Entrevista com Gaia Stella, autora de “Se eu fosse um fungo” e “Se eu fosse uma planta”
Entre a imaginação e a ciência, Se eu fosse um fungo convida crianças (e adultos) a olharem para o mundo com curiosidade renovada. Nesta entrevista, a autora Gaia Stella conta como uma escuta distraída no rádio se transformou em paixão pelos fungos, fala sobre o delicado equilíbrio entre brincadeira e informação científica em seus livros e compartilha as influências, percursos e aprendizados que moldam sua criação. A conversa também passa por Se eu fosse uma planta, que chega agora em janeiro pela Peirópolis, ampliando esse olhar sensível e curioso sobre a vida. Um convite para mergulhar nos bastidores dessas obras que revelam as grandezas escondidas nas coisas aparentemente pequenas.
Peirópolis: De onde veio a ideia de escrever um livro sobre fungos para crianças pequenas?
Gaia Stella: Gosto de escutar rádio enquanto trabalho. É minha música de fundo constante, e vou abaixando ou aumentando o volume, dependendo do que estou fazendo, e assim, dou mais ou menos atenção ao que estou ouvindo.
Durante um desses momentos, escutei Andrea Bellati, um biólogo, contando que, se estendêssemos o DNA presente nas células humanas, seu comprimento cobriria muitas vezes a distância entre o Sol e a Terra; se ele não disse exatamente assim, falou algo muito próximo disso, de qualquer forma, era uma distância realmente grande!
Essa ideia me fez refletir sobre quantas coisas pequenas contêm grandezas insuspeitadas. Comecei a ler e buscar informações sobre esse conceito e, através de caminhos tortuosos e da leitura do livro de Merlin Sheldrake recomendado pelas amigas da Spazio b**K, uma livraria imperdível de Milão, acabei me apaixonando por fungos, descobrindo tudo o que antes ignorava completamente sobre eles. E quando algo me apaixona particularmente, é quase natural desejar aprofundar o conhecimento e transportar as experiências que estou vivendo para a minha prática artística, o que frequentemente se traduz em um álbum ilustrado.
P: Seu livro apresenta uma linguagem muito próxima às crianças, fazendo referências à brincadeira e ao faz de conta, mas também traz importantes informações científicas. Como chegou nesta fórmula que nos parece muito acertada?
GS: Foi um percurso muito longo e cansativo. Há muito tempo eu desejava ser autora de livros para crianças e, por isso, me esforcei para me tornar uma! Li, escrevi, estudei, reli, estudei, reescrevi, reli… tentando encontrar a minha voz, algo, aliás, que continuo a fazer até hoje.
P: Quais são foram suas principais influências neste livro? Inspirou-se em outros trabalhos?
GS: Gosto de todos aqueles livros que ficam no meio do caminho entre a ficção e a não-ficção. Penso em “Quando Deixamos de Entender o Mundo” de Benjamín Labatut, onde a linha entre verdade e ficção é tênue, mas também no maravilhoso “Minha Família e Outros Animais” de Gerald Durrell. Em geral, gosto de ler algo em que descubro coisas novas, mas que me ofereça também a oportunidade de um mergulho em uma boa história.
Além disso, acredito que me sentir confortável nessa fronteira também deriva de como fui acostumada a aprender: frequentei uma escola Waldorf e o aprendizado seguia métodos, às vezes, não convencionais. Por exemplo, para conhecer a história da África, lembro que o professor passava horas nos contando sobre como viviam os beduínos. Eu ficava tão imersa nos relatos que precisava beber muita água porque sentia todo o calor do deserto!
Não tínhamos livros didáticos, porque nós mesmos os criávamos fisicamente: recebíamos cadernos grandes com páginas em branco, escrevíamos os textos que nos eram ditados, fazíamos a diagramação e realizávamos as ilustrações. Não era muito diferente do que faço agora!
P: Você também escreveu Se eu fosse uma planta, que sai em janeiro aqui no Brasil. O quão desafiador foi escrevê-lo depois de Se eu fosse um fungo?
GS: Na verdade, foi menos exigente do que o primeiro livro. Parecia que eu tinha um caminho traçado para seguir, e acho que eu acabei ganhando um pouco de confiança em mim mesma, o que também me permitiu divertir-me mais.
P: Com esses livros informativos, o que deseja deixar como legado para as crianças, e para os adultos que leem com elas?
GS: Acredito que o entusiasmo seja contagioso, e eu ficaria feliz se meus livros conseguissem despertar curiosidade, tanto em relação ao conteúdo do próprio livro quanto sobre qualquer outra coisa.

Add Comment