravidez da patroa até dar à luz. Suzanna Margaretha deu à luz a criança, enforcou-a e foi julgada e condenada a morrer por espada.

Assim primeiramente surgiu a versão Urfaust (Fausto Zero). Depois de muito tempo, em 1788, Goethe escreveu Fausto – um fragmento, que deu origem à primeira parte da tragédia Fausto, publicada em 1808. A segunda parte veio a público em 1832, alguns meses após sua morte.

Esse mito tão popular acabou inspirando Goethe a produzir em seu poema dramático uma síntese de suas ideias, de seu estilo, e um registro atemporal das insatisfações e dúvidas do homem moderno e das dificuldades e injustiças enfrentadas por quem se depara com os tabus impostos por uma moral e por leis a serviço de poucos.  Essa importante história que atravessou séculos é agora recontada em HQ, formato que não existia na época de Goethe, mas que, se existisse, certamente seria aprovada por ele e, quem sabe, inspiraria esse autor que também era exímio desenhista.

Ao leitor, desejo uma boa viagem!

Christine Rohrig, dramaturga e tradutora do alemão

 

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