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"Futuros imaginários": introdução à edição brasileira

Richard Barbrook
Londres, Inglaterra, 16 de novembro de 2008

“Nós queremos que você escreva uma introdução para a versão em português de Futuros imaginários ? algo especial para nossos leitores”, dizia o correio eletrônico dos tradutores no Brasil. O que deveria falar? Pensei imediatamente em Suba, DJ Marky e DJ Patife, a trilha sonora nas madrugadas de escrita que geraram este livro. Seus ritmos contribuíram para sua construção de frases, e também para os fluxos dos argumentos. Talvez eu devesse começar a introdução explicando porque esses músicos estavam tocando no meu computador. Definitivamente não foi por acaso. Graças ao meu trabalho na Universidade de Westminster, tive o prazer de lecionar para alguns inteligentes estudantes brasileiros durante a última década. Através deles e por outros contatos, fiz a longa viagem ao Sul três vezes para falar em conferências e festivais no Rio de Janeiro, São Paulo, Brasília e Pipa. Dancei em uma escola de samba, em badaladas casas noturnas e sob as estrelas na praia. Discuti a política do Partido dos Trabalhadores, analisei o movimento de justiça global e debati longamente as teorias da esquerda noites adentro. Admirei a criatividade e dedicação dos artistas, hackers e ativistas brasileiros. Apesar da barreira da língua, agora tenho amigos neste fascinante e distante país. Entusiasmado com essas visitas, retribuí o favor ajudando a organizar, em 2005, um evento em Londres, em que Gilberto Gil apresentou as iniciativas inovadoras do Ministério da Cultura em novas mídias. Mas, você pode perguntar: “O que essas reminiscências têm a ver com este livro? Por que falar sobre elas na introdução da tradução brasileira de Futuros imaginários?” É porque eu me lembro de estar sentado do lado de fora do telecentro comunitário, em 2004, em Pipa (RN), quando me perguntaram uma questão de suma importância: “Estar no Brasil mudou a maneira como você pensa a Internet?” Pois meu desafio nessa introdução é explicar por que a resposta é: “Sim!”

“Futuros imaginários” é um livro sobre o poder político e cultural das profecias tecnológicas. Durante a Guerra Fria, os impérios estadunidense e russo competiram não só para controlar o espaço, mas também o tempo. A Internet e os computadores têm sido ferramentas mais do que úteis ao longo dos anos. Por mais de meio século, eles também incorporaram sonhos utópicos a serviço da ambição imperial. A nação que abre o caminho do futuro no presente pode reivindicar a liderança sobre toda a humanidade. Quando comecei a pesquisa para este livro, em 2002, meu foco estava exclusivamente no Norte. Eu estava fascinado por como os futuros imaginários da Guerra Fria ainda dominavam o mundo contemporâneo, mesmo muito depois da queda do muro de Berlim. O império estadunidense pôde ter prevalecido sobre seu rival russo, mas seus promotores permaneceram presos dentro de um marco ideológico desenhado para este confl ito geopolítico. Evidentemente, este livro reflete o período no qual foi escrito: dos vestígios da bolha ponto com e do momento da invasão do Iraque pelos EUA. Por toda a Europa, líderes políticos, acadêmicos especialistas e analistas da mídia estavam convencidos de que os Estados Unidos ? a terra da vanguarda da computação e da Internet ? seria hoje o nosso amanhã. Onde o presidente dos EUA nos guiasse, nossos países deveriam seguir ? mesmo que isso significasse mandar tropas para terras estrangeiras onde elas não fossem bem-vindas. Como alguém que esteve entre os dois milhões de pessoas que marcharam contra esta tolice em Londres no dia 15 de fevereiro de 2003, eu escrevi este livro: ou seja, como um grito de protesto. Ao explicar penosamente a história dos futuros imaginários da inteligência artificial e da sociedade da informação, eu queria equipar seus leitores com o conhecimento para recusar essas profecias anacrônicas. Da próxima vez que alguém disser que a utopia pós- industrial está logo ali ao lado, você pode responder que essa previsão não é nada mais que um mcluhanismo reciclado. A Guerra Fria terminou ? e os futuros imaginários fabricados nos EUA também.

