O pintor debaixo do lava-loiças, por Prof. Dr. Joel Cardoso

O mais recente lançamento do artista multimeios português Afonso Cruz!

O mais recente lançamento do artista multimeios português Afonso Cruz!

Joel Cardoso é professor e pesquisador da Universidade Federal do Pará na área de Letras, Comunicação e Artes. Acima de tudo, é um excelente leitor, que sempre renova nosso olhar sobre as obras que publicamos.

 

 

Literatura é arte. Arte especialíssima da palavra. Da palavra na sua dimensão artística. Fora, portanto, do convencionalismo com que a tomamos no cotidiano. A linguagem literária só se reveste desse status de literalidade quando eivada de poeticidade. Poeticidade que, num misto de ousadia e generosidade, sem (a la Bilac) evidenciar os andaimes da construção do edifício, como quem modestamente não quer, acaba por nos surpreender a cada passo. Assim como a harmonia é a alma da música, a poeticidade é a alma do texto literário. Sem poesia não há narrativa que se sustente. Precisamos dela no texto que se quer literário. Assim é o livro de Afonso Cruz, O pintor debaixo do lava-loiças, autor português contemporâneo que eu tive o privilégio de ‘descobrir’ agora.

Quando estava a ler o texto, ministrava uma disciplina para o curso de Letras de Língua Inglesa, no interior de nosso estado (em Bragança do Pará). A disciplina, Filosofia da Linguagem. O próprio título da disciplina já nos remete a duas amplas dimensões: a da Filosofia e a da Linguagem. Amalgamadas, uma nutre a outra. Não há como conceituar Filosofia sem restringi-la, sem limitá-la, sem aprisiona-la. No âmbito da linguagem, somos senhores e concomitantemente escravos da língua. Expressamo-nos através de diversas linguagens, entre elas, a literária.

Preocupação permanente, presente em todas as eras da história humana, as questões inerentes à Filosofia da Linguagem remontam à Antiguidade Clássica. Impossível não pensar em Platão, Aristóteles e, num grande percurso, permeado por saltos inevitáveis, chegamos à Modernidade (Pedro Abelardo, Schopenhauer, Nietzsche, Wittgenstein, Ferdinand Saussure, Umberto Eco, Peirce, Foucault e tantos outros) dos mesmos problemas. O trânsito (ou seria prioritariamente a correspondência?) entre a palavra que se materializa ou se configura (simétrica e ao mesmo tempo assimétrica) na linguagem, ao designar objetos e coisas, homens e a sua realidade, a interpretação dos fatos e do mundo.

O livro de Afonso Cruz foi, para mim, como já afirmei, uma grata surpresa. Muitos poderiam ser os aspectos para tratar desta obra. No entanto, preferi, dada a conjuntura das minhas atividades acadêmicas no momento, tratar das possibilidades de reflexão a partir de passagens na narrativa que possibilitassem desdobramentos conceituais. Assim, na sala de aula, mesmo correndo o risco de descontextualizar o todo, fiz recortes que me possibilitassem reflexões. Ah! A linguagem… suas imprecisões, suas nuances, seu ritmo, suas combinações, suas inflexões, sua musicalidade… Por outro lado, a linguagem vista como encenação, como performance, como indução e ponto de partida. A chegada? Não importa!… Importa o trajeto, o percurso, os obstáculos, as intromissões, as paradas, as hesitações…

DA PAISAGEM

“Temos uma paisagem muito grande que não se vê, a menos que nos debrucemos para dentro e mostremos aquilo de que nos lembramos. Nada é tão forte como as coisas que não se veem…” (p. 12)

Dizia Clarice Lispector, num dos seus insights felizes, dirigindo-se “A POSSÍVEIS LEITORES”: “Este livro é como um livro qualquer. Mas eu ficaria contente se fosse lido apenas por pessoas de alma já formada. Aquelas que sabem que a aproximação, do que quer que seja, se faz gradualmente e penosamente – atravessando inclusive o oposto daquilo que se vai aproximar. Aquelas pessoas que, só elas, entenderão bem devagar que este livro nada tira de ninguém” (LISPECTOR, 1998, p. 7).

