Camélia do Mar

Esta história aconteceu e até hoje é mistério na pequena Iriri, cidadela que reúne as quatro mais belas praias do litoral capixaba. Posso assim assegurar que tudo principiou num certo oito de março, justo há mais de 30 anos, no fim dos anos 60, quando Vico Serenari, bem dizendo, Ludovico, moço filho do lugar, bom puxador de rede, talentoso pescador, soube, por intermédio do Professor Humberto (veranista de Muqui, no interior do Estado, cidade há pouca distância das praias de Iriri), que em junho do mesmo ano um astronauta estrangeiro iria pisar na Lua após alcançar o céu viajando num foguete.
– Impossível, Professor! Se a desdita acontece vai destruir todo o mundo. Só há de sobrar o mar invadindo tudo aqui! ? Vico desacreditou.
Daí, se justificou num discurso de quem sabe as tramas da natureza. Lembrou que a velha Lua governava os mil segredos das marés em movimento. Que, se é Cheia, cresce a água, faz aparecer os peixes. Se é minguante, arrefece, encurta a força do mar e o peixe desaparece. Quando Nova, assanha os bichos, cruzando peixe com peixe. E, se é Lua Crescente, é hora de desovar toda a cruza acontecida.
– Ademais, também a Lua controla as calmarias, os ventos, as tempestades. Tem o mando de tudo ? prosseguiu, argumentando. ? Não há de ser um piloto, num foguete prepotente, que pode pisar por lá no mais abusado feito. Se tentar, trará desgraça. Acredite no que digo.
Claro está que o professor, homem de muito estudo, achou graça no argumento. Trouxe de dentro de casa um jornal narrando o fato prometido para junho. Vico leu e não gostou. Calou-se mais por respeito à insistência do mestre. Desconversou, despediu, foi embora preocupado.
Desde aí mais se informou, quis saber da novidade. Trocou idéia com um, trocou idéia com outro, com os demais pescadores, viu que ninguém se importava com o história anunciada.
– É coisa de americano! Pra mim, pura invencionice, traficância de cinema, uma armação de tevê, tudo e tudo, propaganda ? comentava Agostinho, seu cunhado e pescador feito Vico Serenari. ? Não deve se molestar com temor por conta disso ? sossegava seu parente.
– Mas… se acontecer de fato!? Vai ser uma desgraceira! ? Vico sempre reagia.
O certo é que noutro passo dessa história acontecida, na semana demarcada para o tal pouso na Lua, Ludovico Serenari transferiu as suas coisas, roupa, rede de pesca, um fogareiro de gás, mais bastante mantimento, para o seu barco de uso. Bem na véspera do pouso do astronauta no Céu, Vico deixou Iriri.

Agostinho e a mulher, mesmo os demais pescadores, o Nestor do Bar das Pedras, o Padre Jacinto Paz e até o Doutor Cortes, médico de Iriri, por mais que se esforçassem, não conseguiram mudar a disposição de Vico.
– Fica, Vico! ? um dizia.
– Vico, fica! ? outro falava.
– É tudo uma patacoada essa história de astronauta e de seu pouso na Lua! Encenação, pode crer! ? ajuizou o doutor
– Ora, confia em Deus que haverá de prover! Nada vai acontecer! ? adiantou o vigário.
Vico, contudo, partiu.
– Eu é que não fico aqui aguardando o fim do mundo! Vou para o meio do mar, pois lá estarei a salvo! ? retrucou e foi embora, navegante solitário.
Claro que a bem da verdade o astronauta pousou, pisou, caminhou na Lua e o mundo não acabou. E, claro que a bem da verdade muitos desacreditaram do que viram na tevê, entre estes, Agostinho e mais alguns pescadores.
Doutor Cortes e o Padre, sem fazer estardalhaço, se convenceram do feito, certos de que realmente era um grande progresso, mais um passo do homem a favor da Humanidade, que nem disse o astronauta passeando pela Lua.

Já o Professor Humberto, sem desacreditar, confirmou o acontecido com outra preocupação:
– É certo que ele pisou. Foi, chegou e venceu feito César na batalha. Mas, o que importa agora é ir buscar Ludovico. Ele está em alto mar e, se desconhece o caso, acaba ficando lá, vagando pelo oceano sem ter muito o que fazer ? insistiu por várias vezes.
Vico? Ficou no mar. Uma semana, ficou. Só voltou quando Agostinho e outros três pescadores decidiram procurá-lo. Dois dias eles navegaram até o barco de Vico. O encontro foi feliz e o retorno, também.
O que todos estranharam, sem devida explicação, foi que junto de Vico veio moça loura e bela, com jeito de moça séria, filha de boa família. Ele e ela apaixonados, pois desde então, acertados, viveram que nem casados.
Ludovico Serenari pouco ou nada assegurou a respeito da origem dessa mulher que trazia. Apenas apresentou a moça para os amigos:
– Esta é minha Camélia com quem vou viver a vida! Meu presente do mar! ? foi só o que adiantou.
E a vida prosseguiu. Porém, a boca-pequena, não faltaram comentários.
Uns entendiam que a moça, a tal Camélia de Vico, também fugira da terra e se escondera nas águas com medo do astronauta que ia pisar na Lua. No encontro em alto-mar, o casal se afeiçoou e decidiu se casar.
– Mas cadê o barco dela!? ? perguntavam os descrentes nessa versão do ocorrido.