Assim como pensava meu entrevistador em Pipa, eu não precisaria visitar o Brasil ou conhecer qualquer pessoa do país para chegar a esta conclusão. Poucos dos autores que preenchem as prateleiras de meus estudos com pensamentos sobre computação e Internet estão interessados no impacto das tecnologias de informação nos países em desenvolvimento. Assim como eles, eu poderia ter dito tudo que quisesse neste livro sem fazer nenhuma menção à maioria da humanidade. Computadores e Internet são do Norte, então porque se preocupar com o Sul? Felizmente, meus companheiros e companheiras brasileiras me impediram de sucumbir a essa comodista tentação. Suas influências adicionaram profundidade à análise de Futuros imaginários. Acima de tudo, eu percebi o quão diferente do Norte o mundo parece, visto do Sul. Não são apenas as constelações no céu que estão reviradas, mas também a memória geopolítica. Quando visitei Brasília em 2004, eu vi com meus próprios olhos os edifícios modernistas de uma sociedade melhor que era negada ao próprio país. Como o livro enfatiza, os líderes intelectuais do império estadunidense eram a torcida animada do golpe militar de 1964 que derrubou o governo democraticamente eleito de João Goulart. As maravilhas do estilo estadunidense de futuro de alta tecnologia justificavam os horrores da ditadura imposta ao Brasil na época. Para nós, que vivemos na Europa Ocidental, é sempre um choque encontrar a desigualdade e a violência que resultaram desse caminho autoritário em direção ao desenvolvimento. Como nossa experiência com a hegemonia estadunidense durante a Guerra Fria foi relativamente benigna, só entendemos realmente os custos humanos das regras imperiais quando vamos para o Sul. Os capítulos finais de Futuros imaginários refletem o que eu aprendi em minhas viagens ao Brasil. Enquanto escrevia o livro, sabia que críticas mais ferozes a essas profecias utópicas do Norte explicavam como seus defensores tentaram imaginá-las no Sul. Com muita surpresa, descobri que os apoiadores estadunidenses do golpe de 1964 no Brasil foram também os arquitetos da desastrosa invasão daquela nação ao Vietnã. Com as forças lideradas pelos EUA que ocupam o Iraque e o Afeganistão, o paralelo com o presente deve ser desenhado. O desejo de possuir o tempo está intimamente conectado com a ambição de controlar o espaço. Quando olhei o mundo a partir do Sul, pude ver quão facilmente os sonhos da alta tecnologia podem se transformar em pesadelos de barbárie e crueldade. Ir para São Paulo foi uma pré-condição para entender por que ? em Futuros imaginários ? Saigon tem um papel tão central na história da “aldeia global”.

Quando visitei o Brasil pela primeira vez, em 2002, a importância de encarar o mundo do ponto de vista do Sul enquanto escrevia este livro não era imediatamente óbvia. Em uma conferência na UFRJ, nossos anfitriões entretiveram os convidados internacionais com uma triste história da versão local do estilo californiano de alta tecnologia. Fascinada pela bolha das empresas ponto com do fim da década de 1990, a administração de Fernando Henrique Cardoso fantasiou sobre o Brasil dar um grande passo adiante, do subdesenvolvimento para a sociedade da informação, sem passar pelo fordismo. Faltando aos carentes habitantes das favelas próximas, além de necessidades básicas, os serviços de bem-estar social que são garantidos na Europa, ficamos apavorados em saber como os futuros imaginários do Norte deram um brilho modernista na perpetuação da exploração no Sul. Quando os apoiadores do recém-eleito governo Lula nos contaram que chegar ao fordismo seria a maior conquista para a população urbana brasileira pobre, não pudemos discordar. Focar a política econômica do país em computadores, Internet e telefones celulares parecia grotesco quando tantas pessoas necessitavam de água, saneamento básico, eletricidade, saúde e educação. Líamos nosso Marx ? sabíamos que o Sul não poderia evitar seguir o lento e doloroso caminho do Norte em direção à modernização.

