Entrevista com Yaguarê Yamã, autor de Outros contos da floresta - Editora Peirópolis

Entrevista com Yaguarê Yamã, autor de Outros contos da floresta

 

Peirópolis: O livro “Outros contos da floresta” é publicado doze anos após “Contos da Floresta”. O que mudou, na sua opinião, em relação ao espaço dado à literatura indígena no Brasil?

Yaguarê Yamã: Na minha opinião, nada mudou. O que ocorreu foi o acréscimo de conhecimento, graças aos anos de experiência enquanto autor. Em 2024, completam-se 24 anos de minha trajetória literária, e isso é incrível! Não perdi, apenas ganhei, convivendo com pessoas do universo literário e da criação. Portanto, não falo apenas de mim, mas da literatura indígena como um todo. Quando publiquei “Contos da Floresta”, havia poucos autores indígenas. Hoje, esse número triplicou, muito graças à boa recepção do público em relação à literatura dos povos nativos.

 

P: E na sua vida de ativista indígena? Como era a luta pelos povos originários doze anos atrás e como é hoje?

Y: Bem mais desafiadora. Ao decidir me tornar escritor, estava ciente de que teria que dissipar muitos preconceitos e ultrapassar inúmeras barreiras até ser de fato reconhecido. Mas, como você pode ver, persisti. Sabia que, por meio da literatura, poderia efetivamente auxiliar o movimento indígena. Agora, em 2024, com mais de 40 livros publicados e vários premiados, confirmo que a luta dos povos indígenas é incessante, assim como os desafios. Após superarmos muitos obstáculos, o movimento avançou significativamente. E a literatura que produzimos tem sido uma grande contribuição para esse progresso.

 

P: Na epígrafe deste livro, você apresenta versos que refletem sobre a passagem do tempo. Como os povos originários percebem a passagem do tempo? É muito distinta da concepção do homem branco?

Y: Primeiramente, vamos desmitificar o tempo. Após quinhentos anos de colonização, os povos nativos mudaram junto com a população em geral. Atualmente, muitos já não vivenciam o tempo livre, sem amarras, como no passado. Eu mesmo, na condição de professor, ativista e escritor, busco um equilíbrio entre o tempo livre dos nossos ancestrais e o tempo opressor do capitalismo predominante. Anseio por um tempo em que se possa organizar a própria rotina e viver de acordo com o tempo que Deus nos proporciona.

 

P: Muito se discute sobre as valiosas contribuições que os povos indígenas podem oferecer ao mundo ocidental. Na sua visão, quais são as mais urgentes?

Y: Como mencionei, a questão é o tempo. Oxalá o capitalismo fosse mais humano e o tempo, menos destrutivo. Assim, poderíamos viver contentes. Outra contribuição vital, ainda subestimada, é a relação entre o homem e a natureza. Os mais ricos e as grandes corporações, buscando poder através do capital, devastam o que é natural sem preocupação com o amanhã ou com as pessoas. Estamos cientes das consequências: a acelerada destruição do mundo.

 

P: Por que utilizar “indígena” em vez de “índio”? Qual a diferença implícita entre essas duas expressões?

Y: Esse é um debate frequente entre defensores e detratores. São dois termos de idêntico significado e origem latina, porém com sentidos distintos na atualidade. Entendo a resistência das pessoas em alterar vícios de linguagem, contudo, se há respeito por um determinado grupo humano, suas dores também devem ser respeitadas. Um povo que tanto luta contra o preconceito deve ser ouvido; neste caso, referimo-nos ao termo “índio”. Se os indígenas rejeitam esse termo por considerá-lo pejorativo, por que não respeitar? Já ouviu a frase: respeito é bom e todos gostam?

 

P: Você acha que a visão dos brancos em relação aos povos originários está mudando?

