Ao longo dos últimos quatrocentos anos as ciências da física passaram por duas grandes revoluções: a primeira, que se iniciou com Copérnico, e a segunda, na virada do século XX, com o desenvolvimento das teorias da mecânica quântica e da relatividade. Desde a metade do século XIX, as ciências da vida foram radicalmente transformadas por uma grande revolução, iniciada por Charles Darwin. Em contraste com esses dois campos da ciência objetiva, as ciências da mente, que apareceram no final do século XIX, ainda estão por produzir uma grande revolução. Pode-se dizer que a revolução de Copérnico levou cerca de cento e cinquenta anos para chegar ao término, nas leis da física clássica formuladas por Isaac Newton, e a revolução de Darwin levou mais ou menos o mesmo tempo para chegar à fruição no projeto Genoma Humano, no início do século XXI.

A segunda revolução na física, contudo, ainda não foi completada, pois ninguém teve sucesso em unificar os grandes insights da física quântica e da teoria geral da relatividade. Ainda existem problemas fundamentais. Um dos mistérios centrais não solucionados é o problema de medição, que tem a ver com a natureza e o significado de se fazer a medição de um sistema quântico. Antes que tal medição, ou observação, ocorra, um sistema quântico é descrito com relação às funções de ondas abstratas, ou ondas de probabilidade. Partículas, como elétrons e fótons, não têm localização definida e de fato nem mesmo existem como entidades discretas, a menos e até que sejam medidas – elas existem apenas como abstrações matemáticas. Contudo, de algum modo essas entidades nebulosas são medidas com instrumentos de tecnologia, com os quais interagem de forma causal. Então, esses fenômenos quânticos intangíveis transformam-se nos tijolos elementares objetivamente reais do universo físico. Ninguém sabe ainda como sucede essa transição da abstração matemática para a realidade concreta, mas de algum modo o observador – a pessoa que projeta e conduz os experimentos – desempenha papel-chave em trazer o mundo quântico à vida.

As coisas ficam ainda mais estranhas quando a mecânica quântica, uma teoria do reino subatômico, é aplicada à cosmologia. De acordo com as equações do novo campo da cosmologia quântica, abstraindo-se um observador, o universo como um todo fica congelado na imobilidade. Os físicos tentam resolver o assim chamado “problema do tempo” dividindo o mundo em dois domínios: um observador subjetivo, com seu relógio e outros equipamentos de medição, e o resto do universo objetivo. Mas daí resulta que a função de onda da mecânica quântica do resto do universo depende do tempo designado pelo observador. E a noção de um observador implica necessariamente a presença de consciência, sem a qual nenhuma observação se realiza.

Assim, a mecânica quântica indica que a consciência pode desempenhar papel crucial na formação e evolução do universo como o conhecemos. Mas a maioria dos pesquisadores em psicologia e ciência do cérebro considera a consciência nada mais que uma propriedade emergente do cérebro, sem significado para o universo como um todo. As suposições fundamentais sobre a natureza da mente de acordo com a ciência moderna estão amplamente enraizadas na visão mecanicista de mundo da física clássica que dominou o final do século XIX. E, mesmo hoje, em geral, não se requer dos estudantes das ciências cognitivas o estudo da física do século XX. A suposição muito difundida, virtualmente incontestada na disciplina, é que nem a mecânica quântica, nem a teoria da relatividade são relevantes para os lerdos fenômenos macroscópicos que ocorrem no cérebro e são relevantes para a mente.

Muitos estudos científicos indicam que os fenômenos mentais – tais como desejos, pensamentos, emoções e memórias experienciados subjetivamente – influenciam o funcionamento e comportamento do cérebro. Em resposta a essa evidência empírica, um número crescente de cientistas cognitivos conclui que os fenômenos mentais são reais, mas insiste que, a fim de interagir de modo causal com o cérebro, a mente deve ser física. Entretanto, os fenômenos mentais experienciados de forma subjetiva carecem de quaisquer características físicas e não podem ser detectados com nenhum dos instrumentos físicos de tecnologia, ainda que se tenha identificado que muitas funções cerebrais específicas contribuem causalmente para a geração do processo mental. Alguns cientistas e filósofos da mente imaginam as funções cerebrais como dotadas de uma identidade dual, tanto como processos físicos objetivos quanto como eventos mentais subjetivos. Mas não oferecem explicação sobre aquilo que no cérebro capacita-o a gerar, ou mesmo influenciar, eventos mentais, que dirá sobre o que permite processos neurais específicos assumirem essa identidade dual. Esse é o chamado “problema difícil”, que não foi resolvido desde que os cientistas começaram a estudar a mente. Os fenômenos mentais permanecem um enigma para os cientistas cognitivos tanto quanto o observador para os físicos modernos.

Uma hipótese essencial deste livro é que o problema da medição na mecânica quântica, o problema do tempo na cosmologia quântica e o problema difícil na ciência do cérebro estão todos profundamente relacionados. Se isso é verdade, implica que a solução para qualquer um deles requer uma solução para os outros dois. O primeiro capítulo estabelece a proposição de que as ciências da mente fracassaram em amadurecer até o ponto de uma revolução porque fracassaram em adotar uma estratégia fundamental, que foi a chave do sucesso da física e da biologia. Enquanto físicos e biólogos delinearam meios altamente sofisticados de observar processos físicos e organismos vivos, cientistas cognitivos fracassaram no desenvolvimento de formas rigorosas para observar os fenômenos mentais de modo direto. Essa exclusão, ou, no mínimo, marginalização, dos eventos mentais subjetivamente experienciados da observação objetiva resultou em um “ponto cego” na visão científica da realidade.