As nossas lembranças nos definem, nos constituem, nos alicerçam. A exteriorização dessas lembranças passa por um processo de reconfiguração do contexto que rememoramos. Entre “aquilo de que nos lembramos” e o que exteriorizamos vai uma grande distância. Entre o interior (repleto de imagens, de narrativas, de paisagens) e o exterior que, através do discurso, nos é apresentado, há necessariamente o processo intuitivo de criação e representação do primeiro, isto é, do nosso mundo interior. As coisas não vistas certamente não são menos reais que as que vemos…

DA NUDEZ – ENTRE A ESSÊNCIA E A APARÊNCIA…

“Há um certo pudor quando se vê o que está debaixo das roupas, e, quando vemos ainda mais fundo, sentimos a vertigem do enjoo, do nojo. Desmaiamos quando vemos sangue. Não há visão mais terrível que a do interior do homem, seja anatomicamente, seja moralmente”. (p. 19)

O nosso Nelson Rodrigues, querido, irreverente, provocador, afirma que “se nós pudéssemos ver o interior das pessoas, talvez nós nem nos cumprimentássemos”. Quase nunca se harmoniza o mundo da essência com o da aparência. O que somos interiormente, por força da conjuntura social, se exterioriza sempre de forma distorcida. Desde Freud sabemos da força dos impulsos sexuais. A sexualidade se materializa para além do próprio sexo. Por sermos distintos, cada qual vê o mundo com particularmente os olhos da sua sexualidade. Alimentamos as nossas fraquezas, os nossos medos, as nossas fantasias. O que pensamos é, via de regra, mistério para o outro. Temos necessidade de aceitação e, assim, especularmente, os olhos dos outros sempre (e inevitavelmente) nos redimensionam.

Lembrei-me também do poema MAL SECRETO, de Raimundo Correia, que trabalhamos em sala de aula:

Se a cólera que espuma, a dor que mora

N’alma e destrói cada ilusão que nasce,

Tudo o que punge, tudo o que devora

O coração no rosto se estampasse,

Se se pudesse o espírito que chora

Ver através da máscara da face,

Quanta gente, talvez, que inveja agora

Nos causa, então piedade nos causasse…

‘Quem vê cara não vê coração’… ou, ‘as aparências enganam’… são ditos da sabedoria popular… Na forma presa do soneto, cujos quartetos iniciais foram acima transcritos, evidencia-se o conflito entre o interior e o exterior.

DOS RITOS DO AMOR…

“O amor aproxima as pessoas e ficamos todos do mesmo tamanho”. (p. 23)

É de Camilo Castelo Branco a afirmação “o homem que ama é um tolo sublime”. Quando amamos, ficamos à mercê dos sentimentos. A razão, ao se acomodar, fica confortavelmente (e, às vezes, nem tanto) em segundo plano. Paradoxal, o amor, como sobejamente sabemos, nos faz “desejar o desejo do outro” (Lacan). O ideal é que consigamos o equilíbrio entre emoção e razão, sem prejuízo de nenhum dos lados…

A VIDA DESENHADA…

“… os pensamentos dele eram desenhos. Era a sua maneira de estar na vida, a sua maneira de crescer”. (p. 23)

Pensamos, quase sempre, por imagens. Mesmo os substantivos abstratos, tão mal definidos na contemporaneidade, criam, intuitivamente, imagens que atribuímos a eles. Palavras como Responsabilidade, Respeito, Mágoa, Competência, só para citar alguns exemplos, como seriam definidas por dois sujeitos? Ambos aventariam possibilidades distintas. Qual é, na realidade, a distância entre a palavra e a imagem? O que vem primeiro, a palavra ou a imagem, como propôs Roland Barthes? São processos simultâneos? Se alternam? Como definir através do discurso uma imagem? Como driblar a precariedade das palavras para nomear, definir, mostrar?

DA PAIXÃO…

“A paixão é o sentimento que contém tudo, por isso, quando um homem se apaixona, dentro dele, está tudo. Desde a coisa mais pequena à coisa maior, que muitas vezes são a mesma coisa”. (p. 34)

Falávamos, ainda há pouco, de amor… Agora é a paixão que ganha a cena. Se o amor é do âmbito da espiritualidade, a paixão nos remete ao corpo, aos instintos, à carnalidade, aos sentidos. A paixão nos abarca e nos tira do sério. Abdicamos, quando apaixonados, da razão. A paixão, se não contém tudo, nos anestesia de tudo o mais. Estar apaixonado significa converter o mundo e a realidade às dimensões do nosso querer. O apaixonado vê só o que quer.

