Leitura sem moral

O que eu pediria à escola, se não me faltassem luzes pedagógicas, era considerar a poesia como primeira visão direta das coisas, e depois como veículo de informação prática e teórica, preservando em cada aluno o fundo mágico, lúdico, intuitivo e criativo, que se identifica basicamente com a sensibilidade poética… Alguma coisa que ‘se bolasse’ nesse sentido, no campo da educação, valeria como corretivo prévio da aridez com que se costumam transcorrer os destinos profissionais, murados na especialização, na ignorância do prazer estético, na tristeza de encarar a vida como dever pontilhado de tédio…

Carlos Drummond de Andrade

Palavras de mestre. Acredite!

Falta prazer nos caminhos do conhecimento, falta brincadeira, falta exercício lúdico, falta aposta no imaginário, falta poesia e poeticidade enquanto invenção ou recriação da realidade, do que provisoriamente já se sabe ou ainda se está por saber.

Eu podia parar por aqui ? na epígrafe do Drummond que diz tudo e sensivelmente se oferece como registro de uma ausência na carteira escolar. No entanto, sou motivado pelo Poeta, por ele mesmo, a dizer umas palavras a mais: pouco se diverte na sala de aula, pouco se ri ou se cria, em nada se invertem os papéis escolares investindo na dimensão lúdica do conhecimento como contraponto ou, que seja, dimensão complementar de uma rotina de ensino estigmatizado em linha reta, da exposição linear e hierárquica, da repetição ou mecanização do saber.

Falta, falta sim. Falta alegria, ousadia e criatividade nas metodologias do “ensinar para aprender”, do informar para formar, do vivenciar o conhecimento como desejo de ser. Falta magia, ludismo, intuição, espírito criativo na escola como “corretivo prévio” da aridez que norteia, por bem ou por mal, uma prática tão ingênua e pedagogicamente “lógica” na sua raiz como nos alerta Drummond.

Falta escola na escola, a escola não tem quase nenhuma escola nas veredas do lúdico, nos rumos da imaginação. Pois muito bem: nesse contexto há necessidade de que o espaço escolar não seja apenas um lugar que veicule o conhecimento pelo conhecimento no sentido de quem detém o saber e passa esse saber de forma hierárquica e artificialmente formal para o outro. Mais do que isso: há necessidade e urgência de que a vivência escolar transcenda a sua rotina por meio de ações que funcionem como permanente diálogo entre aquele que ensina e aquele que busca saber, entre a experiência acumulada do educador e as expectativas e interesses do aluno, entre a relevância inestimável de quem tem como ofício suprir os vazios de conhecimento e a atitude, ainda que silenciosa, carregada de indagações de quem busca saber, num feliz casamento entre conhecimento e prazer.

É evidente que tal aproximação tão “desacreditada” caminha por um território em que o aluno aprende porções de vida e o professor igualmente reaprende as suas porções de vida com os alunos porque tal convivência tem como “meta” a interlocução que, quando se faz enquanto presença da receptividade e do respeito humanos, “sabe” que toda verdade é provisória, discutível ao menos num determinado aspecto, suscetível a interrogações. Enfim, busca infinita, promessa de mais um passo além, movimento de ida sem fim. Nas vielas, nas entradas e no trânsito desse caminho, não é nada exagerado dizer que a matriz do conhecimento é a “indagação” e o ludismo pode ser um componente inestimável no horizonte do saber. Pode ser não, é. Sim, porque exercício lúdico, vindo do latim “ludus”, significa jogo, espetáculo, divertimento, significa “ludibundus”, aquele que brinca, que se diverte, que graceja em pleno estado de graça por viver. Falta diálogo na escola, falta palavra criativa e recriadora, falta experiência e experimentação nas palavras de ordem do saber árido e instituído, falta “moral” na escola para ela não ter aquela “imoralidade” que só faz aprisionar, falta também liberdade de leitura na escola que é uma das formas mais livres de ser.

E vai daí que falta brincar com a literatura sem medo do que as palavras possam dizer… Se a literatura não revelar um mundo livre e em estado virgem de preconceitos para alguém ? o que ela sempre faz porque é puríssima descoberta de um mundo que ainda não se viveu -, se a literatura não oferecer para alguém e convidar esse alguém para viver o espaço virtual da liberdade – o que é impossível porque ela caminha no próprio território da libertação -, se a literatura não derramar poesia nos olhos de alguém para esse alguém ver melhor ? o que nem se discute porque a literatura existe para mostrar a vida com olhos de primeira vez -, se a literatura não implodir aquele moralismo malvado que faz tanto mal a alguém – o que até Deus condena porque a literatura busca “salvar” sem nenhum catecismo da moral e dos bons costumes -, se a literatura não for sempre uma promessa de felicidade, o que ela sempre será, a literatura não tira nada de ninguém…

Enfim, quanto à moral da Literatura, pode ficar em paz, acredite!

* Jorge Miguel Marinho é professor de Literatura, coordenador de oficinas de criação literária, roteirista, ensaísta e ator. É autor de 25 livros, vários deles premiados, e contos publicados nos Estados Unidos, na França e em países da América Latina. Em setembro de 2007, lançou O boi cor-de-rosa pela Editora Peirópolis.

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