Peirópolis lança nova edição de O menino poeta, com ilustrações de Nelson Cruz

Considerado o primeiro livro de poesia para o público infantojuvenil publicado no Brasil depois dos versos parnasianos de Olavo Bilac (1904) e Francisca Júlia (1912), O menino poeta, de Henriqueta Lisboa (1901-1985), publicado pela primeira vez em 1943, volta em 2009 em edição renovada, ilustrada por Nelson Cruz e prefaciada por Bartolomeu Campos Queirós.

A revivescência da infância

Considerado por Mário de Andrade “uma maravilha integral”, O menino poeta foi lançado em 1943, quando surpreendeu a todos com sua linguagem capaz de encantar crianças e adultos.

Ao lado de Cecília Meirelles, a primeira brasileira a criar uma biblioteca para o público infantil, Henriqueta Lisboa foi considerada “pioneira na escrita de poemas para crianças fora da tradição moralista ou de cunho meramente pedagógico”, segundo o crítico Fábio Lucas. No entanto, ela costumava dizer, em entrevistas, que não era do seu feitio escrever “poesia com destinatário”. Para a autora, O menino poeta era, na verdade, “a revivescência da infância”.

Antes de “O Menino Poeta”, a poesia brasileira para crianças foi representada pelos versos de Olavo Bilac, que escreveu uma antologia poética publicada em 1904, “Poesias Infantis”, e Francisca Júlia, também parnasiana, que publicou em 1912 “Alma Infantil”. Mas eram obras pouco afeitas ao gosto da criança, segundo a especialista Marisa Lajolo. “O Menino Poeta” foi obra pioneira no final da primeira metade do século 20.

Henriqueta, uma poeta que extenuava os recursos da linguagem com incrível sentido metafísico e estético, fez uma obra livre, inspirada no imaginário da infância, mas explorando os limites da poesia na sua sonoridade e musicalidade, e os recursos da língua portuguesa, já em 1942. Demorou ainda quase 20 anos para que, na década de 60, aparecessem obras poéticas importantes para o público infanto-juvenil, como “Isto ou Aquilo” (1964), de Cecília Meireles, “Pé de Pilão” (1968), de Mário Quintana, e “Arca de Noé” (1974), de Vinicius de Moraes, considerandos, ao lado de “O Menino Poeta”, clássicos da literatura infanto-juvenil no Brasil.

A edição atual reúne 66 poemas, sete a mais que a edição original, incluídos pela própria poeta quando viva.

Para saber mais sobre Henriqueta Lisboa, incluindo o que disseram sobre sua obra grandes nomes da poesia brasileira, como Carlos Drummond de Andrade e Murilo Mendes, e da crítica literária, como Fábio Lucas, navegue no site da autora, abrigado na Faculdade de Letras da UFMG: www.letras.ufmg.br/henriquetalisboa

Abaixo, estão disponíveis: os textos de orelhas, o prefácio e informações sobre o projeto de reedição da obra de Henriqueta em 2009 pela Peirópolis.

Orelhas
Por Renata Farhat Borges

Em 1941, Henriqueta Lisboa, poeta mineira com quem Mário de Andrade manteve uma de suas mais ricas correspondências, recebe do modernista uma carta, pela qual esperou por dois meses, com o seguinte comentário: “são simplesmente um encanto pros ouvidos, pros olhos, pro corpo todo. O menino poeta, isso achei maravilha integral”.

Os versos a que Mário se refere, aqui reunidos em edição especial, foram publicados pela primeira vez em 1943 e marcaram para sempre a história da literatura infanto-juvenil no Brasil. Embora, como definidos pelo próprio modernista, não sejam feitos para criança nem tampouco versos interessados, os poemas milagrosos em ritmo, melodia e encantamento coincidem com a imagem da infância, cheias de pureza, cristalinidade, alegria, melancolia leve, graça, leveza e sonho acordado.

São poemas da plenitude da poeta, donos de concisão, densidade e estado poético que encantam a todo leitor de qualquer idade.

A obra foi apreciada por escritores contemporâneos da autora e pelas gerações futuras, crianças, jovens e adultos que, como Mário de Andrade, encontraram na poesia de Henriqueta acalento para o menino poeta que mora e brinca dentro da alma.

Murilo Mendes, logo após a leitura do livro publicado, assim escreveu a Henriqueta: “O menino Murilo gostou muito dele.” Que o seu menino se encante também.

Prefácio
Por Bartolomeu Campos Queirós

A infância é possível de ser reinventada, sempre. A condição essencial é não meditá-la como um tempo perdido e distante. E para se travar uma prosa com a infância é indispensável a experiência da criança reencontrada.

Ao buscar aninhar-se num mundo novo, a criança possui, como instrumento para desvendá-lo, os mesmos elementos capazes de inaugurar a arte: liberdade, inventividade, espontaneidade. A infância não suporta o obscuro, o indecifrável. Seu trabalho é ensaiar adivinhar ? recorrendo à fantasia ? todo o crepúsculo do seu em-torno. Surpreendida e simultaneamente encantada, ao elaborar suas indagações, a criança mesma responde a elas com a força do seu imaginário.

O desvelo de Henriqueta Lisboa ao construir “O menino poeta” nos revela seu conceito de infância, por não se afastar da criança que respirou em sua poesia ao longo de toda a sua existência. Sem se afastar do rigor registrado em seu vasto ofício literário, a poeta nos permite observar que, para se dirigir aos mais jovens, não se faz necessário empobrecer a linguagem e forçar rimas fáceis para revelar o assunto. Em seu livro “Convívio poético”, Henriqueta Lisboa reconhece a infância como lugar da poesia pura, em que a metáfora não é procurada, mas figura encontrada quando se vive em liberdade ? plena e inquieta ? diante de um mundo inteiro para ser nomeado.

“O menino poeta” não é uma concessão da poeta maior às crianças. É uma obra que se equilibra entre o vivido e o sonhado que permeiam toda a densa e refinada produção artística de Henriqueta Lisboa. O transparente cuidado ao se dirigir à infância reside no seu desmedo em deixar vir à tona sua criança perplexa diante dos pequenos grandes assombros que rondam a infância e a arte.

“O menino poeta” dialoga com a beleza desenhada de Nelson Cruz ? ilustrador que nos encanta não pelos maneirismos possíveis ao manipular formas e cores, tão bem capazes de enganar provisoriamente o fruidor, mas por realizar uma leitura plástica da poesia de Henriqueta Lisboa, confirmando o significado da ilustração e da literatura.

A exatidão da obra em pauta me garante afirmar que os mais jovens têm em mãos um livro que vai durar para sempre.

Henriqueta Lisboa em 2009

O menino poeta é o primeiro de uma série de títulos da poeta Henriqueta Lisboa que a Peirópolis pretende reeditar em 2009.

Além de uma nova edição da sua correspondência com Mário de Andrade (em parceria com a Edusp e o IEB), a Peirópolis deverá relançar boa parte da poesia da autora em volumes separados, começando por “Prisioneira da Noite”, “Além da Imagem” e “Pousada do Ser”.

Ambos os projetos editoriais terão a organização de Eneida Maria de Souza, Professora Emérita da UFMG. A Editora Peirópolis planeja, também, a edição fac-símile de “A face lívida”, em parceria com o IEB.

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