Tive então um pensamento preocupante. Ironicamente, nossas simpatias esquerdistas pelos habitantes das favelas poderiam esconder uma duvidosa certeza da superioridade européia. Com o enorme abismo entre ricos e pobres, viajar ao Rio de Janeiro no começo do século 21 era como voltar no tempo à Londres do final do século 19. Certamente era verdade que muitos turistas iam ao Brasil para uma dose rápida de exotismo e aventura antes de voltar para suas seguras casas européias. Se nossas motivações para viajar ao exterior não fossem puras o suficiente, significaria que os habitantes de um país subdesenvolvido não nos poderiam contar nada sobre computação e Internet que já não soubéssemos. Aqui estava outra conclusão problemática. Fernando Henrique foi um respeitado economista marxista antes de sacrificar princípios pelo poder. Sua aproximação perversa com o neoliberalismo ponto com pode ter sido fundada sob um cerne de racionalidade: o Sul teria que fervorosamente imitar o Norte em todas as suas imperfeições. Com sua ambição de saltar do fordismo para a pós-industrialização, talvez ele fosse o verdadeiro radical, ao invés do governo Lula ? com seu cauteloso programa de reformas parciais. Quem quer ser Suécia quando se pode ser o Vale do Silício?

Seis anos depois, enquanto o sistema financeiro global colapsa em crise, parece absurdo que o Brasil queira se transformar na Califórnia. Pelo contrário, é agora largamente reconhecido que muitos dos elementos do novo paradigma da modernidade são mais facilmente descobertos nestes países supostamente subdesenvolvidos do que na avançada vizinhança ao Norte. Na época em que o Mídia Tática Brasil[1] me convidou a voltar para a conferência em 2003, Gilberto Gil já defendia ? como ministro de Estado ? uma visão da Internet como código aberto. Para ele, financiar telecentros comunitários e pontos de cultura complementava os suprimentos básicos dos menos privilegiados. De maneira ainda mais bela, eram os fetichistas do direito autoral do Norte que deveriam imitar a atitude tranqüila do Sul em relação à propriedade intelectual, não o contrário. Os que têm computadores e acesso à banda larga podem ser em número bem menor no Brasil do que na Europa ou EUA, mas era ali que se poderia achar os primórdios da cultura participativa da Internet. O carnaval, e não o mercado, era o modelo do Ministro da Cultura para a emergência da sociedade da informação. Fazendo jus às suas raízes na Tropicália, Gil é um verdadeiro cosmopolita. Imitação não é subserviência ? é inspiração e cooperação. Remixar, samplear e citar são ferramentas do trabalho coletivo na economia da dádiva da alta tecnologia.

Na conclusão deste livro, eu argumento que devemos inventar novos futuros. Exorcizar as ideologias da Guerra Fria de inteligência artificial e de aldeia global é minha contribuição ao mapeamento de um caminho através das múltiplas romessas econômicas, sociais e mbientais que agora confrontam a umanidade. Crucialmente, como divinhou meu interlocutor da praia de Pipa, vocês também ajudaram a criar este texto de alguma maneira. Futuros imaginários teria sido um livro levemente diferente em várias maneiras, se eu não visitasse o Brasil e aprendesse com as pessoas que conheci neste país. Os habitantes do Norte e do Sul estão juntos nesta aventura da modernidade. Então, continuemos nossa colaboração no esforço comum de fazer um mundo mais igualitário, sustentável e próspero. O drum’n’bass está tocando e este livro está esperando para ser lido. Aproveite!

Richard Barbrook
Londres, Inglaterra, 16 de novembro de 2008

Nota

1 Mídia Tática Brasil foi uma ação cultural coletiva que teve por objetivo provocar o diálogo e espalhar o conceito de “mídia tática” no cenário brasileiro de arte eletrônica e ativismo. O nome origina-se do festival The Next Five Minutes que, em sua quarta edição, procurava iniciativas semelhantes na América Latina.
http://mtb.midiatatica.info

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