– Vai ver que o barco afundou e Vico salvou a moça em seu infeliz naufrágio ? vários justificavam.
– Se é assim, não tem erro! Quem salva moça no mar bem merece o seu amor! – diziam os convencidos por essa história arranjada.
Contudo, ainda havia os descrentes nessa idéia sem testemunha ocular. Estes vinham com invenção. Semeavam trama estranha.
– Essa Camélia é um mistério… Decerto, só pode ser… e um dia vamos saber tudinho o que aconteceu nas águas do oceano… bem no preto e no branco… no tim-tim por tim-tim, um dia vamos saber… Pago por esperar! ? segredavam alguns poucos intrigados com o fato, assim criando suspense.
– Pára com isso, rapaz! Deixa em paz dona Camélia que é pessoa distinta e não faz mal a ninguém! Que mistério qual o quê! ? depressa repreendia quem ouvia a tal suspeita.
No entanto persistia, pairava no ar a dúvida junto à brisa marinha, pois Vico nada de nada falava do acontecido. Se um ou outro teimava com pergunta indiscreta, ouvia de Ludovico a resposta de sempre:
– Camélia!? Ganhei da Lua… pra bem dizer, foi do mar! ? brincava e ria sem mais.
E, se nada mais dizia, mais despertava suspeita.

Era feliz com Camélia. Muitos gostavam dela, pois era amiga de todos em Iriri e Piúma, Neves, Marataízes, Itaóca, Itaípava, Anchieta e Ubú, praias e paraísos do litoral capixaba na rota de sul a norte, rumo a Guarapari, Vila Velha e Vitória, a capital do Estado.
De início, foi doceira, vendedora de quitutes aos veranistas nas praias. Também fazia peixada, se alguém encomendava. E fazia artesanato, mil objetos de conchas, dentes e ossos de peixe. Evidente que vendia. Daí, foi também parteira, junto de doutor Cortes. Sempre animada e disposta, gostava de estar em festas e cantava nessas festas. Ajudava na Igreja. Tornou-se até professora. Alfabetizava adultos.
Ludovico Serenari sempre foi pescador.
No acerto, viviam bem. Vinte anos foi assim.
Eis que então aconteceu o que ninguém esperava.
Em outro oito de março, nascendo os anos noventa, tal qual um vento suave que passa e toma percurso sem avisar onde vai, Camélia sumiu do mundo.
Ludovico endoidou. Procurou pela mulher em todo canto que fosse, procurando em terra e mar. Oito dias navegou querendo encontrar Camélia. Foi à capital do Estado. Pagou missa na capela para que ela voltasse. Vivia desesperado.
Por fim, escalou o topo da colina que existe na região de Piúma, o vistoso Monte Agá, e de lá pôs-se a gritar:
– Camélia!!! Camélia!!! Camélia!!! ? um dia inteiro gritou.

Decerto que tudo em vão.
Desde aí, não mais pescou. Encostou-se em Agostinho, morando com o cunhado, a irmã, mais os sobrinhos. Manteve o barco de pesca. Nele navegava às vezes, sumia além do horizonte, alcançava o alto-mar, levava tempo por lá, contudo, sempre voltava. Virou o triste da terra, nas praias de Iriri.
Todo oito de março subia no Monte Agá e gritava de lá, bem no topo do monte:
– Ca-mé-lia!!! Ca-mé-lia!!! Ca-mé-lia!!! ? nos gritos acentuava cada sílaba do nome de sua mulher amada.
Foi notícia de rádio. Apareceu na tevê. E criou tradição que trouxe muito turista para ver Vico gritar. Teve até cartão postal com foto de Ludovico gritando no Monte Agá pra veranista comprar. Todo oito de março, bem no dia da mulher, era assim em Iriri. E foi assim por dez anos, até o ano dois mil, quando Vico Serenari desapareceu no mar, justo em oito de março. Dizem que ele embarcou no nascer da madrugada e se pôs a navegar. Nunca mais tornou à terra.
Hoje, em Iriri, lembram dele com saudades. Uns aguardam seu retorno, certamente discretos. Outros, sem esperanças, crêem que ele se afogou. Todos, porém, desconversam, no caso de um veranista perguntar por Ludovico.
– O Monte Agá está lá, aberto à visitação! ? falam pouco mais que isso.
Já o Professor Humberto, que é homem de não mentir e me inteirou desta história certa vez em Iriri, com a vasta sabedoria que a idade lhe concedeu tem detalhes curiosos a acrescentar na trama de tudo o que aconteceu.
– Ora! A bem da verdade, Vico não se afogou! Nadava melhor que peixe, não iria se afogar! ? garantiu com segurança, no encontro que tivemos, já em 2002, no Natal, em Iriri.

