Nelson Cruz lança "A árvore do Brasil" no Festival de Inverno de Ouro Preto

Olhar denso e de longa distância

O novo livro de Nelson Cruz apresenta ao leitor uma árvore secular que sobrevive às intempéries da natureza e às mudanças impostas pelo homem ao seu habitat.

Nelson é um autor que cultiva certa densidade. Suas imagens são construídas a partir de um olhar filosófico. No caso desse livro, Nelson lança os leitores em uma temporalidade mais ampla, capaz de fazê-los refletir sobre o passar do tempo e sobre a relação entre homem e natureza.

Assim, Nelson apresenta a sua árvore em diferentes temporalidades, desde os anos 1800, quando ainda era cercada pela floresta virgem, até a campanha pelas eleições diretas, nos anos 1980. O livro termina de forma surpreendente, surpresa essa que só as próprias imagens podem relatar.

O autor, conhecido pelo cuidado excepcional que dedica às suas criações, utilizou uma técnica bastante específica para criar as imagens de A árvore do Brasil, que parecem aquarelas: tinta acrílica aplicada sobre desenho. Esse, por sua vez, foi feito com caneta stábilo marrom sobre papel Fabriano (italiano) de 400 gramas levemente texturado. Tudo isso, segundo Nelson, “para conseguir que o traço de caneta definisse os elementos”. Depois disso, Nelson ainda molha e retoca cada desenho, em um processo que resulta em imagens definidas e ao mesmo tempo muito delicadas.

Nelson Cruz no Mondolivro e no Universo Literário

Leia/ouça a resenha do escritor Afonso Borges, criador do Sempre um Papo, sobre “A árvore do Brasil” no programa Mondolivro, da rádio Guarani FM.

E ouça a entrevista feita com o autor pela escritora Rosaly Senra, do programa Universo Literário, da Rádio UFMG Educativa.

A árvore do Brasil nas palavras do autor

Via 240, direção Santa Luzia-Belo Horizonte. Ao lado da retenção eletrônica, fui reduzindo a velocidade e, de repente, percebi na marginal direita a árvore enorme. Imponente, majestosa. Atrás da árvore, casas inacabadas e sobrados agrupavam-se desordenadamente, numa visão ao mesmo tempo perturbadora e inspiradora. Ao vê-la, uma quantidade de imagens surgiram na minha mente, como se saíssem de um arquivo embaralhado ao longo do tempo. Lembrei-me de duas ilustrações que vi de Jörg Muller no catálogo da feira de livros da Bolonha de 1995, em que ele retratou alguns quarteirões de uma cidade. Ambas diziam respeito à mesma paisagem, separadas por um intervalo de tempo de aproximadamente 15 anos. As mudanças retratadas no cenário me emocionaram pela disciplina do artista em repetir alguns detalhes, criando um inesquecível discurso visual. O tema representa o sentimento de perda e a incapacidade de reação de um indivíduo diante das mudanças e dos valores perdidos de um determinado lugar. Esta foi minha primeira inspiração.

Essa história, “A árvore do Brasil”, nasceu com a visão daquela árvore naquela paisagem. Ela deflagrou em mim o tema e as seqüências das ilustrações. Em seguida, as pesquisas de imagens que realizei para trabalhar a narrativa de cada período da história fortaleceram em mim outra idéia: a de que eu não crio a partir do nada. Todo o material reunido para a realização desse livro já existia em trabalhos de fotógrafos, naturalistas e artistas viajantes. Organizei detalhes das imagens recriando-as em torno de um tema, de um sentimento, de uma emoção.

Nelson Cruz

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