A insistência dos cientistas de que a consciência e todos os outros fenômenos mentais devem ser físicos está enraizada em uma estrutura metafísica naturalista, que sustenta que apenas processos físicos exercem influências causais sobre a natureza. No capítulo 2, são examinadas várias interpretações do naturalismo, que conduzem à assustadora conclusão de que ninguém parece realmente saber o que se quer dizer com “físico”! Enquanto neurocientistas usualmente consideram esse um tema não problemático, quanto mais profundamente os físicos esquadrinham a natureza de massa-energia e espaço-tempo, mais elusivo torna-se o conceito de matéria. Particularmente na física quântica, o status físico e objetivo do mundo material independente de qualquer sistema de medida parece altamente suspeito.

O capítulo 3 desenvolve uma teoria mais natural da consciência humana, baseada não nas suposições antiquadas da física clássica, mas em respostas a alguns dos mais perspicazes insights de físicos contemporâneos, incluindo Freeman Dyson, John Wheeler, Paul C. W. Davies, Andrei Linde e Michael B. Mensky. Uma premissa central dessa teoria é que a física quântica, a despeito das suposições dominantes em contrário, tem grande relevância para o entendimento das interações mente-cérebro e do papel da mente no universo.

Enquanto astrônomos desenvolveram e aperfeiçoaram o telescópio para explorar as profundezas do espaço e biólogos usaram microscópios para esquadrinhar a natureza de células e genes, meios sofisticados de explorar o espaço da mente e todo o âmbito dos fenômenos mentais ainda estão por vir a desempenhar um papel na ciência. O quarto capítulo apresenta métodos para o desenvolvimento de um tipo de “telescópio para a mente”, começando pelo refinamento meditativo da atenção e da introspecção. São então discutidos problemas e soluções referentes à possibilidade de se incluir a introspecção como elemento integrante do estudo científico da mente.

O capítulo 5 apresenta uma “teoria especial da relatividade ontológica”, que propõe que os fenômenos mentais não surgem do cérebro, mas, em vez disso, todos os processos mentais e físicos surgem de outra dimensão da realidade existente antes da bifurcação de mente e matéria. Versões primitivas dessa hipótese remontam a Pitágoras e a Platão, seguidas de uma discussão da teoria formulada pelo físico Wolfgang Pauli e seu colega Carl Jung. Outras hipóteses assemelhadas de físicos mais recentes, incluindo-se as de David Bohm, Eugene Wigner, Bernard d’Espagnat, Leonard Susskind, Roger Penrose e George Ellis, também são discutidas.

Por mais intrigantes que sejam essas teorias, nenhum dos filósofos e cientistas citados foi capaz de apresentar qualquer meio empírico de testar suas hipóteses. O capítulo 6 dá o passo inaudito de propor uma série de experimentos em consciência que poderiam ser usados para testar a hipótese científica de um reino arquetípico de ideias puras. Esses experimentos são baseados em formas de se treinar a mente e explorar experiencialmente o “reino da forma”, conforme a tradição meditativa do antigo budismo Theravada do sudeste da Ásia. Esse capítulo conclui com uma discussão da potencial interface entre tal ciência contemplativa e a ciência moderna desenvolvida no Ocidente.

O capítulo 7 estende a já discutida teoria da relatividade para uma hipótese todo-abrangente e relativista sobre a natureza participativa da realidade, começando com uma discussão de ideias semelhantes de filósofos modernos, como Ludwig Wittgenstein, Willard Quine, Hilary Putnam e Bas van Fraassen, e avançando para hipóteses provocativas de físicos de destaque, como Stephen Hawking, Gerard ’t Hooft, John Wheeler, Anton Zeilinger, Hugh Everett e Michael Mensky. Um tema recorrente é a noção do universo participativo como um circuito autoexcitado. Essas ideias são então comparadas à teoria budista da relatividade ontológica conhecida como “filosofia do Caminho do Meio”, que remonta ao budismo Mahayana indiano do século II.

Por mais interessantes que sejam essas teorias filosóficas e científicas, os físicos reconhecem que não foram capazes de submetê-las ao teste de experiência. Mais uma vez a tradição meditativa do budismo oferece aqui meios práticos de explorar o mundo da relatividade ontológica por meio de práticas contemplativas altamente avançadas. Estas são explicadas no capítulo 8, seguidas de uma avaliação científica da credibilidade de tais meios de investigação.

O capítulo final enfoca o tema da simetria, que é crucial na física moderna. Em particular, retornamos ao campo da cosmologia quântica e ao problema do tempo congelado, no qual o papel do observador mais uma vez parece fundamental para o universo em evolução. Iniciando com uma discussão científica dessa teoria, deslocamo-nos para uma tradição meditativa que muitos consideram o pináculo da teoria e prática budistas, conhecida como a “Grande Perfeição”, enfatizada no budismo Vajrayana do Tibete. Examinando os paralelos entre o conceito científico de “vácuo derretido” e a teoria budista do espaço absoluto dos fenômenos, esse capítulo descreve a teoria e a prática da Grande Perfeição e conclui com uma discussão sobre complementaridade entre ciência e religião no todo.

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