Disse da ocasião em que conversou com Vico a respeito de Camélia, no princípio de 2000:
– O que aconteceu com ela!? ? pressionou o amigo num bom momento de prosa.
– Ah! Professor, nem lhe conto… nunca contei a ninguém, pois me envergonha contar.
– Conta de vez, Ludovico! Por sinal, a sua história começou numa conversa que você teve comigo, quando falei contigo do astronauta estrangeiro que ia pisar na Lua. Você há de se lembrar e não pode me negar que por isso conheceu sua estimada Camélia. Daí, mereço saber o que aconteceu com ela. Quem sabe, contando a mim, assim destrava a tragédia? ? forçou, querendo a verdade.
– É verdade, professor… Devo esta ao senhor…
O caso é que Ludovico contou todo o sucedido.
– Acontece, professor, que desacertei o passo e fiz a pior asneira que um homem pode fazer com sua mulher amada… Eu desmereci Camélia ao sair com outra moça, mais por farra de homem bobo… e Camélia descobriu. Foi daí que ela partiu. Só posso dizer, amigo, que meu castigo chegou mais depressa que esperava.
Afirmou que, castigado, ele agora bem sabia o valor de uma mulher para o coração de um homem.
– É mais que a metade do céu. É a mais suave brisa e a mais quente fogueira que nos anima o prazer. É o mais alegre mar. A terra em que germinamos toda a semente da vida. Acredite, professor. Hoje eu sei, mas que adianta saber tanto nessa hora!?

Adiantou Ludovico que ao encontrar Camélia nas águas do oceano…
– … ela me deu um anel, jóia que trouxe das ondas ? comovido, confessou o fato surpreendente. ? Deixou claro que, se um dia, eu tirasse de meu dedo esse anel que ela me deu, iria embora de mim sem mesmo se despedir. E foi o que aconteceu.
Disto ainda explicou que antes jamais tirara o tal anel de seu dedo.
– Somente na ocasião em que dei o passo errado tirei o anel de mim, por conta da consciência não me permitir errar trazendo o anel comigo ? esmiuçou a história. ? Pois, bastou tirar do dedo, tão logo o anel sumiu. Era encantado, esse anel, que evaporou, virou nada, levou Camélia com ele. Desde ai, me desgracei e só me resta clamar, esperando merecer o reencontro com ela ? lamentou-se, Ludovico.
E o Professor me contou:
– Não voltamos a falar. Poucas semanas depois, Vico sumiu de vez. Foi embora mar adentro ? tratou de reafirmar. ? Verdade é que desde os gregos, ninguém ignora o fato, há belíssimas Nereidas nos mares de todo o mundo, mais as histórias de amor que vivem com certos homens. No Brasil, essas Nereidas são chamadas de Mãe D?Água. Sei também que sempre têm o nome de alguma flor. E Camélia é uma delas. Creio que sim, não duvido ? afiançou-me o mestre. ? Penso que Ludovico certamente está com ela. Que, juntos, sejam felizes! ? assim ele encerra a trama.
O que mais sei desta história é que, na precisa tarde em que me inteirei da lenda de Camélia e Ludovico com o Professor Humberto, fui me banhar no mar, na Praia dos Namorados, a mais bonita das praias da cidade de Iriri, no litoral capixaba.
Quem ainda não foi lá, é justo que deve ir. Ir para ver e crer na magia de Iriri.

copyright do autor

*José Arrabal é professor universitário, jornalista e escritor, autor de contos, novelas e romances. Entre suas obras, sobressaem “O Nacional e o Popular na Cultura Brasileira: Teatro” (Editora Brasiliense), “A Princesa Raga-Si”, “O Livro das Origens”, “Lendas Brasileiras”(Vol 1/Vol. 2) e “Cacuí – O Curumim Encantado” (Editora Paulinas); “A Ira do Curupira” (Editora Mercuryo Jovem); “O Noviço”, “Demeter, A Senhora dos Trigais”, “O Monstro e a Mata” e “O Nariz do Vladimir” (Editora FTD); “Histórias do Japão” (Editora Peirópolis); e “Anos 70 ? Ainda Sob a Tempestade” (Aeroplano Editora).

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