“Adorar (Ad oris) significa, literalmente, levar à boca”. (p. 37)

“… em hebraico, a palavra beiujo (nashak) significa respeirar juntos…” (p. 41)

“Os melhores beijos são invisíveis, são como um pintor debaixo do lava-loiças”. (p. 66)

DA MORTE…

“A morte, pensava Sors, não leva só a pessoa, leva também as imagens que os outros guardam dela nas suas memórias. A morte não deixa traços.” (p. 59)

Sors é a personagem que protagoniza a narrativa. Uma personagem que se constrói à sua maneira… transita à margem dos convencionalismos que caracterizam as personagens do romance tradicional. Centra-se em poucos aspectos delineadores e, de uma forma geral, não apresenta contornos nítidos e claros…

“És pó e ao pó tornaras”, sentencia o livro sagrado. Somos seres transitórios. Caminhamos, desde o primeiro dia de nossas vidas, rumo ao inexorável. Só é certo, no final da jornada terrena o encontro (inevitável) com a “indesejada das gentes” (Bandeira). Triste constatar que a nossa permanência, como imagem, como lembranças, não resiste ao tempo. Em outros termos, morremos e vamos, para o mundo, para os demais, aos poucos, deixando de existir também como imagem, como recordação, como referência.

DA PRECARIEDADE DAS PALAVRAS…

“Todas as frases são abismos e as mais desinteressantes são as que escondem as suas profundidades de um modo mais tenaz”. (p. 63)

DA ESPERA… DA CONTINUIDADE… DO LEITOR COMPULSIVO

“A última página de um livro é a primeira do próximo…” (p. 38)

DA GUERRA…

“Para ganhar uma guerra – disse Sors – há duas condições: não morrer e não matar. É só nesse caso que se pode sair vitorioso de uma guerra”. (p. 74)

POR UMA NOVA VISÃO DA ARTE…

“ – O espírito não existe, Sors. Só existe terra – dizia Vavra mostrando o seu punho fechado. – Terra e sangue e suor e viúvas e cerveja. A arte não são coisas penduradas na parede, é raiva e unhas sujas. Essa intelectualidade que nossos colegas apregoam é o oposto da arte. O chão e o lixo, quando acordam e olham para si, é que são arte. As coisas lavadas e brancas são o oposto. A arte é o maior crime da humanidade, pois vai contra todas as leis e contra tudo que é estabelecido e seguro. É o maior crime que a sociedade pode imaginar, pois é através dela que tudo se destrói. Esse que falam em criatividade não sabem o que é criar. Destrói, esmaga, e sob os teus pés nascem ervas. Não é preciso construir, é preciso destruir. Arrasamos todas as ideias feitas, todas as instituições, todos os monumentos, e dos escombros naturalmente nascerão coisas. E o artista estará lá para as destruir, para que nasçam outras. Somos Kali, amigo Sors, somo um deus terrível. Ser formos menos do que isso, não somos nada. Ou somos o terror a pairar sobre o abismo, ou somos os homens de gravata a contar o dinheiro. Tens de escolher um lado, Sors, tens de escolher um lado”. (pp. 84-5)

DA CONEXÃO ENTRE FUTURO E PRESENTE

“O futuro não existe, como todos sabemos. O futuro será sempre uma coisa a provar. A única coisa que todos nós vemos é o presente. O futuro, bem como o passado, não passam de memórias e previsões. Coisas que não têm existência senão dentro de nós. Porém até os maiores céticos creem no futuro. Como se ele existisse realmente, como se existisse fora de nós. É uma crença coletiva, apesar de apenas vermos o presente. Mas intuímos, o que abre o espectro da nossa percepção. Se podemos crer em algo que nunca vimos, será que não podemos acreditar em várias outras coisas que nunca vimos?” (p. 110)

PORTUGAL

“… a portugalidade define-se assim: o nosso sucesso é uma ponte entre dois fracassos. Para ver a quantidade de pessimismo que existe em cada português: uma ponte entre dois fracassos. Nós somos um povo fatalista, caro senhor, fatalista: para nós, o destino está escrito. Ah, se ao menos soubéssemos ler!” (p. 119)

DA IMPRECISÃO DA LINGUAGEM…

“O mundo que vemos é um consenso – disse Sors – A maioria é que diz como é o mundo. Se a maioria olhar para uma mesa e disser que é uma mesa, a minoria que acha que é outra coisa é internada. O processo é simples, basta ver, no mundo à nossa volta, coisas que outros não veem. Na verdade existe uma luz que nos entra pelos olhos e outra que nos sai dos olhos. Quando se encontram, criam o mundo que vemos. Antigamente acreditava-se que os olhos emitiam luz. O que está de acordo com o modo como vemos as coisas: por vezes o mundo ilumina-se.

