A Divina Comédia em HQ: pelos caminhos de Dante

Há que se ter coragem para encarar o desafio: transpor para a linguagem da HQ, em formato sintético mas sem perder a densidade, a obra-prima da língua italiana. Desafio que o quadrinista Piero Bagnariol abraçou com dedicação, resultando no álbum A Divina Comédia em quadrinhos.

Processo criativo

Enquanto Piero, italiano radicado no Brasil, dedicou-se a uma cuidadosa pesquisa iconográfica, seu pai Giuseppe Bagnariol, admirador do poema dantesco desde seus tempos de estudante secundarista, realizou uma ampla pesquisa da vida de Dante Alighieri para embasar os roteiros de passagem entre um e outro trecho do poema. Para dar vazão à ampla pesquisa realizada, os autores prepararam, também, um blog, que deverá crescer nos próximos dias. O endereço para acessá-lo é http://divinacomediahq.blogspot.com/

Já os trechos do poema foram publicados na forma original das traduções – traduções essas, por sua vez, escolhidas por Maria Teresa Arrigoni, que indicou, para o Inferno, a tradução de Jorge Wanderley; e para o Paraíso, a tradução de Haroldo de Campos. O Purgatório ficou por conta da tradução de Henriqueta Lisboa, autora cuja obra se encontra sob os cuidados da Editora Peirópolis.

Lançamentos

O álbum foi lançado em maio de 2011 na Comix, em São Paulo, e em julho de 2011 na Livraria Quixote, em Belo Horizonte. Em São Paulo, contou com a presença de Giuseppe Bagnariol e da consultora Maria Teresa Arrigoni.

Textos e links sobre a obra

Confira abaixo: o  prefácio de Maria Teresa Arrigoni, o posfácio de Piero e Giuseppe e o texto de orelhas do álbum.
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PREFÁCIO

O clássico mundialmente conhecido como A Divina Comédia é a grande obra-prima do poeta florentino Dante Alighieri. Esse longo poema, escrito no italiano de seu tempo e dividido em três partes – Inferno, Purgatório e Paraíso –, no qual mais de catorze mil versos com rimas encadeadas ao ritmo dos tercetos aparecem divididos em cem cantos, é a narrativa de sua viagem ao além, acompanhado de seu guia Virgílio e de sua amada Beatriz.

O termo “comédia” pode fazer pensar que encontraremos uma história de caráter cômico, mas, na verdade, vamos acompanhar o protagonista ao longo de um percurso que começa com dificuldades e perigos e termina, depois de muitas peripécias, com um final feliz. Ao longo de muitos anos, o poema foi lido e divulgado com o título originalmente dado por Dante, Comedia, e só a partir de uma edição publicada em Veneza em 1555 passou a fazer parte do título o adjetivo ”divina”, acréscimo feito em comentário apaixonado de outro famoso escritor italiano, Giovanni Boccaccio em suas leituras públicas em Florença.

Nas palavras de Italo Calvino, ”um clássico nunca termina de dizer aquilo que tem para dizer”: a cada século, em cada momento e com cada leitor, continua a se materializar e a encantar, a desafiar nossa imaginação e nossos saberes. No entanto, é preciso vencer o desafio de atravessar os tempos. A grande narrativa dantesca, que poderia ficar relegada às estantes de uma biblioteca especializada, presa nas teias dos estudos literários, ou mesmo viver como livro de cabeceira apenas dos leitores aficionados, chega aos quadrinhos – coloridos vitrais legendados – com as traduções de Jorge Wanderley, Henriqueta Lisboa e Haroldo de Campos, dando continuidade e nova vida à aventura medieval que sobreviveu aos séculos.

A inspiração e a dedicação de Giuseppe Bagnariol, autor de um roteiro tão cuidadoso quanto bem elaborado, e a belíssima tradução em imagens criada pela imaginação, pela habilidade artística e pela sensibilidade de Piero Bagnariol em seus desenhos, dão à Divina Comédia de Dante novo formato, nova leitura e novas cores. E com esta ousada e primorosa publicação da Editora Peirópolis, os leitores de todas as idades poderão percorrer pela primeira vez ou revisitar os lugares dessa viagem milenar, reencontrando os seres demoníacos, os amigos e os santos que há séculos povoam o abismo do Inferno, a montanha do Purgatório e os céus do Paraíso de Dante.

Maria Teresa Arrigoni é bacharel em Letras pela USP, professora do Departamento de Língua e Literatura Italianas da UFSC, integrante do NEIITA (Núcleo de Estudos Interdisciplinares de Italiano) e do Núcleo de Pesquisas da Barca dos Livros. Atuou como consultora literária na elaboração do álbum A Divina Comédia em quadrinhos.

