Literatura portuguesa, um convite ao prazer

Por Prof. Dr. Joel Cardoso – ICA (Instituo de Ciências da Arte) da UFPA

Num contexto contemporâneo em que a imagem leva uma notória vantagem em relação à palavra, costumamos dizer que a leitura está em crise. Nossos alunos não leem. E quando leem, leem mal. Não cabe aqui discorrer sobre os muitos motivos dessa tão propalada – quanto questionável – crise da leitura. Interessa-nos, como professores de literatura, voltar a promover a leitura, a leitura de nível, a leitura da palavra em sua potencialidade artística. E disso, só o texto literário é capaz.

A Literatura, extrapolando fronteiras, alargando horizontes, nos proporciona viagens ao mundo real e, o que é mais importante, ao mundo da imaginação. Para a imaginação não existem fronteiras. Nossos alunos já não leem, por exemplo, Machado de Assis. Há uma crença generalizada de que o escritor é distante, difícil de ser entendido. Ledo engano! Machado continua atualíssimo e, se não ele não é compreendido, não é lido, não é estudado e, sobretudo, não é amado e admirado, certamente não é culpa do escritor ou do seu estilo, mas da precariedade do leitor no traquejo e utilização de sua própria língua. É exatamente nesse contexto que se insere a intervenção do professor de Literatura. Se em relação a Machado, exemplo que tomamos para ilustrar uma situação, acontece isso, não é difícil imaginar as dificuldades com as quais nos deparamos quando se trata de se ensinar Literatura Portuguesa! Os autores lusos, nossos mestres, estão cada vez mais, se não esquecidos, relegados a um inconcebível segundo plano.

A literatura, com sua potencialidade artística, dialoga com todas as áreas do saber humano. Em nome de um reducionismo inexplicável que apregoa erroneamente um ensino centrado apenas na realidade do aluno, cada vez mais nós nos distanciamos de saberes universais fundamentais para a formação humana. Não que essa realidade imediata do aluno deva ser desconsiderada, mas, a partir dela, ela deve ser ampliada, modificada, questionada e, se necessário, até mesmo negada. Uma das funções da escola, do ensino, é, entre outras muitas possibilidades, transformar o indivíduo, preparando-o para atuar intercontextualmente, isto é, em contextos diferenciados (e não apenas no seu contexto imediato e localizado).

Normalmente, vemos a língua apenas em seu âmbito comunicativo e funcional, desprezando-se a Literatura, que veicula e potencializa a língua em sua dimensão estética. Estudar um poema, um romance, um conto é se permitir abrir perspectivas discursivas, possibilitando o deslocamento da linguagem para outras instâncias que extrapolam o convencionalismo cotidiano ou o seu uso imediato.

Como professor de Literatura já há muitos, muitos anos, sempre fico me perguntando quanto à pertinência dos textos a serem adotados como leitura para os nossos alunos. Hoje, no meu fazer docente, milito em outras áreas, tendo a arte, de uma forma geral, como um mundo (um uni-verso) a desvendar em sala de aula. No entanto, quando se trata de Literatura Portuguesa, então, a preocupação se torna, indubitavelmente, muito maior. Poucos são os livros disponíveis. Quando os há, são caros, difíceis de serem encontrados, portanto, de difícil acesso.

A linguagem empregada pelos autores clássicos, com o prestígio alcançado ao longo da história, com seu valor incontestável, quando, no entanto, direcionadas aos nossos alunos, se torna, para eles, quase inacessível. Temos, como mestres, que, lúdica e didaticamente, promover uma leitura conjunta, explicitando, acompanhando e estabelecendo as necessárias pontes.

A língua portuguesa, nos seus primórdios, apresenta textos que, quer pelo distanciamento temporal, quer pelo nosso desconhecimento do idioma da época, quer, ainda, pela precariedade de informações (tão raras quanto essenciais) para acompanhar esses textos, se constitui num sério problema para quem quer se aventurar por essas plagas genesíacas. O Trovadorismo, saindo das nebulosas e turbulentas águas medievais, comporta as suas complicações, seus mistérios, seus desvãos. O “mar de histórias” que embasa a prosa do período é sempre visto en passant. Humanismo acaba pura e simplesmente se restringindo a um Gil Vicente conhecido às pressas e sem aprofundamento. Camões nos surge inevitável – um bem e, ao mesmo tempo, um mal necessário – e é visto como o florescer do idioma, mas raramente é aprofundado como deveria ou como convém a uma obra cuja magnitude é incontestável.

Em todos os períodos da literatura portuguesa encontramos autores fundamentais que precisam ser revisitados, redescobertos e reapresentados ao público de hoje. Bocage é sempre um desafio. Os autores do Romantismo, com sua passionalidade arrebatadora, nos comovem desde sempre. Eça de Queirós, um dos maiores romancistas de todos os tempos, é um eterno aprendizado. O que dizer, então, de Fernando Pessoa (que é único e, ao mesmo tempo, múltiplo), ou de José Régio, ou, ainda, de Sá-Carneiro? Onde colocar as inquietações (tão particulares quanto universais) de um António Botto? O que fazer da irreverência de Guerra Junqueiro? Como não nos render ao lirismo de Florbela? E os questionamentos existenciais de Vergílio Ferreira? O que dizer de Saramago ou de Lobo Antunes?

Tantos são os nomes! Tantas, as viagens! Cada autor é um mundo, ou melhor, mundos que nos espreitam, nos aguardam, nos convidam, nos incitam, nos desafiam. Mundos que, em nos levando para o exterior, nos descortinam, nos velam e desvelam interiormente. Reconhecemo-nos e, concomitantemente, nos estranhamos. Esse é um dos mistérios da arte. É a magia da palavra, oscilando, simbólica e real, entre o apreensível e o inapreensível.

Na realidade, os nossos mestres, quando se trata do ensino de Literatura, quase sempre só ministram aulas de História da Literatura. Partir sempre dos textos para os múltiplos contextos. As análises dos textos, objetos e objetivos maiores do ensino de Literatura, com o seu conteúdo, com a sua forma, com suas estruturas, com suas estratégias artísticas, acabam inexplicavelmente ficando relegadas a um segundo plano, quando não ficam totalmente de fora.

O que deve nos motivar é o prazer do texto, o prazer da descoberta dos contextos literários. No entanto, não lemos como deveríamos. Não lemos sequer o que poderíamos ler. Outras instâncias de leitura se estabeleceram. Outros protocolos regem as exigências da contemporaneidade. Há que se reestabelecer e revigorar a leitura no seu sentido tradicional. Os nossos alunos, para que isso ocorra convincentemente, precisam ser motivados. Motivados, portanto, pela sedução do texto, pela beleza do discurso, pela entrega total à imaginação.

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