Quando se olha para uma mesa, podemos ver, por exemplo, que ela é boa. Mas a parte “boa” não se vê realmente. São os nossos olhos que colocam essa parte na mesa, são os olhos acesos. O mobiliário é desprovido de adjetivos morais e de opiniões. Mas de dentro de nós emanam todas essas coisas, que a mesma mesa pode ser boa para uma pessoa e má para outra. Mas a parte “mesa” é igual, apesar de o resto poder se oposto. Ou seja, uma mesa pode conter as maiores contradições sem deixar de ser a mesma mesa que ambas as pessoas veem. Por outro lado, se dissermos que a mesa é alta, acrescentamos ainda mais alguma coisa. E ainda poderíamos dizer que é elegante. É frouxa, e alegre. Sim, porque uma mesa pode ser alegre ou triste. Imagine-se que sabemos de que madeira ela é feita e onde nascem essas árvores. Assim, quando se olha para a mesa, evoca-se a amada, ou uma árvore, ou uma floresta. Tudo cosas que não se veem quando se olha para uma mesa. Apesar de as vermos claramente. Toda a gente, quando olha para ela, sabe qual é a sua função, mas essa função não é visível. Enfim, é infindável o que cabe numa mesa. O que vemos é uma peça de mobiliário, é certo, mas pode conter coisas muito maiores do que ela própria. Isso é dado pelos nossos olhos. Pelos outros sentidos também, mas como símbolo os olhos ganham protagonismo. Ora, ficou provado que conseguimos pôr em cima desta mesa uma infinidade de atributos, mas também é razoável pensar que o sujeito anterior, o tal que achou a mesa “má”, poderá fazer o mesmo. E se conseguimos associar tanta coisa a uma mesa, imagine-se o que conseguiremos se pusermos todos os habitantes da Figueira da Foz a olhar para ela. E mais do que isso, imaginemos Portugal inteiro a olhar para ela. Ou o mundo inteiro. Começou por ser uma simples mesa, e não deixa de ser mesa para quase todos. Mas é muito mais do que isso. Fica demonstrado que as coisas que vemos e que são comuns a todos, as coisas que são iluminadas pela luz exterior, são muito menores do que as coisas que vemos com a luz dos nossos olhos. De resto é da mistura das duas luzes que o mundo é feito. Uma mesa não é, para ninguém, somente uma mesa”. (pp. 150 a 152)

“O que é a vida real”, se perguntava Clarice Lispector em “Um sopro de vida”. “Não, a vida real só é atingida pelo que há de sonho na vida real”.

Lembrei-me, também, aqui, da crônica de Drummond. transcrita, a seguir.

A Eterna Imprecisão de Linguagem

– Que pão!

– Doce? de mel? de açúcar? de ló? de ló de mico? de trigo? de milho? de mistura? de rapa? de saruga? de soborralho? do céu? dos anjos? brasileiro? francês? italiano? alemão? do chile? de forma? de bugio? de porco? de galinha? de pássaros? de minuto? ázimo? bento? branco? dormindo? duro? sabido? saloio? seco? segundo? nosso de cada dia? ganho com o suor do rosto? que o diabo amassou?

– Uma uva!

– Branca? preta? tinta? moscatel? isabel? maçã? japonesa? ursina? mijona gorda? brava? bastarda? rara? de galo? de cão? de cão menor? do monte? da serra? do mato? de mato grosso? de facho? de gentio? de joão pais? do nascimento? do inverno? do inferno? de praia? de rei? de obó? da promissão roxa? verde da fábula de La Fontaine? espim? do diabo?

– Ô diabo!