Y: Oh, claro! Isso se deve muito à literatura indígena. Por esse motivo, a literatura que produzimos é a menina dos olhos desse movimento de desmistificação. Nada é melhor do que trocar armas que matam por armas que lançam amizade, conhecimento e sabedoria. É por isso que afirmo que a literatura indígena representa o que temos de melhor, mais belo e mais verdadeiro, o que levamos da aldeia para a cidade. As pessoas começam a se respeitar mais quando se conhecem, e é isso que tem faltado no relacionamento entre a população brasileira e os povos indígenas. Na escola, no meio social… muita coisa mudou devido a esse conhecimento. Claro, ainda há muito a mudar, mas acredito que, se continuar nesse caminho, em breve, todas as pessoas de bem irão nos compreender.

 

P: Quais são os principais preconceitos ou estereótipos que você observa em nossa sociedade?

Y: Como mencionei, as coisas estão mudando. Cada vez mais, as pessoas nos conhecem e nos respeitam. É claro que nem todos têm compaixão, o que também é compreensível. As palavras “índio” e “tribo” ainda são utilizadas, mas em menor frequência. A ideia de que o indígena vive na mata e anda nu ainda persiste, porém em menor escala, assim como a imagem estereotipada de ter cabelos lisos e os traços dos xinguanos, o que também está desaparecendo da sociedade. No entanto, a maior parte desse estereótipo ainda está enraizado nas mídias, que parecem continuar vivendo na época de quinhentos.

 

P: Qual ou quais foram as suas inspirações para escrever os contos deste livro?

Y: Como sempre, a época de minha infância, quando ouvia as sessões de histórias, além de minha vivência nesse mundo cheio de aventuras e histórias de assombração é o que me inspira. Fui forjado nas histórias tradicionais dos povos indígenas, por isso tenho essa sensibilidade. A maior parte dos contos que escrevo são costuras de retalhos de imaginações ricas dos meus patrícios. Dessa forma, os contos desse livro são invenções, vivências e lembranças, tudo num só movimento. Uso a imaginação fértil para falar aos leitores desse meu mundo encantado cheio de risos, diversões, amor e espantos.

 

P: Qual é a importância das histórias e, portanto, da literatura, para o seu povo?

Y: A literatura oral sempre foi presente na minha gente. A cultura de contação de histórias é tradicional e mantida há gerações. Sem ela, meu povo não vive. No meu povo, a popularidade das pessoas é medida pela capacidade de contar histórias e fazer o ouvinte rir ou chorar. Para você ter uma ideia, as pessoas saem, viajam e passam tempo caçando na floresta só para ter o que contar nas sessões de histórias. Dessa feita, a maioria das histórias são fresquinhas, nunca antes contadas. Isso já demonstra o quanto a literatura é especial. Não à toa, que são sete escritores maraguás no mercado literário nacional hoje. As vivências e experiências são muito diversas.

 

P: O que você mais deseja para o seu povo?

Y: Que o governo finalmente demarque seu único território, no rio Abacaxis e Curupira, parado desde 2005, e assim todo esse mundo encantado não seja extinto como está ocorrendo cada vez que entra um invasor, um garimpeiro ilegal, um madeireiro, um traficante… Que os conflitos por falta dessa “não demarcação” e que estão dizimando meu povo e expulsando as pessoas do território, parem. É pedir muito?

 

P: Como imagina o país daqui a doze anos?

Y: Vou te responder como geógrafo: do ponto de vista econômico, tem tudo para melhorar, do ponto de vista cultural, vai depender de nosso trabalho de formiguinhas tentando conscientizar as pessoas, já do ponto de vista político-social, infelizmente não vejo com bom ânimo.  A corrupção e a sensação de insegurança assolam o país, além do mais parece que o povo não se importa muito com isso. Mas por outro lado, nesse meio tempo, se houver a demarcação do território do povo Maraguá com certeza muita coisa vai melhorar para algumas centenas de pessoas. Pelo menos isso.

 

P: Um recado para os leitores…

Y: Leiam livros construtivos, que tragam mensagens e conhecimento plural! Leiam a literatura indígena que tem um papel social e cultural importante para a brasilidade, que conclama a todos a dar as mãos em prol de um mundo melhor, mais tradicional e mais coletivista. Leiam Yaguarê (risos).

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