Mário de Andrade & Henriqueta Lisboa: a palavra compartilhada

A Amiga

No conjunto da vasta correspondência mantida por Mário de Andrade com diferentes interlocutores, a troca de cartas com Henriqueta Lisboa ocupa uma posição singular. De 1939 a 1945, um período crucial para o país num mundo em guerra, os dois escritores se entregam a um intenso exercício de subjetivação através da palavra compartilhada.

Pode soar paradoxal que duas personalidades tão distintas, com projetos literários muito diferentes, tenham logrado tamanha interação, ao se abrirem a confidências e reflexões marcadamente pessoais, num nível de franqueza e complexidade raras vezes alcançado até mesmo para quem, como Mário, se dedicou sem sossego ao que chamou de “epistolomania”.

Parece ter contribuído para isso a idealização da mulher na figura da Amiga, assim, com maiúscula, atenta aos conselhos do mais experiente e disposta a zelar por ele, a ponto de levá-lo muitas vezes à irritação, que ela irá contornar, persistindo delicada e firme nos seus cuidados femininos para com o amigo. O diálogo flui, então, sem obstáculos e incompreensões, aberto a um horizonte de interesses tornado comum – a poesia, a literatura, a vida.

A correspondência dos dois escritores – na bela e minuciosa edição de Eneida Maria de Souza – resgata uma das funções mais antigas do ato de escrever cartas: o exame de consciência. Bastante acentuado em Mário, menos atormentado em Henriqueta, estabelece um espaço laico de confissão, atravessado pelas questões existenciais e pelos ditames da fé religiosa que ambos professam. Como exemplo, vale lembrar o autoexame feito por Mário a partir de retratos seus por artistas eminentes, de Malfatti e Tarsila a Segall, de Portinari a Flávio de Carvalho, conduzido – dupla mediação – pela presença da interlocutora em situação de escuta.

Para que tudo isso não tenha apenas a “clarividência gelada” da inteligência, Mário conclama Henriqueta a dividir com ele uma atitude fundamental para todo escritor – “Aceite a verdade da vida apaixonadamente”, diz à amiga numa das primeiras cartas que lhe remete. De início cautelosa e esquiva, Henriqueta vai se abrindo por meio dos poemas enviados a Mário e recebidos de volta com anotações e comentários que, além da análise rigorosa da composição poética, se estendem à troca de impressões pessoais até onde a intimidade dos dois permite chegar.

A aceitação apaixonada implica também o enfrentamento da questão do intelectual num mundo convulso: ditadura Vargas no Brasil, Segunda Guerra Mundial. Mário se mostra desolado diante dos acontecimentos e da sua inaptidão para agir: “Eu não tenho o menor jeito pra conluio, pra conspirações nem barricadas! Não nasci para isso, não me eduquei nisso”. Seu espaço de atuação é outro: se multiplica em palestras, artigos de encomenda, projetos, aulas, cartas, poemas – trabalho incessante até o desgaste físico, a doença, a depressão. Ao longo das cartas, a amizade vai confirmando essa forma de engajamento e a comunhão em torno do que, enfim, identifica a correspondência. Nas palavras de Mário/Henriqueta sobre o artista: “Diariamente ele morde a maçã que o vai fazer igual a Deus. E diariamente ele é expulso do seu paraíso”.

Wander Melo Miranda

Professor Titular da Faculdade de Letras da UFMG e coordenador do projeto de pesquisa “Acervo de Escritores Mineiros”

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