– Lúcifer? belzebu? Azazel? Exu? marinho? alma? azul? coxo? canhoto? beiçuco? rabudo? careca? tinhoso? pé-de-pato? pé-de-cabra? capa verde? romãozinho? bute? cafute? pedro botelho? temba? tição? mafarrico? dubá? louro? a quatro?

– É uma flor.

– Da noite? de um dia? do ar? da paixão? do besouro? da quaresma? das almas? de abril? de maio? do imperador? da imperatriz? de cera? de coral? de enxofre? de lã? de lis? de pau? de natal? de são miguel? de são benedito? da santa cruz? de sapo? do cardeal? do general? de noiva? de viúva? da cachoeira? de baile? de vaca? de chagas? de sangue? de jesus? do espírito santo? dos formigueiros? dos amores? dos macaquinhos? dos rapazinhos? de pelicano? de papagaio? de mel? de merenda? de onze horas? de trombeta? de mariposa? de veludo? do norte? do paraíso? de retórica? neutra? macha? estrelada? radiada? santa? que não se cheira?

– É uma bomba.

– De sucção? de roda? de parede? premente? aspirante-premente? de incêndio? real? transvaliana? vulcânica? atômica? de hidrogênio? de chocolate? suja? de vestibular de medicina? de anarquista? de são joão e são pedro? de fabricação caseira? de aumento do preço do dólar? enfeitada? de zoncho? de efeito psicológico?

– É um amor.

– Perfeito? perfeito da china? perfeito do mato? perfeito azul? perfeito bravo? próprio? materno? Filial? incestuoso? livre? platônico? socrático? de vaqueiro? de carnaval? de cigano? de perdição? de hortelão? de negro? de deus? do próximo? sem olho? à patria? bruxo? que não ousa dizer seu nome?

– Vá em paz.

– Armada? otaviana? romana? podre? dos pântanos? de varsóvia? de requiescat? e terra?

– Vá com Deus.

(IN)CONCLUINDO

Vivemos, atualmente, um momento de criatividade tacanha. Poucos livros nos tomam de vez. Tudo se torna, em literatura, bem como nas artes de uma forma geral, um ‘déjà vu’ tedioso. Se tudo pode se tornar arte, os resultados, contudo, são – quase sempre – precariamente artísticos. Daí, talvez, a importância primeira desse livro. Criativo. Original. Forte.

A linguagem, a maneira de narrar, os recursos de subversão ao convencional dão ao livro um quê especial. A leitor (mas tem que ser um leitor experiente) se vê, de imediato, preso pelo inusitado da narrativa, da linguagem, da riqueza metafórico-poética do texto. Funciona, para o autor, a recomendação de Foucault: “ao invés de tomar a palavra, gostaria de ser envolvido por ela e levado bem além de todo começo possível”. É bem assim… somos levados para além do proposto. Somos – primeiro, estranha e, depois, deliciosamente – surpreendidos.

A obra de Afonso Cruz parece ter levado ao pé da letra a citação de Piglia, que preconiza que “a arte de narrar é a arte da percepção errada e da distorção. O relato avança segundo um plano férreo e incompreensível, e perto do final surge no horizonte a visão de uma realidade desconhecida: o final faz ver um sentido secreto que estava cifrado e como que ausente na sucessão dos fatos.” (PIGLIA, 2004, p. 103). A narrativa de Afonso Cruz nos leva, de início, a um estado de estranhamento, como se, na perspectiva de leitores, estivéssemos inseridos em um não-tempo, para depois, aos poucos, nos cativar pelos arranjos e soluções encontrados para a elaboração cuidadosa da trama, uma trama não usual, com digressões e (im)pertinências que nos vão sendo apresentadas como se fora um instigante quebra-cabeça a ser decifrado. No final, temos o epílogo, no qual as explicações nos conectam novamente à vida real, com a sua plausibilidade lógica, que decifram, ou melhor, elucidam possíveis meandros obscuros da narrativa.

ual?

(*) todas as citações arroladas apenas com a menção das páginas, sem qualquer outra indicação, foram retiradas do livro “O pintor debaixo do lava-loiças”.

REFERÊNCIAS:

LISPECTOR, Clarice. “A paixão segundo G.H.”. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.

PIGLIA, Ricardo. “Teses sobre o conto” e “Novas teses sobre o conto”. In:___ Formas breves. São Paulo: Companhia das Letras, 2000, pp. 85-114.

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