Um desafio para os adultos e suas crianças

CONVIVER, BRINCAR, APRENDER, ENSINAR

(Um desafio para os adultos e suas crianças)

Francisco Marques (Chico dos Bonecos)

Para começo de conversa, e para a conversa começar, vamos lançar uma pergunta espezinhenta: “O que é educar?”

    Antes, uma advertência divertida! Quando usamos a palavra “educadores”, estamos nos referindo aos adultos que convivem com as crianças: mães, pais, tios, avós, professoras, professores, bibliotecárias, bibliotecários, vizinhas, vizinhos… Do ponto de vista da criança, todos os adultos são educadores, ou seja, são referências de condutas, posturas, valores, habilidades… Muitas vezes, nós, adultos, não temos consciência dessa nossa ação educativa compulsória – e realizamos sólidas ações deseducativas involuntárias. Portanto, precisamos semear intenções educativas no nosso cotidiano com as crianças. Por exemplo: estar ao lado, simplesmente disponível, ao alcance das mãos e do coração; puxar da memória um fato qualquer e fazer disso uma história; puxar da prateleira um objeto qualquer e fazer disso um brinquedo…

 O OLHAR DESCONCERTANTE

Antigamente – e nem tão “antigamente” assim – , a pergunta que mobilizava o educador era… “Como ensinar?” Então, nós, educadores, do alto da nossa sabedoria e onipotência, ficávamos inventando formas de melhor ensinar.

Atualmente, a pergunta que mobiliza o educador é… “Como a criança aprende?” Então, nós, educadores, em primeiríssimo lugar, queremos compreender o olhar da criança sobre a vida: sobre o outro e os outros, sobre si mesma, a natureza, a sociedade…

Quando nos perguntamos “como a criança aprende?”, tropeçamos na linguagem da criança: o Brincar. Para nós, adultos, Brincar é sinônimo de “lazer”, “passatempo”, “coisa de fim de semana”, “falta do que fazer”. Para a criança, entretanto, Brincar é uma questão de… Sobrevivência. Isso mesmo: sobrevivência. Porque Brincar é o instrumento que a criança utiliza para interpretar a vida e interferir no mundo. Para a criança, Brincar é a sua maneira de Pensar. Para a criança, Brincadeira e Pensamento formam uma unidade indissolúvel, inquebrantável.

A partir da pergunta “como a criança aprende?”, a pergunta “como ensinar?” ganha outro rumo, outra pedagogia…

Quando a criança brinca, no fundo, no fundo, o que ela está realizando? A criança brinca com uma pedrinha, um graveto, com as próprias mãos, as palavras, as canções, a escada de maracá, o jabolô… Brincando, a criança está, o tempo inteiro, e inteira no tempo, investigando, experimentando, explorando. Estes três temperos – explorar, experimentar, investigar – formam a base da Construção do Conhecimento.

O Brincar, portanto, está no eixo da nossa proposta pedagógica, na raiz filosófica da nossa educação.

Partindo destas reflexões, podemos evitar as simplificações que apontam o Brincar na educação como sinônimo de “intervalo”, “ornamento”, “relaxamento”, “descontração”. Por causa deste reducionismo, nós, educadores, ficamos ansiosos atrás de novos brinquedos e novas brincadeiras – como se as técnicas e os materiais fossem os elementos mais importantes do Brincar.

Para a criança, qualquer situação, ambiente ou objeto, se transformam em objeto, ambiente e situação de brincadeira. Para a criança, Brincar é uma postura diante da vida, é um olhar para o cotidiano, um olhar desconcertante. Para nós, educadores, o importante é captar este olhar, esta postura. Incorporando este olhar desconcertante, a aventura de aprender novas brincadeiras e construir novos brinquedos ganha um sentido profundo.

Por falar em novidades… O repertório dos brinquedos milenares e planetários é uma fonte sempre contemporânea de aventuras mirabolantes e abracadabrantes. Quem já teceu um cordão no rabo-de-gato? Quem já ouvi a língua do ferrê? Quem já soprou a pena? Quem já lançou as argolas?

Aqui, então, surge a famosa pergunta: “Por que não encontramos estes brinquedos por aí?” E surgem as famosas respostas: “a gente esquece”, “falta de tempo”, “falta de espaço”, “o consumo”, “o atrativo da alta tecnologia”, “a correria da vida”…

Estas respostas são meias verdades. Por falar nisso, vamos lembrar o poeta espanhol Antonio Machado:

“Disseste meia verdade?

Dirão que mentes duas vezes

quando disseres a outra metade.”

Na verdade verdadeira, estes brinquedos não estão mais “por aí”, porque nós, adultos – pais, tios, avós, professores -, não vemos valor nesta cultura. Muitos dos brinquedos que mobilizaram a infância dos nossos avós, eles não ensinaram para os nossos pais. Muitos dos brinquedos que mobilizaram a infância dos nossos pais, eles não ensinaram para nós. Muitos dos brinquedos que mobilizaram a nossa infância, nós não ensinamos para os nossos filhos. Não ensinaram e não ensinamos, porque não vemos valor nesta cultura. É como se pensássemos assim: “Na nossa época, não tínhamos recursos, e o jeito era brincar com essas bobagens. As crianças de hoje vão até zombar daquelas brincadeiras de antigamente. São brincadeira tão atrasadas que devem até fazer mal para as crianças de hoje.”

As crianças de hoje não estão brincando com estes brinquedos, porque, simplesmente, não conhecem. Na perspectiva da criança, não há contradição entre as modernas tecnologias e os brinquedos milenares – as crianças terão prazer em dividir o seu tempo entre os videogames e os corrupios. Precisamos, portanto, re-significar esta cultura lúdica.

E por falar em corrupio… Você se lembra daquele botão que gira num fio de linha, gira pra lá e pra cá, sem parar? Diante desta maravilha, costumamos tropeçar neste pensamento: “Para uma criança de 5 anos, até que dá para distrair um pouquinho.” E aqui tropeçamos em outra  meia verdade. Costumamos associar estes brinquedos às crianças pequenas – e apenas às crianças pequenas. Experimente mostrar o corrupio para uma criança de 10 ou 15 anos. Você vai se admirar com a admiração destas crianças.

A reflexão sobre o Brincar, portanto, ultrapassa o espaço da escola: atinge o nosso convívio familiar, mergulha nas nossas memórias afetivas, se espalha nas nossas relações sociais.

Para alinhavar este artigo, vem aí a…

PARÁBOLA DA SEDE

    Sete educadores se perderam em uma região seca, de terreno arenoso, de vegetações rasteiras e retorcidas.

     Perdidos, caminharam. Caminharam perdidamente.

     Finalmente, felizmente, os sete educadores encontraram um fio d’água, um córrego, um riacho.

     Entretanto, habituados à torneira, os sete educadores se contentaram em avaliar o enorme desperdício de água.

     E os sete educadores morreram de sede para sempre.

 Nós, educadores – pais tio, avós, professores -, precisamos beber desta água que corre, água-infância, que está ao alcance do nosso coração, das nossas mãos e da nossa inteligência.

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