POSFÁCIO

Há um ano, quando meu filho Piero me convidou para trabalhar com ele nesta versão da Divina Comédia em quadrinhos, aceitei com entusiasmo, mesmo não sendo um literato nem um profissional do assunto, mas sim um grande admirador e leitor assíduo do principal poema dantesco desde o liceu, em 1961.

Ter nascido quase no mesmo dia de maio no qual nasceu Dante, enquanto Piero nasceu em 25 de março, dia do começo da imaginária viagem do Poeta, foram coincidências animadoras e de bom auspício. Tudo o mais foi uma longa imersão – não fácil, mas excitante e fascinante – nesta síntese do saber universal da época, contida nos catorze mil, duzentos e trinta e três hendecassílabos que compõem o poema.

A personalidade humana que surge daí, além do excelso valor poético, é um admirável exemplo de retidão, coerência, coragem e dignidade, mesmo no sofrimento extremo em que Dante conduziu sua atormentada existência de exilado.

Apesar de algumas concepções de caráter religioso-dogmático não serem fáceis de digerir, deixando Dante, em certos aspectos, um pouco parecido com meu pai, aproveito para declarar a ambos minha admiração, agradecimento e amor.

Giuseppe Bagnariol

Realizar a transposição de A Divina Comédia para os quadrinhos significou, para mim, um reencontro com o passado da terra que deixei há quase vinte anos, como migrante, para vir para o Brasil. Significou também um reencontro com meu passado pessoal, principalmente com meu pai, que foi meu verdadeiro guia nesta viagem.

O manuscrito Holkham, Giotto, Botticelli e Doré foram as principais referências iconográficas dessa trilha entre Inferno, Purgatório e Paraíso, que poderia ser considerada o arquétipo de todas as histórias ou uma metáfora do percurso espiritual do ser humano.

Após quinze anos dedicados à produção independente com a revista Graffiti 76% quadrinhos, este é também um encontro com a produção editorial brasileira e com a Peirópolis, à qual agradeço pelo convite maravilhoso e pela coragem em investir na produção nacional de quadrinhos.

À Renata, Luciana, Teresa, ao Fabiano e a todos aqueles que tornaram possível a realização desta obra, obrigado. À minha mãe, minha esposa e aos meus filhos, finalmente: essa história é para vocês!

Piero Bagnariol


TEXTO DE ORELHA

Lida, relida e traduzida ao longo dos séculos, A Divina Comédia guarda um mistério que encanta leitores das mais variadas feições. Leituras públicas – entre elas as de Roberto Benigni, disponíveis em DVD –, ao lado de livros e filmes inspirados no universo dantesco, ou que fazem de Dante Alighieri um personagem, atestam a vitalidade desse clássico de quase 700 anos. Até no videogame Dante encontra-se presente, alcançando espaços que nem mesmo sua incrível imaginação criativa poderia sondar.

Com A Divina Comédia em quadrinhos, a Editora Peirópolis apresenta uma nova leitura desse grande poema épico, com trechos selecionados de traduções feitas do italiano, entremeados por alguns quadrinhos com texto dos próprios autores. Uma construção artesanal que busca a síntese, mas sem perder a densidade da linguagem dantesca. A viagem de Dante em companhia de Virgílio, autor da Eneida, pelos três reinos do além-túmulo, surge renovada nas aquarelas de Piero Bagnariol, que se esmerou na tradução em imagens da obra reconhecida como a mais rica fonte da cosmovisão medieval, retratada por mestres como Botticelli, Doré e Dalí. Seu pai, Giuseppe Bagnariol, dividiu com ele a escolha dos trechos a serem quadrinizados e a elaboração dos textos dos quadrinhos originais.

Todo esse trabalho contou com o suporte de Maria Teresa Arrigoni, estudiosa da obra dantesca, que também escolheu as traduções – Jorge Wanderley para o Inferno e Haroldo de Campos para o Paraíso. Entre eles, a tradução do Purgatório feita por Henriqueta Lisboa, autora que tem na Peirópolis sua casa, completa o trio e reforça o simbolismo do número três, que marca toda a estrutura do poema. São três partes, cada uma com 33 cantos, cada canto composto por tercetos; e três personagens principais: Virgílio, símbolo da razão; Beatriz, símbolo da fé; e o próprio Dante, que personifica o homem. No total são 100 cantos, um deles introdutório.

A estrutura aqui apresentada busca a concisão da linguagem dos quadrinhos, ao mesmo tempo em que procura manter viva a palavra de Dante Alighieri. Dessa forma, deseja contribuir para que esse autor, tão intenso na vivência da sua própria época, encontre eco também na juventude brasileira de hoje.

Luciana Tonelli

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