Prof. Dr. Waldomiro Vergueiro

Observatório de Histórias em Quadrinhos da ECA-USP

 

Envolvido há quatro décadas com o estudo das histórias em quadrinhos, já tive o prazer de recomendar ou prefaciar muitas obras sobre o tema. Devo reconhecer, entretanto, que algumas vezes (poucas) desempenhei tal atividade por obrigação, quase como para dar conta das exigências decorrentes de meu cargo na Universidade de São Paulo e do papel que, mais por acaso que por merecimento, acabei desempenhando no campo científico dos quadrinhos. Não é, absolutamente, o caso deste livro, sobre o qual me debruço novamente depois de alguns anos de ter acompanhado o florescer de sua ideia, sua gestação, composição e, finalmente, sua transformação em tese de doutorado. Acompanharam essas fases estafantes e criativas uma crescente admiração por seu autor, cuja história passei a acompanhar desde então. Por isso, antes de falar da obra, falo do aluno. Do pesquisador. Do professor. Do colega. Do amigo. Papéis que ele sempre desempenhou e continua a desempenhar – para usar um termo bastante comum aos heróis dos quadrinhos -, galhardamente.

Nobuyoshi Chinen. Ou, como ele prefere se referir a si mesmo, simplesmente Nobu Chinen.

Já a memória me falha e não tenho certeza se o conheci inicialmente em um curso que ministrei na Gibiteca Henfil, no Centro Cultural São Paulo, juntamente com vários colegas, ou se vim a me deparar com ele quando iniciou sua participação nos colóquios científicos que realizamos mensalmente no Observatório de Histórias em Quadrinhos da Escola de Comunicações e Artes da USP (ECA/USP), seguido pelo curso na gibiteca. Não importa. Lembro que, na medida em que o tempo passava e se tornava assídua sua presença nos encontros do Observatório, aquele japonês enxerido e palpiteiro aos poucos começou a chamar minha atenção por seu profundo conhecimento das histórias em quadrinhos – era, de fato, um nerd em relação a obras, autores e personagens da grande indústria -, assim como pela agudeza de suas observações e sua dedicação às leituras. Eu já sabia, então, que não se tratava de um neófito na área, mas alguém que vinha se dedicando há muito tempo ao estudo dos quadrinhos e acompanhando o desenvolvimento da área, tendo até mesmo sido responsável por uma coluna de crítica aos produtos da Nona Arte quando morava em uma cidade do Vale do Paraíba. Mostrava-se, assim, em um patamar acima dos frequentadores de nossos colóquios e contribuiu enormemente para elevar o nível de nossas discussões.

Nobu já era, então, professor em uma faculdade de São Paulo. Durante algum tempo torci para que ele se interessasse por seguir a carreira acadêmica e buscasse os estudos de pós-graduação, que me pareciam um passo necessário para seu desenvolvimento profissional. Fiquei muito feliz quando ele se inscreveu e conseguiu ser aprovado no processo seletivo para o mestrado do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação da Escola de Comunicações e Artes da USP, tendo me escolhido como seu orientador. Um privilégio para mim. Sua temática de pesquisa, a representação do negro e afrodescendentes nas histórias em quadrinhos brasileiras, era uma proposta ousada e inédita no país, até então apenas abordada marginalmente por alguns pesquisadores – caso do meu saudoso colega, o professor Moacy Cirne, da Universidade Federal Fluminense, que tratou brevemente do assunto em um dos capítulos do livro Uma introdução política aos quadrinhos, de 1982.

Nobu, como vim a descobrir ser uma de suas características, se propunha a ser exaustivo em sua pesquisa. Buscava aprofundar a presença e representação do negro e afrodescendentes nas histórias em quadrinhos brasileiras e realizar um levantamento de todos os personagens criados. De início fui um pouco cético quanto à viabilidade desse objetivo, mas tive que me render aos fatos quando a banca de qualificação de seu mestrado, espécie de tribunal que valida as pesquisas na pós-graduação, não apenas aprovou a pretensão do mestrando como entendeu que a pesquisa ia além desse nível de estudo, devendo ser indicada para o doutorado direto. Não era e continua a não ser uma prática corriqueira na minha escola, apenas aprovada em casos de excelência tanto da proposta de pesquisa como do desempenho profissional e didático do aluno. Com essa indicação, aprovada pela Comissão de Pós-Graduação da ECA, Nobu foi o primeiro aluno a defender o doutorado direto no recentemente reformulado programa de pós-graduação em Ciências da Comunicação. Um doutorado em histórias em quadrinhos.

Tudo correu bem no doutorado e o resultado está aqui, contido nas páginas que se seguem, a mais completa abordagem sobre a representação de negros e afrodescendentes nos quadrinhos brasileiros, com reflexões que enveredam pelos campos da etnografia, história, sociologia e antropologia. Mas não apenas isso. O livro representa mesmo uma ampliação da pesquisa concluída em 2013, com correção de pequenos deslizes da redação original, aprofundamento de alguns aspectos e acréscimo de mais de cem personagens dos quadrinhos brasileiros.

Quando apresentou seu projeto de pesquisa, Nobu defendia que os negros e afrodescendentes eram subrepresentados nos quadrinhos brasileiros, uma vez que seu aparecimento na produção nacional estava aquém de sua participação numérica na população do país e a eles estava em geral reservada uma participação tímida – para não dizer degradante -, nos quadrinhos, sendo colocados na posição de coadjuvantes, serviçais ou vilões. Tenho a impressão de que, felizmente, como a atualização da pesquisa de Nobu demonstra, essa situação caminha – eu diria até que celeremente –, se não para a reversão, pelo menos para um maior equilíbrio, como demonstram artistas como Marcelo D´Salete, Maurício Pestana, Rafael Calça e

Jefferson Costa, entre outros. E isso ocorre porque – não tenho dúvidas a respeito –, pesquisadores como Nobu se dedicaram com denodo, por meio de sua práxis profissional, a tornar visível a disparidade ou o preconceito subjacente na produção quadrinística brasileira. Nisso, chego a dizer que ele parafraseia Milton Nascimento e parece acreditar que o pesquisador – especialmente o de quadrinhos –, deve estar aonde o povo está. Ele sempre esteve.

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